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Limites objetivo e subjetivo da coisa julgada

3. A COISA JULGADA

3.4. Limites objetivo e subjetivo da coisa julgada

Entender o alcance, a órbita em torno da qual devem gravitar os bens da vida atingidos pelos efeitos da imutabilidade é indispensável para se ter segurança jurídica. São dois os limites da coisa julgada: objetivo e subjetivo.

situação jurídico-material das partes, relativa ao objeto do julgamento e às razões que uma delas tivesse para sustentar ou pretender alguma outra situação. Toda possível dúvida está definitivamente dissipada, quanto ao modo como aqueles sujeitos se relacionam juridicamente na vida comum, ou quanto à pertinência de bens a um deles. As normas e técnicas do processo limitam-se a reger os modos como a coisa julgada se produz e os instrumentos pelos quais é protegida a estabilidade dessas relações mas a função dessas normas e técnicas não vai além disso. Nesse sentido é que prestigioso doutrinador afirmou ser a coisa julgada material o direito do vencedor a obter dos órgãos jurisdicionais a observância do que tiver sido julgado (Hellwig). DINAMARCO, Cândido Rangel. Relativizar a coisa julgada material, cit., p. 12.

Conhecer o limite objetivo da coisa julgada significa conhecer qual parte da sentença adquire os efeitos da autoridade da coisa julgada. Isto porque nem todas as partes da sentença, que é composta pelo relatório, fundamentação e dispositivo, fazem coisa julgada, mas apenas as matérias efetivamente julgadas pelo juiz. A lei é expressa nesse sentido. O artigo 469 do CPC dispõe que os motivos, a verdade dos fatos e questão prejudicial não fazem coisa julgada. Por sua vez, o artigo 468 do CPC dispõe que “A sentença que julgar total ou

parcialmente a lide, tem força de lei nos limites da lide e das questões decididas”.

Conclui-se, portanto, que nosso diploma processual limitou objetivamente a coisa julgada ao dispositivo da sentença. Somente as questões que foram efetivamente decididas pelo juiz é que fazem coisa julgada.

Excepcionalmente, a questão prejudicial prevista no inciso III do artigo 469 do CPC poderá fazer coisa julgada, caso constitua um pressuposto necessário para o julgamento da lide e a parte assim requeira ao juiz, conforme autoriza o estatuto processual em seus artigos 5º, 325 e 470.145

Todavia, ainda que nossa lei seja absolutamente clara, a questão dos limites objetivos da coisa julgada encontra grande embate na doutrina especialmente no Brasil, colocando, de lado opostos, excelentes juristas, conforme leciona Sérgio Gilberto Porto. 146

Ada Pellegrini Grinover, em artigo que trata dos limites objetivos da coisa julgada, sustenta que nossa lei processual limita objetivamente a coisa julgada somente ao dispositivo da sentença, mas isso não afasta a relevância dos

145SOUZA, Gelson Amaro de. Direitos difusos e coletivos – Sentença – Limites subjetivo e objetivo da coisa julgada. Revista do Instituto de Pesquisas e Estudos, p. 240, dez. 2002/abr. 2003.

146PORTO, Sérgio Gilberto. Classificação de ações, sentenças e coisa julgada. Revista de Processo, São Paulo, v. 19, n. 73, p. 44-45, jan./mar. 1994.

motivos da sentença, já que estes têm importante papel nos efeitos da sentença e sua real extensão.147

Em fase de execução é correto afirmar que não se poderá modificar, aumentando ou restringindo, o conteúdo do dispositivo da sentença exeqüenda onde pesa a autoridade da coisa julgada.

Releva notar ainda que a controvérsia em torno dos limites objetivos da coisa julgada não dá ensejo à interposição de recurso extraordinário, por alegação de violação do artigo 5º, XXXVI, da CF.

É que a ofensa a ofensa à coisa julgada estaria limitada ao âmbito infraconstitucional. Nesse sentido, posicionou-se o Supremo Tribunal Federal no seguinte julgado:

“CONTROVÉRSIA EM TORNO DOS LIMITES OBJETIVOS DA COISA JULGADA – ALEGADA OFENSA AO ART. 5º, XXXVI, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL – Questão restrita ao âmbito infraconstitucional, não ensejando apreciação em recurso extraordinário. Agravo desprovido. (STF – AGRAG – 146668 – RJ – 1ª T. – Rel. Min. Ilmar Galvão – DJU 29.06.2001 – p. 00036)

Já os limites subjetivos da coisa julgada permitem-nos conhecer quem são as pessoas atingidas pela autoridade da coisa julgada. Para essa compreensão é necessário, primeiramente, definir parte e terceiros, porque o artigo 472 do CPC dispõe que a sentença somente faz coisa julgada entre as partes, não beneficiando e nem prejudicando terceiros.

147“Muito embora seja certo, conforme amplamente demonstrado, que a regra do direito brasileiro, em consonância com a autorizada doutrina, é no sentido e que apenas o dispositivo da sentença passe em julgado, e não assim os motivos, certo é que esses últimos têm relevante papel ao se determinar a real extensão dos efeitos da sentença e a respectiva imutabilidade”. GRINOVER, Ada Pellegrini. Considerações sobre os limites objetivos e a eficácia preclusiva da coisa julgada. Revista do Advogado, São Paulo, n. 65, p. 77, dez. 2001.

O conceito de parte sofreu grande transformação ao longo da evolução do direito processual. No passado, estava ligado à relação de direito material. Partes eram, então, os detentores do direito material.148

Estudos levados a efeito por Oscar Von Bülow em 1868, demonstraram que a propositura da demanda implica o nascimento de uma relação jurídica processual totalmente distinta da relação jurídica de direito material. Desde então, o processo passou a ser visto como uma relação jurídica autônoma da relação jurídica de direito material.149

No início do século XX Chiovenda definiu parte como “aquele que

demanda em seu próprio nome (ou em cujo nome é demandada) a atuação duma vontade da lei, e aquele em face de quem essa atuação é demandada”.150

Esse conceito não corresponde a toda realidade processual, porque põe em relevo o conceito de parte no sentido processual, mas não considera a parte em seu sentido material, vale dizer, o detentor propriamente do direito material.151

Atualmente, para se conceituar parte é necessário levar em consideração os conceitos de legitimidade para a causa, legitimidade para o processo e capacidade para agir.152

A legitimidade é qualidade da parte. Não é qualquer pessoa que pode ajuizar uma ação judicial, comparecer em juízo e defender direito alheio. Só pode propor uma ação judicial quem esteja autorizado a demandar sobre o objeto da pretensão resistida.

148MARQUES, José Frederico. op. cit., v. 2, p. 145.

149LIMA, Alcides de Mendonça. Direito processual civil. São Paulo: José Bushatski Editor, 1977. p. 291. 150CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de direito processual civil. Trad. J. Guimarães Menegale. São Paulo:

Saraiva, 1969. v. 2, p. 234.

151SOTT, Airton José. op. cit., p. 162-163. 152Id. Ibid., p. 167.

A partir dos estudos de Von Bülow, foi desmembrada em legitimidade ad causam (legitimidade para o direito material) e legitimidade processual (legitimidade para figurar como parte no processo).

A legitimidade ad causam, uma das condições da ação, pode ser entendida como a titularidade da afirmação de direito feita em juízo, ou seja, a titularidade do direito material. Está prevista nos artigos 3º, 267, VI e 295, II, todos do CPC.

Já a legitimidade processual, conforme Airton José Sott sustentou, em sua dissertação de mestrado, “é a situação jurídica específica, atribuída por

lei, que liga um sujeito a outro sujeito, para em nome próprio fazer ou suportar uma afirmação de direito. Ou, em outro giro, legitimidade processual é a situação jurídica específica que autoriza alguém a fazer, em nome próprio, uma afirmação de direito contra outrem, ou ter uma afirmação de direito contra si. Trata-se de um pressuposto de validade do processo e de eficácia de seu resultado. (...)Depois de exercida, a legitimidade processual se manifesta no processo como a titularidade ativa e passiva da afirmação de direito feita em juízo, ou seja, a titularidade da ação processual”.153

A legitimidade processual, portanto, constitui situação distinta do legitimidade “ad causam”. O legitimado processual apenas está autorizado por lei a demandar em juízo na defesa de direito material alheio. Não detém, portanto, a titularidade do direito material.

Importante ressaltar aqui que para que a legitimidade processual possa ser validamente exercida, é necessário que o autor detenha, também, a capacidade processual.

153SOTT, Airton José. op. cit., p. 167-168.

A capacidade processual é a qualidade necessária para adquirir e exercer direitos na órbita do direito civil. Pode ser exercida pelo sujeito de direitos ou por outrem. Alguém tem capacidade processual para estar em juízo quando pode mover uma ação judicial contra outrem ou ser validamente citado como réu.154

O conceito desenvolvido por Chiovenda é perfeito para a qualificação de parte quando estamos diante de casos em que ocorre legitimação ordinária, isto é, quando o próprio titular do direito material é quem ingressa em juízo com a demanda. Porém é insuficiente para explicar os casos em que ocorre legitimação extraordinária, isto é, quando um legitimado para o processo se apresenta em juízo para defender direito alheio.155

Bem por isso, ficamos com o conceito esposado por Airton José Sott para quem “parte em direito processual civil é aquele que age e se

apresenta como o legitimado para o processo e aquele que é apresentado como o legitimado para a causa”.156

Pode haver coincidência entre a titularidade do direito material e a legitimidade processual para a causa, mas não necessariamente. A primeira hipótese ocorre nos casos de legitimação ordinária, em que o próprio titular ingressa em juízo para defender seu direito. A segunda hipótese ocorre nos casos de legitimação extraordinária, detentor da legitimidade processual, mas não da legitimidade material.

Quanto aos terceiros, em linhas gerais, podem ser definidos como aqueles que não foram partes em determinada demanda. Existem três categorias de terceiros: aqueles que são indiferentes à demanda; os que possuem interesse de fato e os que possuem interesse jurídico.

154ALVIM, Arruda. Manual de direito processual civil, cit., p. 22-23. 155SOTT, Airton José. op. cit., p. 162-163.

Se “a” moveu uma ação judicial contra “b”, e “c” é absolutamente estranho à lide, ele é um terceiro indiferente; se tiver um interesse na demanda por ser credor de “b”, por exemplo, ele é um terceiro interessado de fato. Nestas duas hipóteses, os efeitos da sentença atingirão a todos, mas a coisa julgada atingirá somente às partes envolvidas no litígio e deverá ser respeitada. Nem o terceiro indiferente, nem o terceiro de fato poderão contestá-la naquele ou outro processo.

Um terceiro terá interesse jurídico quando, por exemplo, perdeu seu bem em litígio por outrem, num processo do qual não participou e tenha ocorrido coisa julgada entre as partes. Neste caso, poderá mover uma ação para rediscutir aquilo que foi discutido no outro processo.157

A regra é que somente as partes são atingidas pela autoridade da coisa julgada (artigo 472 do CPC) e a jurisprudência tem se manifestado nesse sentido.158159160. Por exceção, terceiros juridicamente interessados podem ser

157BAZILONI, Nilton Luiz de Freitas. A coisa julgada nas ações coletivas. 2002. p. 59. Dissertação (Mestrado) - Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 2002.

158PROCESSO CIVIL – LIQUIDAÇÃO – INTERPRETAÇÃO DA SENTENÇA LIQUIDANDA – ART. 610, CPC – COISA JULGADA – LIMITES SUBJETIVOS – ART. 472, CPC – EXTENSÃO A TERCEIROS – IMPOSSIBILIDADE – ARTS. 382, CPC E 19, CCOM – DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL NÃO CARACTERIZADA – DESSEMELHANÇA FÁTICA – RECURSO DESACOLHIDO – I – A liquidação de sentença deve guardar estrita consonância com o decidido no processo de conhecimento, para o que se impõe averiguar o sentido lógico da decisão liquidanda, por meio de análise integrada de seu conjunto. II – É defeso, na liquidação, modificar a sentença que julgou a lide, mas, na sua interpretação, compreende-se como expresso o que virtualmente nela se contém. III – A sistemática do Código de Processo Civil brasileiro não se compadece com a extensão da coisa julgada a terceiros, que não podem suportar as conseqüências prejudiciais da sentença, consoante princípio estabelecido no art. 472 da lei processual civil. IV – Os arts. 19, C.Com e 382, CPC, não impõem a terceiros a obrigação de exibir livros e documentos, mas somente às partes da relação jurídica processual. V – A dessemelhança fática entre acórdão impugnado e os arestos paradigmas não caracteriza a divergência jurisprudencial hábil a instaurar a via do recurso especial. (STJ – RESP 206946 – PR – 4ª T. – Rel. Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira – DJU 07.05.2001 – p. 00145).

159COISA JULGADA EFEITOS COISA JULGADA – Terceiro interessado. Sindicato. Declara expressamente o artigo 472 do CPC que a sentença faz coisa julgada às partes entre as quais é dada, não beneficiando nem prejudicando a terceiros. Não há que se falar em trânsito em julgado para a entidade assistente, pois a coisa julgada é estabelecida entre as partes no processo e não entre terceiros interessados, como o advogado do sindicato. Só se pode falar em coisa julgada em relação ao autor e réu não ao sindicato, que não é parte no processo. Os limites subjetivos da coisa julgada dizem respeito apenas a autor e réu não ao sindicato ou ao seu advogado. Nego provimento. (TRT 2ª R. – AP 20010191202 – (20010326841) – 1ª T. – Rel. Juiz Sérgio Pinto Martins – DOESP 03.07.2001).

160LIMITES SUBJETIVOS DA COISA JULGADA – PROTEÇÃO DO TERCEIRO QUE NÃO INTEGROU A RELAÇÃO PROCESSUAL – POSSUIDOR DESALOJADO EM DECORRÊNCIA DE ORDEM DE DESPEJO PROFERIDA EM AÇÃO DA QUAL NÃO PARTICIPARA – VIOLAÇÃO DAS GARANTIAS DO DEVIDO PROCESSO LEGAL, CONTRADITÓRIO E AMPLA DEFESA – DUPLO GRAU DE

atingidos. São eles: sucessor (herdeiro) e cessionário (quem recebeu por cessão o direito discutido na ação)