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1 UM HISTÓRICO DA ARTE DE ARGUMENTAR

1.2 A RETÓRICA: do conceito à aplicação nas propagandas e discursos políticos

1.2.3 Entre o ethos e o pathos: o discurso e a propaganda política

Meyer (2007, p. 11) comenta que “a retórica renasce sempre que as ideologias se desmoronam”, tais palavras instigam as reflexões acerca dos conceitos e da aplicação da

retórica no contexto dos discursos e das propagandas políticas, principalmente as que foram produzidas após a eclosão do Nazifascismo10, na Itália de Mussolini, na Alemanha de Hitler, no Estado Novo de Vargas e no “Brasil, um país de todos”, de Lula e seus companheiros do PT. O fato é que, nos momentos ora citados, encontramos sociedades dissolvidas entre o medo e a esperança e, ao mesmo tempo, desconfiadas do que há de vir. O pós I Guerra Mundial (1914-1918) oferecia ao mundo sinais de esgotamento das relações da Belle Epoque11. Os Estados Unidos da América emergiam como potência econômica e militar. A Europa operária vivia as expectativas da Revolução Comunista que vingara na Rússia Czarista, em 1918.

A sociedade burguesa dos anos iniciais do século XX esperava um regime de reversão da crise econômica ora instalada. A propaganda governamental fascista e nazista trouxe esperança e eficiência para os povos devastados pela guerra. Hitler, mais do que ninguém, soube usar os artifícios da publicidade no meio político. Símbolos, representações, discursos bem elaborados, tudo pensado e calculado para apresentar um sistema perfeito de vitória e redenção do “povo alemão”. Falando sobre este momento do século XX, o pesquisador de retórica, Michel Meyer (2007), explica o uso do cinema e da televisão para incitar as paixões nos auditórios.

Diante de uma crescente metaforização, a uma figuratividade muito forte, em todos os modos de expressão tradicionais foi realmente necessário que uma contrapartida realista se desenvolvesse. Ora, a história do século XX é uma aceleração vertiginosa desse movimento: as duas guerras mundiais e os totalitarismos foram contemporâneos de formas artísticas mais abstratas do que nunca, quando não desconcertantes. (...) Tanto o cinema quanto a televisão são seus suportes mais freqüentes. Por meio deles, assistimos a expressão de belos sentimentos, e também à dos que são menos belos, destinados a comover, a chocar, em último caso a despertar a reação do auditório, transformado em público (MEYER, 2007, p.119).

10 O termo “Nazifascismo” é uma aglutinação dos termos “nazismo” e “fascismo”. O nazismo foi uma ideologia

política surgida nos anos 1920 e 1930 na Alemanha, e teve seu auge durante o regime de Adolf Hitler. O fascismo surgiu na Itália, e resumia a doutrina totalitária e populista do líder Benito Mussolini na mesma época (VICENTINO, 2010).

11 “A Belle Époque foi o período que decorreu na Europa entre 1890 e 1914, ano em que começou a Primeira

Guerra Mundial. A expressão Belle Époque, contudo, só surgiu depois do conflito armado para designar um período considerado de expansão e progresso, nomeadamente a nível intelectual e artístico. Nesta época surgiram inovações tecnológicas como o telefone, o telégrafo sem fio, o cinema, o automóvel e o avião, que originaram novos modos de vida e de pensamento, com repercussões práticas no quotidiano”. INFOPEDIA. Disponível em: <http:// www.infopedia.pt/$belle-epoque;jsessionid=y-gcr2pjcwcuw+8xvrqjza__ >. Acesso em: 07 mar. 2014.

O Brasil da década de 1930 respirou, embora distante, a publicidade nazifascista. Em 1930, os “desvalidos da pátria”12 assistiam à queda das oligarquias de São Paulo e Minas Gerais por uma suposta “revolução”. As versões históricas sobre o assunto relatam o período como uma reviravolta da vida republicana ou, simplesmente, como uma troca de elites no poder. Quando as forças opositoras da política do “café-com-leite” depuseram o presidente Washington Luís e emplacaram Getúlio Vargas no comando do futuro projeto político do país, não imaginavam como contribuíram para a construção da retórica do discurso e da publicidade política no decurso da história do Brasil.

Com o lema “o Pai dos Pobres” – construído pelo Departamento de Imprensa e Propaganda –, Vargas abria um caminho para a utilização da argumentação e da retórica na vida política do país. Isso não classifica os políticos anteriores a Getúlio Vargas como não utilizadores da retórica, mas é preciso ressaltar que, com Vargas, inaugura-se uma nova forma de se dirigir ao povo brasileiro, principalmente nos discursos para as camadas mais empobrecidas da sociedade. Diferentemente dos governos anteriores, em que a massa era tratada como “caso de polícia”, Getúlio Vargas chama os trabalhadores brasileiros para a cena principal. Exemplo clássico é a forma como iniciava seus discursos: “Trabalhadores do Brasil”.

Um aparato publicitário movimentou-se para colocar em cartaz a máquina da propaganda do então presidente. Revistas, cartazes, banners, rádio, passeatas, símbolos, e um manancial de retórica construíram Getúlio Vargas como o personagem principal desta trama que ligava poder e povo. Tal fato evoca o ethos construído pelo ex-presidente no seu governo, de 1951 a 1954, quando, frente a pressões políticas, suicidou-se e despediu-se do povo em uma carta-testamento. Essa carta, publicada em 25 de agosto de 1954 pelo Jornal do Brasil, expõe a preocupação do “Pai dos Pobres” com a continuidade da vida das massas e justifica o seu suicídio como a forma de libertar o povo brasileiro da escravidão.

Quase cinquenta anos depois, Luiz Inácio Lula da Silva reinventa a máquina publicitária governamental brasileira e a coloca sob a tutela do seu projeto político de poder. O orçamento da União, talvez “nunca antes na história desse país”13 tenha conhecido tamanho investimento. A eficiência e a afetividade sobressaem aos olhares da população pelo

12 Expressão corriqueiramente utilizada pelos políticos brasileiros ao se referir à população pobre e

marginalizada do país. O termo foi originalmente empregado para designar os meninos matriculados no Asilo para os Meninos Desvalidos, fundado em 1875, na Corte, na Chácara dos Macacos, em Vila Isabel, no Rio de Janeiro (CAMPOS, 2010).

13 Expressão ou bordão utilizado de forma corriqueira pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao discursar e

dinamismo da TV, pelas ondas do rádio, pelo colorido das revistas e jornais e um forte apelo às paixões, que remontam ao antigo e sempre atual Aristóteles.

A utilização da eficiência e da afetividade como estratégias discursivas é uma das alternativas para a construção dos projetos de poder. É claro que isso não é bastante para a sustentação destes projetos. Elementos históricos, sociais, culturais e outros também contribuem. Porém, todos os elementos são apresentados através das práticas discursivas para convencer o auditório. Em artigo publicado pela Revista Línguas e Letras, o pesquisador de retórica, Ivo José Dittrich (2010), escreve sobre as categorias de afetividade e efetividade no discurso político-midiático.

Como categorias analíticas, afetividade e efetividade e suas respectivas estratégias retóricas apontam, pelo menos, uma primeira alternativa para a caracterização do discurso político. Todavia, como toda e qualquer proposta sistematizadora, sofre as consequências provenientes das tentativas de generalização: uma vez selecionadas, podem dificultar o olhar para outras categorias tão ou mais importantes (DITTRICH, 2010, p. 11).

As linhas de estudo para nosso trabalho avançam sob a perspectiva da Retórica, considerando, como base, os fundamentos dos clássicos gregos e a comunhão entre orador e auditório proposta pela Nova Retórica através dos meios persuasivos. Olivier Reboul (2004, p. 17) explica os meios do discurso persuasivo colocando-os como racionais ou afetivos, destacando que, na retórica, razão e sentimentos são inseparáveis. O corpus em análise, apesar de apresentar uma prestação de contas e buscar meios racionais para prová-la, é também do meio afetivo, pois temos um orador que chama a atenção para arrecadar a confiança do eleitorado.

2 “A ESPERANÇA VENCEU O MEDO”: O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO E UTILIZAÇÃO DA RETÓRICA NO DISCURSO DE LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA

O discurso político da república brasileira fomenta-nos para o estudo de lideranças que se projetaram empunhando a bandeira construída pelos militares em 1889 no elitizado14 ato da proclamação da república. Marechal Deodoro da Fonseca, Quintino Bocaiúva, Benjamim Constant, entre outros, revelaram em verde, amarelo, azul e branco os sonhos de um país livre das amarras imperiais. Apesar de construída pela tutela da elite brasileira, e embora no ato de sua proclamação o povo não tenha aplaudido ou chorado pela Monarquia, a república despertou o anseio da população brasileira por renovação, liberdade e democracia. No decorrer de sua história, observamos um distanciamento do princípio nato da democracia e das causas populares.

Fraudes, corrupção, tensões e supostas revoluções fazem parte do jogo da edificação republicana. Mas nada nos parece mais interessante no estudo dessa trajetória política do que o campo dos discursos políticos e, nesse quesito, desde a sua implantação, no final do século XIX, até os dias contemporâneos, a república brasileira conheceu lideranças que estabeleceram uma comunicação direta com os anseios das massas populares através de seus pronunciamentos, aparições, atos e da máquina de propaganda governamental, ou seja, do

marketing político.

Os personagens nasceram do calor político republicano. De forma aleatória e sem critérios de exclusão de outros políticos, podemos citar: Getúlio Vargas, Juscelino Kubistchek, Jânio Quadros, João Goulart, Arthur da Costa e Silva, Ernesto Geisel, Fernando Henrique

14 A república trouxe consigo um novo modelo de cidadão, algo que deveria ser alcançado através da

ação da medicina sanitarista e das obras de engenharia da Belle Époque. Os regramentos da moral burguesa traçaram mudanças que afastariam a grande massa de indivíduos que tinham uma vida mais humilde, sendo esses gradualmente excluídos do centro urbano para locais mais afastados dos olhos dos indivíduos de classe. Os anseios e objetivos da elite política brasileira, identificados com as palavras “modernidade”, “civilização” e “urbanização”, entre outras, também imprimiram suas marcas desde o início do período republicano. A expressão utilizada refere-se à inexistência da participação popular no processo histórico de construção da república. Militares e a elite agrária cuidaram de assegurar o controle político da nação com a derrocada do Império, as palavras do historiador Jorge Caldeira (1998, p. 225) clareiam o termo: “enquanto decidiam o que fazer, os vitoriosos aproveitaram a tarde para dar publicidade ao gesto. Deodoro foi desfilar com as tropas pelo centro da cidade, acompanhado por alguns republicanos. O povo, como disse Aristides Lobo, ministro do governo provisório e, portanto, insuspeito, ‘assistiu a tudo bestializado’”.

Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva. Não faltaram argumentações sobre os homens citados para classificá-los como populistas, personalistas e midiáticos. Assentidos pelas massas populares, aprofundaram no Brasil uma forma de se fazer política apoiada nas capacidades argumentativas e retóricas de adesão aos seus projetos políticos.

Partindo do pressuposto de que, segundo os dicionários, discurso é a exposição de ideias, proferido em público, feito de improviso ou antecipadamente escrito com esse propósito, nossos oradores não hesitaram em aproveitar suas respectivas capacidades – cada qual à sua maneira – para enaltecerem suas realizações e elaborarem uma imagem positiva de si mesmos. Sabemos que o discurso político produz influências sociais, especificamente no que tange à construção da imagem positiva dos oradores que o utilizam.

O discurso político produz influências sociais provocadas por oradores que pretendem construir para si a imagem de “salvadores da pátria”. Com propostas de reformas rápidas, sólidas e que prometem salvar o povo da situação indigna em que se encontra. Diríamos que, sem a palavra, ou, como mencionamos, sem o discurso político, jamais os personagens populistas da história republicana brasileira conseguiriam identificar-se com seus locutores e provocar o convencimento dos cidadãos e, portanto, fazer acontecer socialmente sua fala, conforme encontramos em Charaudeau (2008, p. 21):

O governo da palavra não é tudo na política, mas a política não pode agir sem a palavra: a palavra intervém no espaço de discussão para que sejam definidos o ideal dos fins e os meios da ação política; a palavra intervém no espaço de ação para que sejam organizadas e coordenadas a distribuição das tarefas e a promulgação das leis, regras e decisões de todas as ordens; a palavra intervém no espaço de persuasão para que a instância política possa convencer a instância cidadã dos fundamentos de seu programa e das decisões que ela toma ao gerir os conflitos de opinião em seu governo.

Sugerindo que os oradores citados construíram um ato de linguagem, em que se estabelecem relações praticamente contratuais com o seu público, é possível concluir que o discurso político exaure aquilo que é esperado pelos parceiros da fala. Logicamente, isso ressalta a dependência do discernimento sobre quem irá ouvi-lo e como pretende decifrar o que recebeu. Para atingir o alvo indicado acima, os oradores políticos precisam, conforme Charaudeau (2008), de três condições que fundamentem o direito à fala: o reconhecimento do saber, do poder e do saber fazer. Diante do que expusemos, a busca pelo poder acabou interligada à boa estratégia do discurso político. Por vezes, isso pode levar ao distanciamento da política ou à forma de fazer política.

Sociedades organizadas, desde a Antiguidade Oriental, erigiram formas de exercício do poder. Surge daí um questionamento que remonta aos estudiosos da política e da democracia no interior da Grécia clássica: quem deve ter o poder, a serviço de quem deve estar? Platão, através da sua filosofia das ideias, não escondeu a preocupação com a questão e discutiu os pressupostos para uma cidade coesa e feliz. Para o discípulo de Sócrates, o caminho seria a busca da sabedoria e esta a oportunidade para o bom desenvolvimento da pólis. Outros pensadores também procuraram encontrar uma resposta para o exercício do poder em diferentes períodos. Santo Agostinho, com sua cristianização do platonismo, adotou a virtude para o encontro da perfeição no bem-estar da comunidade. Maquiavel e a teoria do exercício de poder – que não cessa nas mãos do Príncipe –, justificou suas convicções na proposta do bem coletivo com a máxima de que “os fins justificam os meios”.

Não temos o objetivo de construir um tratado sobre as diferentes concepções de se trabalhar o discurso político em cada período da humanidade, mas, como afirma Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005, p. 185), “a forma em que são apresentados os dados não se destina somente a produzir efeitos argumentativos relativos ao objeto do discurso; pode também oferecer um conjunto de características relativas à comunhão com o auditório”.

A comunhão com o auditório faz do discurso político um elemento essencial na utilização da linguagem para uma positiva interlocução. Segundo Koch (1997, p. 29), “o uso da linguagem é essencialmente argumentativo”. A estruturação deste trabalho – pautado nas diretrizes da argumentação e retórica – constitui-se da análise e estudo do discurso político de um líder, nascido do interior das massas populares e que conquistou o mais alto cargo político do Brasil. Referimo-nos a Luiz Inácio Lula da Silva, conhecido como Lula. Ele não alcançou seu objetivo apenas participando de um agrupamento (partido) de pessoas, mas sustentado em sua capacidade de persuasão e sedução. Gestos, olhares, expressões faciais, voz e outras facetas definem o comportamento do orador no discurso político e indicam a confiança que este poderá receber de seu auditório.

Sabemos, pelo decorrer do processo político republicano brasileiro, que Lula utilizou bem destes mecanismos para construir a imagem pública que o envolve desde o nascimento do ser político sindical e, até mesmo, após o final do seu mandato presidencial. Em trabalho sobre a construção da imagem de Lula durante o período em que atuava no parlamento brasileiro, Souza (2010, p. 35) exprime:

Lula, como ator social, de posse do metalúrgico, líder sindical, assalariado, pai de família, trabalhador e cidadão, torcedor de futebol, nordestino, com propriedade de quem ocupa o lugar ideal na cena de enunciação, consagrou-se como um político popular. Ivana Bentes, Diretora da Escola de Comunicação da UFRJ, denominou Lula anos depois, já como Presidente da República, de “radicalização da democracia” e “potência da multidão”. (Disponível em www.olharvirtual.ufrj.br, Acesso em: 06 de maio de 2010). Talvez, de fato, essas expressões definam Lula e sua relação com a população, principalmente se levarmos em consideração que foi reeleito com 60,8% dos votos válidos, no segundo turno das eleições de 2006.

Lula nasceu em 27 de outubro de 1945, no então distrito de Caetés, município de Garanhuns, interior de Pernambuco. Apenas mais um dos oito filhos de Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Melo, a dona Lindu. A infância marcada pelas dificuldades financeiras fez a família migrar para o litoral paulista no famoso veículo “pau-de-arara”. Entre idas e vindas, moradias aqui e acolá, a família mudou-se para São Paulo. Com apenas o ensino fundamental completo e a pobreza no currículo, Lula empregou-se aos 12 anos de idade. O emprego na Fábrica de Parafusos Marte propiciou um curso de torneiro mecânico pelo SENAI – Serviço Nacional da Indústria –, e, posteriormente, a profissão de metalúrgico. A metalurgia o levou a São Bernardo, cidade integrante do ABC paulista. O próprio contexto de vida contribui na apresentação de seu discurso político e na construção do seu ethos, ou seja, a “formação da imagem de homem simples oprimido pela burguesia” (MANHANELLI, 2008, p. 29).

A profissão de torneiro mecânico permitiu o encontro com o movimento sindical através de seu irmão José Ferreira da Silva, mais conhecido por “Frei Chico”. O crescimento na luta sindical foi meteórico: afiliação em 1969, eleito presidente do sindicato em 1974, reeleito em 1978 com 98% dos votos, e, após 10 anos sem greves operárias – em razão do regime opressivo em vigor –, ocorreram no país as primeiras paralisações. Em março de 1979, 170 mil metalúrgicos pararam o ABC paulista. Após a luta sindical e com a precária representatividade do movimento, o líder decide, juntamente com outros sindicalistas, intelectuais, políticos e representantes de movimentos sociais – como lideranças rurais, lideranças religiosas, entre outros – pela fundação do Partido dos Trabalhadores (PT).

Os idos de 1980 inspiravam a luta que contava com a abertura política em progresso, mesmo recebendo posicionamento contrário por parte da camada política ligada à Ditadura Militar ainda em curso no Brasil. Uma nova greve no mesmo ano da fundação do partido levou Lula a trinta e um dias de prisão. Festejado após a saída da prisão, apresenta, em sua fala, os primeiros sinais de carisma e liderança:

Vamos continuar brigando, primeiro para o restabelecimento da democracia nesse país, e continuar brigando para que os trabalhadores conquistem aquilo que eles reivindicavam, e que o governo não entendeu ‘patavina’ nenhuma e que os empresários não entenderam (QUEIROZ; MACEDO, 2008, p. 30).

O discurso acima expõe o ethos de um líder sindical incansável. Ao sair da prisão, Lula dirigiu-se aos operários e pronunciou o bordão corriqueiro que funcionou como uma marca do operário-sindicalista: “Companheiros, a luta continua”. Em 1984, Luís Inácio participou como uma das principais lideranças da campanha das "Diretas-Já", que reivindicava a aprovação da Emenda Constitucional Dante de Oliveira. A emenda citada pleiteava eleições diretas para o cargo de Presidente da República para o próximo mandato. A proposta foi rejeitada no Congresso e, quando indagado sobre o resultado negativo do momento, dirigiu-se, agora, não só aos operários, mas ao povo brasileiro, repetindo novamente: “Companheiros, a luta continua”. O bordão o acompanhou durante as derrotas e serviu de inspiração para as sátiras produzidas pelos programas humorísticos de rádio e televisão.

Em 1986, com a primeira vitória eleitoral, é eleito o deputado federal mais votado do país. Eleito deputado federal pelo Estado de São Paulo foi integrante da Assembleia Constituinte que promulgou uma nova constituição para o Brasil em 05 de outubro de 1988. Atuou na formulação da Constituinte, contribuindo para o debate e aprovação de medidas de direitos civis e sociais como o direito à greve, a licença-maternidade de 120 dias e a redução da jornada de trabalho de 48 para 44 horas semanais. Em destaque pela atuação como deputado federal, aliado à sua história no sindicalismo e como líder da então esquerda brasileira, Lula apresenta seu nome como candidato à Presidente da República de 1989, a primeira eleição direta