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4.1 O CURSO DE PEDAGOGIA DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DO SUDOESTE DA

4.1.1 Identidade do pedagogo: ambiguidades e incertezas

A identidade profissional dos professores, vem sofrendo fortes repercussões frente às transformações ocorridas, gerando com isso o que Contreras (2002) destaca como uma

paulatina desorientação ideológica e deterioração nas condições de trabalho, que afetam a autonomia do docente e gera a proletarização profissional.

O referido autor descreve a realidade atual do profissional docente sucumbida pela progressiva racionalização e tecnologização do ensino, sendo os docentes relegados da missão de intervenção e decisão no planejamento de ensino, para serem apenas aplicadores de programas e pacotes curriculares. Atuando como executores de propostas vindas de especialistas, os professores assumem a função de controladores disciplinares dos alunos e operadores dos projetos curriculares, cumprindo passo a passo as prescrições predeterminadas. Não tendo um trabalho autogovernado, o professor entra numa dinâmica de rotina que o impede de exercitar a reflexividade do seu fazer diário. Sucumbido pela desqualificação intelectual, o professor cai na degradação das habilidades e competências alusivas ao autêntico papel do profissional docente. Tudo se reduz ao cumprimento de tarefas que deverão realizar, o que leva à perda da autonomia na realização do seu trabalho profissional. (CONTRERAS, 2002).

Lüdke e Boing (2004) encaminham uma discussão pela via sociopolítica e econômica, apontando reflexões bastante provocativas acerca da complexa situação atual da profissionalização docente. De início os autores já apontam a precarização da profissão atrelada ao aspecto econômico somado a outros pontos, causantes da “decadência do magistério”. Os autores percorrem as diferentes literaturas, a título de fazerem uma exposição do quadro atual do Brasil e, nesse percurso, apontam um obscurantismo na profissão, já que hoje existe uma diversidade de cursos oferecidos nas universidades, desde os cursos de pedagogia, as diferentes licenciaturas, bem como o curso normal superior, dentro dos institutos superiores de educação, e ainda o antigo curso normal, em nível médio. Com essa diversidade, eles constatam que é difícil tentar entender o magistério como uma profissão.

Os autores acrescentam que a fragilidade sustenta-se tanto no aspecto econômico quanto na formação propriamente dita, repercutindo na questão da identidade, pois dentro do magistério tem um grupo cuja função não aparece de maneira clara aos olhos da sociedade, a ponto de as pessoas pensarem que qualquer um pode exercer a profissão sem a devida qualificação.

Essa realidade preocupante fragiliza a construção da identidade do profissional e, por conseguinte, esgota qualquer esforço deste por investir numa preparação mais reflexiva e atenta ao campo fenomenal de sua ação e relação.

Na mesma conjuntura de fragilidade e ambiguidades está o pedagogo, que tem sua identidade construída também para a docência e a falta de autonomia no exercício do trabalho,

a pouca ou nenhuma visibilidade social, baixos salários e desarticulação da própria categoria gera instabilidade e pessimismo no profissional docente, o que termina por afetar e gerar instabilidade em torno da identidade do pedagogo.

Os debates acerca dessa questão aparecem em todo o país nas mais variadas organizações científicas. Os problemas e dilemas persistem frente à instabilidade no tocante à identidade desse profissional. Temas quanto à docência como base da identidade, a dissociação entre conteúdos-método, os baixos salários, formação deficiente, a desvalorização profissional que remete a pouco prestígio social e profissional, podem ser fatores geradores de insatisfação e dúvidas que intensificam a desprofissionalização do pedagogo no cenário social.

O que de fato pode definir a identidade do pedagogo? Qual a relevância desse profissional no mercado de trabalho? Questionamentos dessa natureza aparecem em muitos trabalhos científicos que há muito tempo têm intensificado em estudos com proposições teóricas para entender e atenuar o problema. Libâneo (2007) sugere uma definição mais clara para o entendimento da pedagogia e, portanto, mais visibilidade para a identidade do pedagogo. Ele concebe, como característica fundamental da pedagogia, ocupar-se da educação intencional como uma atividade que se debruça sobre os problemas sociais e, como tal, investiga os fatores que contribuem para a construção do ser humano como membro de uma sociedade em constante mudança. Nesse sentido, é preciso que se considere a existência de uma intencionalidade educativa mediadora do individual e coletivo.

Libâneo (2007) esclarece que a formação do pedagogo deve ser sustentada numa concepção de profissional qualificado para atuar em vários campos educativos, de modo que atenda às demandas socioeducativas, sendo que esse profissional não precisa necessariamente ser um docente. Qual a diferença entre essas duas atribuições? Ele responde que “todo trabalho docente é trabalho pedagógico, mas que nem todo trabalho pedagógico é trabalho docente” (p.39).

Assim, segundo o autor, a base da identidade profissional do docente é o trabalho pedagógico e o pedagogo, ainda que tenha a docência como campo de ação tem também como cerne fundante de sua identidade, a atitude intencional de investigar os fatores que contribuem para a formação humana em cada contexto social, considerando uma realidade sempre em mudança, tendo, pois, que conceber a recriação do seu objeto de estudo – a prática educativa (LIBÂNEO, 2007).

Sua crítica recai acerca do posicionamento mantido na ANFOPE, em consonância com projeto de Resolução aprovada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), instituído

nas Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de Graduação em Pedagogia, ao considerarem a docência como condição central na formação do pedagogo. Sua crítica é antiga, pois o autor já havia exteriorizado suas inquietações na publicação da obra “Pedagogia, pedagogos para quê?”, em 1999. Recentemente, ele retoma essa discussão no artigo publicado para o ENDIPE, ocorrido em 2006 em Recife, tendo como título “Diretrizes Curriculares da Pedagogia – Um adeus à Pedagogia e aos pedagogos?”

Tanto Franco (2004) quanto Libâneo (2006) visualizam imprecisões conceituais encontradas na Resolução do CNE, que reduz a uma concepção simplista e reducionista da Pedagogia e do exercício profissional do pedagogo. Na visão dos autores, percebe-se também no texto da legislação uma intencionalidade marcada pelo histórico de uma ideologia fortalecida pela concepção sociologizante nas escolas e currículos, estendendo-se também na formação de educadores. O princípio norteador dessa concepção é a divisão do trabalho nas escolas formada por duas categorias de profissionais – os que pensam (coordenadores pedagógicos) e os que executam (professores) – derivando daí a desconexão ou uma cisão entre pesquisa acadêmica e as práticas escolares. Essa visão não favorece ao profissional professor a competência devida para ser capaz de pensar e agir respaldado intelectualmente e metodologicamente para contribuir na formação de sujeitos críticos.

A desvalorização do trabalho pedagógico resulta numa desqualificação social da profissão de professor, o que corrobora no pouco investimento de pesquisas nessa área. Outro agravante que acentua o problema, na visão de Libâneo (2006), foi a supressão das habilitações no Curso de Pedagogia, o que levou as secretarias de educação a deixarem de contratar nas escolas profissionais habilitados para a direção e coordenação pedagógica, por ser mais viável economicamente, porém tornou-se empobrecido pedagogicamente.

A Resolução do CNE, seguindo a proposta da ANFOPE, define a formação do pedagogo para três funções: a docência, a gestão e a pesquisa. Libâneo critica fortemente essa condução, pois acredita que se corre o risco de investir numa formação profissional empobrecida com inchaço curricular. Defende ele a ideia de que cada uma dessas habilitações tem suas especificidades teóricas e práticas e uma formação nessas condições fortalece mais ainda a profissionalização aligeirada, com nível mínimo de qualidade.

O impasse está posto, pois a identidade do pedagogo ainda é obscura, carente de uma legislação clara e consistente que possibilite contribuir para a melhoria do trabalho educativo frente às complexidades e diversidades da realidade social.

As ambiguidades identificadas nas discussões abrem espaço para gerar nos estudantes do curso a incerteza quanto ao seu papel no exercício da profissão, levando-os a

caminharem em areia movediça, sem saberem aonde vão e tão pouco para onde vão, fruto dos equívocos encontrados nos discursos e propostas que regulamentam o perfil desse profissional.

A partir dessas considerações, a seguir, teço reflexões concernentes ao âmbito da subjetividade como dimensão a ser considerada para elucidar algumas questões encobridoras do assujeitamento profissional e a vulnerabilidade quanto à ocupação desse profissional que gera muitas vezes a fragilidade no tecido identitário.