5 Temporadas e programas de concerto da Osesp
5.3 Eleazar de Carvalho
Os quatro anos de atividades da Orquestra Sinfônica Estadual contrastam com a sólida carreira de Eleazar de Carvalho (1912-1996), músico cearense que, décadas antes de ser apontado para dirigir a orquestra paulista, iniciava sua formação musical na cidade do Rio de Janeiro. Tubista da Banda dos Fuzileiros Navais, obteve seus diplomas de composição e regência pela Escola Nacional de Música, em 1940, instituição vinculada à Universidade Federal do Rio de Janeiro.41 Em 1942, estudou com Francisco Mignone, em um período que o
compositor, segundo Hashimoto, “dirigiu orquestras em Berlim e Roma, e fez seu debut nos Estados Unidos”.42 Recém-formado, Carvalho estudou, ainda no Brasil, as bases teóricas que
sustentavam o Dodecafonismo, método composicional empregado pela Segunda Escola de Viena. Isso ocorreu graças à presença no Rio de Janeiro de Hans-Joachim Koellreutter (1915- 2005), que, por meio das atividades do recém-criado grupo Música Viva,43 estimulou a audição
e o estudo de obras compostas no início do século 20.44 É relevante também contextualizar a
presença de Eleazar de Carvalho nos atos que envolveram a criação da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB),45 além de sua atuação como regente do grupo, a partir de 1941.46
Em meados de 1946, já com cinco anos de experiência junto à OSB, Eleazar de Carvalho ruma aos Estados Unidos com o intuito de reger uma das grandes orquestras norte-americanas, e, nesse período, alguns episódios são relevantes. No primeiro deles, segundo Hashimoto, Eleazar de Carvalho recusou-se a reger um concerto no Carnegie Hall, cujo programa incluiria uma foto sua usando uma tanga indígena. Em outro momento, Eleazar de Carvalho teve um contato com o maestro Eugene Ormandy, que recomendou que ele retornasse somente em 15 ou 20 anos.47As dificuldades iniciais não impediram uma terceira tentativa de apoio,
41 PC, Festival Internacional de Música, 1973, p. 15.
42 HASHIMOTO, F. An Interpretative Study and Critical Edition Process of Variations on Two Rows for Percussion and Strings, by Eleazar de Carvalho. Revolução eBook, 2014, p. 16.
43 KATER, C. Música Viva e H. J. Koellreuter: movimentos em direção à modernidade. São Paulo: Ed. Musa, 2001, p. 50.
44 Criado em 1937, o grupo Música Viva tinha por objetivos “cultivar, proteger, promover a música
contemporânea e aquela de todas as épocas e estilos, é a contrapartida da meta que visa também a criar espaço próprio para uma jovem música a ser produzida no Brasil”. Op. cit. p. 50.
45 CORRÊA, S. Orquestra Sinfônica Brasileira - uma realidade a desafiar o tempo: 1940-2000. Funarte, 2004, p. 37.
46 Eleazar de Carvalho participou da subscrição das ações da OSB. CORRÊA (2004), Op. cit., p. 37. 47 HASHIMOTO (2014), Op. cit., p. 19-20.
direcionada a Serge Koussevitzky, a quem Eleazar de Carvalho teria afirmado que, “se não tivesse talento para a regência, voltaria ao Brasil para viver da caça e da pesca”.48 O maestro
brasileiro foi aceito no Berkshire Music Center (Tanglewood), “de quem foi, posteriormente, assistente (com Leonard Bernstein), e sucessor, na cátedra de regência, de 1951 a 1965”.49 O
sustento financeiro para a viagem e estadia nos Estados Unidos, segundo o próprio Eleazar de Carvalho, teria vindo de seus trabalhos no Cassino da Urca.50 Corrêa elucida, no entanto, que
no depoimento do maestro José Siqueira (1907-1985) fica estabelecido um vínculo prévio entre a OSB e Eleazar de Carvalho:
O João Alberto, político que serviu longos anos a Getúlio [Vargas] e que continuava a ser uma personalidade de prestígio, fora aos Estados Unidos e ofereceu uma vaga no avião a Eleazar de Carvalho, que queria aperfeiçoar-se no exterior. A OSB licenciou seu regente substituto concedendo-lhe um auxílio financeiro que complementei do meu bolso. Eleazar viajou com 30 contos.51
Ao final dos primeiros doze meses de estudo nos Estados Unidos, de acordo com Corrêa, “Koussevitzky pediu à OSB que Eleazar de Carvalho permanecesse mais um ano”. Com a recusa do Conselho Diretor da orquestra em prolongar a licença do maestro, José Siqueira fez um acordo com a OSB: ele próprio regeria os concertos que seriam obrigação de Eleazar que, em contrapartida, deveria assumir “o compromisso pessoal de lutar sempre pela divulgação da música brasileira”.52 O retorno à OSB, como regente convidado da orquestra, ocorreu em 1947,
e, nos anos subsequentes, a sua presença no pódio da orquestra carioca aumentaria.53 Em 1949,
Eleazar intermediou a vinda de Serge Koussevitzky para reger a OSB, o que lhe conferiu prestígio diante dos músicos e da direção da orquestra, e nos anos de 1950-51, ele dividiu as responsabilidades da liderança artística da OSB com Lamberto Baldi (1895-1979), culminando com a sua ascensão ao cargo de diretor artístico da orquestra, posto que ocupou de 1951 a 1957, de 1960 a 1962 e de 1966 a 1969.54 É relevante destacar que, desde o retorno às suas atividades
à frente da OSB, ganhava destaque a forma que seus repertórios eram combinados, pois ”inteligentemente, Eleazar mesclava em seus programas a tradição e o novo, agradando assim a gregos e troianos”.55 Um exemplo dessa mistura de épocas e estilos, de acordo com Corrêa,
48 Documentário “Eleazar de Carvalho - Maestro Brasileiro”, realizado pela TV Cultura, em 2006. Disponível em: https://www.google.com.br/search?q=eleazar+de+carvalho+maestro+brasileiro&ie=utf-8&oe=utf- &gws_rd=cr&ei=aipyWM3QNcq4wASm17OIAw (Acesso em: 16/10/16).
49 PC, Festival Internacional de Música, 1973, p. 15.
50 Documentário “Eleazar de Carvalho - Maestro Brasileiro”, Op. cit. 51 CORRÊA (2004), Op. cit., p. 49.
52 Op. cit., p. 49. 53 Op. cit., p. 52-3. 54 Op. cit., p. 139. 55 Op. cit., p. 53.
ocorreu na abertura da temporada de 1951, pois
ao lado de páginas clássicas de Weber e Beethoven, teve a segunda parte completada pela Sagração da Primavera, de Stravinsky, pela primeira vez tocada no Brasil, segundo folheto da OSB. Eleazar exigiu um mínimo de 15 ensaios para a execução desta obra, paradigma do século XX.56
Durante o período que atuou na OSB, Corrêa descreve que Eleazar de Carvalho consolidou a imagem de um regente “disciplinador nato, bastante rigoroso no trato e de absoluta integridade”, que defendeu “arduamente a música brasileira e os compositores de vanguarda”.57
O interesse do regente brasileiro em executar obras contemporâneas foi também observado quando, em 1963, assumiu o cargo de diretor da Orquestra Sinfônica de Saint Louis (OSSL), nos Estados Unidos. A preferência pelo repertório do século 20 foi novamente explicitada por Eleazar de Carvalho na sua chegada à cidade norte-americana. De acordo com Gedine,58 na
primeira conferência de imprensa ele declarou: “Eu sou um homem do avant-garde”. O maestro desejava ainda que o público de Saint Louis pudesse “abrir seus ouvidos”, e para reiterar essa intenção, na abertura da temporada programou a Primeira Sinfonia de Beethoven juntamente com a estreia em Saint Louis59 da Sagração da Primavera,60 de Igor Stravinsky, comemorando
o cinquentenário da obra.61 Essa tendência de programar novas obras foi fielmente seguida nas
temporadas seguintes da OSSL, pois como elucida Gedine, “na série de assinatura regulares para 1964-1965, foram incluídas 35 estreias de obras significativas em St. Louis.62 Nas
primeiras temporadas à frente da orquestra norte-americana, as decisões do maestro brasileiro sobre o repertório repercutiram positivamente em termos de presença de público nos concertos. Porém, conforme Gedine, já existiam conflitos sobre a ousadia na escolha das obras da temporada:
Nos dois anos desde que Carvalho assumiu, as vendas de ingressos da temporada subiram 20%. As vendas individuais nas bilheterias aumentaram também. Com certeza, existe uma boa dose de resmungoa respeito da política de programação ser experimental demais.63
A resposta de Eleazar de Carvalho aos críticos de sua programação foi, da mesma forma
56 CORRÊA (2004), Op. cit., p. 53. 57 Op. cit., p. 139.
58 GEDINE, L. Program Experiment in St. Louis. Perspectives of New Music, Vol. 4, No. 1 (Autumn - Winter, 1965), pp. 179-181. Disponível em http://www.jstor.org/stable/832539 (Acesso em: 18/09/2016).
59 De acordo com o site dos músicos da OSSL: “Talvez foi a première em Saint Louis da edição revisada de 1929 da Le Sacre, uma vez que é difícil acreditar que esta obra, de 1913, não tinha sido previamente tocada em Saint Louis”. Disponível em: http://www.stokowski.org/Principal_Musicians_St_Louis_Symphony.htm (acesso em 18/09/2016).
60 Concerto realizado em 12/10/1963, no Kiel Auditorium. 61 GEDINE (1965), Op. cit., p.179.
62 Op. cit., p.180. 63 Op. cit., p.180.
que agiu na OSB, mesclar obras do cânone às modernas que escolhia para estrear no ano. E de importante relevância ao presente trabalho, o maestro brasileiro utilizou-se dos ciclos de compositores, de acordo com Gedine:
Como algum tipo de concessão, a temporada do ano que vem começará com oito programas de Beethoven em um ciclo. (Maestro Carvalho considera que a Orquestra está pronta para tal ciclo e vai lucrar com a disciplina de executá-lo). No pensativo ambiente musical de St. Louis, Maestro Carvalho provocou grande interesse e uma simpatia ressonante. É sua expressa intenção fazer de St. Louis o centro de música de vanguarda na América.64
Aparentemente, nem mesmo a inclusão de um ciclo de obras de um mesmo compositor serviu para refrear a insatisfação com relação aos programas escolhidos por Eleazar de Carvalho, como revela a própria descrição da biografia do maestro pela OSSL:
Eleazar de Carvalho trouxe para St. Louis um estilo musical ardente e um intenso comprometimento com a música contemporânea. Um dos principais expoentes da composição contemporânea e moderna, Carvalho considerou que sua missão era estabelecer a Orquestra Sinfônica de St. Louis como principal instituição cultural dedicada a promover a compreensão da arte contemporânea no país. Sua programação era pouco ortodoxa e concebida para educar e informar o seu público sobreo lugar de uma determinadaobra na história da música, muitas vezes, comparando-a, no mesmo programa, com peças similares, escritas antes e depois. Infelizmente, grande parte daquilo não foi apreciada pelo público da época, que não compreendia a programação.65
O último concerto que Eleazar de Carvalho regeu como diretor artístico da OSSL, aparentemente, tentou dar fim às críticas acumuladas ao longo de cinco temporadas. No dia 31 de maio de 1968, o maestro brasileiro programou a Sinfonia no 1 e a Sinfonia no 9 de Beethoven,
privilegiando assim, na sua despedida, o repertório canônico, compreensível ao público, já descontente com sequências de obras contemporâneas. O desgaste com esses embates, porém, tornou-se óbvio quando, ainda em 1968, Eleazar de Carvalho, segundo o site oficial da orquestra, “anunciou que iria para a Sinfônica Pro Arte, na Universidade Hofstra”.66 Fiel às
suas convicções, as atividades de Eleazar junto à sua nova orquestra, segundo Hashimoto, incluíam, principalmente, a performance de “música do século 20 e repertórios pouco conhecidos do passado”:
Um concerto realizado em 18 de outubro de 1969, incluiu cinco estreias americanas: Found Objects II, de Arthur Custer; Concerto para piano de Xenakis, encomendado pela Pro Arte e dedicado à Jocy de Oliveira; Town-Crier, de Richard Arnell; Intermitências II, de Claudio Santoro, e Quatro Canções Orquestrais, de Schoenberg. Nas semanas seguintes, a orquestra tocou uma peça que virtualmente desapareceu depois de 1950: Concerto para piano em re
64 GEDINE (1965), Op. cit., p. 181.
65 Disponível em: https://www.stlsymphony.org/en/musicians/conductors/past-music-directors/ (Acesso em: 18/09/2016).
menor, de Anton Rubinstein.67
Eleazar de Carvalho atuou junto à orquestra da universidade norte-americana de 1968 a 1973 e, somadas, as experiências musicais do maestro brasileiro perfazem mais de três décadas, desde o início das atividades como regente da OSB até o encerramento da temporada à frente da Orquestra Sinfônica Pro Arte (1973). O conhecimento acumulado nesse período, como será visto a seguir, serviu para dar suporte aos 23 anos em que Eleazar de Carvalho atuou na Osesp, o mais duradouro vínculo profissional de sua carreira.