Capítulo 2 – A Solução de Controvérsias na OMC: Regras, Estratificação de Renda e Caso-
2.2. Estratificação dos membros da OMC e participação no OSC
Para entender a dinâmica da atuação dos membros1 da OMC no Órgão de Solução de Controvérsias e a atuação dos países em desenvolvimento (PED) neste sistema é necessário primeiramente estabelecer um critério objetivo de classificação dos membros da OMC que represente adequadamente o estágio de desenvolvimento destas diferentes economias no período de análise. E como consequência, suas diferenças de recursos materiais e de acesso a conhecimentos técnicos e jurídicos especializados necessários à atuação no OSC.
1 No âmbito do presente trabalho utilizaremos de forma livre e intercambiável os termos membro,
parte ou país para designar os membros da OMC. Embora existam membros que serão considerados membros compostos, conforme posteriormente apresentaremos os casos de União Europeia e China, optamos por manter a simplicidade terminológica e fluidez do texto.
A premissa é a de que os PED, membros com menos recursos materiais e expertise, hesitariam mais em entrar com reclamações no OSC devido aos custos e dificuldades associados a acompanhar o desenrolar dos processos e mesmo de quantificar e provar os prejuízos sofridos por suas economias em virtude das práticas apontadas por estes como desleais (EVANS, SHAFFER, 2011, p. 341-348; CARVALHO, 2012).
A OMC não possui uma lista de países em desenvolvimento e a classificação em diferentes níveis de desenvolvimento na organização depende da autodesignação por cada país (OMC, 2013c), que pode ser alvo de contestação de outros membros. Por não possuir correspondência, portanto, com nenhum critério objetivo que possa ser convencionado e depender mais de uma relação política do que de uma base econômica, a autoclassificação adotada pela OMC não será utilizada.
Dessa forma, no decorrer do restante da presente seção discutiremos os critérios utilizados nesta pesquisa para a classificação dos membros da OMC em diferentes grupos de renda e de forma pormenorizada como se estabeleceram critérios para todos os ajustes para este efeito.
Para efeito da presente pesquisa, optou-se por utilizar como indicador do nível de desenvolvimento das economias dos países-membros da OMC, com alguns ajustes que serão explicitados a seguir, o critério classificatório desenvolvido pelo Banco Mundial: o Produto Nacional Bruto (PNB) per capita calculado pelo método Atlas2 (BM, 2013a).
O PNB representa o valor monetário da soma dos bens e serviços finais produzidos por fatores de produção (terra, trabalho e capital) nacionais em um determinado período independentemente do ponto do globo onde se dê a produção física dos mesmos (PAULANI, BRAGA, 2003). Em outros termos, o PNB é equivalente ao Produto Interno Bruto (PIB), que representa o valor da soma dos bens e serviços finais produzidos por uma economia em um período, adicionado da Renda Líquida recebida ou enviada do/ao exterior por esta economia como remuneração aos seus fatores de produção ocupados fora de seu território (Id Ibid).
Embora o PIB seja uma medida mais adequada para o tamanho total de uma economia3, o PNB é mais adequado enquanto expressão do nível de renda de uma
2 Disponível em <https://datahelpdesk.worldbank.org/knowledgebase/articles/378832-what-is-the-
world-bank-atlas-method>.
3 Mais adiante nesta pesquisa utilizaremos a variável PIB para representar o tamanho da economia
economia por computar as rendas recebidas ou enviadas pelo país. O método Atlas (BM, 2013b) é utilizado pelo Banco Mundial para diminuir o impacto de oscilações da taxa de câmbio dos países e corrigir os dados de acordo com as diferenças entre as taxas de inflação doméstica e internacional no cálculo do PNB.
Dessa forma, utilizaremos no presente estudo uma classificação baseada na metodologia do Banco Mundial para classificação de renda dos países por meio do PNB per capita. O Banco Mundial classifica anualmente os países de acordo com quatro classes de níveis de renda: países desenvolvidos com renda alta; países em desenvolvimento com renda média-alta; países em desenvolvimento com renda média-baixa; e países de menor desenvolvimento relativo com renda baixa.
A Figura 2.2 a seguir apresenta os patamares de PNB per capita anuais, para o período de 1995 a 2012, dentro dos quais os países devem estar para serem classificados a cada ano em um dos quatro estratos de nível de renda estabelecidos pelo Banco Mundial.
Figura 2.2: PNB per capita e nível de renda no período 1995-2012 (USD)
Fonte: Elaboração própria com base em BM (2013c).
Nota-se do quadro acima que o nível de renda per capita de um país para ser classificado como país desenvolvido (PD) variou de maior do que USD 9.385 a maior do que USD 12.615 no período de 1995 a 2012. Enquanto o nível de renda
para ser classificado como país em desenvolvimento de renda média-alta (PEDma) passou de estar compreendido no intervalo de USD 3.036 a USD 9.385 para o intervalo de USD 4.086 a USD 12.615 no período considerado.
No mesmo período, para ser classificado como país em desenvolvimento de renda média-baixa (PEDmb) o nível de renda per capita passou do intervalo de USD 766 a USD 3.035 para o intervalo de USD 1.036 a USD 4.085. Por fim, para ser considerado como país de menor desenvolvimento relativo (PMD) o nível de renda passou de inferior a USD 765 para inferior a USD 1.035.
O foco desta pesquisa é a atuação dos países em desenvolvimento (PEDma, PEDmb e PMD) no OSC em um período amplo de 18 anos (1995 a 2012) e a classificação em grupos de renda do Banco Mundial pode variar anualmente com base no cálculo do PNB per capita, visto que o processo de desenvolvimento econômico não é estável e uniforme apesar de seguir geralmente uma tendência regular (JONES, 2009).
Dessa forma, após a construção de nossos modelos explicativos nos próximos capítulos e durante a estimação de nossos modelos no último capítulo, a classificação de nível relativo de renda de cada membro acompanhará o processo de desenvolvimento econômico, podendo a classificação destes variar anualmente de acordo com estes critérios.
Adicionalmente, posteriormente, ao introduzirmos nossa discussão sobre a estimação do efeito de variáveis dummy ligadas aos diferentes níveis de renda per capita dos membros da OMC, promoveremos uma desagregação dos países em desenvolvimento de renda média-alta e média-baixa em quartis.
Uma vez que ambos os subgrupos de países em desenvolvimento são muito heterogêneos e abrigam países nos limites superiores e inferiores de renda em estágios bastante díspares de desenvolvimento econômico, a partir deste expediente espera-se captar melhor as reais diferenças relativas de renda e de outras variáveis associadas.
No entanto, para permitir uma aproximação preliminar sobre o tema, em nossa discussão inicial manteremos a classificação padrão do Banco Mundial com critério constante de classificação de cada membro de acordo com a categoria de renda na qual este apareceu classificado mais frequentemente no período.
A única exceção à aplicação desta regra foi o caso dos países integrantes da União Europeia (UE) devido às peculiaridades do processo de integração regional europeu. A UE enquanto bloco de integração regional é classificada como uma
União Econômica e Monetária incompleta (UE, 2013a), onde parte de seus integrantes utilizam uma moeda comum e todos os membros participam de um mercado comum com política comercial unificada. A Comissão Europeia, órgão executivo da UE, tem a função de representar seus membros em virtualmente todos os foros da OMC. No entanto, os 27 integrantes do bloco (até o ano de 2012) são também membros individuais da organização.
Em alguns casos especiais, os estados-membros da UE podem decidir atuar de forma separada do restante do bloco como em temas ligados a direitos de propriedade intelectual relacionados ao comércio, ou quando as legislações domésticas diferirem entre os integrantes e não forem disciplinadas por norma comunitária (OMC, 2013d).
Ademais, no caso da participação dos mesmos da UE no OSC eles podem ser reclamantes, acionados ou partes interessadas de forma autônoma, embora esta seja uma ocorrência muito pouco comum. A classificação dos membros da UE enfrenta ainda uma dificuldade adicional, o fato de o bloco ter iniciado o período de análise com composição de 15 integrantes e atravessado dois processos de alargamento para o Leste europeu no período, abarcando 10 novos membros em 2004 e mais dois novos no ano de 2007, conforme o Quadro 2.1 a seguir:
Quadro 2.1: Alargamento da UE (1995-2012)
União Europeia (Ano) Membros
UE15 (1995) Alemanha Áustria Bélgica Dinamarca Espanha Finlândia França Grécia Irlanda Itália Luxemburgo Países Baixos Portugal Reino Unido Suécia
Alargamento UE25 (2004) Chipre Eslováquia Eslovênia Estônia Hungria Letônia Lituânia Malta Polônia República Checa Alargamento UE27 (2007) Romênia Bulgária Fonte: Elaboração própria com base em (UE, 2013b).
Conforme se observa na Figura 2.3 abaixo todos os países-membros da UE em 1995 eram considerados desenvolvidos e dentre os novos membros abarcados pelo alargamento de 2004, sete eram considerados PEDma e outros três eram considerados desenvolvidos. No caso do alargamento de 2007, os dois novos entrantes eram classificados à época como PEDma.
Figura 2.3: Classificação dos Países-membros da União Europeia (1995-2012)
Já no ano de 2012, apenas três países integrantes do bloco não eram considerados desenvolvidos: Bulgária, Romênia e Hungria. Todos considerados como PEDma, com destaque para Hungria que foi classificada no período de 2007 a 2011 como PD, perdendo este status em 2012.
Tendo em vistas estas considerações, ressalta-se também o fato de que as adesões ao bloco não se materializam de uma hora para outra, mas envolvem um longo processo, que dura vários anos, de apoio tanto político quanto econômico por parte da UE aos países candidatos (UE, 2013c) e de esforço de assimilação das disciplinas representadas pelo Acervo Comunitário (Acquis Communautaire)4 do bloco por parte destes países.
Estes fatores têm implicações óbvias na política econômica e nas práticas comerciais dos países em questão, de modo que todos os países pertencentes ao bloco no ano de 2012 serão considerados para efeitos práticos como se tivessem pertencido formalmente à UE durante todo o período 1995-2012. Dadas ainda as características sui generis do bloco, o conjunto de países-membros da UE serão considerados para efeitos de análise como uma única entidade de renda per capita alta.
Outro caso que deve ser destacado é o de Macau e Hong Kong, Áreas de Administração Especial (AAE) da China, que embora façam parte da China continental desde sua devolução por parte das potências europeias que as mantinham como possessões ultramarinas no território chinês, possuem status de territórios aduaneiros autônomos e são membros individuais da OMC.
Hong Kong foi devolvida pelos britânicos de volta ao controle da China no ano de 1997, enquanto Macau foi devolvida pelos portugueses em 1999. Ambas são consideradas áreas desenvolvidas de alta renda per capita durante todo o período 1995-2012 de acordo com os critérios do Banco Mundial.
Apesar destas AAE gozarem de grande autonomia e terem sistemas de autogestão próprios, elas estiveram durante a maior parte do período de análise sob o controle efetivo do Estado chinês, ao qual estão subordinadas em temas de política externa, defesa e outros temas sensíveis, além de terem seus sistemas políticos parcialmente controlados por Pequim e uma alta simbiose com a economia chinesa.
Portanto, apesar do status especial destas áreas e de serem consideradas como membros desenvolvidos pelos critérios do Banco Mundial, é difícil imaginar
que decisões importantes como a abertura de um caso no OSC sejam tomadas de forma realmente autônoma por estas. No entanto, mesmo considerando-se o peso político da China neste processo decisório, neste caso não se optou pela integração destes membros em um único membro composto conjuntamente com a China, como no caso do tratamento dos países-membros da UE.
Neste caso específico, a grande diferença entre os níveis de desenvolvimento (PD x PEDmb) e de escala da economia destas áreas face à China ocasionaria sensível distorção dos dados caso as mesmas fossem agregadas em uma única entidade de renda média baixa sob dominância chinesa.
Do total de 157 membros pertencentes à OMC até o final do ano de 2012, nossa análise considerará inicialmente 130 membros após a consolidação do bloco europeu em uma única entidade (UE). Nos capítulos seguintes discutiremos a necessidade de outros ajustes neste quantitativo.
Destes 130 membros, de acordo com nossos critérios fixos preliminares apresentados (que serão posteriormente flexibilizados para a estimação dos modelos): 26 são considerados países desenvolvidos; e 104 são países em desenvolvimento – dos quais 36 são considerados de renda média-alta, 37 são considerados de renda média-baixa e 31 são classificados como países de menor desenvolvimento relativo.
2.3. Participação dos PED no OSC – Uma abordagem preliminar