Dentre os saberes que sofreram deslocamentos parecidos com esses que atingem a sociologia, a pedagogia e a psicologia, o saber econômico mais teórico e especializado merece uma atenção especial. Primeiro pela sua importância para todo e qualquer lugar onde se vive o infortúnio capitalista. Mas também e principalmente pela sua proximidade com os saberes que circundam a vida dos mais jovens em meados do século XX. Para começar, no plano dos problemas. Pois, para aqueles que, desde os anos 1930, se autodenominaram pela primeira vez “neoliberais”, a preocupação central também se dirige aos perigos do autoritarismo para a liberdade individual e para a construção de uma nova sociedade onde o crescimento deve se dar “através da mudança” ou da “inovação”. E na medida em que não se deseja impor uma conduta inovadora, mas “encorajar” o sujeito econômicos a desenvolverem em si mesmos esse potencial, não admira que a intimidade entre esse saber e aquele relativo aos jovens se intensifique ainda mais quando se trata do dispositivo de saber e de governo selecionado. Esse primeiro “neoliberalismo” – que pode ser dito genuíno perto de um outro que se tornará o grande inimigo das esquerdas dos anos 1980 até hoje – irá reinserir todo o esquema participativo no centro de suas práticas.
Assim, se para a ciência econômica clássica, que chamava a si mesma de “economia política”, o mercado era um meio “natural” para a valorização justa das coisas, para esse liberalismo renovado que ganha força ao longo da Guerra Fria, ele é fundamentalmente um jogo artificial, gerido como um sistema inteligente de concorrência – ou seja, de produção da desigualdades – capaz de garantir o crescimento dos valores manipulados e de si mesmo. Pela mesma lógica, se um dia os sujeitos econômicos puderam ser distribuídos em função de suas propriedades,
agora são todos “iguais”, ao menos por princípio, visto que são todos jogadores de um mesmo jogo que não admite uma identificação prévia das funções de cada um. Seus jogadores são todos igualmente “empreendedores”, isto é, portadores e investidores de uma multiplicidade ilimitada de formas inatas e adquiridas de “capital humano”. São, portanto, sujeitos que precisam saber utilizar sua autonomia e liberdade de maneira “criativa” e “responsável” para serem bem sucedidos no jogo115.
Seguindo à risca o dispositivo de participação, esse saber recorrerá ao procedimento de intervenção sobre o ambiente dos sujeitos, tendo em vista tanto a extração de respostas sistemáticas dos governados quanto uma proteção “preventiva” contra os riscos inerentes e imprevisíveis gerados pela própria “liberdade de introduzir mudanças”. Chegaria, inclusive, o dia em que ciência econômica se veria definida como “a ciência da sistematicidade das respostas às variáveis do meio”, capaz de submeter “toda conduta, qualquer que ela seja” à sua análise116. Para além desses delírios de universalismo absoluto, importa que será por essa via
que esse saber invadirá o mundo das políticas sociais, de modo que, já no começo dos anos 1960, é possível encontrar quem insista em aplicar a ele “os mesmos princípios de cálculo racional, inovação e exploração do progresso técnico tal como são aplicados no sistema produtivo”117, agora traduzidos em investimento na aquisição de habilidades e conhecimentos
pelos cidadãos – ou, numa única palavra, em “capacitação”, descontínua porém permanente. Mais do que uma sobreposição da questão “social” por uma perspectiva economicista, aquilo que se percebe é a maneira como o esquema participativo de análise permite a saberes distintos se comunicarem e trabalharem de maneira conjunta. Assim, não parece ser por mero acaso que a personagem do “empreendedor” se fará presente desde muito cedo nos debates sobre a nova condição jovem agitados pela Unesco e sua rede de intelectuais e especialistas, sempre muito críticos aos excessos e irracionalidades do capitalismo118. Ainda que se tratem de
115 Essa análise aparece claramente no curso de 1979 ministrado por Foucault (2004c). Um bom estudo da figura
do empreendedor para o saber econômico e para a gestão empresarial contemporânea foi realizado por Osvaldo Lopez-Ruiz (2004).
116 Trata-se de uma definição de G. Becker analisada por Foucault (2004c: 272-3). 117 Johnson (1967: 192)
118 Os documentos da Conferência Internacional da Juventude realizada pela Unesco em 1964 é uma aula a
respeito dessa relação particular de um saber multiculturalista com o saber neoliberal que também se encontrava em processo de elaboração inicial (Unesco 1964). Pode ser consultado no site dessa organização
jogos que, além de distintos, prometem e se esforçam para manter uma relação de independência, ao longo das últimas décadas, a nova democracia “multicultural” e o novo mercado “neoliberal” não se mostrarão capazes de abrir mão desse conjunto de procedimentos que os faz ressoar juntos.
Para além do domínio de questões juvenis, é justamente dessa possibilidade de entrecruzamento de jogos aparentemente tão diversos como o democrático, o econômico e, mesmo, aqueles mais inocentes, como os pedagógicos, que nascerá uma nova forma de governo da vida dos que são identificados como pertencentes às margens da civilização. Apenas a título de exemplo, pode ser interessante citar a breve apresentação do “Projeto da Unesco na África”, brevemente relatado no Courrier dessa mesma instituição, no ano de 1948. Voltado a uma comunidade de apenas 15 mil habitantes, na região de colonial de Nyasaland – também conhecida na época como parte do British Central African Protectorate – trazia uma série de elementos cuja proximidade com os “programas sociais” mais recentes e voltados aos “excluídos” é certamente notável:
Objetivo da Experiência: Elevar o nível social, econômico e o grau de instrução de uma coleti-
vidade tribal do tipo africano que tem uma economia essencialmente agrícola. Encorajar sobre-
tudo a iniciativa local.
Métodos: Suscitar uma aspiração precisa ao melhoramento das condições sociais e do nível de vida; estabelecer contatos estreitos entre o conjunto da população e as escolas existentes; criar escolas modelos para crianças e adultos, lançar uma campanha contra o analfabetismo a fim de permitir a qualquer um adquirir uma noção dos vínculos que os unem ao mundo exterior a sua comunidade; facilitar e encorajar o exercício de ofícios artesanais; encorajar e desenvolver o canto, a dança. Além dos manuais, emprega outros auxiliares de educação de massas: cinema, marionetes, receptores radiofônicos, cartazes, gravadores de áudio e registros locais.
Resultados obtidos em fevereiro de 1948: Os africanos dessa região se agruparam em uma as- sociação chamada “Ukani” (que quer dizer “De pé!”) e se reuniram uma vez por semana para estudar os problemas e os programas que interessam à valorização da região. Resultados obti- dos: resgate dos poços, constituição de uma sociedade cooperativa, criação de uma instituição feminina para o ensino de costura, tricot e cozinha. Os instituintes [dos programas] constituí- (http:// unesdoc.unesco.org).
ram associações locais; os assistentes de educação de base contribuíram para organizar repre- sentações teatrais e sessões de canto e aprender a arte das marionetes, que é muito popular. A campanha contra o analfabetismo está em curso.119
Suscitar aspirações, estabelecer contatos, criar referências, lançar campanhas, facilitar, encora- jar e colaborar no desenvolvimento de práticas que “valorizem” aqueles mesmo que praticam enquanto sujeitos capazes de “responder” a essa série de estímulos que são inseridos em seu ambiente social. É possível imaginar uma intensa colaboração de unidades escoteiras num tal projeto. Porém, tanto aos olhos dos que viveram o entreguerras quanto do ponto de vista dos que acompanham os atuais programas de governo voltados aos “pobres”, não deixa de ser cu- riosa a ausência de qualquer referência ao “protagonismo” dos mais jovens. Afinal, a mobili- zação destes não seria um elemento fundamental para o sucesso dessa empreitada? Um tal questionamento parece ainda mais relevante quando se sabe que a região vivia o auge de um conflito colonial, sendo povoada por uma “agressividade” que, em 1959, levaria a Inglaterra a decretar estado de sítio120. De fato, se hoje esse vazio pode ser sentido com tanta força, é pro-
vável que o seu preenchimento tenha alguma relação com o sucesso que esse saber alcançou ao longo do tempo. Mas o caminho traçado por ele até o presente não será menos tortuoso do que aquele enfrentado pelo meio participativo de governo.
119 Unesco (1948: 5).
120 Para uma breve história dessa região e de seus conflitos colonias: http://es.wikipedia.org/wiki/Nyasalandia.