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Metamorphoses, XIII, 730-37, XIV, 1-74

IV. “LEITURAS” DAS METAMORPHOSES EM J W WATERHOUSE

2. Circe Invidiosa (1892)

2.1. Metamorphoses, XIII, 730-37, XIV, 1-74

Ovídio introduz a história desta Circe no final do livro XIII (vv. 730-737)250. Ao longo deste livro vai acompanhando a ida de Eneias e Anquises para Roma e, como tal, o narrador dá a conhecer os vários mitos associados aos locais por onde Eneias passa. Em Delos, o leitor toma conhecimento dos episódios das filhas de Ânio (vv. 643-674) e das filhas de Oríon (vv. 675-704), Eneias segue para Creta, passando ou avistando a Ausónia, Aelo, Dulíquio, Ítaca, Samos, Nérito, Ambrácia, Dodona, o golfo da Caónia, o país dos Feaces, Epiro, chegando finalmente à Sicânia (Sicília), tudo num resumo narrativo de vinte e quatro versos (vv. 705-729).

Neste contexto de chegada, Cila e Caríbdis são apresentadas como monstros: a primeira ataca latus dextrum (v. 730); a segunda o esquerdo251. De seguida, o narrador faz a caracterização mais detalhada de Cila: o seu ventre está cingido por ferozes cães, mas apresenta uirginis ora (v. 733). O narrador questiona a veracidade da informação que todos

249 Cf. Gaborit et al. (2003: 1306-07).

250 Riley (1851: 469) introduz estes versos na “Fable VII” sobre Polifemo e Galateia. A “Fable VIII” (1851:

475-77) consiste na história da metamorfose de Glauco e no enamoramento deste por Cila.

os poetas nos legaram, para reforçar que Cila já fora de facto uma rapariga, que recusou muitos pretendentes e buscava a companhia das ninfas, a quem contava iuuenum amores (v. 737). É, assim, introduzido o mito de Galateia e Polifemo (vv. 738-897), que começa com Galateia a elogiar Cila por poder rejeitar os homens sem daí advirem consequências.

Nesse dia, depois da narração de Galateia, Cila caminha nua (v. 901: sine uestibus) pela praia e toma banho quando cansada. É nesta oportunidade que Glauco, recente habitante do mar por causa de uma metamorfose, a vê, cupidine haeret (v. 906) e se declara à jovem. No entanto, Cila foge e, para a demorar junto de si, Glauco conta-lhe a sua história, em 48 versos.

Glauco apresenta-se como deus aquae (v. 918), relata que era inicialmente pescador, que tirava os peixes do mar com redes ou por meio da pesca à linha. Depois, explica como surgiu a sua transformação e fala sobre uiridi prato confinia litora (v. 924), aonde nunca cabras ou ovelhas haviam ido comer252. Glauco, todavia, foi ao lugar e aí colocou a secar as redes. Os peixes reagem, começam a mover-se e fogem in undas/ suas (vv. 938-39). A admiração do jovem leva-o a questionar a causa dessa circunstância e experimenta sucus

herbae (v. 941). Segue-se a metamorfose do jovem.

Depois de acordar, Glauco sente-se diferente corpore toto (v. 958) e na mente. A descrição física do novo Glauco (vv. 960-64) tem marcas de cor associadas aos aspetos físicos. Assim, apresenta uiridem ferrugine barbam (v. 960), uma cabeleira longa que arrasta pelo mar, ombros enormes, caerula bracchia (v. 962), pernas encurvadas que terminam como pennigero pisce (v. 963).

Cila, porém, abandona-o antes de ele acabar o relato e Glauco253, inritatusque repulsa

(v. 967), decide ir ter com Circe, o que conclui o livro XIII.

Essa viagem, ainda longa, é resumida em oito versos do livro XIV254. Depois de passar

os limites da Ausónia e da Sicília e de atravessar o mar Tirreno, Glauco chega aos herbiferos

colles atque atria/ […] uariarum plena ferarum (vv. 9-10)255 de Circe, referida como filha do

Sol. É um deus que pede ajuda a uma deusa (vv. 12-24): Glauco roga a Circe que lhe alivie o amor, se ela considerar que essa paixão é digna dele; elogia-lhe o saber, porque Circe conhece

herbarum potentia (v. 14) e Glauco também, pois foi por esse poder que ele mudou de forma.

Glauco explica a Circe que encontrou Cila litore in Italico, Messenia moenia contra (v. 17),

252 A anáfora da negativa nos vv. 927-929 reforça a pureza e exclusividade do lugar.

253 Na “Explanation”, Riley (1851: 477) indica que os escritos da antiguidade referem três pessoas com o nome

de Glauco: este, o filho de Minos e o filho de Hipóloco.

254 A “Fable I” do livro XIV é a de Circe, que, como refere Riley (1851: 478), se enamora de Glauco e tenta

sem sucesso que Glauco abandone Cila.

que se apaixonou quando a viu e tem pudor em contar a Circe as promissa precesque/

blanditiasque (vv. 18-19)256 que Cila recusou. Glauco questiona o poder presente in carmine

(v. 20) e pede a Circe que profira uma oração com o seu ore sacro (v. 21), a fim de que, ou pelas ervas ou pelos feitiços, Circe consiga que Cila partilhe do seu calor.

Porém, Circe, deusa dada flammis […] talibus (vv. 25-26)257, oferece-se a si mesma

como amante de Glauco. A feiticeira introduz o seu discurso de nove versos indicando que melhor seria que Glauco buscasse uolentem/ optantemque eadem (vv. 28-29), pois é dignus (v. 30) e mereceria ser cortejado. Circe indica então algumas das suas características, que contribuem também para elogiar Glauco, na medida em que Circe – deusa, nitidi filia Solis (v. 33), com poder pelos feitiços e pelas ervas – se apaixonou por ele.

Glauco, porém, responde de uma forma crua e afirma que mais depressa os elementos esperados da natureza se mutariam – arvoredos para o mar e in summis montibus algae (v. 38) – do que ele deixaria de amar Cila, enquanto estiver viva.

Nos versos 40 a 58, o narrador mostra a reação de Circe (indignata dea est, v. 40), que, irascitur (v. 41), deseja vingar-se de Cila mas não de Glauco, porque o ama. Então, a deusa, offensa repulsa (v. 42), começa a preparar a sua poção: horrendis infamia pabula

sucis (v. 43), aos quais acrescenta tritis Hecateia carmina (v. 44). O narrador descreve-a

vestida com caerula uelamina (v. 45), quando sai do seu palácio, passando por todas as feras que a adoram258. Quando chega à costa oposta à praia de Zancle, Circe entra pelas

feruentes aestibus undas (v. 48), sobre as quais corre como se estivesse em terra, pedibus siccis (v. 50), até chegar à pequena baía curuos sinuatus in arcus (v. 51), onde Cila se costumava banhar e se refugiava da fúria do mar e do calor do sol. Aí, Circe praeuitiat (v. 55) e portentificisque uenenis/ inquinat (vv. 55-56), asperge os sucos de raízes de ervas daninhas e murmura com novas palavras ter nouiens carmen (v. 58).

De seguida, nos vv. 59 a 74, assistimos à metamorfose de Cila quando vai tomar banho à pequena praia de Zancle. Mergulhada até ao ventre, Cila vê a sua metade inferior transformar-se em latrantibus monstris (v. 60), dos quais tenta fugir, e, quando procura os

256 A repetição da partícula enclítica -que contribuiu para o tom de lamento de Glauco.

257 Ovídio apresenta uma remissão intratextual ao fazer a referência que o pai de Circe, o Sol, já interviera em

assuntos relacionados com o amor quando denunciou os amores de Vénus e Marte, que surgem no livro IV, vv. 171-89.

258 A associação de feiticeiras a feras é comum no séc. XIX e já anteriormente se relacionara com a ideia

cristianizada da senhora dos animais. Por exemplo, num quadro inacabado, que já se chamou The Sorceress (c. 1911-14) e, na exposição J. W. Waterhouse: The Modern Pre-Raphaelite, apareceu como Circe (vd. Prettejohn et al., 20081: 183), vemos uma jovem sentada numa cadeira e debruçada sobre uma mesa de

mármore com um livro mágico, marcado por uma forma geométrica, um balão com alguma poção, uma taça tombada, um braseiro trípode, agarrada à sua varinha e com dois ferozes animais à sua frente, designadamente um leopardo. Em Circe offering the Cup to Ulysses (1891), as feras surgem representadas no próprio assento de mármore onde se encontra a feiticeira.

seus membros, apenas encontra os cães ferozes.

Glauco chora Cila e foge de casar com aquela que recorrera às uiribus herbarum (v. 69) de forma hostil. Por sua vez, Cila, assim que pôde, vingou-se de Circe ao arrebatar sociis

Vlixem (v. 71).

Em suma, esta narrativa constrói-se numa estrutura semântica de repúdio (de Cila e de Glauco) que leva à vingança (de Circe e, depois, de Cila), tendo por base o desejo (de Glauco e de Circe).