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2 – A LITERATURA MARGINAL E O ESCRITOR MARGINAL

A DOMESTICAÇÃO DO MARGINAL: O VALOR LITERÁRIO E O MERCADO COMO ELEMENTOS DE REDENÇÃO DA OBRA

2 – A LITERATURA MARGINAL E O ESCRITOR MARGINAL

50 PEREIRA, 2000, p.14. 51

Sobre o conceito de literatura marginal pode-se dizer que essa denominação desempenha uma designação funcional, dada a dificuldade de autores como Robert Ponge, Sérgius Gonzaga52, entre outros, de encontrar e estabelecer uma univocidade de características do porquê de uma obra ou autor serem considerados marginais. Segundo Ponge, “A literatura marginal seria a literatura à margem da literatura oficial, isto é, da literatura da classe dominante”53

. Esta classificação desempenha um papel importante para começarmos a entender o lugar dessa literatura marginal em uma perspectiva da literatura que é considerada nacional. Nesse sentido, tudo que foge aos parâmetros estará à margem. Veremos tal perspectiva na própria experiência da poesia marginal, que, entre outras renovações, transgredia a linguagem e contestava as posturas conservadoras.

Segundo Heloísa Buarque de Hollanda e Carlos Alberto

Pereira,

A poesia marginal, literariamente falando, consiste no estilo coloquial encontrado na maioria dos autores da geração mimeógrafo, caracterizado pelo emprego de um vocabulário baseado na gíria e no chulo, e de uma sintaxe isenta de regras de gramática, tal como no linguajar falado.54

Porém, para distinguir objetivamente a literatura marginal da não-marginal teríamos que passar pelo crivo de perguntas como: Seria o número de livros que definiria? Seriam os temas tratados? Seria a classe social do autor? Mesmo depois de respondermos essas perguntas, ainda assim, seria grande a possibilidade de se incorrer em uma denominação não satisfatória, pois surgiriam outros questionamentos sobre o que constitui ou não o caráter marginal da literatura.

No ano de 2005, o escritor Reginaldo Ferreira da Silva, mais conhecido como Ferréz, organizou uma coletânea de contos e poemas de dez autores, alguns provenientes da periferia de São Paulo e de outras partes do Brasil. Esse livro recebeu o

52 Autor de artigo que trata sobre literatura marginal e que aparece na coletânea já citada, Crítica literária em nossos dias e literatura marginal, organizada por João Francisco Ferreira.

nome de Literatura Marginal: Talentos da Escrita Periférica.55

Nessa obra, são expostos de maneira explícita os problemas e a realidade difícil dos moradores da favela e, de um modo geral, viabiliza-se o caráter de poder dar voz aos grupos excluídos da sociedade. Se analisarmos quais eram as camadas sociais que os poetas marginais ocupavam nas décadas de 60 e 70 e as que ocupam os escritores que figuram no livro organizado por Ferréz, podemos constatar que, a partir de um ponto de vista econômico e de inserção social, há uma enorme disparidade entre eles. No entanto, o que está em questionamento é o que eles — escritores, poetas, contistas — têm a dizer a partir daquilo que produzem. Diante dessa constatação, poderíamos indagar sobre o possível surgimento de uma nova literatura marginal?

É importante salientar, como foi dito anteriormente, que o caráter marginal não pode ser entendido como diretamente relacionado à origem social do autor, mas fica evidente que tal ponto também é relevante para que se possa classificar uma obra ou um autor como marginal. Logo, entende-se que o conceito de literatura marginal não está fechado a uma ou duas características. Por exemplo, se levamos em conta o caráter de recepção das obras pelo mercado editorial e pela mídia tanto das manifestações artísticas dos poetas marginais quanto dos escritores que puderam veicular os seus contos no livro acima citado, observamos pontos convergentes, uma vez que os contos do livro Literatura Marginal assim como os poemas marginais fogem ao padrão formal, ou seja, apresentam uma linguagem própria do gueto. Especificamente podemos salientar o uso recorrente de gírias e uma ortografia bastante diferente, retratando o seu cotidiano, suas experiências, reconhecendo-se em sua comunidade, fazendo com que ela se reconheça na sua escrita, e fazendo com que essa chegue a seu mundo que, muitas vezes, nos surpreende pela sua riqueza de vivências.

55 Nessa coletânea encontramos talentos como Alessandro Buzo (Itaim Paulista), Dona Laura, moradora

de uma colônia de pescadores de Pelotas, Eduardo que é vocalista e letrista do grupo de rap Facção Central, entre outros.

O que dizer depois que livros como aqueles que são reconhecíveis dentro da perspectiva da literatura dita marginal, isto é, que têm como objetivo dar a conhecer a voz dos excluídos que vivem à margem da sociedade, caem no gosto das grandes editoras e viram fenômenos de venda? Estas escritas perdem o seu caráter de marginalidade? Elas passam de uma abordagem marginal para a de um novo tipo de cânone? Seria viável dizer da formação de um cânone marginal? Podemos afirmar de antemão que o fato de “cair no gosto das editoras” funciona como um veículo mediador que é capaz de promover uma transformação, ainda que pequena, de um tipo de literatura menos conhecido, obscuro e marginal, a uma categoria de reconhecível, constituinte de uma realidade, de relevante valor literário e, por isso, agora, mais aceita ou “domesticada”. Contudo, podemos inferir também que, em relação ao cânone ou às obras de escritores já consagrados e representantes da literatura nacional — como as de José de Alencar, Machado de Assis, Euclides da Cunha e Guimarães Rosa —, os textos que se constituem como objeto desta pesquisa, perante o olhar dos críticos literários, ainda seguirão representando um tipo de literatura “menor”.

Nas palavras de Saer, “La característica principal del marginal es la de no ser

negociable. Si es marginal cuando no se escribe sobre temas exigidos por la demanda, cuando no se adoptan las formas y los géneros probados y aceptados por el consumidor.”56

Diante dessa assertiva, podemos, desde já, reconhecer na escrita de Pedro Juan Gutiérrez alguns aspectos como o de não adotar as formas convencionais e o fato de não ser negociável, pois ele poderia, por exemplo, evitar nas suas narrativas os elementos que dão margem a uma leitura crítica sobre Cuba, porém não elege essa alternativa. Daí

56 SAER, 1997, p.109. “A característica principal do marginal é a de não ser negociável. Se é marginal

a possibilidade de que possamos também aproximá-lo da “função subversiva” que propõe Compagnon.

Mas se a literatura pode ser vista como contribuição à ideologia dominante, “aparelho ideológico do Estado”, ou mesmo propaganda, pode-se, ao contrário, acentuar sua função subversiva, sobretudo depois da metade do século XIX e da voga da figura do artista maldito.57

Nesse sentido, poderíamos dizer que o escritor cubano estaria em consonância com a proposição do escritor argentino e do teórico Antoine Compagnon, pois ainda que tivesse como referência em Cuba, escritores como Miguel Barnet, Pablo Armando Fernández, Antón Arrufat58

, entre outros, ele segue o seu propósito de desenvolver seu Novo Realismo Sujo, alternando poucas vezes, como é o caso de seu livro A melancolia

dos Leões lançado em 2000, que foi escrito sobre a perspectiva do Realismo Fantástico.

Levando ainda em consideração as proposições de Saer e Compagnon, talvez a única incoerência que poderíamos encontrar no projeto literário de Pedro Juan Gutiérrez, aqui analisado na perspectiva marginal, seria o fato de “ser aceito pelo consumidor” representar algo de grande relevância, já que podemos observar um certo padrão em sua produção literária, como podemos constatar ao realizarmos a leitura de textos como

Animal tropical (2000), Trilogia suja de Havana (2003), O insaciável Homem Aranha

(2004), entre outros.

Para Saer, “la verdadera literatura es la que manifiesta o modifica los aspectos

más oscuros y complejos de la condición humana, y que esa literatura es como el

57 COMPAGNON, 2001, p. 37.

58 Miguel Barnet (1994), Pablo Armando Fernández (1996) e Antón Arrufat (2000) são autores que

receberam o Prêmio Nacional de Literatura de Cuba, premiação criada pelo Ministério da Cultura em 1983. Esse prêmio é concedido anualmente ao conjunto da obra de um escritor cubano, residente na Ilha, que tenha realizado contribuições significativas ao auge das letras cubanas. Entre os livros desses escritores cubanos publicados no Brasil, podemos destacar Memórias de um Cimarron: testemunho,de Miguel Barnet. A única publicação brasileira em que podemos encontrar algo de Pablo Armando Fernández é Vinte poetas cubanos do século XX; seleção, prefácio e notas de Virgilio López Lemus. Trad. Alai Garcia Diniz, Luizete Guimarães Barros. Florianópolis: Editora de UFSC, 1995. Entre as obras mais conhecidas de Antón Arrufat, podemos citar La noche del Aguafiestas, prêmio Alejo Carpentier, 2000 e

contrario simétrico de la literatura oficial”59

, isto é, aquela em que a tradição oficial é a responsável pela criação dos marginais, assim como a Igreja cria os hereges.

Ainda que não haja uma classificação unívoca sobre o que é literatura marginal, é importante ressaltar quais são os elementos que a definem. Anteriormente, já foram levantadas algumas características tais como a não aceitação por parte do mercado editorial das obras, que de um modo ou de outro, fogem de um determinado padrão de literatura pré-estabelecido e também da censura que é capaz de inviabilizar a reprodução e venda de uma obra, pelo fato de a mesma atacar ideologicamente as idéias do Estado. Para que possamos entender um pouco mais sobre os constituintes de uma literatura marginal, passemos agora à análise de alguns aspectos da obra do escritor cubano.

A literatura de Pedro Juan Gutiérrez tem como imperativo o projeto de criação de um novo tipo de Realismo, que ele mesmo dá o nome de “sujo”. O entendimento desse adjetivo fica evidente já nas páginas que principiam a obra O Rei de Havana, de 1990. Para exemplificar vejamos um trecho que demonstra uma face descritiva do referido Realismo Sujo: “Rey ficou com vontade de cagar. Agüentou. Não se podia cagar. Ficou com mais vontade ainda. Ah. Apertou bem o cu e agüentou. Sentiu que ia cagar nas calças. Claro que não usava cueca. Nunca tinha usado cueca.” 60

Não seria essa nova perspectiva de abordagem sobre o mundo que o cerca e, por sua vez, a maneira como o descreve, uma nova vertente do Realismo? Essa proposição é condizente com a concepção que o autor cubano tem em relação à serventia da arte. Segundo suas palavras,

A arte só serve para alguma coisa se é irreverente, atormentada, cheia de pesadelos e desespero. Só uma arte irritada, indecente, violenta, grosseira, pode nos mostrar a outra face do mundo, a que nunca vemos ou nunca queremos ver, para evitar incômodos a nossa consciência.61

59 SAER, 1997, p. 102. “a verdadeira literatura é a que manifesta ou modifica os aspectos mais obscuros e

complexos da condição humana, e que essa literatura é o oposto da literatura oficial.” (tradução minha)

No entanto, quais seriam os elementos constatáveis que nos levam à percepção de que as formas de representação da realidade desenvolvidas por Pedro Juan Gutiérrez são diferentes daquelas já propostas por outros escritores? Esses elementos são suficientes para corroborar a existência de outra forma de Realismo?

Ainda que sejam partes de obras de diferentes autores, o seguinte exercício de aproximação de trechos servirá como um método comparativo para que possamos notar, pelo menos brevemente, se a escrita e/ou o método de um autor condiz com o do outro e se se pode dizer da existência de uma nova perspectiva de Realismo no trabalho dos dois autores. Vejamos os seguintes fragmentos:

— Não grite, porra, senão enterro a faca. Já estou com vontade de enfiar até o cabo... vou enterrar nessa barrigona gorda... diga onde está o dinheiro. — Ai, não, não tenho dinheiro! 62

Por favor, o sujeito disse, bem baixinho. Fica de costas para a parede, disse Zequinha. Carreguei os dois canos da doze. Atira você. O coice dela machucou meu ombro. Apóia bem a culatra senão ela te quebra a clavícula. Vê como esse vai grudar. Zequinha atirou. O cara voou, os pés saíram do chão, foi bonito, como se ele tivesse dado um salto para trás. 63

A partir do citado, podemos ressaltar a temática da violência, a crueldade por parte dos personagens e o abjeto advindo de suas ações, ou seja, um indivíduo que dá um tiro em uma pessoa só para ver se ela fica pregada na parede.

Outros dois trechos que possibilitariam uma aproximação ainda maior em termos estéticos e temáticos em relação a atos de extrema violência são, respectivamente, extraídas dos livros O rei de Havana do escritor cubano e do já citado

Feliz ano novo de Rubem Fonseca,

O velho acertou uma boa pazada na cabeça do outro. E jogou-o no chão. Não perdeu tempo. Bateu mais, com o canto da pá. Sempre na

62 GUTIÉRREZ, 2003, p. 229. 63

cabeça. Até espatifar-lhe o crânio. Era um velho retorcido e pequeno, mas forte. Uma pasta de sangue e massa encefálica se derramou no chão. 64

Atirei bem no meio do peito dele, esvaziando os dois canos, aquele tremendo trovão. O impacto jogou o cara com força contra a parede. Ele foi escorregando lentamente e ficou sentado no chão. No peito dele tinha um buraco que dava para colocar um panetone. 65

Podemos observar, portanto, que não há tanta novidade com relação à escrita do autor cubano, e que seu método, temática e abordagens têm muito em correspondência não só com o referido escritor brasileiro, mas também com outros escritores como Bukowski e Henry Miller. Em termos aproximativos inclusive podemos dizer que as temáticas que giram em torno da tríade, “sexo, violência e erotismo” estão também presentes nas narrativas desses dois outros autores que também possuem uma escrita com características das quais compartilham Pedro Juan Gutiérrez e Rubem Fonseca.

De certo modo, Pedro Juan Gutiérrez com seu projeto de literatura, assim como Bukowski, é considerado um desconstrutor do sonho americano. O autor cubano, também por meio de suas narrativas, vai irrompendo com o estereótipo de seu país que parece estar a princípio em um processo de transição, mas na sua abordagem o que podemos observar na Ilha é a miséria, o sofrimento e, de uma forma geral, as mazelas sociais que de modo profundo são expostas aos leitores.

Bukowski, por meio das obras Notas de um velho safado e Cartas na rua, expõe outro lado do american dream66

que, na sua perspectiva, mais se assemelha a um pesadelo. Nessas duas obras podemos identificar um olhar negativo sobre o trabalho, um dos elementos importantes no qual se apóia a ideologia do american way of life em

64

GUTIÉRREZ, 2001, p. 73.

65 FONSECA, 2000, p. 19.

66 Refere-se ao período pós-guerra no qual os E.U.A se destacam como a grande nação vencedora, mais

importante politicamente e economicamente em relação às demais. Nos quinze anos que se seguiram ao final da 2ª Guerra Mundial, essa nação presenciou um período de crescimento econômico sem dimensões, alimentado pelo crescimento do consumo e pela expansão das indústrias aliada a um forte esquema de estímulo à economia, o que levou os norte-americanos a um período de euforia e construção do mito ao

vigor no contexto histórico norte-americano dos anos 50 e 60. “o relógio estava funcionando, velho despertador, deus o abençõe, quantas vezes olhei para ele às 7 e meia da manhã, manhãs de ressaca, e disse, foda-se o trabalho? FODA-SE O TRABALHO!”67

O trabalho na perspectiva do american dream representaria uma espécie de dignificação para o homem e o colocaria em uma posição de relevância na sociedade, porém, o que podemos perceber nas narrativas de Bukowski é que o trabalho significa uma atividade imposta para a sobrevivência e que a mesma exerce nos trabalhadores uma mutilação física e espiritual. Podemos dizer que Bukowski retratava em suas obras uma parcela da sociedade — prostitutas, bêbados, desempregados, vagabundos e viciados — que não poderia ser incorporada ao mito do “sonho americano”. Outra questão que podemos ressaltar ainda em Notas de um velho safado é a contestação em torno ao patriotismo inerente ao norte-americano, pois Bukowski por meio da narrativa procura mostrar o aspecto falso da democracia partidária, excluindo-se daquele tipo de ideologia falsa.

“[...] bem, eu sei que você não vai morrer na frente de nenhuma maldita metralhadora.” “Você ta certo pra caralho, cara, não vou mesmo. A não ser que seja uma das do Tio Sam.” “Ora, vá se foder! Eu sei que você ama o seu país, eu posso ver nos seus olhos! É amor de verdade!” Foi então que eu bati nele pela primeira vez.”68

Podemos inclusive fazer aproximações sobre o plano individual e biográfico dos dois autores, uma vez que, assim como Bukowski69, o escritor Pedro Juan Gutiérrez, também com seu alter-ego Pedro Juan, figura em diversos contos de Trilogia suja de

Havana e Animal tropical. Nesses textos o sexo e a bebida se constituem como

67

BUKOWSKI, 2002, p. 13. (grifo do autor)

68 BUKOWSKI, 2002, p. 16-17.

69 Autor que se torna personagem de seus próprios livros, utilizando-se do seu alter ego Henry Chinaski,

que, inclusive, recebe o primeiro nome do autor, que é Henry Charles Bukowski, cujo eu lírico, é igualmente viciado em mulheres, bebidas e corridas de cavalos.

subterfúgios para suportar a vida. Podemos ainda afirmar que, com exceção do gosto pelas apostas em corridas de cavalos, Bukowski tem grandes afinidades com o escritor cubano. Porém, o olhar, as percepções e o universo trazido por meio do seu lugar de enunciação, Cuba, nos abrem uma possibilidade de explorar teoricamente e demonstrar o que de distinto o faz tão singular.

Se observarmos a produção literária de Pedro Juan Gutiérrez sobre um enfoque do escritor que escreve a partir de uma perspectiva marginal, pois parte de sua obra não lhe foi permitido publicar em Cuba70, ou se fizermos uma leitura na qual se percebe uma ferrenha crítica ao regime político cubano imposto por Fidel Castro, nesse sentido pode- se vislumbrar que o projeto literário do escritor cubano ultrapassa o imediatismo das relações de seus personagens e os problemas passam a ser enfocados não mais sobre uma perspectiva “micro”, mas sim em uma perspectiva “macro estrutural” que evidencia a nação cubana em ruínas.

Segundo Saer, “la literatura es un medio ineficaz de agitación”71

e a partir dessa assertiva pode-se entender que se o escritor se vincula a um partido ou uma corrente ideológica, sua obra não alcançará grande repercussão, a não ser aquela de um sentimento de “heroísmo confortável”. A afirmação de Saer vem ao encontro do projeto literário de Pedro Juan, isto é, o de não se encaminhar ao partidarismo pró ou contra o sistema político de seu país, opção que inclusive seria perigosa, já que o escritor vive em um país em que o governo ditatorial emprega meios coercitivos violentos àqueles que não seguem as regras ou, de certo modo, se expõem ao ponto de serem censurados.

70

É interessante ressaltar a esse respeito que nos últimos anos parece haver um movimento lento e gradual de abertura do mercado editorial cubano em relação aos livros de Pedro Juan Gutiérrez. A publicação de livros como Melancolía de los leones (2000), Nuestro GG en la Habana (2006)  publicados por Editorial Unión  e Animal Tropical (2002)  publicado por Letras Cubanas , atestam tal realidade. No entanto, os textos mais polêmicos e que podem representar uma leitura política como é o caso de O rei de Havana, Trilogia suja de Havana e O insaciável homem aranha ainda continuam sem publicação na Ilha.

O autor, com o seu próprio discurso, diz: “Não gosto de falar de política por uma razão: ela é circunstancial. O que hoje é branco pode ser negro amanhã e vice-versa. Pretendo fazer uma literatura universal, atemporal.”72

São dois momentos históricos que permitem uma aproximação ainda mais estreita entre Cuba e Brasil e que nos permitirá remeter à condição em que o povo se encontra nesse contexto político e social e que invariavelmente aparece nas narrativas dos dois autores trabalhados nesta dissertação.

No ano de 1961, Fidel Castro anuncia a adesão de Cuba ao marxismo-leninismo, porém Cuba só conhece grandes mudanças econômicas no ano de 1972, quando entra no mercado comum do bloco comunista. Nesse período, o país passa a exportar açúcar e a importar petróleo a preços subsidiados. O país alcança grandes avanços econômicos e sociais, especificamente na área educacional, de saúde e médica.

Esse momento de êxito que experimentou Cuba é muito semelhante àquele no qual o Brasil também desfrutou do “milagre econômico” época de crescimento ocorrido