OS PONTOS COMUNS APRESENTADOS NOS RELATOS.
1. O PSICÓLOGO E SUA FUNÇÃO SOCIAL.
1.2. Educação e trabalho preventivo na comunidade
A relevância da Ciência Psicológica é descrita pelos sujeitos, especialmente por S9, que considera que "a Psicologia, hoje em dia, está mudando o enfoque" apontando a necessidade da Psicologia ampliar cada vez mais práticas e reflexões que possibilitem ao profissional uma atuação
mais concreta na comunidade17, numa perspectiva que envolva educação e
prevenção.
O trabalho preventivo desenvolvido na comunidade é uma preocupação presente nos relatos. Sobre esta questão há algumas diferenças conceituais: umas mais próximas do conceito conservador de prevenção, entendendo que é necessário um trabalho que crie uma atitude preventiva nas pessoas em relação ao seu futuro, à sua vida; outras, consideradas neste trabalho como mais avançadas, apontando que a prevenção em Psicologia é quase uma prevenção inespecífica, cuja ação é voltada à construção de espaços de reflexões sobre as dificuldades e o enfrentamento cotidiano da vida, num processo de concientização dos fatores que interferem nesse cotidiano.
Inserida tal posição nas discussões presentes, é possível verificar que a Psicologia tem avançado sistematicamente nesse campo através de estudos que se desdobram em posições teóricas, metodológicas e de ação junto às comunidade. Para Campos(1996) “a comunidade, (...) é o lugar em
que grande parte da vida cotidiana é vivida.”( p.9).
Foi a partir da década de 60 que os psicólogos começaram a se inserir em movimentos populares, desenvolvendo trabalhos psicológicos junto a comunidades de baixa renda, colaborando para o processo de deselitização da profissão.
17 Para ampliar a discussão sobre o conceito de comunidade ver SAWAIA, B. B.
Em especial a Psicologia Social Comunitária, em suas discussões, tem demonstrado uma posição avançada, realizando trabalhos de pesquisa e atuação profissional visando à promoção de saúde da população através da conscientização progressiva sobre as condições de vida, que tal população encontra-se inserida. Diz Campos(1996) “os trabalhos comunitários
partem de um levantamento das necessidades e carências vividas pelo grupo-cliente, sobretudo no que se refere às condições de saúde, educação e saneamento básico(...) procura-se trabalhar com os grupos populares para que eles assumam progressivamente seu papel de sujeitos da sua própria história, conscientes dos determinantes sócio- políticos de sua situação e ativos na busca de soluções.”(p.10).
Lane(1996) sistematizou a trajetória histórica da Psicologia
Comunitária no Brasil, inserida no contexto sócio-político da América Latina, na década de 60, marcado pela repressão e ditadura no Continente. Essa trajetória foi pontuada por preocupações de diferentes profissionais, como psiquiatras, assistentes sociais, pedagogos e psicólogos, em construir atividades que possibilitassem o resgate da cidadania. Na década de 80 o movimento centrou-se na busca de uma caracterização da Psicologia Social Comunitária, já marcada por algumas experiências relevantes realizadas na área da saúde, saúde mental, educação popular e trabalho, nas periferias, com mulheres, etc.
No final dos anos 80 a sistematização dos trabalhos realizados na comunidade toma corpo. Nas discussões desencadeadas nesse processo de sistematização os trabalhos em grupo ganham força enquanto um caminho para se chegar a compreender a dinâmica do próprio grupo e das instituições presentes nas organizações populares. A promoção de saúde aparece nos relatos de Bonfim(1988) que, ao descrever o trabalho do seu grupo, apontou para uma relação direta entre saúde e condições de vida, considerando o psicólogo como um profissional que pode atuar no sentido de desvelar tais
R. H. de F. (org.) “Psicologia Social Comunitária: da solidariedade à autonomia”.
condições, para que as pessoas possam ter autonomia perante a constituição da sua saúde.
Essas discussões, presentes ainda hoje nos encontros e congressos da Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO), mostram um certo vigor dessa nova área de atuação e como esse fato pode contribuir para uma profissionalização, cada vez maior, da Psicologia junto ao trabalho na comunidade. Góis(1993), na sua definição sobre a Psicologia Comunitária, descreve a específica contribuição que a Psicologia pode ter nesse campo. Diz ele que a Psicologia Comunitária é “ uma área da
Psicologia Social que estuda a atividade do psiquismo decorrente do modo de vida do lugar/comunidade; estuda o sistema de relações/representações; identidade; níveis de consciência ,(...) seu problema central é a transformação do indivíduo em sujeitos”(p.11).
O psicólogo que atua junto à comunidade, desenvolvendo trabalhos geralmente com outros profissionais, inicia tal ação com o levantamento das condições de vida da população que será atendida, buscando compreender quais são os seus problemas enfrentados quotidianamente, em especial os de saúde, educação e saneamento básico. Será através dos dados obtidos que o trabalho de conscientização terá então início, buscando progressivamente que os sujeitos se apropriem da sua própria história e aprendam a construir ações que possibilitem as mudanças. Segundo Freitas(1996), “(...) a busca do desenvolvimento da consciência crítica,
da ética da solidariedade e de práticas cooperativas ou mesmo autogestionárias, a partir da análise dos problemas cotidianos da comunidade, marca a produção teórica e prática da Psicologia Social Comunitária”(p.10)
Nos relatos dos sujeitos apareceram trabalhos educacionais inseridos na comunidade na perspectiva de promoção de saúde, como " trabalho com moradores de rua"(S5), com "jovens de periferia"(S2). Um deles, bastante
Petrópolis, Vozes, 1996.
interessante, é o desenvolvido por S6, com a "utilização do brinquedo". Através da exploração lúdica, por parte das crianças e dos seus pais, S6 demonstra que, com essas “brincadeiras”, é criado um espaço simbólico da ludicidade, do prazer do brincar, que possibilita às pessoas resgatarem a ludicidade como espaço do encontro, do crescimento e do desenvolvimento, sendo, portanto, uma circunstância de educação e promoção de saúde junto a essa população. Mas, conforme S6 aponta, essas experiências são isoladas e de pouco impacto junto aos profissionais de Psicologia, sendo necessário criar mecanismos que facilitem "os intercâmbios teóricos e práticos" para ampliar tais atuações.
As importantes contribuições da Psicologia Social Comunitária ainda não são parte integrante da profissionalização do psicólogo. Basta verificar que os trabalhos desenvolvidos nessa área, em sua maioria, ainda estão calcados numa visão conservadora e adaptacionista, buscando na atuação dita “preventiva” evitar os comportamentos inadequados da população - como os da violência, os que envolvem meninos e adolescentes que vivem na rua, provenientes de famílias que vivem na miséria. Enfim, a lógica é a da adaptação dessa população.
Nesta perspectiva, chega a ser ingênuo imaginar que bastam ações bem intencionadas para alterar a vida dessas pessoas. A cultura de prevenção assim desenvolvida, como forma de promoção de saúde, pode ser considerada conservadora na medida em que a preocupação básica é o “não adoecer”, contrapondo-se com uma visão integrativa dos vários fatos e modos de vida que compõem a saúde da população, em geral, e do indivíduo, em particular.
É possível concluir que as questões relacionados ao trabalho preventivo na comunidade, dentro de uma perspectiva de promoção de saúde, já produziram um conhecimento consistente, mas que representam, na maioria, atuações isoladas e pesquisas desenvolvidas na academia; é necessário que tais ações e estudos passem a incorporar a profissionalização do psicólogo, especialmente na Formação, o que possibilitará o
desenvolvimento de um volume maior de trabalhos que caracterize o “fazer psicológico” nesse contexto.
É possível verificar que a concepção apresentada pelos sujeitos sobre a inserção social do trabalho do psicólogo, dentro do foco educativo e de promoção de saúde, demonstra uma crescente preocupação com as questões ligadas à cidadania, Estado de Direito, exclusão social e escolar, enfim, passando a entender que não existe uma ação "neutra" e que toda ação é sempre mediada pelas questões éticas e políticas.
Com isso, é necessário que o profissional compreenda cada vez mais que tais determinações encontram-se inseridas no contexto contraditório das relações sociais, onde a Educação é um importante mediador destas práticas sociais. Para Gomes(1995), é fundamental que o psicólogo compreenda a contribuição que a Psicologia pode proporcionar à Educação
"(...) através do aprofundamento dos conhecimentos sobre a ação educativa, sobre o desenvolvimento das potencialidades humanas, sobre a manutenção da saúde mental e bem-estar do cidadão"(p.5).
Para concluir a discussão sobre a inserção social do trabalho do psicólogo, envolvendo a ética e a ação preventiva, é importante descrever o pensamento de Valls(1996) que traduz, de forma clara, a importância do pensamento ético no cotidiano profissional, como um elemento que possibilita um constante "estado de alerta" em relação à complexidade da realidade, traduzida no fenômeno humano, impedindo um certo "acomodamento" frente aos fatos. Para o autor acima citado, "A ética se
preocupa(...) com as formas humanas de resolver as contradições entre a necessidade e a possibilidade, entre o tempo e eternidade, entre o individual e o social, entre o econômico e o moral, entre o corporal e o psíquico, entre o natural e o cultural e entre a inteligência e a vontade. Essas contradições não são todas do mesmo tipo, mas brotam do fato de que o homem é um ser sintético, ou, dito mais exatamente, o homem não é o que apenas é, pois ele precisa tornar-se um homem, realizando
em sua vida a síntese das contradições que o constituem inicialmente"(p.56). Portanto, o pensar e agir dentro de um padrão ético,
deve ser inerente a uma prática profissional que se pretenda "ser" e "ter" uma inserção social conseqüente e transformadora.