• Nenhum resultado encontrado

III EMMP, Vaticano

No documento Download/Open (páginas 117-123)

O terceiro EM M P se deu novamente em Roma, no ateneu pontifício Regina

Apostolorum e no Vaticano, entre os dias 2 e 5 de novembro de 2016. M ais uma vez o convite

de Francisco atraiu os M P para dialogar: participaram

...170 delegados e delegadas de 65 países. Do Brasil, participaram integrantes dos Movimentos: Conselho de Entidades Negras (CONEM), Central dos Movimentos Populares (CMP), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) - La Via Campesina, Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), União Nacional Por Moradia Popular (UNMP) e outros (SASSATELLI, 2017).

As discussões se deram ao redor dos três Ts, como se tornou já tradição, e temas afins foram acrescentados: “Povo e Democracia, Território e Natureza, M igração e Refugiados”. Uma vez mais se estabeleceu este espaço de manifestação e protagonismo do povo dos excluídos que, segundo Juan Grabois, não se resigna à pobreza extrema e a injustiça social e luta com solidariedade contra estas condições que lhes são impostas. Ele lembra que a finalidade destes encontros é mostrar que a Igreja quer “acompanhar, incentivar e visibilizar esses processos que surgem das bases populares” (SASSATELLI, 2017).

Além do Cardeal Turkson, de Grabois e Stédile, participaram também Jockin Arputham, do National Slum Dwellers Federation of India – Slum Dwellers International (SDI); Xaro Castelló, Hermandad Obrera de Acción Católico (HOAC), M ovimento M undial de Trabalhadores Cristãos (M M TC), Espanha. Os temas da democracia e da condição das mulheres também foram refletidos neste encontro. O Discurso do Papa no último dia, 5 de novembro, concluiu o evento. Grabois destaca que o primeiro encontro foi ocasião para que o Papa e os M Ps se conhecessem, o segundo foi o do discernimento que leva a “pôr a economia a serviço dos povos, construir a paz e a justiça, e defender a M ãe Terra” e este lançaria o desafio de agir, ou seja, de ampliar os vínculos entre os M Ps para melhorar a coordenação e a partilha das experiências dos diversos movimentos.

Outra personalidade presente ao terceiro encontro foi o ex-presidente uruguaio, Pepe M ujica. Sua conferência nesta ocasião colocou a ênfase do AGIR proposto para este evento na dependência de uma conversão: a conversão da cultura 128. É necessária, segundo ele, uma

128 MOVIMENTOS POPULARES. Pepe Mujica: “Si no cambia la cultura no cambia nada ”. 4 de novembro de

2016. Disponível em <http://movimientospopulares.org/pepe-mujica-si-no-cambia-la-cultura-no-cambia-nada/>. Tradução nossa.

118 “transformação pessoal” de cada membro da sociedade para estabelecer a igualdade que a Revolução Francesa tentou implantar, mas que tem sido esquecida.

Na nossa América Latina, tão rica e vasta em recursos, 32 pessoas têm o mesmo que 300 milhões. Sua riqueza continua crescendo de maneira brutal. Tanta concentração econômica acaba gerando uma concentração do poder político. As decisões que se tomam em âmbito político acabam por estar a favor dos que acumulam. Este processo desacredita os sistemas políticos e o povo começa a dar as costas aos sistemas políticos representativos129.

A conversão de tipo social de que fala M ujica é principalmente uma conversão política, mas a “grande política”, “Política com ‘p’ maiúsculo” da qual fala Francisco 130. É também necessário construir outra cultura que se assente em bases “solidárias”, não sobre “valores capitalistas”, pois não são as estruturas políticas ou econômicas que motivam uma “conduta civilizatória” de fato; em última instância todos os esforços serão esvaziados se a cultura capitalista globalizada permanecer ditando as escolhas das nações. O grande perigo é a impessoalidade deste sistema, ele dispensa governos ou os utiliza somente como “fachada” para esconder os verdadeiros detentores do poder. Neste momento da história é preciso preparar um novo “sistema representativo” com mais capacidade de intervir nos rumos do mundo que estão cada vez mais sendo ditados pelo mercado. Para isso, é preciso valorizar os “movimentos sociais”, “os sindicatos” e a “política”, ela é um meio de manter a luta social no futuro e pelo futuro, “necessitamos da política para que viva a sociedade, nosso bem comum”, foi desta forma que o “progresso humano” se fez possível, com lutas sociais. E um dos bens sociais mais necessários, ainda hoje, é a igualdade, “por isso, aos três Ts, eu poria um ‘I’ [...] a igualdade deve compor as utopias que nos guiam” 131. As conclusões dos M Ps sobre os três

‘Ts’ neste encontro são semelhantes às do II EM M P; resumimos aqui apenas aquelas conclusões sobre os temas Democracia e M igrações que foram acrescentados a estas discussões 132.

- Povo e Democracia: a democracia participativa é a que convém à sociedade como um todo, mas de modo especial à sua porção que é composta por “setores de trabalhadores, de

129 Idem.

130 FRANCISCO, Papa. Discurso aos Membros da Ação Católica Italiana . 30 de abril de 2017. Acessível em

<https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/s peeches/2017/april/documents/papa-francesco_20170430_azione- cattolica.html>.

131 MOVIMENTOS POPULARES. Pepe Mujica: “Si no cambia la cultura no cambia nada ”. Artigo citado

acima.

132 MOVIMENTOS POPULARES. Síntesis de los Movimientos Populares en los tres dias del III EMMP. 2 e 5

119 mulheres, de indígenas, de oprimidos”; as demandas destes grupos precisam ser levadas em conta no estabelecimento das políticas públicas. O capitalismo tem dominado a política através do “individualismo e da centralidade do lucro” e tem servido às “elites corporativas, ao capital, aos Bancos”, não ao povo. As lutas sociais têm sido perseguidas. Há ataques a governos próximos do povo, especialmente da América Latina, por causa do interesse sobre os recursos naturais. Há sinais positivos em algumas partes do mundo onde há “consultas populares, planificações participativas da gestão local, auditorias sociais às políticas públicas, iniciativas de leis desde e a favor da sociedade civil”. PROPOSTAS: construir uma “Agenda

dos Movimentos Sociais”; elaborar campanhas e leis que promovam a democracia

participativa; criar espaços de diálogo com os poderes públicos; incentivar a participação dos líderes dos M Ps na ação política das instituições em favor das “maiorias populares”; promover campanhas e mobilizações de massa ao redor de pautas populares; criar redes de solidariedade que transcendam o local; buscar a democratização dos meios de comunicação. - M igrações e refugiados: o problema das migrações está ligado à crise global do século XXI que é ocasionada pela sede de lucros e a “espoliação dos bens comuns”; os que não têm acesso à terra, teto e trabalho são obrigados a migrar; os migrantes sofrem em sua maioria a descriminação, o “tráfico humano, a prostituição e o narcotráfico”. PROPOSTAS: exigir a implementação do Plano de Ação da ONU para Afrodescendentes (2015-2024); reclamar por uma “cidadania universal”; crias “observatório” para identificar “atos vitimizadores” em relação aos migrantes; incentivar a criação de tribunais internacionais em prol dos migrantes; buscar a criação de um fundo mundial para socorro em situações de risco social; reafirmar o direito de “autodeterminação dos povos”; exigir o status de “refugiados” aos migrantes que passam fome, rechaçar os “campos de refugiados”.

As propostas deste III EM M P, na linha do AGIR, estão em sintonia com aquelas do encontro da Bolívia, mas alguns elementos são destacados : a percepção de que a “causa comum e estrutural da crise socioambiental é a tirania do dinheiro. O sistema capitalista imperante e uma ideologia que não respeita a dignidade humana” 133. As periferias que estão

representadas pelos M Ps são “credoras de uma dívida histórica, social, econômica, política e ambiental que deve ser saudada”. Os participantes do III EM M P propõe que cesse a

133 MOVIMENTOS POPULARES. Propuestas de Acción Transformadora que asumimos los Movimientos

Populares del mundo en diálogo con el papa Francisco . III EMMP. 2 e 5 de novembro de 2016. Disponível em <http://movimientospopulares.org/propuestas -de-accion-transformadora-que-asumimos-los-movimientos- populares-del-mundo-en-dialogo-con-el-papa-francisco/>.

120 perseguição dos “lutadores populares” como Bertha Cáceres134; maior participação dos M Ps

na vida política e econômica; rejeição da privatização da água; proibição do patenteamento e manipulação genética especialmente de sementes; luta pela “soberania alimentar”; implementação do “salário social universal para todos os trabalhadores”; luta pela “inviolabilidade da moradia familiar”; luta pela implantação da “cidadania universal”. Por último, os M Ps se comprometem a incentivar as comunidades igrejas locais a se integrar aos objetivos do Papa Francisco.

Tendo percorrido um pouco do desenvolvimento e das propostas deste encontro a partir da descrição que os próprios participantes fizeram, nos detemos aqui a trazer alguns olhares externos que podem enriquecer nossa visão de conjunto. Um ponto de vista próximo dos M Ps, mas incomum ao âmbito eclesial e até impensável em outros pontificados é o ponto de vista filomarxista que é o pano de fundo da apreciação que Geraldina Colotti faz do III EM M P 135. O interesse por seu ponto de vista surge do fato de que a tradição comunista, não obstante as mudanças de rota pelas quais passou nestes 170 anos de história, sempre guardou a oposição inicial de seus fundadores ao fenômeno religioso, de modo que sua visão sobre este evento está investida de isenção e mesmo que, eventualmente, esboce um entusiasmo, este não deverá ser entendido como apologético.

A autora deste artigo o entitula: Terra, casa, trabalho, a voz das favelas no Vaticano. A identificação dos M Ps com os moradores das favelas ou das villa misérias (slum) é significativa por identificá-los com a principal prioridade social de Francisco, as periferias. Não são só representantes destas populações, mas também moradores e trabalhadores destas regiões desprovidas; estes legitimam o evento com sua vivência experiencial da pobreza, das carências, da violência e dos desafios que compõem o cotidiano dos pobres do mundo. Colotti (2016) relata a fala do cardeal Turkson que disse que “os pobres devem lutar contra a injustiça” e, com as palavras de Francisco, acrescentou que estes não esperam de braços cruzados por assistencialismo ou soluções ineficazes que têm o objetivo de “anestesiar” e “domesticar”; os pobres “praticam a solidariedade” dos sofredores, esquecida pela sociedade individualista do conforto. A autora sugere que, em outros tempos, discursos como este teriam

134 Ativista ambiental Hondurenha, líder indígena d o seu povo e coordenadora do Conselho de Populares e

Organizações Indígenas de Honduras.

135 COLOTTI, Geraldina. Terra, casa, lavoro, la voce degli slum in Vaticano. In Il Manifesto, quotidiano

comunista. Edizione del 05.11.2016. Roma. Disponível em < https://ilmanifesto.it/terra-casa-lavoro-la-voce- degli-slum-in-vaticano/>. Tradução nossa.

121 “sustentado bem outras bandeiras, a quase 100 anos da revolução bolchevique”. A sugestão de que o encontro teria um discurso socialista se une à expressão: Papa “argentino e bolivariano” que convida a não “dobrar-se à injustiça” e prega contra o “deus dinheiro” e “o superpoder das multinacionais”. Ela menciona Jockin Arputham, do India-Slum Dwellers International, que disse que é necessário “falar menos e agir mais” e J. Grabois que propôs que a Igreja cedesse “ao menos 10% do seu imenso patrimônio imobiliário”. À objeção da impossibilidade de criar mudanças reais frente aos “poderes fortes” que dominam as democracias, ela acrescenta com John M ark M wanika, sindicalista de Uganda, que os governos que se opõem à ingerência do capital sobre a vida pública são “varridos por golpes institucionais, como no Paraguay ou no Brasil, em uma aliança perversa entre os poderes legislativo, judiciário e midiático”. Colotti recorda o grito de guerra “Fora Temer” da brasileira Beatriz Cerqueira que denunciou o desastre ambiental de M inas Gerais. Do ponto de vista do território e da preservação do meio ambiente, ela lembrou a ecologista indiana Vandana Shiva que alertou para o “perigo” dos acordos econômicos entre a União Europeia, os EUA e Canadá (Ttip e Ceta), lembrou também do neozelandês Te Ao Pritchard, do Pacific Panthers Network que falou contra o comércio de armas e contra os navios de guerra que poluem as águas. Ela narra que no Brasil houve uma “intimidação à sede da Escola Florestan Fernandes ” do M ST por parte da polícia militar; conta também da chegada de Pepe M ujica que, segundo Ignacio Ramonet, seria outro papa: “o Papa e... o Pepe”.

Este olhar sobre o evento tem a virtude de mostrar a aprovação que a iniciativa dos EM M Ps têm mesmo junto a pessoas que não transitam no mundo católico ou que guardam alguma distância deste, mas que não podem ignorar o valor e a importância desta nova abertura da Igreja às periferias. Este é de fato o que está em jogo nestes encontros, a aliança entre a Igreja que se quer pobre com os pobres que passam a querer a Igreja ao seu lado. É evidente que esta Aliança não é, nem perfeita, nem tem garantias de funcionar sempre e em todo lugar; há com certeza, padres e bispos que veem com desconfiança este tipo de atividade e qualquer proximidade com posturas socialistas. M as isto não impede que os M Ps sejam acolhidos na Igreja, pois estes encontros os legitimam pela instância máxima da instituição, o Romano Pontífice. Seria, porém, decisivo para a eficácia dos seus objetivos que a maioria das Igrejas locais (particulares) oferecesse aos M Ps uma acolhida semelhante àquela que Francisco propõe a toda Igreja; desta forma, o cristianismo católico, ao exercer sua função

122 social junto aos setores fragilizados da sociedade de modo não assistencial somente, mas de modo a motivar, sustentar e popularizar a existência e a ação de movimentos dos quais os excluídos participam ou pelos quais são assistidos para a obtenção plena de seus direitos básicos. Esta aliança promoveria ambas as partes: os M Ps que alcançariam visibilidade, espaço e condições para exercer seu papel usando da estrutura eclesial; promoveria também a Igreja que ofereceria um testemunho coerente com os discursos do Papa, com a Tradição do Vaticano II e com o Evangelho. Além disso, a Igreja contribuiria profeticamente para a transformação de uma realidade que direta ou indiretamente atinge também a ela, ou seja, a “globalização da indiferença” – que pode ser também religiosa além de social – e o individualismo capitalista que em sua raiz se opõe ao coletivismo pré-moderno típico do catolicismo.

Para que esta parceria seja difusa na Igreja, porém, se faz necessária uma “mudança de

cultura”, como disse M ujica, pois também os fiéis católicos são dominados em grande parte

pela sedução da cultura da religião capitalista que mergulha a fé cristã em um ‘caldeirão’ de individualismo e consumismo, temperado com um pensamento único e globalizado. Esta ‘mistura mágica’ produz uma cultura também única e impermeável à ação evangelizadora da Igreja. A mudança de cultura, para ser factível, precisa deixar o “ centro” e se instalar novamente na periferia do mundo; não somente as periferias geográficas, estas também, principalmente aquelas que Boaventura Souza Santos chamou de “sul global”, mas a periferia do mundo globalizado que situa-se longe dos “centros” (o “norte global”), ou seja, nas “M ARGENS” da sociedade e da religião.

123

IV AS PERIFERIAS SÃO O CENTRO

O objetivo deste capítulo é o de analisar os discursos que o Papa Francis co proferiu nos EM M Ps; a análise se fará a partir dos referenciais teóricos apresentados nesta tese, colocando as periferias existenciais no centro das atenções da Igreja. O deslocamento do paradigma pastoral sugerido pelo Papa Francisco, do centro para as periferias , é o elemento central desta análise. Além disso, com o propósito de ilustrar existencialmente estas relações, queremos apresentar de modo resumido algumas experiências e propostas que iluminam algumas possibilidades das dinâmicas sociais e culturais periféricas. Antes, porém, de iniciar este percurso hermenêutico dos discursos de Francisco, precisamos refletir, mesmo que sucintamente, sobre o estudo do discurso e sobre sua análise. Para tal, contaremos com a contribuição de E. Orlandi.

No documento Download/Open (páginas 117-123)