1. O MOVIMENTO PELA INTERDISCIPLINARIDADE
1.2. INTERDISCIPLINARIDADE: UMA QUESTÃO DE ATITUDE
Na mesma linha teórica de Japiassu, Ivani Fazenda é, desde a década de 70, uma das pesquisadoras que mais se dedica ao assunto, tendo escrito diversos livros e orientado muitas pesquisas sobre interdisciplinaridade. Seu primeiro estudo - baseado na dissertação de mestrado defendida em 1978 e publicada em 1979 - foi prefaciado pelo próprio Hilton Japiassu, um indício de que ambos comungavam concepções semelhantes.
Em Integração e interdisciplinaridade no ensino brasileiro: efetividade ou ideologia surge o pensamento basilar da autora, exposto em textos posteriores: a interdisciplinaridade é, acima de tudo, uma prática. Para Fazenda (1979, p. 08) a “interdisciplinaridade não se ensina, nem se aprende, apenas vive-se, exerce-se e, por isso, exige uma nova pedagogia, a da comunicação”.
Uma das preocupações iniciais da autora foi de cunho terminológico. Considerando que a interdisciplinaridade recebe diferentes interpretações, a autora pretendeu diferenciar interdisciplinaridade, integração e interação, afirmando que a confusão terminológica dificulta um melhor entendimento da interdisciplinaridade. Nesse caso, temos respectivamente as definições da autora (pp. 8, 9) para os três termos.
(...) a relação de reciprocidade, de mutualidade, que pressupõe uma atitude diferente a ser assumida frente ao problema do conhecimento, ou seja, é a substituição de uma concepção fragmentária para unitária do ser humano. [...] A integração refere-se a um aspecto formal da interdisciplinaridade, ou seja, à questão de organização das disciplinas num programa de estudo [...]
É condição de efetivação da interdisciplinaridade. Pressupõe uma integração de conhecimentos visando novos questionamentos, novas buscas, enfim, a transformação da própria realidade.
Antes de chegar ao que diz ser sua máxima finalidade, “levantamento dos principais obstáculos que impedem a efetivação do trabalho interdisciplinar e de possibilidades em superá-los” (p. 22), a autora relata a gênese do conceito de interdisciplinaridade e apresenta, de forma detalhada, as definições dadas pelos estudiosos Guy Michaud, Heckhausen, Boisot e Erich Jantsch. Esses estudiosos estavam, na época, diretamente envolvidos com as definições de uma metodologia interdisciplinar e chegaram a estabelecer algumas de suas bases nos
seminários da OCDE6, como já havia sido exposto em Japiassu (1976).
Após a análise dos pressupostos dos pesquisadores, Fazenda opta pela manutenção dos
conceitos mais utilizados na bibliografia especializada: pluridisciplinaridade,
multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, e, como Japiassu, acredita que exista entre esses termos uma gradação estabelecida ao nível da coordenação e cooperação entre as disciplinas. Nesta gradação, a pluri e a multidisciplinaridade precisam ser superadas, a interdisciplinaridade aparece como uma meta, por tratar-se da solução para a fragmentação do saber, enquanto a transdisciplinaridade configura-se numa utopia ou sonho, como já havia salientado Japiassu ao referir-se à origem do termo.
Após conceituar o termo, Fazenda (1979, p. 41) tenta frisar que a interdisciplinaridade não pode ser considerada uma ciência, mas “o ponto de encontro entre o movimento de renovação da atitude frente aos problemas de ensino e pesquisa e a aceleração do conhecimento científico”.
Da mesma forma que Japiassu, Fazenda credita grande poder à interdisciplinaridade. Ambos, na verdade, estavam impregnados pelas conclusões divulgadas em 1970, no seminário da OCDE, que estabelecia os seguintes benefícios da interdisciplinaridade (FAZENDA, 1979, pp. 44 – 48):
a) Meio de conseguir uma melhor formação geral b) Meio para atingir uma formação profissional c) Incentivo à formação de pesquisas
d) Condição para uma educação permanente e) Superação da dicotomia ensino-pesquisa
f) Forma de compreender e modificar o mundo
Todos esses benefícios estariam relacionados à integração e interação entre as disciplinas, o que não deixa de parecer um exacerbado otimismo diante dos demais fatores que influenciam a educação escolar.
Assim como apresenta os benefícios da interdisciplinaridade, Fazenda (1979, pp. 52 – 57) preocupa-se em determinar seus principais obstáculos: a organização hierárquica das disciplinas; o comodismo das instituições de ensino ao preservar a idéia de supremacia das ciências e, por conseguinte, o comodismo dos especialistas; a dificuldade em definir e seguir as etapas de um método interdisciplinar, bem como superar a formação fragmentária dos professores e promover a construção de novos espaços e tempos favoráveis ao trabalho em equipe.
O projeto interdisciplinar é mostrado por Fazenda como uma prática viável, apesar das dificuldades; mais do que viável, uma prática essencial para a mudança na forma de conceber e construir o conhecimento. A autora detém-se no ponto de vista pedagógico, não enfatizando fatores históricos que determinam a configuração disciplinar existente.
Nesse texto, Fazenda analisa também a forma como o conceito de interdisciplinaridade estava sendo assimilado, na época, pelas principais leis que regiam a educação nas esferas de 1.º, 2.º e 3.º graus e conclui que a interdisciplinaridade aparece muito mais como um modismo do que como uma possibilidade efetiva de realização.
Em outros livros escritos ou organizados pela autora algumas idéias inauguradas em
Integração e interdisciplinaridade no ensino brasileiro são retomadas, entre elas a já citada
consideração de que interdisciplinaridade “não se ensina nem se aprende: vive-se, exerce-se.” (FAZENDA, 1991a, p. 18); outra idéia também difundida é a da atitude individual, pois, apesar da difusão da necessidade de formação de uma equipe, a autora insiste em frisar que as competências básicas para o projeto interdisciplinar estão no próprio professor, que precisa ter uma atitude interdisciplinar, estar imbuído do “desejo de descobrir, criar e integrar”. Nesse caso, Fazenda retoma a necessidade do chamado “espírito epistemológico” já citado por Japiassu.
Em Didática e interdisciplinaridade (1998), Fazenda critica o caráter intuitivo das práticas que comumente são chamadas de interdisciplinares, mostrando que os conceitos de
interdisciplinaridade foram assimilados de maneira errônea pelos professores e demais pessoas envolvidas com o processo educativo. No entanto, a autora talvez não perceba que, ao considerar a interdisciplinaridade uma questão de atitude, seu discurso também imprime uma exacerbada importância ao caráter intuitivo dessa prática.
Logicamente que, em seus textos, Fazenda não afirma que se deva permanecer na intuição, mas a mesma dificuldade apresentada pelos pesquisadores em definir a interdisciplinaridade se reflete nos consumidores dessas leituras, que, muitas vezes, tentam estabelecer ou até mesmo impor uma pedagogia interdisciplinar conforme seu parcial entendimento das concepções, principalmente pelo caráter positivo que o tema ganhou no cenário educacional.
Uma das principais preocupações de Fazenda, revelada desde seus primeiros textos até hoje, é a aplicação pedagógica da interdisciplinaridade, centrando sua atenção na atitude dos professores. A crença na intuição e na atitude do professor pode ser percebida claramente no livro: Interdisciplinaridade: um projeto em parceria (FAZENDA, 1991b, p. 18).
O projeto interdisciplinar surge, às vezes, de uma pessoa (a que já possui em si a atitude interdisciplinar) e espraia-se para as outras e o grupo. Geralmente deparamos com múltiplas barreiras – de ordem material, pessoal, institucional e gnosiológica – que, entretanto, podem ser transpostas pelo desejo de criar, de inovar, de ir além.
Na verdade, as obras posteriores à dissertação de mestrado da autora, demonstram que suas crenças não sofreram grandes alterações. Embora o discurso tenha se tornado mais ameno (a interdisciplinaridade não representa mais a salvação do mundo), a interdisciplinaridade ainda é descrita e almejada com certa dose de romantismo, como um ideal possível, conquanto haja pessoas dispostas a concretizá-la na prática educacional.
Embora problemas que superam o âmbito pedagógico e epistemológico sejam até citados nas obras, não há nenhuma discussão aprofundada do assunto. No texto
Interdisciplinaridade: história, teoria e pesquisa (1994, p 18) a autora divide os estudos sobre
a interdisciplinaridade em três épocas. A partir dessa síntese percebemos que, até o momento, as maiores preocupações estão limitadas aos âmbitos epistemológico e pedagógico.
1970 – procurávamos uma definição de interdisciplinaridade;
1980 – tentávamos explicitar um método para a interdisciplinaridade;
1990– estamos partindo para a construção de uma teoria da interdisciplinaridade (1994, p. 18)
Não parece, entretanto, que se vislumbre uma única teoria da interdisciplinaridade. Aliás, essa constatação foi feita, no mesmo livro, pela própria autora (1994, p. 13) ao considerar “impossível a construção de uma única, absoluta e geral teoria da interdisciplinaridade”. Fazenda, embora tenha afirmado que, na década de 90, partia-se para uma construção teórica da interdisciplinaridade, prefere ficar no que ela chama de “desvelamento do percurso teórico pessoal de cada pesquisador que se aventurou a tratar as questões desse tema”.
Na realidade, durante a década de 90, não houve muitos avanços em relação ao que já havia sido exposto anteriormente. Percebe-se na obra da autora, tanto na década de 90 quanto no início deste século, um resgate dos conceitos já estabelecidos, na tentativa de afirmar a necessidade de um ensino interdisciplinar. O discurso, no entanto, permanece muito mais utópico do que crítico.