O jesuíta e oficial do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento humano integral, M ichael Czerny, juntamente com Paolo Foglizzo, apresentaram o primeiro EM M P de outubro de 2014, no Vaticano; de certo modo é uma visão oficial por ser uma voz do dicastério. Eles expuseram um pouco do que foi preparado e realizado para este encontro, quais grupos participaram e o que foi discutido e apresentado como conclusões e propostas. O Pontifício Conselho da Justiça e da Paz que foi responsável pela organização dos EM M P foi englobado em 2017 no Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento humano integral cujo prefeito é o cardeal Peter Kodwo Appiah Turkson, o mesmo do antigo Conselho. O texto é, também, uma espécie de relatório do primeiro EM M P, ele começa com uma descrição:
Uma cesta de produtos da terra, o modelo de uma casa de bairros pobres, reprodução em escala quase natural de um carrinho de segunda mão: estes são os presentes trazidos ao altar da Basílica de São Pedro no dia 28 de outubro na celebração Eucaristia realizada durante o Encontro Mundial de Movimentos Populares (EMMP). Os três presentes referem-se às palavras-chave que deram título ao Encontro: Terra, Domus, Labor (“Terra, casa, trabalho”, na versão oficial em latim), ou tierra, techo, trabajo (os três “T”), na versão espanhola também usada pelo Papa Francisco no seu discurso aos participantes (CZERNY e FOGLIZZO, 2015, p.14)108.
Esta caracterização nos introduz no ambiente em que se desenvolveram estes encontros; é o contexto das periferias, o leitmotiv de Francisco, com os elementos que compõem sua vida e sua luta, elementos simples, mas vitais. Eles são apresentados na Basílica de São Pedro como sinal do encontro das periferias com a fé, com a Igreja, e sinal da importância deste encontro para ambas as partes: a Igreja que se comunica e se expande e as periferias que se visibilizam. É disso que se trata: comunicação e visibilidade. O pontificado de Francisco tem mostrado sua preocupação com uma Igreja que fala, mas não é ouvida; diferente de um passado distante em que ela era combatida, perseguida, acusada de ser alienada e de alienar por sua aliança com os que detêm o poder e a riqueza, acusada de subversão por sua aliança com os oprimidos. Havia inimigos, como sempre houve, mas havia
103 uma escuta de concorde ou discorde; na sociedade tecnológica e líquida109, porém, a voz da
Igreja se perde na Babel110 não tanto das vozes incompreensíveis, mas dos ouvidos incapazes.
Francisco quer que a Igreja seja ouvida. Já os movimentos populares querem ser vistos , precisam de visibilidade para que suas lutas tenham algum êxito, sabem que na sociedade globalizada aquilo que não se vê, não existe, não conta.
O primeiro encontro se deu de 27 a 29 de outubro de 2014 no Centro de Congressos Salesianum e no Vaticano. Dele participaram “representantes de cem movimentos e organizações populares de todo o mundo, bem como cerca de trinta bispos e eclesiásticos e cerca de vinte membros da equipe de vários corpos eclesiais ” (idem). O evento é uma novidade para o vaticano, mas não para o ex-bispo de Buenos Aires que celebrava anualmente uma missa “por uma pátria sem escravos ou excluídos” onde os convidados eram “catadores, habitantes das favelas, trabalhadores irregulares e vítimas de tráfico humano” (idem) que eram “convidados a oferecer um objeto como símbolo de sua situação e seu sofrimento e explicá-lo contando suas lutas e a necessidade de mudança social” (GRABOIS apud CZERNY e FOGLIZZO, 2015, p.15). Um destes catadores, Sergio Sánchez,
foi convidado pelo próprio Bergoglio a participar da missa de início de pontificado, em Roma, e teve lugar de destaque na cerimônia. A mídia vaticana noticiou assim o fato: “os pobres junto aos potentes” 111, tal era a surpresa pela
deferência que colocou chefes de Estado junto à simplicidade do povo. Sánchez havia testemunhado: “[Bergoglio] Era o único sempre ao nosso lado quando a luta foi mais difícil e que lutou contra as várias formas de escravidão às quais nós , trabalhadores, éramos submetidos”. Fatos insólitos como este são, na verdade, parte de um discurso implícito, da comunicação sem palavras da Igreja através de Francisco, um papa que fala mais pelos gestos que por discursos eruditos e distantes do comum da gente. Para além disso, “O EM M P tem um significado muito especial, programático do pontificado do Papa Francisco e especialmente de como convida a Igreja a cumprir sua missão no mundo” (CZERNY e FOGLIZZO, 2015, p.15).
109 Sociedade pós -moderna em constante mutação, incapaz de tomar forma física, sem perspectivas utópicas e
com um sentido de segurança diminuído. O pai deste pensamento, da “modernidade líquida” é o sociólogo Zygmunt Bauman.
110 Mito bíblico (Gn 11,1-9) da construção de uma torre, Babel, onde os h omens que falavam a mesma língua,
por castigo de Deus, passam a falar línguas diferentes e não se entendem mais.
111 I poveri accanto ai potenti. Una presenza voluta dal Papa. In: L’Osservatore Romano, 20 de março 2013,
104 No Anexo III deste trabalho há uma relação dos organismos que compuseram o I EM M P, eles representam um movimento social que cresce, sobrevive e atua na sombra da sociedade globalizada. Não são noticiados na grande mídia e quando o são, muitas vezes a notícia tem teor ideológico que busca criar opinião pública cont rária, como é o caso, no Brasil, do M ST (M ovimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra) que é vítima de notícias indiciárias que geram constante tensão social em torno da luta pela terra, é o que demonstra Sonia M aria Ferreira em sua tese de doutorado (FERREIRA, 2012). O anonimato é uma característica destes movimentos e isto torna os EM M P ainda mais relevantes; a valorização que Francisco promove destes organismos também tem como objetivo oferecer-lhes esta visibilidade para que sejam vistos e ouvidos pela Igreja e, por meio também dela, sejam um pouco mais incluídos na sociedade. É bem verdade que estes encontros não ocuparam lugar de destaque na grande mídia mundial, como é verdade que não tiveram grande repercussão em âmbito eclesial, mas iniciaram um caminho que prossegue e que já ocupa um lugar específico na história da Igreja e da participação social. Este caminho se estende também na direção da construção de uma cooperação importante entre religião e movimentos de transformação social, evidenciando assim a função social da religião da qual nos referimos no primeiro capítulo.
A indagação sobre o que motiva esta iniciativa se faz necessária. Estaria a Igreja preocupada com a recuperação quantitativa de fiéis? Ou em recuperar um pouco da imagem que tem sido manchada pelos inúmeros escândalos que ocupam a mídia internacional? Estes ‘cálculos’ estão presentes, certamente, na mentalidade de alguns membros da instituição e é natural que seja assim, só com esforço apologético não se admite isso. M as alguns fatos se colocam na contramão destes questionamentos. Em primeiro lugar, a questão numérica não é alterada com encontros deste tipo, as atividades que atraem multidões no campo da fé nestes últimos tempos têm sido aquelas que transparecem uma eclesiologia triunfalista, com apelos espirituais individualistas, afastados daquela visão de inserção no mundo que o Concílio Vat. II preconizava. Atividades como esta sofrem até mesmo ataques daqueles que, mesmo após a queda do M uro de Berlin, insistem em perseguir a ameaça comunista nos dias atuais, deste modo, ao invés de promoverem a recuperação da boa imagem perdida, às vezes corroboram com sua perda de prestígio em alguns contextos mais conservadores. Por outro lado, a visibilidade midiática destes eventos é bastante pequena ou quase nula. Então, qual seria sua motivação?
105 A conferência de imprensa sobre este primeiro Encontro reuniu alguns dos organizadores do evento, entre eles Juan Grabois, representante da Confederação dos Trabalhadores da Economia Popular Argentina (CTEP), que afirmou: “a cultura do encontro está na base deste evento” 112. Este jovem advogado que se dedica a assessorar a luta dos
catadores do M ovimento dos Trabalhadores Excluídos é professor de Teoria do Estado e de prática profissional, respectivamente, na Universidade de Buenos Aires e na Universidade Católica Argentina entre outras atribuições. Ele mantém com o Papa Francisco uma proximidade que se formou em Buenos Aires com o Bispo Bergoglio em torno de atividades de promoção dos trabalhadores excluídos do sistema; em função desta proximidade ele foi nomeado consultor do então Pontifício Conselho Justiça e Paz do Vaticano e foi um dos mentores dos EM M Ps. Ele diz à imprensa nesta ocasião: “Hoje a riqueza nas mãos de poucos cresce exponencialmente, enquanto a maioria da população se empobrece sempre mais. Este encontro não quer ser ideológico, simplesmente estas instâncias correspondem à Doutrina Social da Igreja”. Ele acrescenta que o encontro quer ser o início da construção de uma “alternativa à globalização que tende a excluir as pessoas”; alternativa que é possível porque eles já a vivem de modo digno, “longe do consumismo, do individualismo e da indiferença”. De fato, a viagem dos membros destes organismos, que são em sua maioria muito pobres, só foi possível graças à solidariedade de muitos.
Além de Grabois, estavam presentes à conferência de imprensa, também, o Cardeal Turkson que lembrou a proximidade do bispo Bergoglio com os mais pobres na Argentina e o chanceler da Pontifícia Academia das Ciências, o argentino Dom M arcelo Sánchez Sorondo que afirmou que estes movimentos populares são desconhecidos do mundo e “não têm nenhum reconhecimento institucional, nem dos governos, nem dos sindicatos”, são vítimas da “globalização da indiferença” como tem ensinado Francisco. Este prelado apresenta dados importantes: 70% dos trabalhadores urbanos na Índia são informais, nas Filipinas, são 40%. É um problema social, por isso Turkson afirmou que o “encontro é político” no sentido de se dirigir aos governantes para que se ocupem destas situações. Sorondo disse que a Doutrina Social da Igreja não estava sendo mudada, mas havia uma “hierarquização das prioridades”; quanto às acusações de afinidades com o marxismo, disse que o Papa não era trotskista, mas tinha amigos que são. Estes insólitos posicionamentos oficiais da parte da hierarquia da Igreja ao mesmo tempo em que refletem esta hierarquização alternativa dos temas da doutrina
112 Conferenza stampa de 24 de outubro de 2014, disponível em <http://movimientospopulares.org/conferenza-
stampa-vaticano-i-movimenti-popolari-di-tutto-il-mondo-incontrano-papa-francesco/>. Acesso em setembro de 2017.
106 social a partir de Francisco, causam desconforto às instâncias eclesiásticas e seculares que insistem na separação entre Igreja e política, ou entre Igreja e economia, e oferecem resistência às possibilidades que se levantam; estas resistências podem se materializar em ataques diretos ao Papa e à Igreja ou se limitam a reforçar a invisibilidade destas iniciativas como, aliás, já é a tendência do sistema que domina o acesso das massas populares às informações. Não obstante esta oposição, a hierarquização alternativa do discurso social da Igreja coloca como necessidades principais a serem reivindicadas, aquelas relativas à produção rural, à moradia e à ocupação. Este encontro, como os seguintes, se desenvolveu em torno dos “três Ts” (tierra, techo, trabajo) e voltado aos
pequenos agricultores e pescadores, meeiros, trabalhadores braçais, trabalhadores agrícolas sazonais, agricultores sem terra ou proprietários de terras muito pequenas, etc. (Terra); habitantes de áreas periféricas e favelas, pessoas que vivem nas ruas, em casas ocupadas ou em acomodações improvisadas, comunidades camponesas, etc. (Teto); negociantes de produtos de segunda mão, raspadores, catadores, recicladores, vendedores ambulantes, artesãos de estrada, condutores de riquixás, assistentes de estacionamento, flanelinhas e vendedores em semáforos, trabalhadores por diária, trabalhadores domésticos e cuidadores, trabalhadores da fábrica recuperadas, etc. (Trabalho) (Conferenza stampa de 24 de outubro de 2014).
Czerny e Foglizzo destacam que a denominação ‘movimentos populares’ não reflete exatamente a realidade destes grupos. As organizações internacionais usam o termo: “setores de economia informal”. Destes participa quase a metade da população mundial ativa que corresponde, em alguns casos, a mais da metade do Produto Interno Bruto (PIB): “as economias informais, apesar de sua heterogeneidade, caracterizam-se geralmente por uma alta incidência de pobreza, desigualdade e vulnerabilidade aos déficits de trabalho decente” 113.
Uma das características principais desta forma de economia é a falta de garantias trabalhistas que fornecem um mínimo de dignidade e segurança ao trabalhador; outro termo que também se usa é “economia popular”, definida por Juan Grabois como:
...conjunto de atividades econômicas, unidades produtivas e empregos de subsistência aos quais recorrem os setores mais empobrecidos das classes trabalhadoras como alternativa à oferta de emprego assalariado insuficiente. A característica comum desses processos é que os meios de trabalho (ferramentas, máquinas, bens, oficinas e áreas de vendas) estão ao alcance dos setores populares, basicamente porque eles foram descartados pelo capital como instrumentos de acumulação ou porque o povo dos pobres os conquistou com muita luta (Grabois 2014b, apud CZERNY e FOGLIZZO, 2015, p.16).
113 Organização Internacional do Trabalho (OIT). Resultado 6: Formalización de la economía informal, Consejo
de Administración 329.ª reunión, Ginebra, 9-24 de marzo de 2017 GB.329/POL/2. Disponível em < http://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/---ed_norm/---
107 Os movimentos populares estão presentes à cena pública dos países com maiores índices de pobreza e da desigualdade que é sua raiz; de fato, como tem insistido Jessé de Souza, é preciso entender pobreza e riqueza como consequência da desigualdade e não o oposto, assim, é da “naturalização da desigualdade social” que são produzidos os “subcidadãos” em massa nos “países periféricos de modernização recente”; estes são fruto, segundo este sociólogo, da própria modernização em sua “impessoalidade” própria da modernidade (típica de países periféricos, ou seja, depois do período pré-moderno). É este processo de naturalização que faz a desigualdade “tão opaca e de tão difícil percepção na vida cotidiana” (SOUZA, 2004, p.79-80) 114. Os movimentos populares, apesar de numerosos e de
representarem uma alternativa às contradições do neoliberalismo, sofrem esta opacidade
periférica. Eles são eclipsados pela dinâmica centralizadora do sistema capitalista que os
exclui da sociedade e do mercado e os faz orbitar fora da zona da existência econômica, midiática e legal da qual fazem parte as classes dos consumidores e produtores regulamentados. Esta é a base da dificuldade de encontrá-los nas estatísticas oficiais; para “encontrá-los, precisamos sair do ‘centro’ do sistema econômico e ir para sua periferia” (Grabois, 2014b apud CZERNY e FOGLIZZO, 2015, p.17). É o que o Papa pede à Igreja desde o começo: abandono da zona de conforto e busca das periferias (EG 20) sem se importar com barreiras de religião, origem ou ideologia. Os EM M Ps fazem da periferia, centro e, assim, propõem uma “radical reconfiguração” desta relação e buscam oferecer a estes movimentos e associações um instrumento para despertar a atenção que eles merecem por representar entre “50 e 70% da ocupação não agrícola nos países em via de desenvolvimento” e grande parte dos trabalhadores informais do campo em países desenvolvidos, o que alcança a quantidade de cerca de três bilhões de pessoas (CZERNY e FOGLIZZO, 2015, p.17). É um contingente gigantesco, mas que pouco influi nos rumos do sistema econômico ou na escolha das políticas públicas de cada país que deveriam atender suas demandas por necessidades básicas; compõe a maioria em alguns países, mas possui capital político inexpressivo. Em resumo, necessita tornar-se relevante, visível, incluído. O objetivo dos EM M Ps é justamente o de oferecer uma oportunidade para que estes movimentos e instituições se tornem visíveis e relevantes, não tanto aos olhos dos centros sociais de cada país, mas ao menos, e não menos importante, de se tornarem visíveis uns para
114 Para maiores aprofundamentos: Jessé SOUZA. A construção social da subcidadania : para uma sociologia
108 os outros, o que reforça os trabalhos e lutas nos quais estes estão envolvidos, posto que partilham experiências afins e aprendem novos métodos de organização, de produção e manifestação social, assim, empoderam-se mutuamente num processo de legitimação recíproca. Para isso, entre os objetivos deste encontro, estava o de
...promover oportunidades de diálogo e formas de coordenação global e as organizações e movimentos populares; encorajar o diálogo entre movimentos populares (cristãos ou não) e a Igreja em todos os seus níveis (universal, regional e nacional), também com o objetivo de estimular o compromisso das Igrejas loca is (CZERNY e FOGLIZZO, 2015, p.19).
Este objetivo expressa de maneira plena o sentido daquilo que no primeiro capítulo desta tese foi tratado como uma porção específica daquilo que diversos autores estudaram como função social da religião. É preciso com energia afirmar que esta função é parte integrante das dinâmicas religiosas, não obstante o fato de alguns grupos religiosos guardarem historicamente tendências alienantes que traziam a ilusão de estarem distantes das preocupações materiais e sociais que fazem parte da vida dos povos; o termo ‘ilusão’ aqui se refere ao fato de que exercendo uma função social ou evitando-a, o efeito social permanece, seja contribuindo com mudanças significativas para a sociedade, seja contribuindo com o
status quo dominante. De fato, como dissemos no primeiro capítulo (p.43), entre os fatos
religiosos, há os que “se opõem às formas radicais e desumanas que o comportamento econômico pode assumir e os que legitimam este comportamento” (idem); aquelas atividades religiosas que legitimam “formas menos racionalizadas e mais comunitárias de economia” se assemelham à iniciativa dos EM M Ps, ao menos em suas perspectivas e objetivos, mesmo que na prática seus efeitos participem da invisibilidade dos movimentos populares no que diz respeito à repercussão destes encontros no campo religioso católico. A função social da Igreja neste caso fica evidenciada como tendência do pontificado e constituirá uma memória religiosa do catolicismo com o potencial de inspirar atividades futuras e legitimar comportamentos solidários, não só entre cristãos, mas também entre outros grupos humanos religiosos ou não que se identifiquem com esta forma de agir social. É o que parece crer Francisco ao citar seu antecessor, Bento XVI: “a Igreja não cresce por proselitismo, mas ‘por atração’” (EG 14).
No primeiro EM M P com o Papa Francisco, como é de costume no âmbito católico, fez-se uso de uma metodologia que nasceu na Ação Católica que o Papa João XXIII popularizou e que acompanha quase todos os grandes eventos voltados à transformação
109 social; aquela que evidencia três atitudes específicas na análise da realidade:ver, julgar, agir.
Czerny e Foglizzo lembram a centralidade dos temas “terra, teto e trabalho” neste primeiro EM M P; temas que foram centrais, daí em diante, nestes encontros. Além destes, falou-se do meio ambiente e da construção das condições para o estabelecimento e manutenção da paz. M as a constatação mais comum foi certamente aquela de que “a raiz dos males sociais e ambientais deve ser procurado na natureza injusta e predatória do sistema capitalista que coloca o lucro acima do ser humano” (Declaração Final, nº 3, apud CZERNY e FOGLIZZO, 2015, p.19). A sintonia com o discurso anticapitalista de Francisco se faz perceber com facilidade, tanto na EG (53-60) como em muitos outros momentos; sintonia que identifica o profetismo dos movimentos populares ao do Papa ao denunciar profeticamente e sistematicamente a centralidade do econômico sobre o humano neste sistema e, simultaneamente, de mostrar a centralidade da periferia como caminho alternativo ao da exclusão que este gera. Aqui o protagonismo da periferia se destaca e se justifica, pois a reação à exclusão imposta não poderia surgir senão do lado dos excluídos; se protagonismo significa: primeiro a lutar ou a falar, os excluídos das periferias serão os primeiros a agir na luta contra este sistema, desde que se reconheçam ‘empoderados’ para tal.
Esta é a função da Igreja ao promover estes encontros, a de promover o acesso a este poder, emprestando algo que é próprio de seu modo de dominação, tanto burocrática como carismática (WEBER, 1991), ou seja, sua legitimação. Assim, de certo modo, a Igreja legitima estes movimentos embora a natureza destes, seu campo e modo de ação sejam outros que não o religioso, próprio dela. Essa legitimação poderá ser mais eficaz na medida em que esta parceria for difundida entre as igrejas particulares 115 que compõem a unidade católica e for promovido um olhar diferenciado dos cristãos em relação aos movimentos populares, meta que parece ainda bastante distante e difícil de ser alcançada visto que o campo religioso (BOURDIEU, 1992) próprio do catolicismo atual ainda reflete os influxos das posturas mais conservadoras dos últimos pontífices, a despeito da popularidade, do carisma e das reformas de Francisco. Serão necessários alguns anos para que o quadro de novidades deste Papa se torne um elemento constituinte do referido campo. Por hora, a estratégia parece ser a de