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3 CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO

3.1 Creches no Brasil

3.1.3 Estudos sobre demanda

Mães e pais contemporâneos precisam de apoio de alternativas de cuidado e educação complementar para seus bebês, entendendo por cuidado e educação complementar aqueles não exercidos pelos pais da criança os mais comuns são: - cuidado e educação na casa da criança exercido por uma empregada/babá;

- cuidado e educação realizado por parente (avós, tios etc.) na casa da criança ou na casa do parente;

- cuidado e educação em creche ou pré-escola;

- cuidado e educação em creche familiar (grupo “pequeno” de crianças na casa do cuidador) (DAVIES; THORNBURG, 1994 apud RAPOPORT; PICCININI, 2004; MOREIRA; BIASOLI-ALVES, 2007).

Raras são as pesquisas brasileiras que tratam da demanda/escolha por cuidado e educação de bebês ou crianças pequenas em instituições coletivas: a

maioria das pesquisas entrevista apenas as mães, não focaliza os bebês, nem sempre especifica a idade das crianças, não investiga fatores como classe social, cor/raça, rural/urbano.

Rosemberg (2001b) define demanda como “uma necessidade sentida e expressa” (p. 25). A demanda pode ser explícita ou latente. A explícita é medida por meio de dados sobre a procura por determinado serviço. No caso das creches, pode ser aferida recorrendo-se à quantidade de crianças em lista de espera por uma vaga. Já a demanda latente só pode ser avaliada com a realização de enquetes ou pesquisas específicas, pois, por alguma razão (distância entre domicílio e equipamento, qualidade ou tipo de serviço oferecido, falta de necessidade ou interesse etc.), não se expressa diretamente.

Em 2004, Lima, então pesquisadora do NEGRI, realizou a pesquisa A demanda e escolha das mães por EI: um novo tema para o estudo da EI. Em seu estudo, a autora alerta para a complexidade que envolve a demanda/escolha de mães/famílias das camadas médias por EI. A temática envolve tanto a esfera normativa das instituições, quanto as características da própria mãe, da criança e da família, ou seja, assinala a diversidade da enfoques. Segundo a pesquisadora, à creche, como temos visto também, é associada uma imagem deteriorada no Brasil, como lugar carente de afetividade, lugar de abandono; além disso, as entrevistadas apontaram para a falta flexibilização de horários, difusão e informação sobre a creche como local que pode ser de boa qualidade para o cuidado e a educação de bebês.

Lima (2004), Vieira (2008) e Laviola (2010) mencionam em seus trabalhos a pesquisa Demanda por cuidado e educação de crianças menores de oito anos de idade em Belo Horizonte, realizada pelo Cedeplar26/FACE27/UFMG28 no ano de 1999. Nessa pesquisa foram entrevistadas 981 famílias mineiras sobre a utilização ou não de creches e pré-escolas, o tipo de estabelecimento frequentado, as formas de educação e cuidado escolhidas pelas famílias quando a criança não está frequentando um estabelecimento de EI e a percepção e interesse das famílias com relação aos serviços para crianças pequenas. Os resultados indicaram que a não frequência à creche ou à pré-escola está associada a diversos fatores: considerar a

26 Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional de Minas Gerais. 27 Faculdade de Ciências Econômicas.

criança muito nova (38,9%); falta de necessidade e interesse (22,1%); dificuldades financeiras (18,9%); carência de vagas (9,8%); atendimento inadequado (1,8%); falta de creches ou pré-escolas próximas à residência (5,1%). O estudo concluiu que, aproximadamente, 51.000 crianças daquele município e naquele contexto frequentariam creches e pré-escolas se as condições dos serviços oferecidos fossem outras.

Em outro estudo realizado pela UFMG no ano 2000, Vieira (2008) identificou que a maioria das mães residentes em regiões consideradas pobres deixava seus filhos sob os cuidados de adultos (avó, irmã/o, tia/o, vizinho/a) apesar de relatar preferir que seus filhos estivessem frequentando creches coletivas. As vantagens das creches, segundo as mães entrevistadas, seriam a segurança, a estimulação ao desenvolvimento, a higiene, o contato com outras crianças e a aprendizagem escolar, dentre outros aspectos.

As duas pesquisas citadas acima confirmam a insuficiência de vagas e inadequação da oferta. Por outro lado, em investigação realizada em creches públicas localizadas na Cidade do Rio de Janeiro, a grande maioria das famílias usuárias se dizia satisfeita com os serviços prestados pelas instituições (PACHECO; DUPRET, 2004). Outros estudos citados por Laviola (2010) sobre as representações de famílias de camadas populares que utilizam a creche apresentam dados parecidos: poucas das famílias entrevistadas conseguiram, de uma maneira geral, apresentar críticas em relação ao serviço que utilizam. Tais famílias reconhecem a creche, e ter conseguido a vaga, como “um milagre, uma dádiva ou um favor, muitas famílias entrevistadas não a identificavam como um direito da criança” (LAVIOLA, 2010).

No 27º encontro anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPED), Moro (2004) apresentou o trabalho As concepções sobre o sistema público de educação infantil de mães que utilizam e que não utilizam creches, realizado no município de São José dos Pinhais, localizado na região metropolitana de Curitiba, no Paraná. A pesquisadora entrevistou 30 mães de camadas populares cujos filhos tinham entre 0 e 6 anos, sendo 15 usuárias e 15 não usuárias do sistema público de EI. A maioria das mães cujos filhos frequentavam creche/centros de EI (66,67%) trabalhava como empregada doméstica. As participantes cujos filhos não estavam na EI tinham uma maior rede de apoio para o cuidado e educação dos filhos em comparação com as mães cujos filhos

frequentavam a creche/centros de EI. Das mães não usuárias de creche/centro de EI, 46,67% eram donas-de-casa e 26,67% estavam desempregadas.

A análise das entrevistas resultou em quatro conjuntos temáticos: motivo em ter colocado ou não os filhos na creche/centros de EI; função da creche/centros de EI; conhecimento sobre a programação educativa da creche e opinião sobre as creches do município.

As mães cujos filhos frequentavam a creche/centros de EI mencionaram a escolha em virtude do trabalho, da não disponibilidade da avó materna para cuidar do neto e desta ser a única alternativa em virtude da vulnerabilidade social. Por outro lado, as mães cujos filhos não estavam na creche explicitaram diversas razões por esta escolha: ter alguém para ajudar, querer acompanhar o crescimento do filho, opção de trabalhar em casa, não precisar trabalhar no momento, não conseguir vaga e desconfiar da qualidade do atendimento.

Sobre a função da creche/centros de EI, para as mães usuárias a instituição seria responsável por cuidar, educar e proporcionar interação com outras crianças. Segundo as mães não usuárias, a creche teria a finalidade de ajudar as mães que trabalham, tirar crianças das ruas (visão assistencialista), fazer a criança conviver com outras crianças, cuidar e ensinar.

As mães usuárias relataram ter pouco conhecimento sobre a programação de atividades. Alegaram saber da existência de um cronograma de atividades, mas não conhecer a programação; ficavam sabendo através dos filhos ou educadoras. Já as mães cujos filhos não frequentavam creche/centros de EI, afirmaram que deveria haver alguns exercícios, porém atividades diferentes daquelas realizadas nos jardins de infância ou escolinhas.

Ao avaliar as creches do município, houve mais críticas do que elogios. As mães usuárias avaliaram alguns aspectos positivos (bom trabalho, bom convênio médico) e outros que precisavam melhorar (rigidez de horário, ter parquinho, mais espaço coberto, focar mais na educação, melhorar a segurança). As mães não usuárias elogiaram o cuidado, tratamento e alimentação oferecidos às crianças. Entretanto, questionaram a segurança e o tipo de atendimento, se não deveria haver mais divertimento para as crianças.

De uma maneira geral, observa-se que as mães usuárias avaliaram mais positivamente a creche do que as não usuárias. “A opção das mães usuárias pela creche, apesar de poder ser entendida como “não escolha” lhes dá a oportunidade

de perceber a dimensão educativa da creche, o que não ocorre com as não usuárias” (MORO, 2004, p. 13-14).

Em pesquisas mais recentes no âmbito do NEGRI, Laviola (2010) e Galvão (2008) analisaram discursos de mães e pais urbanos paulistas brancos pertencentes às camadas médias da população sobre a educação e o cuidado de bebês. O termo creche foi rejeitado de uma maneira geral pelas mães e pais entrevistados, que, muitas vezes, o associaram à noção antiga da assistência, como instituição que oferece apenas cuidados básicos como higiene, alimentação e repouso, e pela noção de um serviço de baixa qualidade para crianças pequenas. Por outro lado, a nomenclatura escola é associada a um atendimento que inclui educação, brincadeiras e atividades, sem associação com a pobreza.

Nas duas pesquisas as expectativas de pais e mães com relação à creche de boa qualidade foram bem parecidas: os pais esperam um espaço limpo e adaptado às necessidades das crianças, onde se cuide bem da criança, que promova a socialização por meio da convivência entre pares (GALVÃO, 2008); as mães expressam o desejo de que seus bebês interajam com outras crianças, recebam estímulos que ajudem no desenvolvimento e entendem que os profissionais são capacitados, portanto estarão mais aptos que as mães, avós ou babás para estimular a criança (LAVIOLA, 2010).

A falta de capacitação apropriada dos funcionários, o horário de atendimento sem flexibilização e poucos adultos para cuidar de muitas crianças foram citados pelas mães entrevistadas por Laviola (2010) como razões para não utilizar a creche como opção de cuidado complementar à família. A creche foi considerada pela maioria das mães como uma das últimas opções de escolha para cuidado de seus bebês. Pais e mães entrevistados mostraram-se pouco mobilizados frente a temas ligados à política de creche (GALVÃO, 2008; LAVIOLA, 2010).

Na pesquisa de Laviola (2010), nenhum dos bebês das mães entrevistadas frequentava creche ou outra modalidade de EI, assim, todas as entrevistadas circunscreviam seus bebês ao espaço doméstico, sob responsabilidade própria, das avós maternas ou, em um caso apenas, da babá.

Dados publicados no Na Medida, Boletim de Estudos Educacionais do INEP (2009), com base na PNAD de 2007, traçaram o perfil das famílias brasileiras com crianças de 0 a 5 anos que frequentam a creche/pré-escola. O objetivo deste estudo foi apontar o impacto de determinadas características familiares sobre a

probabilidade de uma criança frequentar alguma instituição de EI. As características avaliadas foram: o tamanho/ número de componentes da família, a escolaridade dos familiares, a presença da avó no domicílio, a renda familiar e a participação da mãe no mercado de trabalho.

Segundo a pesquisa, o tamanho da família não é determinante da frequência ou não frequência à creche/pré-escola de crianças com idade entre 0 e 5 anos, porém, revela que a proporção de crianças na faixa etária de 0 a 5 anos que não frequentam a EI é maior em famílias que têm a presença de avós, maternas ou paternas, que muitas vezes assumem o papel de cuidadoras.

Os resultados indicam que filhos de famílias com maior escolaridade tendem a frequentar instituições de EI mais cedo. Da mesma forma, uma maior renda familiar está relacionada ao acesso a EI. Assim, a grande participação do setor privado na EI, especialmente na faixa etária de 0 a 3 anos, torna a renda familiar um fator determinante para a frequência de crianças pequenas à creche.

Outro dado analisado foi a participação da mãe no mercado de trabalho. O fato de a mãe ser economicamente ativa está diretamente relacionado ao fato da criança estar na creche/escola: a probabilidade de frequência é de 36,34% caso a mãe trabalhe fora, caindo para 24,77%, caso a mãe não trabalhe fora.

Moreira e Biasoli-Alves (2007) realizaram um estudo sobre a família e seus colaboradores na educação de seus filhos (na faixa de 2 a 7 anos de idade) em duas cidades brasileiras, uma localizada no interior paulista e outra em uma capital da região Nordeste. Essa investigação assinala as diferenças nas características de demanda de educação e cuidado infantil em regiões brasileiras. Todos os pais e a maioria das mães que participaram da pesquisa exercem atividade profissional e grande parte trabalha os dois períodos. Na cidade localizada no interior de São Paulo, as pessoas e instituições mais citadas como colaboradores na educação e cuidado dos filhos foram a escola/instituição de EI, os avós e os(as) tios(as). Por outro lado, na capital do Nordeste foram assinalados escola/instituição de EI, as babás/empregadas domésticas e os avós.

Ainda que metade dos entrevistados da cidade do interior de São Paulo tenham mencionado que a babá/empregada colabora com a educação e o cuidado dos seus filhos, esse número é bem maior na capital do Nordeste. Percebe-se que a disponibilidade de babás e empregadas é maior na capital do Nordeste, além de que estas permanecem mais tempo no trabalho visto que algumas residem com os

patrões, permanecendo na residência em tempo integral. Somam-se, ainda, os baixos salários pagos a babás e empregadas na região Nordeste, o que permite às famílias terem até duas ou mais pessoas trabalhando, uma empregada para cuidar da casa e uma babá só para o cuidado das crianças (MOREIRA; BIASOLI-ALVES, 2007).

As autoras observaram que as crianças da capital nordestina ingressam em instituições de EI mais cedo do que as crianças da região Sudeste. Há indicação de que as avós participam mais ativamente da educação e cuidado dos netos na região Nordeste do que na região Sudeste: 96% das mães nordestinas e 76% das mães do Sudeste concordam que as avós colaboram nesta tarefa (MOREIRA; BIASOLI- ALVES, 2007).

Além dos avós e das babás, as professora também foram apontadas como os principais colaboradores na educação e cuidado de crianças que frequentam instituição de EI, segundo Almeida (2011).

A pesquisa brasileira mais recente, realizada pela IPSOS29e pelo Instituto Patrícia Galvão30 (2012), teve abrangência nacional e investigou a opinião de mil

pessoas (531 mulheres e 469 homens, maiores de 16 anos) residentes em áreas urbanas sobre o cuidado da criança, a idade obrigatória do ensino no Brasil, a importância da creche, a avaliação dos atributos da creche e do desempenho da Prefeitura frente à qualidade das creches.

Com relação à responsabilidade sobre a criança quando os pais trabalham fora, foi observada uma variação de respostas na comparação entre as regiões do país: 62% dos entrevistados da região Nordeste e 69% das pessoas residentes na região Sul responderam que deve ser responsabilidade das mães/ família. Por outro lado, 57% dos entrevistados da região Sudeste e 52% dos participantes da região Centro-Oeste responderam que os órgãos públicos devem ser os responsáveis pelas crianças (Tabela 10).

29 Instituição privada de pesquisas. 30 ONG feminista brasileira.

Tabela 10 – Percepção da responsabilidade sobre a criança Nordeste vs. Sudeste (2012)

Percepção de responsabilidade sobre

as crianças/ Região Região Sudeste Região Nordeste

Da Prefeitura/ Governo do Estado/

Governo Federal 57% 19%

Das mães/ família 35% 62%

Da empresa onde a mãe trabalha 6% 3%

Fonte: IPSOS/Patrícia Galvão (2012).

A pesquisa investigou também se a creche é mais importante para as crianças ou para as mães e o resultado apontou a dupla importância: a creche é igualmente importante para crianças e mães, uma vez que 49% das pessoas entrevistadas indicaram ser mais importante para a criança e 48% para a mãe.

Ao avaliar os atributos das creches, os entrevistados citaram os seguintes aspectos como mais importantes: horário de funcionamento (56%), número de vagas (53%), localização (45%), funcionar nas férias (33%), não sabe/não respondeu (6%).

A análise das respostas apenas das mulheres entrevistadas em nível nacional indica que, independente da classe social, o número de vagas oferecidas é o atributo mais importante das creches, seguido pelo horário de funcionamento.

O desempenho da Prefeitura, no que diz respeito à qualidade das creches, foi avaliado como mais baixo por mulheres com crianças na faixa de 0 a 12 anos no domicílio em comparação com mulheres com crianças e adolescentes (0 a 17 anos) e só com adolescentes (12 a 17 anos) no domicílio. Já as mulheres sem filhos avaliaram as creches mais positivamente do que aquelas com filhos.

Os moradores das regiões Sul e Sudeste avaliaram melhor as creches do que aquelas que moram nas regiões Nordeste e Centro-Oeste. Na avaliação de qualidade das creches no Nordeste, nos chama atenção o número de pessoas que não souberam responder/não responderam (Tabela 11).

Tabela 11 - Avaliação das creches pelos residentes em regiões do Brasil (2012).

Avaliação das creches/ Regiões Nordeste Norte/Centro-

Oeste Sudeste Sul

Ótimo 6% 9% 13% 8% Bom 26% 22% 45% 48% Regular 27% 26% 24% 20% Ruim 8% 25% 6% 9% Péssimo 8% 8% 3% 4% NS/NR 25% 10% 9% 11%

Fonte: IPSOS/Patrícia Galvão (2012).

Com relação à idade obrigatória para ingresso em instituição de EI no Brasil, apenas 18% dos entrevistados acertaram a idade correta: a partir dos 4 anos. Segundo os responsáveis pela pesquisa, esse dado pode indicar baixo nível de conhecimento da população em geral sobre a idade que a criança deve, obrigatoriamente, frequentar uma instituição de ensino (IPSOS/ PATRÍCIA GALVÃO, 2012).

À luz das pesquisas citadas acima, é possível verificar que, nas diferentes regiões e camadas da população, a creche é percebida como uma opção de educação e cuidado complementar à família. No entanto, o desconhecimento das características da demanda, como a importância do número de vagas e do horário de funcionamento, somando-se à deficiência na oferta e na qualidade, e a possibilidade de contar com outras alternativas de cuidado e educação como avós, tios, babás/empregadas, pode estar dificultando a expansão dessa etapa da EI.