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Introdução: Os Programas Centrais do Governo do Acre

CONCEITOS E APLICAÇÃO NA AMAZÔNIA 1.1 A Questão Ambiental e o Conceito de Sustentabilidade

8 Áreas particulares sem titulação 5,

3.2. A Pesquisa de Campo 1 Nota Metodológica

3.2.2. Introdução: Os Programas Centrais do Governo do Acre

O atual do Governo do Estado do Acre, presente desde janeiro de 1999, é de oposição às gestões anteriores, mais vinculadas a setores de elite. Na pessoa do Governador, o engenheiro florestal Jorge Viana, o Partido dos Trabalhadores assumiu o governo pela primeira vez. O Governo instituiu certo discurso ambiental desde o começo com o slogan “Governo da Floresta”. Re- eleito com o mesmo slogan, esta equipe deve permanecer até o final de 2006.

Segundo o Secretário da SEPLANDS (Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Econômico-Sustentável), Gilberto Siqueira, a temática sócio- ambiental foi sendo trabalhada pelo grupo atual desde os anos 80. O grupo, formado por alguns acadêmicos, concluía em suas pesquisas que o desmatamento era “autofágico” para a economia do Acre, pois não revertia em desenvolvimento, antes o contrário.

O Programa de Governo é norteado pelo “desenvolvimento sustentável”, cujo órgão principal de coordenação e articulação é a SEPLANDS. Os membros do Governo entrevistados asseguram que o desenvolvimento sustentável é consensual e perpassa todas as reuniões. O caráter transversal das políticas ambientais, sob o conceito da integração de políticas públicas, é mencionado em alguns documentos oficiais (IMAC et al, 2000; IMAC, 2001; SEATER, 2004). Atores sociais externos ao Governo também são unânimes em

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destacar o desenvolvimento sustentável nos discursos oficiais, embora o mesmo não se verifique nas ações práticas com igual intensidade.

Quanto à continuidade administrativa, os atores entrevistados consideram a segunda gestão coerente com a primeira e observam que a transversalidade vem sendo crescentemente fortalecida. Enquanto a primeira gestão contemplou a re-estruturação governamental e a formulação de políticas, a segunda direciona-se mais à implementação das mesmas. Em contraponto, cerca de um quarto dos entrevistados pontuam que o extrativismo e as questões ambientais propriamente ditas foram enfraquecidas na segunda gestão, particularmente com a saída de líderes mais comprometidos com a causa ambiental.

Este Governo lançou dois conceitos: a florestania e o neo-

extrativismo.

A florestania é um contraponto ao conceito de cidadania (de referência urbana), sendo seu equivalente para o morador da floresta, em termos de inserção e participação política. Trata-se do “nosso conceito de sustentabilidade”, nas palavras do Governo, a qual inclui seis dimensões: política, cultural, social, econômica, ambiental e ética (redigidas em detalhes no Anexo 3) (SEATER, 2004). A florestania procura “resgatar nosso conhecimento e tradição para construirmos a sociedade sustentável que queremos” (SEPLANDS, 2004).

O neo-extrativismo, criado pelo Prof. José F. do Rêgo, refere-se à diversificação da produção florestal acompanhada do esforço de agregação de valor com o beneficiamento local, por meio de inovações tecnológicas apropriadas. O neo-extrativismo inclui a consorciação das atividades florestais com a pequena agricultura e criação de animais (RÊGO, 2001), sendo, portanto, mais realista quanto à vida dos seringueiros desde o fim do primeiro ciclo da borracha.

O Governo alega buscar um modelo de desenvolvimento florestal, incluindo o fortalecimento das modalidades familiares e comunitárias de gestão produtiva.

Para reverter o baixo desenvolvimento econômico, um membro do alto escalão do Governo disse que o Acre só pode ser competitivo com a madeira (de manejo sustentável). A madeira é, portanto, a grande prioridade produtiva do Governo, na sua visão de economia florestal. Por outro lado, o Governo continua investindo significativamente na pecuária, a exemplo de governos anteriores, por exemplo com a campanha “Acre livre da febre aftosa”.

O programa central de desenvolvimento sustentável do Governo, que contempla parte das políticas ambientais do Estado, é o Projeto BID-BR

0313, ou “Programa de Desenvolvimento Sustentável do Acre”. Esse é um

Projeto de grande porte, orçado em US$ 240 milhões, com ênfase em infra- estrutura (60% dos recursos) e gestão ambiental. Os principais eixos do Projeto BID são:

Regularização fundiária;

Infra-Estrutura: Pavimentação da Rodovia BR-364 (item que absorve boa parte dos recursos), abertura de estradas de terra, melhoramento de hidrovias

incluindo instalação de portos e sinalização; Produção madeireira;

Dinamização de produtos florestais diversos, incluindo a busca de mercado e a transferência de tecnologias apropriadas;

Criação de unidades de conservação estaduais e fortalecimento do entorno de algumas existentes. (Com ênfase nas florestas públicas de produção);

Eletrificação rural com placas solares;

Criação de Centros de Florestania e implementação de projetos produtivos na zona rural;

Aparelhamento geral do IMAC (Instituto de Meio Ambiente do Acre), e capacitação de servidores;

Implementação e divulgação do ZEE (Zoneamento Ecológico-Econômico);

Criação dos Comitês de Bacia Hidrográfica e dos Planos de Gestão de Recursos Hídricos (inexistentes no Acre);

Gestão de resíduos sólidos, com implantação de aterros sanitários e programas de reciclagem;

Educação ambiental;

O órgão gestor central do Projeto é a SEPLANDS, na forma de uma equipe mista de funcionários públicos e de uma agência administradora privada (exigência do Banco). Diversos órgãos do Governo participam da gestão do Projeto BID através de gerentes específicos; um para cada órgão, o qual

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responde pelos componentes do Projeto que lhe cabem. Está previsto um Conselho de Avaliação e Acompanhamento formado por diversas instituições.

Trata-se de um empréstimo vultuoso do Banco Interamericano de Desenvolvimento, da ordem de 60% do orçamento total. O contrato do Projeto deu ao Banco, como garantia de pagamento, os recursos das florestas públicas de produção a serem implementadas. Na época da sua aprovação pelo Senado Federal, foram intensas as críticas da oposição política quanto a essa garantia, discursando sobre os possíveis problemas da influência externa sobre a Amazônia (Nabor Júnior, 2002). Este é um assunto polêmico, pois, além da possível interferência política, criam-se vínculos econômicos que podem retardar o desenvolvimento econômico endógeno.

Não é possível, até o momento, avaliar o Projeto BID, por ele ser embrionário e pelos sigilos de Governo. Quanto à sua formulação, diversos atores testemunharam um processo aberto e participativo, ou seja, trabalhado numa rede de governança de cunho ambiental e de desenvolvimento. Até o momento pode-se dizer que o Projeto revela uma iniciativa ousada em sua complexidade institucional e temática, que envolve, em tese, a transversalidade.

Outro Projeto central do Governo, responsável pela estruturação da política ambiental do Acre, é o PGAI, Projeto de Gestão Ambiental Integrada. O PGAI é um mega-Projeto do PPG-763 na Amazônia, e, no Acre, conta com

recursos a fundo perdido da Cooperação Alemã (GTZ). Ele visa a instrumentalização dos governos estaduais e municipais para a política e gestão ambiental, com ênfase na descentralização de atribuições às instituições locais, notadamente as secretarias municipais de meio ambiente. Neste ponto, ele se assemelha ao PNMA-II - Programa Nacional do Meio Ambiente – Fase

II, do Ministério do Meio Ambiente, também relevante no Acre, com recursos de

empréstimo do Banco Mundial.

63 PPG-7 = atual “Programa Brasileiro de Proteção e Uso Sustentável das Florestas Tropicais”, ex-“Programa-Piloto de Proteção às Florestas Tropicais”. O PPG-7 é um Programa de doações dos 7 países mais ricos do mundo, implementado desde 1994. O PPG-7 tem grande influência na Amazônia. Ele gerou o lançamento de algumas políticas ambientais estaduais, e estruturou os governos que já as dispunham (GTZ, 2000). Em junho de 2002 este Programa foi absorvido como política pública brasileira, para a qual aportariam recursos dos Planos Pluri-Anuais (FSP, 2002).

O executor principal do PGAI é o Instituto do Meio Ambiente do Acre (IMAC), com a cooperação de outras secretarias. Os objetivos gerais são a redução do desmate e queima e a conciliação entre desenvolvimento e meio ambiente, com apoio aos produtos florestais e agro-florestais. Suas linhas de ação são:

1) Fortalecimento do setor de Controle Ambiental do IMAC e das secretarias municipais de meio ambiente, incluindo infra-estrutura e capacitação;

2) Implementação do ZEE;

3) Integração das instituições ambientais públicas e privadas do Estado;

Embora o PGAI do Acre exista desde 1996, ele foi intensificado assim que este Governo assumiu em 1999, tendo o orçamento médio anual passado de R$ 261 mil a R$ 1,017 milhão neste ano. O funcionamento do IMAC, nessa época, dependia inteiramente deste recurso, da obtenção de quase todos os computadores a reforma de prédios. A segunda fase do Projeto (de 2001 a 2003) obteve R$ 5,4 milhões (83,3% oriundo do órgão doador) (IMAC, 2001).

O PGAI vem sofrendo duras críticas de alguns entrevistados, tanto dos que trabalharam no Projeto quanto dos que interagiram com ele. Afirmam que ele praticamente não atingiu os objetivos – exceto quanto à infra-estrutura obtida. As secretarias municipais de meio ambiente (quase todas denominadas “Secretarias de Agricultura e Meio Ambiente”) e as políticas ambientais municipais continuam pouco desenvolvidas. Alguns Conselhos Municipais de Meio Ambiente (COMDEMAs) foram instalados, mas não têm funcionado. Além disso, faltou contemplar outras instituições previstas para serem fortalecidas (empoderadas) para a gestão ambiental local, como os sindicatos rurais e as ONGs.

Classifica-se o Projeto de burocrático e engessado, em boa parte pela má condução da parceria entre o Governo do Acre e a Cooperação Alemã. Diz-se que a instituição alemã não foi capaz de lidar com a essência participativa do Projeto nem com as especificidades do Acre. Tem-se um déficit

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de implementação de fonte política, com a baixa capacidade de negociar nas arenas e de cooperar nas redes, demonstrando também a relutância do Governo em descentralizar poder para os municípios.

Devido à coincidência de temas, há visível sobreposição de ações entre o Projeto BID, o PGAI e o PNMA-II. Trata-se de uma complexa rede de ações integradas, o que representa um desafio metodológico, pois a tendência é a duplicação de esforços. Conscientes do fato, técnicos do IMAC elaboraram um Quadro de Compatibilidade entre os três projetos. Não se sabe se o mesmo vem sendo utilizado.

Persistem as preocupações com a dependência externa. A vinculação destes programas com os países estrangeiros não é só de recursos financeiros, mas também da concepção dos projetos. Entretanto, problemas decorrentes dessa vinculação só chegam a ser evidentes no caso do PGAI.

Além destes três programas, outros dois compõem o conjunto dos programas estruturantes do desenvolvimento sustentável e das políticas ambientais do Acre; o ZEE e as Florestas Públicas de Produção, os quais serão apresentados mais adiante.

Os Programas Estruturantes do Desenvolvimento Sustentável do Acre: