• Nenhum resultado encontrado

CONCEITOS E APLICAÇÃO NA AMAZÔNIA 1.1 A Questão Ambiental e o Conceito de Sustentabilidade

SEPROF Sec de Extrativismo e

3.2.5. Gestão Ambiental Territorial

Por gestão ambiental territorial entende-se o conjunto das políticas de ordenamento territorial e uso do solo com vistas à sustentabilidade ambiental. Obviamente, toda política ambiental tem um componente territorial, mas há algumas em que o território é o elemento principal, sendo apresentadas nesse item.

No Acre, como em toda a Amazônia, há grandes problemas fundiários, que dificultam a gestão ambiental territorial. Os problemas

constituem-se do alto índice de “terras devolutas” sem titulação, dos conflitos de terra e da grilagem. Esses problemas coadunam com a degradação ambiental, porque uma porção de terra pode ser desmembrada várias vezes, e cada novo proprietário a desmata o máximo que pode, de modo que a exigência de conservação de 80% da área original (do Código Florestal Brasileiro) é frontalmente desobedecida. Além disso, as enormes extensões de terra sem titulação ficam ambientalmente prejudicadas por não se poder aprovar planos de manejo nem outros benefícios como criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural.

a) ZEE – Zoneamento Ecológico-Econômico

O ZEE foi o primeiro grande Projeto do Governo. Embora já se tivessem esboçado muitos estudos para o Zoneamento acreano uma década antes, apenas em 1999 ele foi efetivamente executado, resultando na sua publicação em agosto de 2000 (ACRE, 2000). O Acre foi o primeiro Estado brasileiro a elaborar o ZEE, o qual veio a ser fortalecido na legislação brasileira somente em 2002, por meio do Dec. n. 4.297. Seu custo foi de US$ 1,0 milhão, considerado barato (o de Rondônia custou US$ 20 milhões).

O ZEE é uma particularização do zoneamento ambiental definido na Política Ambiental Brasileira, e se refere ao ordenamento territorial por meio do mapeamento físico-sócio-econômico do Estado com vistas à harmonização do desenvolvimento com a conservação ambiental.

“O objetivo do ZEE é ordenar o uso do solo e dos recursos naturais, segundo critérios ambientais (como proteção à biodiversidade e ecossistemas frágeis e contribuição à manutenção das funções ecológicas básicas) e econômicos (viabilidade sócio-econômica do empreendimento, equilíbrio entre custos e benefícios a médio e logo prazos)” (GTZ, 2000, p. 31).

“O ZEE é um instrumento estratégico de planejamento regional e gestão territorial, cujo objetivo principal é contribuir para a implementação prática do desenvolvimento sustentável” (Governo do Acre, reunião técnica do ZEE – 2a. Fase, dezembro de 2004)

149

O ZEE é um instrumento intrinsecamente transversal, pois busca integrar os aspectos ecológicos e econômicos. Pesquisadores consideram-no uma possibilidade de promover modelos de desenvolvimento ambientalmente sustentáveis, e por isso tem sido referenciado em políticas variadas. Sua metodologia de formulação é complexa e sua implementação é difícil, porque as formas de ocupação do território são muito dinâmicas, e porque ao tentar implantar padrões produtivos sob critérios ambientais encontram-se muitas resistências. Pode-se dizer que o ZEE é um instrumento novo e em conformação.

O ZEE do Acre, enquanto documento teórico, tem sido elogiado por ser denso em conteúdos e representar um esforço de transversalidade. Ele é organizado em três volumes, apresentando os recursos naturais (com sua distribuição geográfica e apropriação sócio-econômica), estudos sobre a biodiversidade, o solo, o clima e outros elementos e uma indicação das áreas prioritárias para conservação e produção. Ele é concluído com diretrizes para políticas públicas como um todo. O trabalho contou com 121 autores de 35 instituições. Um aspecto inovador do ZEE foi o mapeamento de conflitos sócio- ambientais do Estado, um avanço conceitual.

O ZEE do Acre não foi transformado em lei, como em outros estados, o que é apresentado como uma vantagem, pois serve para orientar caminhos e não enrijecer procedimentos (ACRE, 2000, vol. III, p. 121). Por outro lado, cinco entrevistados questionam esse fato, dizendo que o ZEE “não está valendo”.

Algumas deficiências foram detectadas pela autora. Como um todo, o ZEE é pouco didático e sua organização não é clara. Ele apresenta alguns dados conflitantes, como diferentes mapas de “áreas prioritárias para conservação”.

“As áreas indicadas para florestas estaduais de produção [no ZEE], com presença de pesquisadores de ciências aplicadas como a engenharia florestal e a agronomia, são questionadas por alguns

pesquisadores de outras áreas, por exemplo, devido à fronteira com algumas áreas indígenas, que não participaram dos levantamentos mas sofrerão os efeitos da criação dessas unidades” (COSTA, 2003, p. 15).

Quanto às ênfases conceituais, observa-se que a agricultura convencional prevalece com relação à agro-florestal, e a madeira prevalece bem mais que os demais produtos florestais.

Quanto à implementação do ZEE, os atores externos ao Governo são unânimes em considerar que ela é deficiente e pouco participativa. O ZEE não tem orientado políticas produtivas, do tipo “aqui pode, aqui não pode”. Porém, continuam afirmando sua utilidade teórica, como uma “enciclopédia” usada por todos. Como diz Bertha Becker, “planos e mapas criam recortes espaciais de grande força no imaginário social, embora freqüentemente não se materializem” (BECKER, 2001, p. 152).

Em termos práticos, as diretrizes do ZEE orientaram a criação das três novas florestas públicas de produção e do Parque Estadual do Chandless, e contribuíram para a definição da área da Reserva Extrativista Alto Tarauacá (federal). Alguns micro-zoneamentos, ainda no campo teórico, têm sido feitos junto a comunidades rurais e indígenas. A difusão do ZEE, na forma de uma cartilha, ocorreu nas escolas, numa cooperação da SEMA com a Secretaria de Educação. A Segunda Fase do ZEE (detalhamento da escala dos mapas de 1:250.000 [um para duzentos e cinqüenta mil], enquanto que a Primeira Fase foi de 1:1.000.000 [um para um milhão]), prevista para janeiro de 2002, começou apenas em 2005. A execução do ZEE é sediada na SEMA e a coordenação na SEPLANDS.

b) Florestas Públicas de Produção

As florestas públicas de produção estaduais (FLOPs) constituem o centro da Política Florestal do Acre. Elas são unidades de conservação de uso sustentável definidas pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) com a denominação de “Florestas Estaduais”. Esse tipo de unidade

151

destina-se ao “uso múltiplo sustentável dos recursos florestais e à pesquisa científica, com ênfase em métodos para exploração sustentável”.69

Está prevista a implementação de, no mínimo, 1,5 milhões de hectares de FLOPs estaduais no Acre, correspondendo a cerca de 10% do Estado. A única unidade em funcionamento, há 10 anos, é a Floresta Estadual do Antimary. Três destas florestas foram recém-decretadas na área de influência da BR-364 a ser pavimentada (componente do Projeto BID), e compreendem 483 mil hectares. A escolha dessas áreas revelou a coerência de recomendações de três políticas: o Projeto BID, o ZEE e a Política Florestal do Acre.

As FLOPs priorizam, explicitamente, a exploração de madeira. Florestas desse tipo são também prioridade do Programa Nacional de Florestas, em vigor desde 2000. Neste sentido, foi louvável a criação de uma legislação estadual a respeito, para permitir sua adequação às particularidades locais. As FLOPs serão analisadas no item da gestão ambiental da produção.

c) Conservação Ambiental

A conservação ambiental não tem sido alvo de políticas específicas, mas sim de intenções manifestas nos grandes Programas. Essa ausência tem sido criticada por diversos atores sociais. Por outro lado, instituições rurais do Alto Acre apontaram a constante presença do IMAC em ações educativas de prevenção ao desmate e queima.

A reforma interna da SEMA / IMAC extinguiu a Coordenadoria de Conservação Ambiental – segundo o Secretário essa atribuição passou para a Gerência do ZEE. Nela, não se encontraram ações ou servidores dedicados ao tema da conservação, por exemplo, à implementação das unidades de conservação estaduais.

O Parque Estadual do Chandless, recém-decretado, compreende 695 mil hectares, elevando para 9,8% do Estado as unidades de conservação de proteção integral, bem próximo ao índice de 10% recomendado pela Conservation International. Este Parque foi fruto dos estudos do ZEE.

As FLOPs, enquanto unidades de conservação de uso sustentável, também não foram implementadas até o momento, exceto a do Antimary (anterior ao Governo atual).

As unidades de conservação federais do Acre apresentam numerosos déficits de implementação, apesar de duas reservas extrativistas existirem há 15 anos. Embora sua alçada seja federal, isso não exime os governos estadual e municipais de se fazerem presentes. Associações de moradores da Reserva Extrativista Chico Mendes atestam a presença do Governo estadual por meio de instalação de infra-estrutura (transporte e energia), de escolas e postos de saúde, bem como de políticas produtivas, como o subsídio à borracha. Algumas associações apontam ausência do Governo, dizendo que os projetos em curso funcionam por meio de outras instituições.