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Entre colecionadores, etnólogos e arqueólogos

Sumário

Mapa 1. Mapa feito por Nimuendajú sintetizando a distribuição dos estilos Tapajó e variantes no rio Arapiuns e Monte Alegre (vermelho) e Kondurí (azul) no Baixo Amazonas É indicada com círculo vermelho a Serra de Parintins, como limite da ocorrência de fragmentos do estilo Tapajó associado ao Kondurí e outros estilos próximo ao rio Xingu Em azul o autor indica áreas

2 Capítulo A formação das coleções e o seu legado

2.2 Redes de colecionamento (1870 1970)

2.2.4 Entre colecionadores, etnólogos e arqueólogos

O colecionamento de cerâmica do Baixo Amazonas prosseguiu mais de duas décadas depois do fim dos trabalhos de campo de Nimuendajú, tomando grandes dimensões em coleções particulares, com grande notoriedade no país. Uma delas foi reunida pelo casal estadunidense Rose e Robert Brown que morou em Santarém entre 1941 e 1944. Eles reuniram cerca de 10 mil peças, uma parte coletada por eles mesmos

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Ofício nº 51, 17 de fevereiro de 1936. Do Diretor Carlos Estevão de Oliveira ao governador do estado do Pará. Fundo Carlos Estevão de Oliveira, Correspondências, Arquivo Guilherme La Penha/MPEG. 19 Carta de Gastão Cruls a Curt Nimuendajú, 19/11/1941, Arquivo Curt Nimuendajú/ CELÍN/MN.

20 BRITISH MUSEUM. Collection online. Disponível em:

<https://www.britishmuseum.org/research/search_the_collection_database/term_details.aspx?bioId=4110 2> Acesso em 16 de novembro de 2018.

21 BRITISH MUSEUM. Collection online. Disponível em:

<https://www.britishmuseum.org/research/collection_online/collection_object_details.aspx?objectId=653 572&partId=1&people=27671&peoA=27671-3-9&page=1> Acesso em 16 de novembro de 2018.

nas ruas e outra comprada de uma mulher indígena que vivia na cidade (PALMATARY, 1960) (Figura 16). A reunião das peças durou “perto de um ano”22, sendo que em 1944, a coleta foi mais intensa porque “demoraram-se mezes no trabalho na Aldeia” (1953, p. 4). No mesmo ano, realizaram uma exposição dos seus achados e no ano seguinte venderam a coleção para a Fundação Brasil Central, que anos depois (em 1954) a doou ao Museu Nacional.

Figura 16. Casal Rose e Robert Brown em 1944 ao lado da jornalista, à esquerda. Ao fundo, em uma estante, é possível ver um vaso de cariátides, um vaso efígie e uma estatueta cerâmica. As duas primeiras peças foram incluídas em diferentes estudos arqueológicos da cerâmica Santarém e catálogos de peças arqueológicas. Fonte: Diário Carioca, 19/11/1944, p.3.

A outra grande coleção reunida por um particular foi a pertencente ao jornalista Frederico Barata, entre as décadas de 1940 e 1950. Ele tanto cavava quintais das casas no bairro Aldeia quanto comprava peças de outras pessoas (op. cit., ibid.). Sua coleção ganhou notoriedade porque ele publicou artigos de jornal e ensaios científicos sobre a cerâmica Santarém, que ainda são referências fundamentais para a arqueologia (GOMES, 2010). Barata teve grande atuação na expansão do grupo de comunicação

Diários Associados no país, tendo chefiado sua superintendência no Norte do país.

Frequentou os círculos intelectuais do Rio de Janeiro e possuía grande erudição em história da arte, antropologia e conhecimento das línguas inglesa e francesa, o que o permitiu dialogar com os arqueólogos que recém chegavam na Amazônia, Betty Meggers, Clifford Evans e também Peter Hilbert (GUAPINDAIA, 1993; ROSA, 2008).

Barata foi presidente, no início dos anos de 1950, do Instituto de Antropologia e Etnologia do Pará (IAEP), uma organização voltada para a promoção do conhecimento antropológico da região, que reunia comerciantes e intelectuais em Belém. Algumas de suas principais publicações foram feitas pelo Instituto, que funcionou em uma sala do Museu Goeldi (ROSA, 2008). À época, o Museu passava por um momento de decadência, com grande falta de recursos e o Boletim do MPEG já não lançava um novo número desde 1933. O IEAP patrocinou algumas pesquisas, incluindo aí o trabalho de campo de Peter Hilbert na região dos rios Trombetas e Nhamundá, em 1952. Hilbert era um alemão que chegou em 1949 para trabalhar com as coleções de “arte” africana do MPEG e que acabou se interessando por arqueologia, a partir de sua participação em uma das etapas de campo realizado em Marajó por Meggers e Evans (HILBERT, 2009). Barata, já em 1950, dizia que seria importante estudar melhor uma cerâmica tão ou mais barroca que a “de Santarém”, encontrada no município de Oriximiná. Hilbert deve ter sido estimulado por ele a realizar um estudo na região, com o patrocínio do Instituto. O material proveniente de Oriximiná, inclusive algumas das raras vasilhas inteiras, foi cedido para o estudo de Hilbert e recebeu ilustrações do artista Manoel Pastana.

A partir da pesquisa sobre a “cerâmica de Oriximiná”, Peter Hilbert estabeleceu contato com o frei alemão Protásio Frikel (HILBERT, 2009). Frikel começou a coletar cerâmica arqueológica já no final da década de 1930. Diferente de João Mayer, seu interesse não se voltava a venda, mas ao estudo das peças que afloravam na terra. Desde sua chegada à região de Santarém se coletou material de áreas do Baixo Amazonas: o sambaqui Jauari, em Alenquer, as terras pretas em Santarém, Aveiros, Juruti, Oriximiná e Faro (MARTINS, 2013). Nimuendajú trocou algumas cartas, em seus dois últimos anos de vida, com Frikel sobre os povos indígenas da região do rio Trombetas e o material arqueológico do sítio Jauari23. Não há nenhuma informação sobre contatos anteriores. Em todo caso, em meados da década de 1940, Frikel já enumerava 41 sítios

arqueológicos visitados. O frade fala que “De todos os lugares possuo algum (às vezes muitos) restos de artefatos, sejam líticos sejam ceramica.” 24

Em relação a cerâmica encontrada nos rios Trombetas, Nhamundá e no município de Juruti, Frikel enviou uma série de anotações sobre os sítios arqueológicos que visitou e algumas tentativas de síntese e desenhos de peças. Hilbert (1955a) se valeu de algumas dessas informações em seu ensaio. Ele reuniu várias coleções de peças arqueológicas ao longo da vida e cedeu duas delas para o estudo de Peter Hilbert (1959, 1982). A origem germânica permitiu, como na época de Nimuendajú, que uma relação se estabelecesse em torno dos materiais arqueológicos.

O Museu Paulista, na época em condições financeiras muito melhores que o Museu Goeldi, realizou uma série de expedições etnográficas e arqueológicas na bacia amazônica no decênio de 1950. O objetivo desses trabalhos era aumentar o acervo da instituição, que pouco dispunha de materiais etnográficos e arqueológicos, devido à ênfase inicial em zoologia e botânica (FRANÇOSO, 2005) – uma diferença marcante com o Museu Paraense e o Museu Nacional. Esses trabalhos foram realizados pelo etnólogo Harald Schultz, filho de imigrantes alemães, que foi assistente da Seção de Etnologia no MP desde 1947. Entre 1950 e 1956, Schultz passou pela Ilha de Marajó, Santarém, Juruti, Parintins, Itacoatiara, Manaus e Manacapuru. Como no caso de outros etnólogos germânicos, o seu interesse por arqueologia é pouco conhecido e documentado. Não são claros os motivos que levaram Schultz a reunir coleções arqueológicas ou como essa atribuição foi criada no Museu Paulista. Um fato coincidente, que pode estar ligada a seu interesse, é a doação e compra de coleções realizadas. Em 1948, o Museu adquiriu parte da coleção arqueológica de Luís Paixão, com materiais de Marajó e rio Trombetas, e uma única peça proveniente de Santarém (BALDUS, 1949). Em 1951, a coletora e etnóloga Wanda Hanke doou para a instituição uma coleção de fragmentos cerâmicos provenientes do município de Manacapuru (BALDUS, 1952).

As expedições do Museu Paulista parecem ter seguido o caminho das coleções adquiridas. Em uma viagem de Belém a Rio Branco, em 1950, Schultz “colheu”

24 Carta transcrita de frei Protásio Frikel a frei Fidelis Ott , em papel timbrado do Museu Nacional, com seguinte título: Cópia/Político/ Comunicação sobre pesquisas arqueológicas realizadas na região amazônica”, sd, Fundo Heloísa Alberto Torres/SEMEAR/MN.

informações de “achadouros” arqueológicos ao longo do rio Amazonas e Purus (BALDUS, 1951). Em 1953, Schultz foi a Santarém comprou uma coleção que contava 666 peças, entre as quais havia uma grande estatueta inteira. Nessas etapas de campo, com ajuda de Peter Hilbert, Schultz fez “(...) visita de cêrca de quarenta sítios arqueológicos nos rios Erepecurú, Trombetas, Paraná-Parintins e redondezas, bem como nos lago Juruti-Velho e Juruti-Mirim e outros. Durante trinta dias percorreu, em canoa com motor de popa, mais de mil quilómetros do Baixo Amazonas e seus afluentes” (BALDUS, 1954, p.281). O material coletado em Juruti e Parintins não foi enviado ao Museu Paulista, permanecendo para estudo no MPEG. Hilbert pretendida complementar seu estudo sobre a cerâmica Konduri, que era baseado em materiais da bacia do rio Trombetas e Nhamundá, na margem oposta do rio Amazonas. Os resultados deste campo nunca foram publicados.

Peter Hilbert e o antropólogo Eduardo Galvão realizaram um campo, em 1957, nos municípios de Santarém, Boim, Brasília Legal, Belterra e Monte Alegre. Dois anos antes o MPEG foi federalizado e passou a fazer parte do Instituto de Pesquisas Amazônicas, o que gerou mais recursos para a pesquisa arqueológica. Foram realizados treze cortes estratigráficos e várias coletas de superfície, incluindo a área urbana de Santarém. “Os objetivos dessa primeira viagem [segundo Galvão] foram estabelecer através de cortes estratigráficos uma possível seriação e cronologia relativa da cerâmica arqueológica tradicionalmente identificada como tipo „Santarém‟; estabelecer a área de difusão, desse tipo de cerâmica, no planalto e ao longo do rio Tapajoz”25. Os resultados dessa pesquisa também nunca foram publicados e o único documento conhecido é o relatório de campo com uma página.

A formação intensa das coleções particulares continuou na década de 1950 para além do que é possível localizar nos museus. Peter Hilbert (1955a, p. 20) relata o caso de uma vasilha inteira que ele soube que passou de mão em mão de Oriximiná a Faro até chegar na cidade de Parintins e ter seu paradeiro perdido. Helen Palmatary fez o maior levantamento de coleções de cerâmica do Baixo Amazonas, em 1953, e encontrou outros colecionadores além da de Barata e do casal Brown. Alguns desses colecionadores viviam na cidade de Santarém e cidades vizinhas. Ela visitou Charles

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GALVÃO, Eduardo. Relatório Anual da Divisão de Antropologia (Janeiro a Dezembro de 20157). MPEG/INPA, 1958. Arquivo Guilherme La Penha/ MPEG. 2f.

Townsend Jr, em Belterra, o filho de um famoso entomologista que trabalhou nas plantações de seringueira em Fordlândia, que continuou o trabalho do pai para a Ford Motors Company (EVENHUIS, 2015 et al.). Não se sabe exatamente quando começou a reunir sua coleção, mas é provável que tenha sido, entre as décadas de 1930 e 1940, quando trabalhava na região (ROSA, 2004). Outras peças certamente foram adquiridas depois, como as que eram da coleção de Protásio Frikel, provenientes de Faro e Oriximiná (HILBERT, 1955a). Na cidade de Santarém, Palmatary (1960) encontrou o casal de migrantes alemães Carlos e Ilse Liebold, que matinha uma coleção maior de peças encontradas nas ruas da cidade (Figura 17). O geólogo alemão Fritz Ackermann reuniu uma coleção de cerâmica em Oriximiná, que foi fotografada por Meggers e Evans (1957), cujo paradeiro atual é desconhecido.

Figura 17. Helen Palmatary com dois vasos efígie que na época pertenciam à coleção de Carlos Liebold. Atualmente ambas pertencem a Coleção Tapajônica do MAE-USP. Fonte: Palmatary, 1960.