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Capítulo 6 Historiografia romântica: o olhar estrangeiro

3. Ferdinand Denis

O primeiro historiador estrangeiro a considerar a literatura brasileira como uma literatura distinta da portuguesa é o francês Ferdinand Denis (1798-1890) com a obra (a propósito significativamente intitulada) Résumé de l’Histoire Littéraire du Portugal, suivi du 22 Op. cit., p. 60; p. 65. 23 Op. cit., p. 72. 24

A título de curiosidade, registre-se que o mesmo Garrett, no final de sua vida (1853-54), iria voltar-se ao Brasil como tema de um romance, intitulado Helena, que não chegou a concluir. Sem conhecer pessoalmente o país, o escritor português ambienta sua narrativa numa fazenda escravista do interior dedicada à produção de açúcar. A tentativa de dar conta da constituição étnica (brancos, negros, índios, mestiços) e da organização social da fazenda (em bases escravocratas), bem como da natureza tropical brasileira, frustra-se porém no registro exótico e fantasioso do meio, e num enredo e numa construção de personagens pouco verossímeis, com frágeis vínculos com a realidade econômica e social que o autor pretende representar. Conferir, a propósito deste romance, o artigo “O Sonho Brasileiro de Almeida Garrett”, de Paulo Franchetti. (Correio Popular, Campinas, sábado, 26 de agosto de 2000.)

Résumé de l’Histoire Littéraire du Brésil, de 1826. Trata-se, como já se destacou, de um

estudo elaborado e publicado nos anos imediatamente posteriores à emancipação política brasileira, que de alguma forma ecoa muitas das questões ideológicas vindas a reboque.

João Hernesto Weber, em A nação e o paraíso, sublinhando o caráter inaugural da obra de Denis, vai identificá-la “como um texto fundamental à reflexão sobre a nacionalidade literária, não somente por ser o primeiro a apontar para a nacionalidade possível da literatura produzida no Brasil, mas por ter exercido papel de verdadeiro ‘manifesto’ do nacionalismo literário brasileiro, ao indicar, já no subtítulo do capítulo I do seu livro, o ‘caráter que a poesia

deve assumir no Novo Mundo’(...)”.25

Percorrendo o texto de Ferdinand Denis através da tradução de Guilhermino César26, depara-se, já de início, no título da primeira seção, com uma formulação que tem muito de programático: “Considerações gerais sobre o caráter que a poesia deve assumir no Novo Mundo”. Num texto que se propõe a resumir a história da literatura brasileira, como o fará, aliás, nas seções seguintes, comentando autores e obras do passado a partir de um critério que oscila entre o cronológico e o tipológico, não deixa de chamar a atenção uma seção introdutória que se configura como uma espécie de preceituário para os brasileiros (e outros americanos, acrescente-se) contemporâneos, apontando-lhes o caminho que deverá seguir a poesia.

Denis é todo francamente simpatia e entusiasmo em relação às potencialidades da terra e do homem americanos. Ao contrário de outros europeus que viam nos trópicos um meio de desagregação dos elementos fundamentais formadores da civilização, o historiador francês acaba por apontar, inclusive, para o destino superior da civilização sul-americana e brasileira, potencialmente em condições de ombrear com a própria civilização européia de que é herdeira.

25

WEBER, A nação e o paraíso, p. 33. Os termos em itálico no interior da citação encontram-se em negrito no original.

26

DENIS, Ferdinand. “Resumo da História Literária do Brasil”. Tradução de Guilhermino César. In: CÉSAR,

Se não deixa de omitir os vínculos de contigüidade entre a Europa e a América, ele os põe porém em tensão com as condições de diferenciação e independência aqui entrevistas, para as quais insiste reiteradamente em formulações de sabor imperativo. Confira-se o que diz, por exemplo, a respeito da língua, do pensamento, dos valores transplantados no confronto com os novos e exuberantes dados do meio brasileiro, em especial a natureza:

Se essa parte da América adotou uma língua que a nossa velha Europa aperfeiçoara, deve rejeitar as idéias mitológicas devidas às fábulas da Grécia: usadas por nossa longa civilização, foram dirigidas a extremos onde as nações não as podiam bem compreender e onde deveriam ser sempre desconhecidas; não se harmonizam, não estão de acordo com o clima, nem com a natureza, nem com as tradições. A América, estuante de juventude, deve ter pensamentos novos e enérgicos como ela mesma; nossa glória literária não pode sempre iluminá-la com um foco que se enfraquece ao atravessar os mares, e destinado a apagar-se completamente diante das aspirações primitivas de uma nação cheia de energia.

Nessas belas paragens, tão favorecidas pela natureza, o pensamento deve alargar-se como o espetáculo que se lhe oferece; majestoso, graças às obras-primas do passado, tal pensamento deve permanecer independente, não procurando outro guia que a observação. Enfim, a América deve ser livre tanto na sua poesia como no seu governo.27

A consideração do homem original americano, o índio, bem como toda uma postulação embrionária do que será posteriormente, nas mãos de críticos e escritores românticos, um dos programas dessa escola no país, o indianismo, aparece já aqui:

(...) A sua idade das fábulas misteriosas e poéticas serão os séculos em que viveram os povos que exterminamos e que nos surpreendem por sua coragem, e que retemperaram talvez as nações saídas do Velho Mundo: a recordação de sua grandeza selvagem cumulará a alma de orgulho, suas crenças religiosas animarão os desertos; os cantos poéticos, conservados por algumas nações, embelezarão as florestas. O maravilhoso, tão necessário à poesia, encontrar-se-á nos antigos costumes desses povos, como na força incompreensível de uma natureza constantemente mutável em seus fenômenos: se essa natureza da América é mais esplendorosa que a da Europa, que terão, portanto, de inferior aos heróis dos tempos fabulosos da Grécia esses homens de quem não se podia arrancar um só lamento, em meio a horríveis suplícios, e que pediam novos tormentos a seus inimigos, porque os tormentos tornam a glória maior? (...)28

Mas se o índio surge, idealizadamente, como matriz antropológica a ser explorada pela arte e pela literatura, o historiador francês não deixa também de reportar-se às três raças fundadoras - o negro, o branco e o índio (em específico e no amálgama das três) - de modo bastante positivo. A diferenciação americana se dava, também, pela fusão das raças, e essa

27

Op. cit., p. 36.

28

postulação teria fortuna um pouco menos promissora entre os primeiros românticos brasileiros.29

Ainda no capítulo do confronto entre a Europa e a América, merece destaque a passagem que coloca a segunda como herdeira e substituta da primeira, um belo parágrafo- síntese do entusiasmo de Denis em relação ao Novo Mundo:

Não temo dizê-lo, o americano, no qual tantas raças se misturam, o americano, orgulhoso de sua terra, de sua riqueza, de suas instituições, virá um dia visitar a Europa, assim como dirigimos nossos passos na direção das ruínas do antigo Egito. Pedirá então lembranças poéticas a esta terra que brilhara com tamanho fulgor; pagar-lhe-á justo tributo de reconhecimento. A Europa fundamentou a grandeza do Novo Mundo, e este será talvez, um dia, o seu mais belo título de glória.30

O historiador destaca, em seguida, a crescente influência francesa sobre a cultura brasileira, que estaria suplantando, na sua visão, a exercida por Portugal até então. Surpreendia, em seu nascedouro, a questão do diálogo franco-luso-brasileiro, capital para se entender a literatura produzida no Brasil ao longo de todo o séc. XIX, bem como a diferença entre a ascendência francesa e a britânica sobre o país.31

As seções seguintes vão dar conta, finalmente, de uma primeira tentativa de narrar a história da literatura brasileira, independente da portuguesa, desde suas possíveis origens até o momento em que o autor escrevia.

Dataria do início do séc. XVII, na sua ótica, o início da poesia no Brasil. Na seção “Visão sumária de alguns poetas dos séculos XVII e XVIII, o autor arrola alguns nomes, indo de Bento Teixeira a Antônio José da Silva, ignorando porém Gregório de Matos.

Nas seções subseqüentes, o historiador vai se deter mais demoradamente sobre algumas obras. Reserva um bom espaço, por exemplo, ao poema épico Caramuru, de Santa Rita Durão, que ele resume e comenta mais detidamente. E a maior demora, neste caso, logo 29 Op. cit., pp. 38-40. 30 Op. cit., p. 38. 31 Op. cit., p. 41.

se evidencia: trata-se de texto com abundante matéria americana (o confronto de índios com colonos portugueses, já no início da colonização, a assinalar, emblematicamente, o surgimento do homem brasileiro), o que, a despeito dos seus defeitos de estilo e composição, justificaria o interesse. Além do material mítico-histórico, haveria também uma boa representação da natureza, o que o provoca a dizer:

(...) Aliás, o Caramuru é totalmente desconhecido na Europa; nenhuma história literária o menciona, e já seria por si mesmo de alto interesse que nos contentássemos em observar a cor local, nele dominante. Os americanos não têm feito sempre sentir em suas produções, o influxo da natureza que os inspirou; antes da Independência, parecia até pretenderem olvidar a própria pátria para pedir à Europa um quinhão da sua glória. Agora, que têm necessidade de fundar sua literatura, repito: ela deve ter caráter original.32

Sublinhe-se aqui as expressões “cor local” e “caráter original”, pré-requisitos para a fundação da nova literatura, e a estratégia de Denis, de buscar no passado, a partir do presente, os mesmos elementos que propõe para a literatura futura.

No final da abordagem do Caramuru, as mesmas questões estarão de volta, agora numa outra e sugestiva expressão: “Não obstante, julguei-me obrigado a analisar a obra de Durão, porque reveste caráter nacional, apesar de suas imperfeições, e assinala claramente o objetivo a que deve dirigir-se a poesia americana.”33 “Caráter nacional” é expressão que terá larga fortuna. Como sugere Regina Zilberman, é esta uma de suas ocorrências mais recuadas entre os historiadores românticos da literatura brasileira.34

A obra seguinte a ser abordada com maior minúcia é O Uruguai, de Basílio da Gama, poema épico que por razões semelhantes ao Caramuru merece a atenção do historiador. Aqui também a matéria vincula-se à história local, especificamente aos confrontos entre os colonizadores e os índios das missões jesuíticas do sul, com direito a uma ampla apreensão da natureza americana (está-se já no tempo do Marquês de Pombal e dos conflitos entre a administração portuguesa e os jesuítas). Denis, desde logo, faz restrições à originalidade de composição do poema, que seria porém compensada pelas virtudes de estilo e pela 32 Op. cit., p. 47. 33 Op. cit., p. 57. 34

representação da natureza. A “hábil descrição do Novo Mundo”, nos termos do historiador, surgia como elemento decisivo a alçar a obra à condição de obra referencial. 35

Alguns poetas líricos merecem destaque, entre eles, Tomás Antônio Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa. O juízo dedicado a cada um é, curiosamente, similar. Denis parece reconhecer as habilidades composicionais de ambos os poetas, mas censura justamente a ausência da “cor local” e a excessiva fidelidade aos modelos estrangeiros.36

Curiosamente, é em relação a um poeta nascido em Portugal e habitualmente incorporado pela historiografia literária ao âmbito das letras lusas, que viveu no Brasil entre 1776 e 1789 exercendo funções de desembargador no Rio de Janeiro, e que para cá regressaria no ano seguinte na delegação de juízes designados a julgar a chamada Inconfidência Mineira, Antônio Dinis da Cruz e Silva, que o historiador francês tece o elogio sem ressalva:

Embora Dinis da Cruz e Silva não tenha nascido na América, colocá-lo-ei aqui, entre os poetas que honram o Parnaso brasileiro. A natureza do Novo Mundo inspirou-lhe formosos trechos, conhecidos sob o nome de Metamorfoses do Brasil. Graças à sua brilhante imaginação, as mais graciosas ou deslumbrantes produções da América Meridional lhe sugeriram felizes alusões, preciosas sempre para a poesia. Vê-se que pretendeu seguir, ao percorrer aquelas paragens, os passos de Ovídio; mas em nada imitou, todavia, o seu modelo, no concernente às ficções mitológicas.37

A presença da “cor local” e a suposta maior independência em relação aos modelos europeus sobrepõem-se ao local de nascimento do escritor, avalizando a incorporação de parte de sua obra à literatura brasileira.

Merece destaque ainda a avaliação do historiador no que diz respeito ao estado da arte dramática no Brasil. E vaticina: “Os brasileiros terão verdadeiramente o seu teatro quando tiverem autores nacionais; e então ser-lhes-á dado experimentar qual é a verdade da representação dramática.”

35

DENIS, op. cit., p. 58.

36

Op. cit., pp. 66-69.

37

No restante de seu estudo, Ferdinand Denis irá deter-se ainda sobre o estado da arte dramática, da música e das artes plásticas no Brasil. Reconhece a existência de agrupamentos incipientes de atores e o interesse por parte do público, mas é severo em relação à dramaturgia local, importada da Europa, e carente, portanto, do necessário (e a expressão aparece aqui mais uma vez) “caráter nacional”.38 Quanto aos demais tópicos, sublinha a “propensão dos brasileiros para a música” e a contribuição da Missão Francesa. Aborda ainda sumariamente a oratória, a historiografia, os relatos de viagem e alguns estudos geográficos, o estado da imprensa e das publicações periódicas, pondo em destaque certas obras e autores.

Percebe-se que o seu “Resumo da História Literária do Brasil” acaba por abarcar manifestações que escapam ao âmbito mais restrito da literatura enquanto manifestação restritamente estética (da poesia épica, lírica ou dramática, que parecem ser os gêneros poéticos fundamentais que ainda estão no horizonte do autor, e que por isso são tratados com maior detalhe e em primeiro lugar), dando espaço para uma compreensão da situação cultural do Brasil em diferenciadas manifestações.

A repercussão da obra no ambiente intelectual do tempo foi assinalada seguidamente pelos historiadores da literatura. Antonio Candido, por exemplo, em Formação da literatura

brasileira, afirma que a obra de Denis estava “fundando a teoria da nossa literatura segundo os

moldes românticos, num sentido que a orientaria por meio século e iria repercutir quase até nossos dias.”39 Guilhermino César, por sua vez, declarava:

Se ninguém houvesse lido o Résumé, se a palavra candente do autor tivesse ficado esquecida, tal contribuição poderia ser arrolada, no máximo, entre os faits-divers de nossa literatura. Mas, não. Deu-se justamente o contrário. Num meio intelectual carente de guias, como o Brasil durante o Primeiro Reinado, sua voz repercutiu imediata e intensamente. Era alguém que falava, um europeu de Paris, convidando-nos ao conhecimento aprofundado da terra, chamando-nos a vistoriar a floresta, a conhecer hábitos e lendas do aborígene, a estudar velhas sagas por acaso sobreviventes em sua literatura oral.40

A presença das idéias de Ferdinand Denis nos primeiros historiadores brasileiros da literatura é tarefa, portanto, a que se vai dedicar a seguir. Entre alguns destes, porém, como se

38

Op. cit., p. 72.

39

procurará sublinhar, revelam-se lances de oposição à antiga metrópole, inexistentes no texto do historiador francês.

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