silêncio o sanduíche que ela havia me arrumado. O ork me esperou, com paciência.
— Tem alguma habilidade? — ele me perguntou com uma voz que parecia cascalho num liquidificador.
— Eu dirigia um caminhão no exército — respondi.
— O exército adapta veículos para anões? — Ele parecia genuinamente interessado.
Eu assenti. — É. Às vezes eu tinha que fazer por conta própria, mas não era problema.
Ele fez um movimento na janela de RA que tinha, depois concordou. — Algum problema em atirar em alguém se a situação pedir?
Olhei para ele por um minuto. Ele estava me entrevistan- do para uma incursão nas sombras. Trabalho de verdade nas sombras, do importante. Pelo menos foi o que eu pensei. Quando você chega no fundo que eu cheguei, até a sarjeta parece um lugar mais alto. — Não vou matar ninguém por você, mas se for pra me defender ou à minha equipe... não, posso puxar o gatilho. — Senti minhas bochechas corando. — Mas eu não tenho uma arma.
Ele acenou com a cabeça. — Não é um trabalho sujo, ten- to evitar esse tipo de coisa. — Ele fez mais alguns gestos. — Parece que eu preciso de um motorista. Tenho o veículo e
a equipe, embora você precise fazer seus próprios ajustes. — Ele moveu a janela de RA para o lado e me olhou nos ol- hos. Eu não me desviei. — Eu pago mil, metade adiantado. Vai acontecer depois de amanhã. Me passa o seu com-código e te passo os detalhes. — Eu passei e ele continuou. — Contudo, você vai precisar de uma arma, então seu adiantamento não será em dinheiro dessa vez. Tem onde dormir?
Eu assenti. — Mais ou menos. — Deixei ele saber onde eu estava ficando e ele disse que mandaria alguém com meu pa- gamento. Me disse para pegar outro sanduíche antes de eu ir embora, depois se levantou, colocou seu com-link no bolso e saiu. Peguei outro sanduíche e voltei para o meu muquifo. Caí no sono imaginando no que diabos havia me metido. Na man- hã seguinte, acordei com uma caixa ao meu lado. Havia um bilhete: “Frank, aqui está seu adiantamento. Hauser”.
Eu não tinha dado o meu nome.
Abri a caixa e vi uma pistola imensa dentro dela. Era uma Predator IV, ainda na embalagem de fábrica, preta fosca e tão letal quanto parecia. O punho era adaptado para a minha mão. A caixa também tinha dois pentes adicionais, um coldre de ombro e uma caixa de projéteis.
Mantendo a palavra, Hauser me enviou uma mensagem com endereço e hora. Cheguei na hora e passei a tarde
Até hoje, não sei o que tinha nelas. Não era parte do meu trabalho saber e eu percebi que não me importava muito.
Não tive que atirar em ninguém dessa vez. Consegui um chip de crédito com quinhentos neoienes mais tarde, naquela noite. Hauser perguntou se eu queria mais tra- balho. Eu concordei, dado meu resultado.
Eu pude ficar com a pistola. Ainda carrego essa peça. Podia ter jogado fora faz tempo, mas quase nunca atirei com ela com raiva e eu sou sentimental. Provavelmente isso vai me matar algum dia, mas até hoje consegui man- ter meu corpo e minha alma juntos.
✖
Eu venho ao Allen atualmente para dar um tempo das sombras. É uma forma de me conectar ao que eu ironica- mente chamo de realidade, a vida que eu costumava ter antes de ser um runner. Não sei por que, não era uma boa vida. Como eu disse, às vezes sou sentimental.
Me arrastei para dentro do restaurante às onze e meia. A correria do almoço ainda não tinha começado, mas já havia um tanto bom de gente. Subi no meu banquinho costumeiro e olhei ao redor. Clientes comuns, na maio- ria. Alguns olhavam para mim e cumprimentavam, outros fechavam a cara. Uma mulher específica, uma ork de trin- ta a trezentos anos de idade, realmente rogou uma pra- ga, cuspiu no chão, se levantou e foi para outra parte do restaurante. A gente se conhecia. Eu estava dirigindo em um trabalho quando seu filho, um rapaz bom que estava tentando sair da pobreza desalmada da sua infância, to- mou um tiro. Ele estava em coma num hospital do outro lado da cidade. Fiquei imaginando se a operação de Haus- er ainda pagava as contas médicas, mas eu duvido. Eu sou sentimental, mas o Hauser... Hauser é um desses caras que acham que os sentimentos atrapalham.
A garçonete, uma humana mais velha chamada Char- lotte, colocou uma xícara de café-soja na minha frente sem perguntar o que eu queria. Ela sorriu para mim, leu meu pedido de omelete antes que eu o fizesse e o enviou para a cozinha, enquanto eu me reprovava por ser tão previsível. Eu ia dar uma mexida na minha rotina num dia desses. Mas as omeletes eram boas demais.
Percebi essa garota entrando e começando a pedir uns trocados aos clientes. Mendigar é triste, mas até mesmo nessa nossa era eletrônica brilhante, ainda há scrips corpo- rativos e moedas voando por aí. É difícil manter o corpo e a alma juntos, mas parecia que ela ainda não havia caído na vida. Sua cabeça estava erguida demais para isso.
Ela ainda não havia chegado do meu lado do restauran- te quando o problema entrou. Com “o problema entrou”, claro, eu quero dizer “ a porra de um gangueiro idiota com
Abaixei a cabeça e fechei os olhos. A Cavaleiro Errante não vinha muito para esses lados. Além dos ovos, esse era um dos motivos de eu gostar tanto do lugar. Eu não era um tira. Costumava dirigir um caminhão no exército, agora di- rijo um para o Sr. Johnson. Eu era um shadowrunner. Atirava na cara das pessoas por dinheiro. Pelo menos, em sentido figurado.
Mas era meu lugar, porra. Onde eu vinha para me livrar de loucuras assim. Uma dúzia de amigos e colegas do Moi- cano Rosa se juntaram a ele dessa vez, aterrorizando os cli- entes e os funcionários. Eu não reconheci suas cores. Seja lá quem fossem, estavam longe da sua área. Isso era um problema porque, embora a CE não patrulhe a vizinhança, nós tínhamos os Espetos e eles não recebiam com gentile- za bandidos de motos que não fossem eles. Esses punks estavam tentando passar uma mensagem para os outros punks e logo as coisas iam ficar ainda mais bagunçadas.
Droga.
Eles começaram a vir para o meu lado do restaurante. A maioria das pessoas estava escondida sob as mesas ou atrás do balcão. Quase todo mundo, exceto eu e a pedinte. Ela havia se colocado num canto do balcão, mas não estava agachada atrás dele. Estava observando a gangue arrancar dinheiro dos clientes e tocar o terror. Eu vi algo no seu rosto que não via há tempos. Ela estava assustada... mas isso não a dominava. Ela estava assustada... mas também nervosa. Estava procurando uma forma de manter sua posição.
Então eu sorri um pouco, e ela me deu uma olhada en- graçada, como se estivesse tentando descobrir o que tinha de errado comigo. Ela ergueu a cabeça quase na mesma hora que o Moicano Rosa andou para o meu lado. Como os outros bocas-abertas que andavam juntos, ele estava vaiando, gritando e agindo como se seu tamanho e sua escopeta do tamanho de pistola que estava carregando fossem me fazer tremer nas bases.
Ele estava muito perto. Não conseguiria me dar um tiro antes de eu colocar meu punho no seu plexo solar. — Certo velhote, me passa seu chip e seu link!
Velhote uma ova. Olhei para cima (sou um anão, olho assim para muitas coisas) e dei minha primeira boa olha- da no punk. Jesus. Ele mal tinha idade de fazer a barba. Tentei agir com calma, deixar que ele se concentrasse em mim, mas realmente queria que alguém da minha equipe estivesse comigo. Contudo, eu estava sozinho. Quase. — Ainda tem tempo de desistir e dar um fora com todos os seus órgãos. — Eu liguei o interruptor na minha cabeça e senti meu corpo ficar leve enquanto me preparava.
Sim, eu dirijo. Mas não é tudo que eu faço. Os cabos me ajudam a lutar quase o tanto que me ajudam a dirigir.
O punk zombou e apontou a Roomsweeper para minha cabeça. — Eu disse, passa o chip, velhote!
parte do piso enquanto caía. Bati na sua nuca para ajudá-lo a ir. Saltei do meu banco, tirando minha Predator enquanto minhas botas de combate encontravam as costas da jaque- ta do Moicano Rosa. Estava procurando meu primeiro alvo de verdade quando senti um par de marretas me acertar- em nas placas de cerâmica que reforçavam a blindagem da minha jaqueta. Tropecei para trás e caí, com meu pé preso no colarinho do Moicano.
Uma deles havia atirado em mim. Era uma pistola pe- sada, mas o som não parecia de um produto de alta qual- idade. Algo barato feito em uma nanoforja ou oficina suja em Vladivostok, provavelmente, mas se tivesse me atingi- do na cabeça, eu já era. Eu bati com força no piso do restau- rante. Perdi a Predator quando a parte de trás da minha cabeça encontrou o chão. Pude escutar ela escorregando para longe enquanto as estrelas dançavam na minha visão. Me recuperei e procurei outra arma, enquanto a gangueira se aproximava para terminar o que começou. Minha mão achou o cano da Roomsweeper do Moicano. Puxei com uma mão, colocando a outra no punho da arma, e fui mirar na punk que atirou em mim quando ela tropeçou para trás e caiu feito uma pedra. Eu reconheci o barulho da arma que a derrubou. Era a minha Predator. Olhei para trás e vi a jo- vem anã parada lá, em uma postura aceitável, com as duas mãos no punho da arma. Ela parecia surpresa, mas deter- minada. Eu sorri novamente, um pouco mais dessa vez, e me levantei para encarar o resto da gangue com a arma do Moicano na minha mão e minha bota na sua nuca.
Uma coisa engraçada sobre as gangues: A maioria delas não quer brigar de verdade. Só querem bater nas pessoas e aterrorizá-las. Quando enfrentam uma resistência de ver- dade, a maioria coloca o rabo entre as pernas e foge. Essa não era diferente, sumiram do Allen como se um dragão estivesse atrás deles assim que viram que o chefe havia caído. Eu arrastei o Moicano e a garota que atirou em mim, que não estava morta, mas ia sentir uma dor do caramba quando acordasse, e joguei os dois na sarjeta. Empurrei a moto e derrubei do lado deles. Voltei para dentro e encon- trei a garota curvada em uma cabine, minha Predator joga- da na mesa na sua frente. Eu a peguei e coloquei no coldre, depois olhei ao redor do restaurante. Alguém certamente apertou o BOTÃODEPÂNICO™ e logo os Cavaleiros apare- ceriam, na patrulha regular ou não. Seria muito melhor para mim se eu não estivesse lá quando eles chegassem.
Olhei de novo para a garota. — Tá com fome?
Ela assentiu.
Mostrei a cozinha e a porta de trás. — Acho que te devo pelo menos um almoço, mas é melhor a gente ir pra out- ro lugar. — Entreguei para ela a Roomsweeper do punk. — Venha, eu conheço um lugar.
leiro Errante já estavam chegando no lugar, com armas em punho. Passamos por alguns dos seus carros indo para onde saímos. Virei o carro e segui para Puyallup.
A garota ficou em silêncio na maioria do tempo. Pro- curei no console do carro, encontrei um chip de crédito certificado com algumas centenas de neoienes e entreguei para ela. — Você mereceu isso — disse. — Valeu por salvar minha pele.
Ela pegou sem expressão, depois disse, — De nada. Ela olhou para o chip. — Para onde vamos? — perguntou. Não sei o que ela estava pensando, sobre mim ou a situação em geral. Ela parecia cautelosa, mas não agia como se eu fosse um dos caras maus.
— Outro restaurante, muito parecido com aquele. As omeletes não são tão boas, mas eles fazem belos sanduích- es. Dirigimos mais um pouco em silêncio, depois parei no estacionamento do mesmo restaurante no qual eu revirava no lixo há cinco anos, quando comecei essa vida maluca.
Parei o carro, depois olhei para ela antes de sair. — Pre- cisa de um trabalho? Conheço um cara.
Um olhar de esperança cautelosa apareceu em sua face. — É. Melhor que passar fome.
Eu ri. — Bem nessa.
Descemos do carro e andamos e entramos no restau- rante pela porta da frente. Dei uma olhada no povo e, cer- tamente, vi Hauser recebendo pessoas em sua cabine no canto. Ele me reconheceu com um aceno, mas havia al- guém sentado na sua frente, então eu levei a garota até o balcão e sentamos por lá. Uma garota anotou o nosso pedido e a garota devorou seu sanduíche com muito gosto quando ele chegou.
O convidado de Hauser finalmente se levantou e saiu. Pedi licença e andei até a cabine. Hauser parecia mais bruto a cada dia, mas isso acontece com os orks. Eles envelhe- cem antes do resto de nós. Sabia que tinha um filho em algum lugar que ele supostamente estava preparando para assumir os negócios da família, mas eu nunca o encontrei. Hauser me cumprimentou e perguntou como foi o meu úl- timo trabalho. Ele sabia a resposta, claro, mas existem for- malidades a serem seguidas neste trabalho.
Fiz um sinal com a cabeça em direção à garota. — Con- segui alguém procurando trabalho. Ela pelo menos tem coragem. — Contei o que havia acontecido no Allen. Ele fez um gesto de aprovação e a chamou.
Eu me virei pra sair e sorri para a garota, quando ela passou por mim. Ouvi ela subir na cabine e a voz áspera de Hauser, perguntando — Tem alguma habilidade? ✖
Essas são as regras fundamentais para sobreviver no mundo de Shadowrun. Além disso, os indivíduos têm suas próprias regras, códigos ou a falta deles. Existem pessoas que roubam dos ricos e dão aos pobres e as que roubam dos ricos e riem dos pobres. Pessoas que são exuberantes, realizando roubos em grande estilo, e pessoas que nunca são vistas, nem por um segundo, por aqueles que elas não desejam.
O ponto é que existem todos os tipos de shado- wrunners por aí e chegou a hora de criar um deles e levar para as ruas de 2075. Dê o seu melhor tiro, lute contra as chances, espere pelo melhor e mostre a to- dos que você tem a coragem e as perícias para fazer o impossível. Você pode nunca ser aceito na sociedade “civilizada”, mas pode ter orgulho do fato de que você adquiriu tudo o que possui, incluindo sua liberdade.