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PARTE II FASE DE PLANEJAMENTO

CAPÍTULO 3 AGRIMENSURA: PLANIMETRIA DA INVESTIGAÇÃO

3.2 POTENCIALIDADE SIGNIFICATIVA DOS MEDIADORES DIDÁTICOS

3.2.2. ENSINO-APRENDIZAGEM: CONCEITOS E PRINCÍPIOS PARA PERFORMANCE DOCENTE

No atual estágio de desenvolvimento teórico-metodológico dos processos ensino-aprendizagem na modalidade a distância, a tônica é resgatar princípios molares como a interação, a construção de conhecimento e as concepções preliminares, em oposição aos paradigmas positivistas, behavioristas e maturacionistas. (FOSNOT, 1998; BERTRAND, 2001).

As teorias construtivistas ou construcionistas trazem um conceito subjacente, subentendido, que é a aprendizagem significativa.

A Teoria da Aprendizagem Significativa (AUSUBEL, NOVAK e HANESIAN, 1980), reserva importância estratégica à potencialidade dos materiais didáticos e à disposição dos estudantes como condições para aprendizagem. A organização

cognitiva e o desenvolvimento dos estudantes são atributos imprescindíveis na mediação pedagógica.

A teoria da aprendizagem significativa traz grandes contribuições para EaD do ponto de vista da organização didático-metodológica, tanto a partir das proposições originais de Ausubel quanto dos atributos humanistas e heurísticos acrescentados por Novak e Gowin. Laaser et al. (1997) citam “o modelo organizador do desenvolvimento de Ausubel” como uma das teorias particularmente relevantes para EaD.

O processo de aprendizagem para Ausubel consiste no relacionamento que as novas informações criam com a estrutura de conhecimentos que os estudantes já possuem, denominadas de subsunçores. “O subsunçor é, portanto, um conceito, uma idéia, uma proposição, já existente na estrutura cognitiva, capaz de servir de ancoradouro a uma nova informação, de modo que esta adquira, assim, significado para o sujeito [i.e. que ele tenha condições de atribuir significado a essa informação]”. (MOREIRA, 1999, p.11).

Existem dois princípios extremamente importantes e rizomáticos na teoria proposta por Ausubel porque são atributos que permitem ramificações e complementações para várias teorias e, principalmente, para campos como o ensino e a EaD. Trata-se da potencialidade dos materiais (significação lógica) e dos conhecimentos prévios dos estudantes (significação psicológica).

Uma das condições para aprendizagem significativa é a potencialidade do material didático, o que significa ter pela sua própria natureza um significado lógico. Dessa forma, possibilita-se o relacionamento entre as novas informações com as já existentes. Quando o material permite que as informações novas se relacionem com os subsunçores, pode-se dizer que ocorre uma aprendizagem de maneira não- arbitrária. A não-literalidade ou substantividade é outro aspecto que qualifica a potencialidade do material. Em outras palavras quer dizer que os conhecimentos são incorporados de acordo com seus princípios e conceitos e não somente de acordo com a sua formatação. A competência científica e didática de quem elabora os materiais didáticos é condição sine qua non para sua potencialidade significativa.

Para que as novas informações possam ser aprendidas significativamente, a estrutura cognitiva pré-existente dos estudantes assume relevância. A significação psicológica dos materiais organizados logicamente ocorre quando os conceitos subsunçores são ativados no momento da assimilação de novas informações. Nesse

sentido, um dos critérios a serem observados é a diferenciação progressiva dos conceitos nos materiais didáticos.

Esses dois elementos podem gerar propostas inovadoras, espaços extraordinários para novas proposições didático-metodológicas. Novak e Gowin ampliam a proposição de Ausubel por meio de recursos como os Mapas Conceituais e o Vê Epistemológico. Os conhecimentos oriundos da cultura primeira são amplamente discutidos por autores como Bachelard (1996); Freire (1987); Angotti e Delizoicov (1992); Bordenave e Pereira (1986). Em EaD, os conhecimentos prévios são retomados na discussão da andragogia ou educação de adultos. (ARETIO, 1994; PETERS, 2001; PALLADINO, 1981; MALLMANN et al., 2001):

De acordo com a teoria da aprendizagem significativa, o ensino deve considerar os organizadores prévios (conceitos subsunçores) e a organização do conteúdo de forma lógica. Os conceitos devem ser: a) substantivos ou inclusivos, ou seja, os “conceitos e proposições unificadores de uma dada disciplina que tem maior poder explicatório, inclusividade, possibilidade de generalização e possibilidade de relacionamento” ao assunto da disciplina e b) programáticos: princípios adequados “na ordenação da seqüência dos assuntos, ao construir sua lógica e organização interna e ao organizar ensaios de prática” (AUSUBEL, NOVAK e HANESIAN, 1980, p. 157).

Além da significação lógica (coerência na estrutura do material) e cognitiva (compreensão dos conteúdos a partir da estrutura cognitiva dos estudantes), Sacristán e Gómez (1998) apresentam a significação afetiva (motivação e atitude) - a partir das contribuições de Novak - como as três dimensões condicionantes da aprendizagem significativa.

Nessa investigação a contribuição da teoria de Ausubel assenta-se na potencialidade que os materiais didáticos precisam contemplar para sustentar a mediação pedagógica a distância. Tendo como pano de fundo a teoria da aprendizagem significativa, pode-se compreender mais intensamente a potencialidade dos materiais didáticos num universo tão heterogêneo que a EaD comporta. E, conseqüentemente, a performance docente subjacente à sua elaboração. Para ser potencialmente significativos os mediadores didáticos impressos e hipermidiáticos precisam contemplar delegações que desafiam os estudantes no processo de estudo. Os professores-autores e designers de mediação

poderão contemplar essa potencialidade se atentarem para a interação, cooperação e autonomia enquanto conceitos e princípios do ensino e da aprendizagem.

A multiplicidade que caracteriza o processo de elaboração dos materiais didáticos para EaD compromete a mediação pedagógica desde a seleção dos conceitos a serem priorizados até sua implementação. O desenho pedagógico de um material didático que leva em consideração os conhecimentos prévios dos estudantes e princípios como a diferenciação progressiva; reconciliação integrativa; organização seqüencial e consolidação dos conteúdos (AUSUBEL, NOVAK e HANESIAN, 1980) requer uma performance docente investigativa.

A importância atribuída aos materiais pela teoria da aprendizagem significativa está em consonância com a Teoria da Transposição Didática proposta por Chevallard (1991). Ambas possuem indicadores para sustentar a performance docente no processo de organização da mediação pedagógica em EaD.

Sacristán e Gómez (1998) destacam a importância da organização do material didático, uma vez que a aprendizagem pode ser favorecerida desde que se organize o material em função de potencialidades. Por isso,

O papel do docente é primordial e insubstituível: a soma dos contributos, as suas interações e a sua progressão não podem ser objeto de programas preestabelecidos. O professor desempenha um papel de apoio: é o organizador das condições de aprendizagem. O aluno é que aprende a partir de suas próprias estruturas de pensamento. É ele próprio que, por esta ou aquela razão, se deve achar em situação de mudar as suas concepções. O papel do professor é importante: deve propor e viabilizar um meio didático indispensável a fazer elaborar e funcionar os saberes. (BERTRAND, 2001, p.77).

Dentre os principais princípios da teoria formulada por Ausubel e ampliada por Novak, pode-se destacar a necessidade de planejar o ensino de modo a potencializar a aprendizagem. Aprender significativamente implica em aprender determinados conceitos e não necessariamente substituir conhecimentos prévios pelos científico-escolares. A história cognitiva dos estudantes não se perde com a aquisição de novos significados e isso pode ocorrer “por meio de um ensino explicitamente planejado para essa finalidade”. (MOREIRA, 1999, p.48).

Retém-se como principal contribuição da teoria da aprendizagem significativa para EaD o esclarecimento sobre a função docente na organização e planejamento, quase sempre negligenciada, quando se prioriza apenas o pólo estudante. Em

consonância com a TRM, a teoria da aprendizagem significativa explicita a necessidade de mediadores como os materiais didáticos fazendo os professores ensinar e os estudantes estudar.