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Procedimentos da abordagem técnica de Holly Cavrell

CAPÍTULO 1: TÉCNICA & EXPRESSIVIDADE

1.2.1 Procedimentos da abordagem técnica de Holly Cavrell

A abordagem da técnica em dança de Holly está fundamentada em princípios da dança moderna norte-americana encontrados especialmente no trabalho de Doris Humphrey e Martha Graham, mas, como foi discutido acima,

também se utiliza de estratégias próprias para compor um treinamento corporal voltado ao intérprete criador atuante no contexto da dança contemporânea.

Até onde minha história pessoal me diz respeito, eu era passionalmente atraída pelo movimento de Graham, encantada e didaticamente instruída por Humphrey, e transformada pela coreografia de Tamiris. Cada uma delas desenvolveu uma parte de mim e permitiu a construção de uma identidade pessoal expressiva, filosófica e consciente de sua arte. Ao ensinar as técnicas de Graham e Humphrey, tornei-me verdadeiramente submersa no universo de cada uma, porque eu tinha que transmitir não apenas os exercícios mas, também, os princípios por detrás dos movimentos. Para poder inspirar, eu precisava de um profundo conhecimento empírico de seus trabalhos, não apenas uma familiaridade de passos e estilo. (CAVRELL, 205, p. 124)

Portanto, o trabalho de Holly lidou com essas referências, não a partir de uma reprodução formal de códigos, mas da compreensão empírica de seus princípios. As técnicas de Humphrey e Graham foram criadas a partir de diferentes necessidades expressivas, mas compartilham princípios de movimento em comum, que podem ser observados nas técnicas de dança moderna, de modo geral. Entretanto, esses princípios não permanecem sendo transmitidos da mesma maneira nos dias de hoje, pois seu entendimento foi também transformado ao longo do tempo. Abaixo enumero três princípios fundamentais da dança moderna americana, mas descrevo-os da forma como são entendidos no trabalho de Holly:

 Respiração associada ao movimento: a respiração como forma de conectar as tensões musculares internas e externas para estabelecer um fluxo dinâmico e contínuo de expansão e recolhimento; pode ser entendido também como elemento de elasticidade nos movimentos em oposição dinâmica e em torções e espirais;

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propulsor dos movimentos, de onde parte a energia necessária para a execução das ações; entendido como o centro vital ou core (núcleo), onde surgem os impulsos que se irradiam pelo corpo, do centro para as extremidades, em um movimento de sucessão articular;

 Peso: a ação da gravidade sobre o corpo e a resistência organizada pelos músculos gravitacionais, provocando quedas e suspensões em partes isoladas do corpo ou no corpo inteiro e em movimentos de transferência de um ponto de apoio ao outro, gerando deslocamentos; também entendido enquanto força, impulso, o uso do peso do corpo como propulsor nos movimentos em lançamento.

Esses princípios concretizam-se em diversas dinâmicas ou padrões de movimento que determinam modos específicos de articular as habilidades motoras, tais como: expansão e recolhimento; oposições dinâmicas; torções e espirais; movimento em sucessão articular; queda e suspensão; lançamentos e transferências de peso (STODELLE, 1978).

Na abordagem técnica de Holly, essas dinâmicas de movimento específicas são aprimoradas por meio de procedimentos bastante utilizados em aulas de dança, que chamamos de sequências de movimento. As sequências possuem um encadeamento lógico na ordenação das ações, o que define uma série de transições entre um movimento e outro. Geralmente, cada sequência é focada no trabalho com um tipo de movimento e suas variações, como as flexões do tronco ou as transferências de peso sobre dois pés, por exemplo, mas naturalmente o corpo inteiro move-se de forma coordenada. No entanto, as sequências também podem ser mais complexas, agregando diferentes tipos de movimento de forma assimétrica, dependendo da necessidade didática, do nível de aprimoramento e do contexto de atuação dos bailarinos. Nas aulas de Holly, as sequências são exploradas repetidamente, numa progressão gradual de complexidade. À medida que os bailarinos repetem as mesmas sequências, adquirem segurança e naturalidade ao

realizar os movimentos e as transições, e, então, outros elementos vão sendo agregados. Assim, durante a execução repetida das sequências, os intérpretes podem ampliar seu foco de atenção para além dos próprios movimentos, incluindo também a percepção de sua relação com o tempo, o espaço e os outros bailarinos.

Outro procedimento utilizado em suas aulas é o trabalho em duplas, que pode envolver a manipulação do corpo do outro ou somente a observação e a orientação mútuas. Por meio desse trabalho colaborativo, os bailarinos têm a oportunidade de entrar em contato com sensações presentes no corpo que não haviam percebido anteriormente, o que permite ampliar sua capacidade de propriocepção. Além disso, os intérpretes são estimulados a compartilhar aquilo que já aprenderam, auxiliando o outro em seu processo de aprendizagem. Dessa forma, apropriam-se do conhecimento adquirido e desenvolvem a autonomia e a capacidade de criar estratégias pessoais para conduzir seu processo de aprendizagem.

Nas aulas de Holly, durante todo o trabalho, a atenção do bailarino é dirigida primordialmente para a percepção e a consciência das sensações internas (fluxo respiratório, sustentação do centro motor, peso), além de sua atuação na execução dos movimentos. Desse modo, o foco de aprendizado volta-se mais à sensação interna do movimento do que para sua forma externa. Mas isso não quer dizer que a forma, nessa abordagem técnica, não seja importante; ao contrário, as formas que os movimentos adquirem são relevantes, não somente enquanto aperfeiçoamento do alinhamento postural, mas também porque envolvem a projeção e a amplitude do corpo no espaço. A questão, nesse trabalho, é que as formas não se configuram como um fim em si mesmas: elas são entendidas como a consequência exterior de uma atitude interior.

À medida que o trabalho avança e as sequências tornam-se mais complexas, incluindo deslocamentos pelo espaço, o bailarino também é conduzido a integrar ao movimento a percepção de seu corpo em relação aos elementos que o rodeiam (tempo, espaço, outros bailarinos). Nesse momento, o intérprete é

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incentivado a observar de que maneira os aspectos externos afetam e transformam sua atitude interna, ou, ainda, de que modo uma atitude interna pode afetar e transformar sua relação com os aspectos externos. Então, em conjunto com a percepção de suas sensações internas, a ação do bailarino também é conduzida no sentido de alargar seus limites corporais e levar os movimentos para além de sua forma, buscando a flexibilidade do corpo em relação com o tempo, com o espaço e com o outro. Portanto, a partir desses procedimentos, o intérprete é estimulado a sobrepor diversas camadas de percepção e a trabalhar em constante relação com as forças visíveis e invisíveis que modelam e conduzem sua dança, ampliando suas possibilidades de expressão.