Da mesma forma que qualquer um que esteja vivo, você vai passar boa parte do tempo se preparando para o tra- balho, trabalhando ou se recuperando do trabalho. Mas de vez em quando, é capaz de você achar um tempinho livre, e uns neoienes extras. Por sorte, existem várias ati- vidades para você gastar o seu rico dinheirinho.
DINHEIRO
Falando em dinheiro, lembre-se que você precisa da moeda certa para gastar no que quiser. A moeda do- minante no mundo é o neoiene, mas certas nações tei- mosas insistem em fazer suas próprias moedas (tipo a libra da Inglaterra ou o franco da Suíça). E mesmo assim o neoiene costuma ser aceito nessas nações. Na verda- de, todo esse dinheiro meio que é irrelevante por cau- sa das transações eletrônicas. O uso de dinheiro vivo é raro, talvez só para transações especiais, ou áreas tão atrasadas que nem têm acesso à Matriz (é, credo, mas elas existem). Possível que você sofra uma taxinha de conversão em estados com moedas locais, mas é meio que a única desvantagem.
Chips de crédito certificados estão aí para quem
não confia em transferências sem fio ou não querem deixar rastros. Esses chips, menores do que o seu pole- gar (a menos que você seja um pixie, neste caso, cala a boca), carregam fundos certificados por um dos pode- res financeiros do mundo. Quanto maior o banco, mais estável é o dinheiro armazenado no chip, então muita gente prefere usar chips certificados pelo maior banco de todos, o Zurique-Orbital Gemeinschaftbank.
As corporações mergulharam nessa ideia de moeda própria há décadas, e começaram a distribuir scrips, utili- záveis só em locais corporativos. As megacorps adoram pagar seus empregados em scrip, já que isso mantém o dinheiro dentro da família corporativa. Como seu uso é mais limitado, o scrip corporativo tem menos valor, mas se é o que tem pra hoje, aproveite. Afinal, as megas são enormes: tem alguém em algum lugar que queira scrip e até existe um mercado em ascensão de câmbio de scrip.
A MATRIZ
Se você quer aproveitar a sua folga e se divertir, você deve começar aqui. É onde estão as músicas, os filmes, transmissões de esportes, danceterias virtuais, salas de bate-papo, batalhas épicas em paisagens bizarras e etc.
A Matriz envolve a maioria de nós a cada minuto de cada dia, então nem precisamos pensar muito nela. Nós só usamos. Muitas vezes a usamos como realidade aumentada (RA), uma camada que adiciona informação e uma extravagância ao nosso mundo na forma de au- mento da realidade de objetos ou AROs. Também pode ir além e mergulhar na realidade virtual (RV), deixando seu corpo de carne pra trás enquanto viaja no reino de pura informação. Apesar da velocidade da RV ser con-
veniente para os hackers, muita gente gosta da habilida- de de usar a Matriz enquanto continua seus afazeres ao mesmo tempo.
Com a RA, a Matriz está sempre ao seu redor. Basta ter o equipamento certo para receber mensagens flu- tuantes dos seus amigos bem na sua frente, acompa- nhando seu movimento. Ao passar por lojas, você rece- be ofertas atuais, personalizadas pras suas preferências baseadas no que você já comprou. Amostras de vídeo e música estão por todos os lugares, só esperando você abri-las com um gesto e ver se há algo que curte. Como essas músicas e filmes combinam com o seu gosto e como você as encontra? É a magia do controle corpora- tivo. A Matriz já passou por duas grandes Crises e foi re- inventada nessas vezes. Depois da segunda, em 2064, a Matriz se tornou toda sem fio, e com isso acabou num ideal neo-anárquico de liberdade e abertura, uma rede aberta e acessível pra qualquer um com as ferramentas para logar nela. Isso durou uma década... até as corps perceberem que havia um recurso que não estavam ex- plorando. Depois de confessarem esse pecado pro seu clero respectivo e rezando umas Ave Marias, as corps decidiram corrigir esse erro, instituindo mais controle sobre a Matriz e, assim, poder moldá-la como eles gos- tariam. É claro que seus melhores clientes ficam com a melhor banda enquanto os menos favorecidos têm que se contentar com acesso difícil e tráfego lento.
A não ser que você tenha a manha. Esse surto de controle corporativo reacendeu a batalha entre hackers e os suseranos da Matriz, já que os shadowrunners ten- tam explorar as fraquezas do novo sistema e ficar à fren- te da segurança.
Mas isso já é outro assunto. Por enquanto saiba que tudo e todos estão na Matriz, mas as coisas mais fáceis de se encontrar lá são o que os programadores acham que você quer comprar.
MÚSICA
A música existe desde que o homo erectus percebeu que coisas diferentes fazem sons diferentes quando você bate nelas, e isso vai existir sempre. (Honesta- mente até que tem uns sons que soam como Neander- tais batendo em pedra. Mas gosto é que nem bunda, né?) A real é que você vai achar alguém tocando o seu gosto musical, qualquer que seja ele. Pros fãs do rock clássico, a Maria Mercurial tá fazendo a sua mais nova turnê, mandando ver naqueles riffs que a tornaram uma estrela nos anos 50, e a Concrete Dreams voltou com aquela sonzera. Orxsploitation, o som das ruas, continua a ser tocado nos cortiços, com a CrimeTime servindo como a líder da velha guarda do movimento. O eletropop dispensável nunca vai morrer e não im- porta quantas estacas a gente enfiar no coração dele, com os Latch-Key Kids servindo de liderança de tocar aquelas musiquinhas mega grudentas no nosso cére- bro de minhoca. E o folk élfico existe praqueles que
não curtem som muito alto, com Deidre, ícone de Tír Tairngire, mostrando como é que se faz.
TRÍDEO
Às vezes dá aquela vontade de afundar na poltrona (ou no chão, se usou toda a mobília para manter o aqueci- mento) e deixar um monte de imagens tomar conta do seu cérebro. E pra essas vezes, o trídeo está aí, trazendo as novidades em notícias, esportes e programação de entretenimento. O 3D era confuso e meio bosta no seu início, mas agora ele te joga bem no meio da história. E o nível de imersão depende de você. Para simplicidade, fique apenas nas versões de áudio e vídeo, ou plugue no sensorama pra mergulhar na experiência completa, mul- tissensorial e com emoções aprimoradas. Dá pra assistir eventos esportivos como se estivesse na arquibancada, ou até passear pelo campo, vendo o jogo como os joga- dores veem.
Tem trídeo ficcional pra todos os gostos. A série Cree
& Dido dá aquela comédia pastelão que as massas ado-
ram, enquanto o sucesso Water Margin gerou uma série
de ação sobre shadowrunners enfrentando a corrupção do governo em Seattle (um tema que ganhou ainda mais força graças aos recentes escândalos da administração do Governador de Seattle, Kenneth Brackhaven). Gosta de reality shows? O Caçador Tóxico te leva aos lugares mais envenenados do planeta e coloca o apresentador Brennan “Peso” O’Dell contra as criaturas locais. Sua re- cente batalha contra um bando de carniçais em Lagos teve uma audiência absurda. O clássico Neil, o Ork Bárba-
ro, programa favorito da infância dos seus pais, recebeu
uma melhoria maneira com um reinício de franquia que coloca você, o espectador, nas botas peludas do Neil. Ação em primeira pessoa com combate medieval, mui- tos músculos, e tanga peluda. O que mais você quer?
ESPORTES
Se o século vinte tornou o esporte profissional em um grande negócio, o século vinte e um aprendeu a usar o negócio dos esportes pra beneficiar outros interesses corporativos. Basquete, beisebol, futebol, futebol ameri- cano e hóquei ainda são muito famosos, mas agora os
fãs podem seguir o MeuFeed do seu jogador preferido, acompanhando os trídeos que eles assistem, as músicas que escutam e os estilos e comidas preferidas — tudo bem fácil de comprar com um gesto no ARO certo. Anti- gamente a criançada sonhava em seguir seus ídolos ten- tando trabalhar duro pra crescerem e também se torna- rem astros, mas hoje se contentam em comprar a maior quantidade possível deles.
É lógico que as megacorps têm investido em novos esportes que dão aquele surto viciante de adrenalina que só ação rápida e violência cheia de fraturas pode dar aos fãs/consumidores. Os novos esportes mais populares do momento são briga urbana e ciclismo de combate. A briga urbana é uma variante sem limites de capture a bandeira, jogada nas ruas com armas e magia. O ciclismo de combate é parecido com polo, mas com motocicletas. Pilotadas por psicopatas.
COMIDA
Quando a superpopulação do mundo era coisa séria, as pessoas apostaram na poderosa soja como uma pro- missora fonte de alimentos (só misturar com lentilha e corante verde que fica uma coisa bem... é, deixa pra lá). É cheia de proteína, muito versátil e um tanto fácil de plantar. Graças à diversas pragas globais e desastres ecológicos, a população mundial não é tão preocupante quanto a quantidade de terreno arável no planeta, mas o resultado final é o mesmo: soja é essencial. O café-soja é a bebida que acorda a gente de manhã, soja-burguer é um dos almoços mais populares e o tofu é uma janta tão comum quanto frango era antigamente. Até existem al- guns restaurantes e mercados por aí que existem carne de verdade, mas isso costuma estar além do orçamento de quem não é rico.
Enquanto a carne é rara, substitutos de açúcar exis- tem aos montes. Produtores megacorporativos de co- mida do mundo sabem como as pessoas gostam de doces e sabem que satisfazer esses desejos deixam a população na linha. As Stuffer Shacks e outras lojas de conveniência do mundo estão cheias de Sweeteez, Kra- k-l-Snaps e outras comidas sem nutrientes que dão um pouco de prazer pros operários corporativos e shado- wrunners mais pobres.
SEXO
Até pensei em falar “Romance”, mas desisti porque nin- guém mais faz aquele esquema de caixa de bombom, buquê de flores e passeio de carruagem no parque hoje em dia. Depois pensei em falar de “Namoro”, mas não tem mais essa de chamar a Regina, a navalhada com ja- queta de couro se ela está afim de ir no shopping na sex- ta de tarde. Então como estou sendo bem sincero, vou chamar como o desejo primal que é.
Ou seja, as pessoas no Sexto Mundo fazem sexo. De muitas formas, em muitas combinações, e por todos