PARTE II FASE DE PLANEJAMENTO
CAPÍTULO 2 GEOLOGIA: CONSTITUIÇÃO E EVOLUÇÃO DA EAD
2.3 INTERFACE ENTRE MODELOS DIDÁTICOS E GERAÇÕES TECNOLÓGICAS À LUZ DA
Propõe-se a contextualização das experiências atuais em termos da Teoria da Distância Transacional, elaborada por Moore (1993), tomando como base de análise suas três categorias: o diálogo (interação entre professores e estudantes); estrutura (planejamento dos programas de ensino) e a autonomia (medida em que os estudantes determinam seus estudos).
Essas três categorias explicitam teoricamente os esforços realizados em cada um dos cinco modelos didáticos (correspondência, conversação didática, professoral, tecnológico de extensão, tutorial). Para Peters (2001), a “distância transacional é uma variável que resulta do conjunto de diálogo, estruturação dos programas de ensino e da autonomia dos estudantes, diferente em cada caso. Explica a enorme flexibilidade dessa forma de ensino acadêmico.” (p.66).
A partir da teoria de Moore (1993), pode-se elaborar elos de ligação entre os modelos didáticos caracterizados por Peters (2001) e as gerações de evolução da EaD organizadas no quadro de Rodrigues (2004).
Torna-se impreciso considerar qual desses cinco modelos didáticos sobrevive com mais intensidade nas experiências atuais implementadas no Brasil. Os projetos em desenvolvimento contemplam a multirreferencialidade didática e tecnológica de um período em que a EaD está em expansão e em fase de transição.
Paulsen (2002) esclarece que os avanços tecnológicos não podem ser incorporados em EaD sem o devido fortalecimento dos modelos didáticos. As características da mediação pedagógica atualmente são acentuadas pelas potencialidades de tecnologias de interação síncronas e assíncronas. Isso aumenta a comunicação entre professores e estudantes e a autonomia de estudo dos últimos, embora não signifique que os materiais didáticos careçam de organizações conceituais e estratégias de orientação da aprendizagem.
Peters (2001) denuncia que, devido à tradição do ensino expositivo na educação presencial, os professores universitários preferem assumir o desenvolvimento de materiais didáticos impressos para os cursos, rejeitando "um
aconselhamento didático-pedagógico maior e mais enérgico apoio aos que estudam sob grandes dificuldades e limitações, ou o admitem a contragosto". (p.40).
O modelo tutorial, tanto para materiais impressos quanto online, configura-se dentro da autonomia trabalhada por Moore (1993). Requerem alto grau de organização dos estudantes, na medida em que a preocupação está centrada na elaboração de materiais como guias de orientação. Atualmente, os tutoriais se organizam especialmente pelas potencialidades das tecnologias de informação e comunicação utilizadas em EaD a partir da 3ª geração e acentuadas a partir da 4ª. Um aconselhamento pedagógico está mais próximo do modelo didático tutorial, o que implica numa ênfase maior nos processos autônomos que delegam aos estudantes a maior parcela de responsabilidade pelo desempenho na aprendizagem.
Para Moore (1993), a distância física é diferente da distância comunicativa entre professores e estudantes. E isso depende fundamentalmente de como os materiais didáticos estão organizados e de como as tecnologias de interação são empregadas. Embora um modelo tutorial seja tecnologicamente bem desenvolvido não necessariamente atende as especificidades de interação.
A possibilidade de diálogo para Moore (1993) entre professor e estudantes é muito influenciada pelo grau de estrutura do programa de ensino no qual a interação acontece. A distância é maior quando não existem possibilidades de comunicação interativa e a determinação institucional nos programas de estudos é acentuada. Isso pode acontecer quando a mediação pedagógica está organizada dentro de modelos como correspondência, tecnológico de extensão e no modelo professoral. No modelo professoral, os professores assumem toda responsabilidade pelo planejamento das estratégias e seqüência das atividades de aprendizagem.
A distância é menor se o programa de ensino contempla as necessidades do público-alvo e proporciona oportunidades dialógicas entre professor e estudantes. Para Moore (1993), é importante atingir um equilíbrio entre diálogo e estrutura.
O diálogo, autonomia e estrutura podem ser contemplados por materiais didáticos planejados, por exemplo, dentro do modelo da conversação didática guiada incorporando-se as tecnologias de interação desde a terceira geração.
Segundo Moore (1993), a autonomia corresponde à medida que os estudantes podem determinar seus estudos. Isso reorganiza as funções atribuídas ao professor já que os programas de ensino já não são altamente estruturados.
A autonomia e a estrutura, assim definidas por Moore (1993), estão nos dois eixos extremos de uma proposta de EaD. O diálogo, que é a outra categoria considerada pelo autor, é o elo entre elas oferecendo condições de minimizar o distanciamento entre professores (estrutura) e estudantes (autonomia).
Os modelos de correspondência e de conversação didática guiada não contemplam o diálogo enquanto interação multidirecional, tal qual a EaD é compreendida na configuração, desde a 3ª geração. A mediação pedagógica altamente estruturada pelos professores ou apenas ampliada pelas tecnologias de comunicação nem sempre garante o movimento de aprendizagem desejado.
Nessa perspectiva, é esperado que cada instituição ou curso planeje e organize um projeto pedagógico que oriente a elaboração, implementação e avaliação da mediação pedagógica, de acordo com os aspectos científicos, filosóficos, sociológicos, pedagógicos e acadêmicos. Isso requer equipes multidisciplinares, infra-estrutura de apoio, diagnóstico apurado do público-alvo em função da sua heterogeneidade e atenção às regulamentações devidas.
Na vivência das experiências, os modelos didáticos, as características históricas e o desenvolvimento tecnológico nas suas diferentes gerações, enquanto frutos de elaborações conceituais e teóricas se mesclam e se multirreferenciam.
Investigar a performance docente no entorno da evolução tecnológica e diversidade dos modelos didáticos constitui-se num desafio. A partir das 4ª e 5ª gerações tecnológicas, a comunicação multidirecional em ambientes virtuais e videoconferências, por exemplo, imprime características à mediação pedagógica em EaD nem sempre contempladas em modelos como o da correspondência, da conversação, tecnológico de extensão e o tutorial.
Para teoria da Distância Transacional, o equilíbrio entre a autonomia, a estrutura e o diálogo são necessários. Nessa perspectiva, o modelo professoral precisa ser problematizado já que os materiais didáticos precisam incorporar estratégias de interação incentivando a autonomia e a cooperação dos estudantes.
O processo de elaboração de materiais didáticos para EaD começa a apresentar suas nuances a partir dessa aproximação histórica. Nesse sentido, assume-se a necessidade de organizar a cartografia da performance docente no processo de elaboração de materiais didáticos impressos e hipermidáticos. O registro desse movimento se torna necessário para esclarecer as evidências da mediação pedagógica num contexto de inovação na docência universitária.