CONTRIBUIÇÕES PARA O ENSINO
DO DIREITO
Ana Clara Correa Henning1
Renata Lobato Schlee2
Paula Correa Henning3
PALAVRAS-CHAVE: ensino do direito; imagens; estudos fou- caultianos; estudos decoloniais.
1 Graduada em Direito (UFPel). Especialista em Direito (UNISINOS). Mestre em Educação (UFPel). Mestre em Direito (PUCRS). Doutoranda em Direito (UFSC). Membro do Grupo de Pesquisa em Antropologia Jurídica (GPAJU) da UFSC. Membro do Núcleo de Estudos de Identidades e Relações Interétnicas (NUER) da UFSC. Membro do Grupo de Pesquisa Educação, Cultura, Ambiente e Filosofia (FURG). Bolsista CAPES.
2 Graduada em Estudos Sociais com Licenciatura Plena em História pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Especialista em Educação pela UFPel. Especialista em Ecologia Humana pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Mestre em Educação Ambiental pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Doutoranda em Educação Ambiental na FURG - bolsista da CAPES. Professora do ensino fundamental, médio e supe- rior. Membro do Grupo de Pesquisa Educação, Cultura, Ambiente e Filosofia (FURG)
3 Graduada em Pedagogia pela Universidade Católica de Pelotas (UCPel). Mestre em Educação pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Doutora em Educação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Professora adjunta II e pesquisadora do Instituto de Educação e dos Programas de Pós- graduação em Educação Ambiental e Educação em Ciências da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Coordenadora do Grupo de Pesquisa Educação, Cultura, Ambiente e Filosofia (FURG).
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INTRODUÇÃO
Propomos, com este texto, debater sobre alguns conceitos dos estudos foucaultianos e dos estudos decoloniais, entendendo- -os como valiosas ferramentas para a educação jurídica. Aliados a métodos de análise de imagens, pensamos que sua produtividade nas salas de aula de cursos jurídicos é significativa.
Trazemos, para isso, comparações sobre duas obras de Eugenè Delacroix, A Liberdade Guiando o Povo e Fanáticos de Tanger,
acentuando as narrativas de poder e de saber imbricadas em tais artefatos.
1 ANÁLISES IMAGÉTICAS NAS SALAS DE AULA DE CURSOS JURÍDICOS: NOVOS OLHARES PARA O DIREITO
Observa-se, hoje, pesquisas que unem imagens, educação e direito (LEITE; DIAS, 2013, p. 03; LEITE; HENNING, 2015, p. 222), ressaltando conexões possíveis entre regramentos jurídi- cos, pedagógicos e pinturas, grafites ou desenhos, dentre outras representações, formulando direções metodológicas para funda- mentar esses debates. A dimensão imagética é narrativa de saber e de poder, ainda que não dependa de palavras. Com isto queremos afirmar que a imagem desenvolve narrativas acerca daquilo que produz, ela cria categorias, deslegitimando outras.
Nessas imbricações, trazemos as contribuições de dois pes- quisadores de estudos imagéticos que entendemos valiosas para este texto. Ralf Bohnsack (2007, p. 290-292), desenvolvendo investiga- ções acerca da compreensão de imagens, utiliza o método documen- tário. Nele, diferencia a análise iconográfica da iconológica. A icono- grafia interessa “o que” é representado pela imagem, em um racio- cínio a-teórico, próximo ao senso comum e a suposições imediatas. Após esse primeiro momento, o pesquisador volta-se ao “como”, de que maneira são constituídos os fatos ou pessoa retratados; da mesma forma, quais os elementos que influenciaram o autor da ima- gem, em que contexto estava inserido. Bohnsack ressalta, enfim, a produção social e a direção de nossos olhares por meio da imagem:
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O fato de compreendermos o cotidiano através de imagens
significa que nosso mundo, nossa realidade social não é apenas representada de forma imagética, mas também constituída ou produzida desta forma. [...] a constituição do mundo através da mídia imagética pode ser ampliada se levarmos em consideração o fato de que a imagem tam- bém possui a qualidade de dirigir a ação [itálicos no original]
(BOHNSACK, 2007, p. 289-288).
Percebe-se que este tipo de análise possibilita valiosas percepções sobre imagens e seus contextos sociais, políticos, cul- turais e, mesmo, jurídicos. Nelas, perpassam estratégias de saber e de poder: elas são produtos de sua época, e, ao mesmo tempo, produtoras de visões de mundo, hierarquias de valores, gostos estéticos (KNAUSS, 2006, p. 112). Articulamos essa teorização com os ensinamentos de Martine Joly (2012, p. 63), cuja análise considera a complexidade do significado, mesmo que de uma imagem fixa.
Para a autora, a compreensão imagética é intricada e he- terogênea, demandando analogias e representações de seus va- riados elementos: cores, formas, composição, textura. Joly (2012, p. 63-113) constrói sua análise em quatro etapas: a) contextuali- zação: que exige o estudo da escola a que está filiado o artista e possíveis comparações com outras escolas; b) descrição da obra: por meio de quatro eixos plásticos (mensagens plásticas) trazidos pela imagem: formas; cores; composição e textura. Sua observa- ção inclui os limites físicos da obra (moldura), seu enquadramen- to e iluminação; c) identificação de signos icônicos: a atribuição de qualidades a pessoas ou coisas constantes na obra; d) obser- vação da mensagem linguística, abrangendo o título e legendas, porventura existentes.
Estes são métodos que, em nosso entendimento, propor- cionam ao aluno do direito novos olhares a respeito dos fatos e teorias que são desenvolvidos em sala de aula. Há, como já fartamente debatido (KIPPER, 2000, p. 63; LEITE, 2003), ca- racterísticas muito próprias da modernidade no ensino jurídico contemporâneo: abstração, dogmatismo, apego à letra da lei, ale-
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gadas neutralidades. Uma educação (e um direito) que, inúmeras vezes, se autodenomina isenta das relações de poder que perpas- sam o mundo.
Seria importante, assim, tornar visíveis certos conceitos que usualmente não são construídos nas academias jurídicas. Neste trabalho, propomos alguns deles, decorrentes dos estudos foucaultianos, tais como relações de poder, resistência, docilida- de de corpos, disciplina e regime de verdade (FOUCAULT, 2005, p. 16; FOUCAULT, 2006, p. 231-232; FOUCAULT, 2001, p. 118 e 143; FOUCAULT, 1993, p. 12). Outros, dos estudos decolo- niais: colonialidade/modernidade (QUIJANO, 1992, p. 440) e decolonialidade (WALSH, 2009, p. 15-16). Após análise icono- gráfica e iconológica das obras que aqui trazemos, tais conceitos serão desenvolvidos.
2 A LIBERDADE GUIANDO O POVO: SOBERANIA NACIONAL E LIBERDADE INDIVIDUAL
Tomemos, para iniciar nossos debates, a obra que segue, um dos ícones da tradição francesa da “liberdade, igualdade e fraternidade” – as quais, traduzidas para a sala de aula do di- reito, têm realçadas sua dimensão preponderantemente liberal burguesa: Imagem 1: DELACROIX, Eugenè. La liberté guidant le peuple. 1830. Musée du Louvre, Paris, France
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Iniciamos nossa análise observando, rapidamente, a his- tória autoral de Ferdinand Victor Eugène Delacroix. Nascido em 1798, falecido em 1863, este pintor retirava inspiração de temas dramáticos, ações violentas ou heroicas, tornando-se um dos maiores pintores franceses do século XIX. Filiado à escola romântica, valorizava o colorido, o movimento e os contrastes entre o claro e o escuro. Seu sujeito era o herói, um indivíduo por vezes sombrio ou devasso, apresentando um resultado dramático e emotivo (COSTA, GOMES, MELO, 2014, p. 477).
Nesse contexto, os artistas românticos combatiam o neo- classicismo e defendiam causas nacionalistas, sendo “inspirados e envolvidos de forma direta pelos assuntos públicos”, tornan- do-se “frequentes as temáticas de cunho social, que remetem a acontecimentos nacionais e contemporâneos a vida dos artistas” (VIEIRA, 2009, p. 10). Aquele momento histórico presenciava a dupla revolução, inglesa e francesa (HOBSBAWN, 2009, passim).
Daí a popularização de A Liberdade Guiando o Povo (DELACROIX,
1830), simbolizando a Revolução Francesa (BELL, 2008, p. 318). A obra representa a luta armada nas ruas de Paris. Entre diversos combatentes e a névoa da batalha, ocupando o centro do quadro está uma figura feminina, vestida de branco, com ilu- minação que a contrasta dos outros personagens. Carregando consigo a bandeira republicana tricolor e uma baioneta, esta mu- lher avança, mesmo sobre corpos estendidos no chão, e lidera um grupo revolucionário. Tais pessoas possuem todo o tipo de vestimentas, ali estando operários, burgueses, mesmo crianças maltrapilhas, todas portando armas. Um crítico de arte afirma:
A pintura inteligentemente combina corajoso registro con- temporâneo com alegoria de uma forma monumental. Lugar e tempo estão claros: Notre Dame é visível ao longe e pessoas estão trajadas de acordo com sua classe, com um garoto mal vestido a direita simbolizando o poder das pessoas comuns4
(FARTHING, 2011, p. 395).
4 Do original: The picture cleverly combines gritty contemporary reportage with allegory in a monumental way. Place and time are clear: Notre Dame is visible in the distance and people are dressed according to their class, with the scruffy boy on the right symbolizing the power of ordinary people. Esta e as demais traduções são da lavra das autoras.
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Também o título da pintura é importante na sua com- preensão, evidenciando alguns elementos, excluindo outros. “Liberdade” possuía um significado muito especial à época, in- clusive para a escola na qual Delacroix se filiava, que a relaciona- va com independência nacional. Assim:
É aqui que se insere a Liberdade de Delacroix. Ela guia o
povo, ela não o comanda, não o ordena, não tira dele a percepção de que ele é agente em um mundo material e em que as entidades abstratas precisam se personificar – tor- nar-se iguais – para agirem igualmente [grifos no original]
(COSTA, GOMES, MELO, 2014, p. 481).
A Liberdade, à frente da batalha, liderando revolucioná- rios franceses, tornou-se emblemática. A luta por autodetermi- nação, organização política e quebra dos privilégios da nobreza, eram objetivos conquistados pela bandeira e pelas armas. Aí está a moderna ideia de Estado e seus conceitos de soberania nacional e liberdade individual, tão ressaltados nas disciplinas de nossos cursos de direito. Todos possuiriam a capacidade de libertação. A partir daí, era de se esperar que a Revolução Francesa imprimiria radicais modificações na organização de suas colônias além-mar. Entretanto, o que ocorreu foram diversas demonstrações do po- der colonial. Um exemplo disto foi a venda da Lousiana (seu território, sua população) aos Estados Unidos, em 1803 - afinal, “o que pesam algumas ‘ilhas de açúcar’ diante da fascinação do braseiro revolucionário e da glória do império?” (MERLE, 2004, p. 728). Enfim, A Liberdade Guiando o Povo (DELACROIX, 1830)
desperta sentimentos de triunfo da liberdade, da verdade e da identidade nacional. Quaisquer baixas apenas tornarão mais va- liosa a vitória.
3 FANÁTICOS DE TANGER: COLONIZAÇÃO E JUGO EUROPEU
Apresentamos, neste momento, uma outra obra de Delacroix, para fins de comparação e melhor contextualização dos conceitos desenvolvidos na próxima parte deste texto.