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CAPÍTULO 3: CORPO PASSAGEM

3.3 Disponibilidade, fluxo e forma

Minhas considerações finais incluem-se neste terceiro capítulo na forma de uma discussão sobre esses três conceitos que emergiram neste processo de pesquisa como recursos pessoais para expandir minhas percepções e encontrar caminhos para a conexão com meu próprio corpo e com o outro. São palavras- chave que acompanharam o processo de investigação dos princípios e procedimentos e que permanecem comigo nas experiências que se atualizam em minha prática como intérprete criadora, na condução de treinamentos pessoais e coletivos.

A postura de disponibilidade foi uma das primeiras coisas que percebi e está presente em meus questionamentos desde o primeiro capítulo. Eu a descrevi

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como uma qualidade de presença, estado de abertura que permite uma entrega para o que é desconhecido, e também como uma certa permeabilidade ou capacidade de troca, compartilhamento, relação, necessária para o encontro e a conexão com o outro. Faz parte disto não somente uma predisposição energética do corpo, em termos de um tônus e de uma organização postural eficientes e ideais para a prática física, mas também uma determinada atitude e postura ética perante o trabalho, que determina uma qualidade de presença, de atenção e de consciência e discernimento das motivações e escolhas em cada contexto. Percebo a necessidade de manter esse princípio de disponibilidade em todas as práticas em que me envolvo, dentro da sala de aula, como professora ou como aluna, em meu trabalho artístico-profissional como intérprete criadora, e, até mesmo, na escrita e no debate sobre os processos de criação e de formação em artes. Para mim, a disponibilidade do intérprete indica, além da abertura de seu corpo em termos de flexibilidade, de agilidade, de adaptação de formas e de princípios de movimento, também a escuta e a percepção do outro, a capacidade de interação e de improvisação, a motivação interna para conectar-se à experiência de maneira transformadora e a autonomia para criar suas próprias estratégias e para aprimorar seu potencial de criação. Essa palavra-chave sintetiza vários conceitos que estão presentes nos princípios e nos procedimentos de trabalho da abordagem técnica de Holly e do treinamento do Lume, como a abertura e o não julgamento do bailarino e a sua capacidade de negociar estruturas; a concepção do intérprete como criador e sua postura de autonomia e responsabilidade perante o trabalho; a qualidade de presença e de entrega para o vazio, o desconhecido e o fluxo em constante transformação. Portanto, a disponibilidade é uma postura diante do treinamento que permite lidar com esse fluxo em constante transformação, que também surgiu em minha prática como uma propriedade relacionada ao sopro, ou chi, a energia vital que percorre nosso corpo e que transpira com o ambiente.

O fluxo também é uma palavra-chave que sintetiza diversos conceitos e auxilia-me a perceber essa dinâmica de atualização do momento presente, do

próprio estado de presença, que aparece na abordagem técnica de Holly como um estímulo ao questionamento de como o contexto e a memória afetam o corpo e a dança que se cria no presente, em sua natureza de impermanência. Manter-se nesse estado de fluxo em constante transformação é também uma estratégia que estimula a busca pelas necessidades e pelas motivações do intérprete em cada momento do treinamento que permanece em meu trabalho como uma provocação positiva. Essa palavra-chave abrange o conceito de técnica-em-vida, que se apresenta nos princípios do Lume na elaboração de um trabalho que acompanhe o fluxo da vida em seu movimento de transformação e de troca com o meio. Por isso, o fluxo do treinamento pode ser visto a partir da perspectiva de um pêndulo, que oscila entre as dimensões interna e externa, técnica e expressividade, estrutura e liberdade e entre eu e o outro.

Por fim, a forma, que eu entendo como parte dessa estrutura, organização e suporte para o trabalho com o corpo em movimento, também foi redimensionada na sua devida relação com o fluxo. A forma permanece em meu trabalho como um meio pelo qual o fluxo pode transitar, portanto ela é um elemento complementar a esse movimento de fluxo, ela é a materialização desse fluxo no espaço e o canal, o trilho, o caminho por onde a energia passará para atingir o outro e através do qual será possível estabelecer uma conexão. A forma é não somente fixa e imutável e constitui-se enquanto fluxo, mas também é uma referência que dialoga com as diferenças e as sutilezas da personalidade de cada intérprete. A forma, para mim, permanece como Kandinsky a descreveu: a consequência exterior de uma atitude interior, em que o essencial não é saber se ela é pessoal, coletiva, espontânea ou codificada, mas se ela partiu de uma necessidade interior.

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REFERÊNCIAS

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REFERÊNCIAS (FIGURAS)

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Figura 06: Loie Fuller. http://www.danceheritage.org/fuller.html

Figura 07: Isadora Duncan. http://www.danceheritage.org/duncan.html

Figura 08: Martha Graham. http://marthagraham.org/about-us/our-history/

Figura 09: Doris Humphrey. http://www.danceheritage.org/humphrey.html

Figura 10: Merce Cunningham. https://placesjournal.org/article/the-collaborative- legacy-of-merce-cunningham/?id=24798&page=

Figura 11: Judson Dance Theatre. http://www.artservices.org/artservices.html

Figura 12: Grand Union. https://metamorfoseantemente/publications/critical- correspondence/stephanie-skura-in-conversation-with-lana-wilson-part-one