CAPÍTULO II – ESTUDO EXPERIMENTAL: ESTUDOS DE PERFIS
2. AVALIAÇÃO NEUROPSICOLINGUÍSTICA DOS SUJEITOS
2.4. R ESULTADOS DA AVALIAÇÃO NEUROPSICOLINGUÍSTICA
2.4.4. Discussão
2.4.4.2. Funcionamento neuropsicolinguístico de crianças com PHDA-I
desatento (PHDA-I), quando comparadas com as crianças normativas, permitiu verificar que estas possuem as maiores dificuldades ao nível da(s)/do(s): 1) organização e da perceção visual; 2) concentração; 3) capacidade de reconhecimento visual dos detalhes essenciais dos objetos; 4) conhecimento geral; 5) capacidade de aprendizagem associativa não-verbal; 6) estado de alerta mental; 7) velocidade e eficácia de processamento; 8) aptidões verbais; 9) amplitude do conhecimento; 10) motivação para o sucesso académico; 11) memória verbal a longo-termo; 12) destreza oculomotora; 13) organização percetiva; 14) componente espacial da perceção e da execução motora; 15) concetualização e organização visuoespacial; 16) coordenação oculomotora; 17) capacidade mental geral; 18) conhecimento verbal; 19) memória semântica e lexical); 20) fluência verbal; 21) formação de conceitos; 22) raciocínio não-verbal; 23) capacidade para analisar e sintetizar estímulos visuais abstratos sem exigências motoras; 24) inteligência visual alargada; 25) inteligência fluida; 26) processamento
118 simultâneo; 27) visualização e manipulação espacial; 28) capacidade para antecipar as relações entre as partes; 29) atenção auditiva; 30) capacidade de retenção a curto- prazo; 31) MTV (mecanismo de controlo executivo para focar a atenção e combater a interferência); 32) rastreamento mental duplo (processamento simultâneo da memória e de operações de reversão); 33) visualização mental e 34) capacidade de recodificação fonológica. Encontraram-se igualmente défices ao nível da capacidade de concetualização não-verbal e no processamento de analogias simples.
Em termos de rendimento cognitivo, diferenciam-se ainda das crianças normativas por defeitos acentuados ao nível dos três quocientes de inteligência da WISC-III (verbal, realização e escala total), da formação de conceitos verbais (ICV) e do raciocínio fluido e não-verbal (IOP). Por outro lado, comparativamente às crianças disléxicas, as crianças com PHDA-I distinguem-se por um pior desempenho no âmbito do raciocínio abstrato, do pensamento lógico, da formação de conceitos, da perceção e reconhecimento de logogramas e da velocidade e precisão de processamento de informação não-verbal. Por último, ao contrário de outras investigações (Alloway & Cockcroft, 2014; Kibby & Cohen, 2008; Martinussen, Hayden, Hogg-Johnson, & Tannock, 2005; Moura et al., 2017), não encontramos diferenças ao nível da memória visuoespacial a curto-prazo.
Os achados mencionados anteriormente são corroborados por inúmeros estudos que demonstraram que as crianças com PHDA-I, sem especificação do tipo clínico, apresentam comprometimentos em medidas de velocidade de processamento (Shanahan et al., 2006; Willcutt, Doyle, et al., 2005), fluência verbal (Takács et al., 2014) e capacidade de alternância de tarefas (Roberts et al., 2017). Exibem, igualmente, defeitos ao nível da inibição de respostas (Albert et al., 2016; Barkley, 1997; Willcutt, Doyle, et al., 2005), vigilância/monotorização (Willcutt, Doyle, et al., 2005), planeamento (Willcutt, Doyle, et al., 2005) e memória de trabalho (Alloway & Cockcroft, 2014; Sjöwall, Roth, Lindqvist, & Thorell, 2013; Willcutt, Doyle, et al., 2005), especificamente nos componentes da memória de trabalho que incluem a memória verbal e visuoespacial a curto-prazo (Kasper et al., 2012). A presença de defeitos nas últimas quatro áreas é sugestiva de alterações no funcionamento executivo, o que também vai ao encontro do estudo realizado por Willcutt, Doyle, et al. (2005). Acresce que segundo Sjöwall, Roth, Lindqvist, & Thorell (2013) as crianças com PHDA-I podem não possuir dificuldades no controlo inibitório ou apresentar, adicionalmente, défices noutros processos, designadamente atenção, processamento temporal de estímulos, motivação ou regulação emocional. Para além do funcionamento executivo, a presença de outros défices cognitivos é congruente com os modelos teóricos atuais que enfatizam a
119 heterogeneidade neuropsicológica da PHDA-I (Castellanos, Sonuga-Barke, Milham, & Tannock, 2006; Moura et al., 2017; Nigg, Willcutt, Doyle, & Sonuga-Barke, 2005). O comprometimento do FE foi concetualizado como resultante de uma perturbação do circuito pré-frontal-estriado, no entanto, existe evidência do envolvimento de outras áreas cerebrais, nomeadamente cerebelo (processamento temporal), áreas ventrais do córtex pré-frontal, estriado e amígdala (motivação e emoção e regiões frontais e parietais (atenção) (Albert et al., 2016; Castellanos & Proal, 2012).
Quanto ao desempenho linguístico, as crianças com PHDA-I apresentam um pior desempenho ao nível da compreensão da leitura, tal como apurado pelo número médio total de respostas corretas no TCL-3 e pela avaliação do nível de compreensão após tarefa de leitura em silêncio no eye tracking, quando comparadas com as crianças normativas. Exibem igualmente piores resultados ao nível da fluência (velocidade de leitura) e da precisão de leitura. Relativamente aos processos envolvidos na leitura, possuem maiores dificuldades no âmbito do processamento da palavra escrita, nomeadamente leitura de palavras e pseudopalavras. Quanto à última categoria, as crianças com PHDA-I apresentam resultados claramente inferiores às normoleitoras, especificamente menor percentagem total de pseudopalavras lidas corretamente associada a um tempo de reação médio de leitura significativamente superior. Contrariamente ao esperado, as crianças com dislexia apresentam um desempenho superior ao nível da leitura de pseudopalavras e do tempo de reação médio de leitura do que as crianças com PHDA-I, o que pode ser atribuído à presença de defeitos de atenção no último grupo. Apesar de muitos estudos não encontrarem defeitos no processamento fonológico em crianças com PHDA-I (Gooch et al., 2011; Willcutt et al., 2001), outros vão ao encontro do nosso, demonstrando que alterações da consciência fonológica e da velocidade de nomeação não estão limitados à dislexia de desenvolvimento, podendo também ser identificados nas crianças com PHDA-I, como o demonstraram a bateria ALEPE (De Groot, Van den Bos, Van der Meulen, & Minnaert, 2017; C. G. W. de Jong et al., 2012; Doyle et al., 2005; Kóbor et al., 2015; Moura et al., 2017; Willcutt et al., 2010; Willcutt, Pennington, et al., 2005). Quanto às dificuldades inerentes à consciência fonológica, Kóbor et al. (2015) hipotetizaram que estas crianças apresentam múltiplos defeitos no âmbito do processamento de informação, em vez de um comprometimento específico da capacidade de inibição da resposta. Outros estudos revelaram que a consciência fonológica pode também ser afetada significativamente por baixos níveis de atenção (Martinussen, Grimbos, & Ferrari, 2014; Sims & Lonigan, 2013), os quais comprometem a MTV e subsequentemente explicam o mau
120 desempenho destas crianças em tarefas que envolvem consciência fonológica. Outra explicação possível para a presença de defeitos fonológicos neste grupo de crianças poder-se-á dever à comorbilidade entre a PHDA-I e a DD (Moura et al., 2017). As crianças com PHDA-I, quando comparadas com crianças normativas, apresentam também dificuldades no processamento lexical e/ou sublexical (C. G. W. de Jong et al., 2012; Willcutt, Pennington, et al., 2005), achados que corroboram igualmente os do nosso estudo.
Em síntese, são traços gerais dos 2 perfis estudados – DD e PHDA-I – em termos psicológicos e linguísticos, dificuldades ao nível das funções executivas, mais especificamente da compreensão e dos processos verbais, da organização percetiva, da atenção visual, da velocidade de processamento, da memória de trabalho, da fluência e precisão de leitura e do processamento fonológico.
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