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3.2 EXEMPLOS DE PROPOSTAS IMPLANTADAS NO BRASIL

3.2.3 Minas Gerais Programa Bolsa Verde

O Bolsa Verde do Estado de Minas Gerais foi criado em 2008 e sua lei institui que o Estado deve pagar para proprietários e posseiros de áreas rurais um incentivo financeiro para que identifiquem, recuperem, preservem e conservem as áreas importantes para a formação de matas ciliares e recarga de aqüíferos ou para a proteção da biodiversidade e ecossistemas sensíveis [50]. Apesar deste programa não ser específico para a proteção dos recursos hídricos, a manutenção da floresta acarreta melhoria na qualidade e quantidade de água disponível nos mananciais.

Segundo Santos et al. [50], o programa foi instituído através da Lei Estadual 17.727, de 13 de agosto de 2008 e regulamentada através do Decreto 45.113, de 05 de junho de 2009. Tem como objetivo principal a conservação vegetal nativa no Estado, atra- vés do pagamento aos proprietários rurais e posseiros que já apresentem algum tipo de ação conservacionista ou que, através da mudança de hábitos, adotem posturas visando à recuperação da vegetação em áreas de suas propriedades.

De acordo com o Manual de Princípios, Critérios e Procedimentos para a implantação da Lei nº 17.727, de 13 de agosto de 2008 [63], desde que houve a institucionalização da função social das propriedades, em1965, através do Estatuto da Terra, os proprietários rurais ou posseiros tem a obrigação de garantir a conservação do meio ambiente nas propriedades. O Código Florestal promulgado no mesmo ano definiu como obrigatória a averbação de territórios correspondentes a Reserva Legal e a manutenção das Áreas de Preservação Permanente (APPs). Entretanto, somente a partir do ano de 2009 a Lei Florestal do Estado de Minas Gerais instituiu como obrigatória a recuperação destas áreas e determinou um prazo legal para o seu cumprimento.

A primeira delas ocorreu no ano de 2005 com o auxílio do Instituto Estadual de Florestas (IEF)27 tendo o objetivo de formar corredores ecológicos nas Unidades de Conservação

(UCs) em regiões do Bioma Mata Atlântica. Através do Programa de Proteção da Mata Atlântica de Minas Gerais (Promata)28 , foram feitas ações fundamentadas no pagamento

por serviços ambientais para apoiar financeiramente agricultores residentes no entorno do Parque Estadual do Ibitipoca para realizarem ações de conservação e recuperação da cobertura vegetal nativa. O pagamento somente foi efetivado depois da aprovação da legislação específica que regimenta o Programa Bolsa Verde [65].

Devido aos resultados positivos alcançados na região da Zona da Mata, o convênio ampliou suas ações em outras duas áreas onde o Promata desenvolveu um Plano de Ação e uniu-se a uma nova organização para que estas pudessem ser operacionalizadas. Essas áreas pertenciam ao entorno dos Parques Estaduais do Itacolmi (PEIT) e do Rio Doce (PERD) e o compromisso firmado com os beneficiários tinha a duração de três anos. Cada um recebia repasse de recursos anualmente mediante o compromisso de manter as áreas de cobertura vegetal nativa preservadas ou aos que se dispusessem a realizar ações de recuperação das áreas degradadas. Os recursos repassados eram na forma de insumos necessários para a efetivação das ações. Essa etapa do programa teve início no ano de 2007 e foi encerrada em 2010 [65].

Também foi criada, na mesma época, outra parceria envolvendo o Poder Público mu- nicipal de regiões diferentes do Estado e organizações da sociedade civil que se diferenciou da iniciativa anterior devido à forma como o repasse dos recursos era realizada. A parce- ria requeria dos proponentes a realização da seleção de áreas de interesse e o trabalho de extensão e assistência técnica para os proprietários, mas, diferentemente do outro modelo, neste o IEF, através da Promata, realizava o repasse de recursos financeiros e o próprio proprietário se responsabilizava pela aquisição dos insumos necessários [65].

Na primeira versão do Programa Bolsa Verde, o valor repassado aos proprietários que fizeram a adesão era de 65% do valor pago por um litro de leite por hectare/dia, referência esta baseada no arrendamento de terras com a principal atividade econômica baseada na produção de leite e, em 2007, os produtores recebiam em torno de R$ 0,45 por litro de

27O IEF do Estado de Minas Gerais foi criado no ano de 1962 através da Lei nº 2.606 como uma autarquia que, em um primeiro momento, encontrava-se ligada a Secretaria de Estado da Agricultura e, em 1995, foi vinculada a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, criada na mesma época, com o objetivo de cumprir com a “agenda verde” do Sistema Estadual do Meio Ambiente – SISEMA no desenvolvimento e execução de políticas florestais, de pesca, de recursos naturais renováveis e da biodiversidade no estado de minas Gerais e, a partir de 2010,com a Lei Delegada nº 180 e seu complemento através do Decreto regulamentador nº 4.5834/2011, o instituto passou a ser responsável por atividades relacionadas ao desenvolvimento e conservação das florestas, incentivo a pesquisas cientificas sobre conservação da biodiversidade e gestão das áreas protegidas e unidades de conservação do estado.[64] 28O Projeto Promata tem como objetivo auxiliar o IEF na proteção, recuperação e uso sustentável do Bioma Mata Atlântica pertencente ao Estado de Minas Gerais. Iniciou em 2003 como resultado de um acordo de cooperação financeira internacional firmado entre o governo estadual e o governo alemão através do Banco Alemão de Desenvolvimento (KFW – Kreditanstalt für Wiederaufbau), o qual apoia projetos de desenvolvimento rural, eletrificação e proteção ambiental no Brasil a mais de 40 anos. O Promata atua em uma área de 140.000 Km², em 429 municípios, representando 25% do território mineiro.[64]

leite vendido, correspondendo a R$ 176,46 por hectare/ano [65].

Para a adesão dos proprietários, o Comitê Executivo do Programa Bolsa Verde criou procedimentos e critérios para analisar e formalizar as propostas de adesão apresentadas. Tomando como base o Manual de Princípios, Critérios e Procedimentos para a implantação da Lei nº 17.727 de 13 de agosto de 2008 [63], os princípios29adotados para a implantação

do Programa são:

1. Cada forma de apoio será tratada através de metodologias diferenciadas. São previs- tas duas formas que correspondem a estratégias utilizadas em realidades diferentes dentro do território estadual podendo ser utilizadas de modos variados, apesar de apresentarem a mesma finalidade. São elas: apoio a manutenção da vegetação nativa existente e apoio as ações de recomposição, restauração e recuperação florestal. 2. Iniciar a implantação do Programa através do pagamento pela manutenção da ve-

getação nativa existente no território. Em 2010, primeiro ano de implantação do Programa, o incentivo direcionou-se para a manutenção da vegetação nativa que ainda se encontrava preservada e para a manutenção dos custos administrativos do próprio programa. A partir de 2011, o pagamento passou a ser referente às ações de recomposição, restauração e recuperação florestal.

3. Universo dos beneficiários do programa. As propostas podem ser feitas por propri- etários de qualquer região do estado, de forma individual ou coletiva. As propostas coletivas apresentam valor superior às individuais, objetivando maior ganho ambien- tal através da intervenção em áreas próximas, facilitar a implantação do Programa e incentivar as organizações coletivas.

4. Parceiros conveniados. A implantação do programa pode ser realizada mediante a parceria com instituições públicas ou privadas conveniadas com o IEF através da Secretaria Executiva do Bolsa Verde, observando-se a legislação para que sejam resguardadas as responsabilidades das partes envolvidas e possibilitar um aumento na capacidade operacional das instituições responsáveis.

5. Validação das propostas através dos Conselhos Municipais de Desenvolvimento Ru- ral Sustentável. Todas as propostas enviadas para cadastramento no Programa passam, primeiramente, por uma análise pelos Conselhos Municipais nos municí- pios onde estes se encontram instituídos dentro de um prazo de 30 dias a partir de seu envio.

6. Propriedades e posses localizadas dentro das Unidades de Conservação de prote- ção integral ainda não desapropriadas. Estas propriedades participam através das

29A descrição dos princípios referentes à implantação do programa Bolsa Verde no Estado de Minas Gerais encontra-se baseada no Manual de princípios, critérios e procedimentos para a implantação da Lei n.17.727 de 13 de agosto de 2008 – Minas Gerais.[63]

modalidades de manutenção ou recuperação, sendo que esta última necessita de aprovação do órgão gestor das áreas mediante Plano de Manejo.

7. Critérios para definição de prioridades de atendimento. Tem prioridade: • agricultores familiares, de acordo com a Lei nº 11.326/2006;

• produtores rurais com propriedades ou posses de até quatro módulos fiscais; • produtores rurais em que as propriedades se localizam em Unidades de Con-

servação, na categoria de manejo e sujeitas a desapropriação;

• proprietários de áreas urbanas que preservem áreas importantes para a pro- teção de matas ciliares, recarga de aqüíferos, proteção da biodiversidade e ecossistemas sensíveis.

É adotado um sistema de pontos para a avaliação das propostas e definição das que devem ser atendidas de forma prioritária baseiado nos seguintes critérios: maior pontuação para propostas coletivas sobre as individuais, cálculo do número de pontos para cada proposta individualmente, pontuação das propostas coletivas de acordo com a média aritmética das pontuações obtidas por cada proprietário individual que faz parte do grupo, valor dos pontos absolutos. Se após o cálculo de pontuação houver empate entre dois ou mais, serão adotados, como critérios de desempate, a propriedade que tiver maior áreas de abrangência de cobertura vegetal em relação à área total, localização em área prioritária para a conservação estabelecida de acordo com o ZEE30 ou município que apresentar

menor IDH31.

Além disso, é necessário seguir alguns passos para o encaminhamento de projetos na modalidade de Manutenção da Cobertura Vegetal Nativa ainda existente e preservada nas propriedades, os quais encontram-se representados na Tabela 3.10.

Para a modalidade Recuperação de Áreas importantes para a manutenção do equi- líbrio ambiental que se encontram deterioradas, as condições e passos a serem seguidos apresentam algumas diferenças, representadas na Tabela3.11.

Os recursos necessários para a remuneração dos proprietáriosm são provenientes da Lei Orçamentária Anual e de créditos adicionais, 10% dos recursos do Fundo de Re- cuperação, Proteção e Desenvolvimento Sustentável das Bacias Hidrográficas do Estado de Minas Gerais - FHIDR32 (Leis Estaduais 13.194/1999 e 15.910/2005 e regulamentado

30O Zoneamento Ecológico Econômico do Estado de Minas Gerais – ZEE-MG, corresponde a um diagnós- tico relaivo aos meios geo-biofísicos e sócio-econômico-jurídico-institucional através do qual são geradas as Cartas de Vulnerabilidade Ambiental e a Carta de Potencialidade Social, as quais, de forma conjunta, concebem as áreas com características próprias que determinam o Zoneamento ecológico – econômico do estado, sendo coordenada pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e tendo a participação das demais Secretarias do Estado [66].

31Índice de Desenvolvimento Humano, concebido pela ONU como forma de avaliar a qualidade de vida e o desenvolvimento econômico de uma população

32O Fundo de Recuperação, Proteção e Desenvolvimento Sustentável das Bacias Hidrográficas do Estado de Minas Gerais (FHIDRO) foi inicialmente criado pela Lei Estadual nº 13.194, em janeiro de 1.999,

PASSO DESCRIÇÃO ATIVIDADE

1 Inscrição no programa Preenchimento de formulário específico nas instituições responsáveis localizadas nas áreas de abrangência do Programa.

2 Encaminhamento da

documentação Lançamento do formulário no SISMAF eapresentação, pelos proprietários, dos docu- mentos de propriedade de acordo com a mo- dalidade em que se enquadram.

3 Validação no CMDRS As instituições encaminham as propostas para o CMDR que terá o prazo de trinta dias para analisar e validar as mesmas.

4 Análise técnica pela

Secretaria Executiva Análise feita a partir das informações do SIS-MAF e dos dados georreferenciados para o cálculo das pontuações referentes.

5 Análise e deliberação pelo Comitê Execu- tivo do Programa Bolsa Verde.

Análise das propostas, podendo aprovar ou não. Se aprovadas, passam para as unidades executoras locais e, se não, voltam para os proprietários proponentes para ajustes. 6 Recolhimento dos Ter-

mos de Compromisso e adesão ao Bolsa Verde.

Técnicos responsáveis recolhem os termos as- sinados pelos proprietários.

7 Publicação das de-

mandas aprovadas Publicação na imprensa local das demandasaprovadas. 8 Liberação do paga-

mento dos benefícios subsequentes

Técnicos realizam pelo menos uma vistoria por ano nas propriedades para avaliar o cum- primento das condições, o pagamento é anual e com vigência de cinco anos.

Tabela 3.10: Passos e procedimentos que devem ser seguidos para a inscrição no Programa Bolsa Verde

PASSO DESCRIÇÃO ATIVIDADE 1 Pré-cadastramento

das demandas de recuperação

Preenchimento de formulário específico nas institui- ções responsáveis.

2 Validação no CMDRS Encaminhamento das propostas nos Conselhos Muni- cipais de Desenvolvimento Rural Sustentável que te- rão trinta dias para validação das mesmas.

3 Encaminhamento da

documentação Lançamento das informações no Sistema de Monito-ramento das Atividades Florestais com as informações de georreferenciamento das propriedades.

4 Análise técnica pela

Secretaria Executiva Análise da proposta e cálculo dos custos através daconsulta de uma tabela de custos pré-estabelecida, adaptada as condições de cada região.

5 Análise da documen- tação pelo Comitê Executivo.

Análise da demanda de propostas, podendo aprovar ou não.

6 Elaboração do projeto

executivo. Para as propostas aprovadas deve ser feito o projetoexecutivo, partindo-se da visita de técnicos nas pro- priedades para a coleta de dados e preenchimento de outro formulário com informações específicas.

7 Encaminhamento da

documentação Encaminhamento das informações pelos responsáveispara a Secretaria Executiva. 8 Análise pela Secreta-

ria Executiva A Secretaria Executiva analisa as informações, mapeiao georreferenciamento das áreas onde deve ocorrer a intervenção e calcula o valor do projeto através da consulta aos valores estabelecidos pela IEF, de acordo com as características de cada região.

9 Análise da documen- tação pelo Comitê Executivo

O comitê analisa o projeto, podendo aprovar ou não.

10 Recolhimento dos Ter- mos de Compromisso e adesão ao programa

Os técnicos recolhem os termos assinados pelos pro- prietários e devem explicitar as condições relativas às atividades aprovadas.

11 Publicação das de-

mandas aprovadas A Secretaria Executiva publica os projetos aprovados,constando o montante referente aos insumos doados. 12 Liberação dos paga-

mentos de benefícios subsequentes

Os técnicos farão pelo menos uma vistoria na pro- priedade para preenchimento do formulário de acom- panhamento e verificação das condições pactuadas, a Secretaria Executiva realiza a liberação dos recursos, caso o projeto esteja de acordo, e o pagamento é feito anualmente por cinco anos.

13 Retirada de insumos Os proprietários retiram os insumos necessários e mu- dos no escritório do órgão trinta dias depois da libe- ração.

14 Implantação de ações

de recuperação Depois da entrega dos insumos, o técnico vai ate apropriedade para orientar e acompanhar as atividades de restauração previstas.

Tabela 3.11: Passos e procedimentos que devem ser seguidos para a inscrição no Programa Bolsa Verde na modalidade recuperação de áreas degradadas.

pelos Decretos Estaduais 44.314/2006 e 44.843/2008), conta de Recursos Especiais a Apli- car, compensação pela utilização de recursos naturais, convênios entre Poder Executivo e agências de bacias hidrográficas ou outras entidades da União ou municípios, doações, contribuições ou legados de pessoas físicas ou jurídicas, públicas ou privadas, nacionais ou internacionais, 50% do valor arrecadado com multas administrativas referentes a infrações à Lei 14.309/2002 - Política Florestal e de Proteção à Biodiversidade no Estado [50].

O Relatório Anual de Atividades do Bolsa Verde para 2010 e 2011, traz o valor es- tipulado para o pagamento correspondente a R$ 200,00 por hectare de área conservada ao ano. Baseaia-se no levantamento do rendimento médio dos produtores que utilizavam suas áreas para a realização de atividades agropecuárias, através da análise dos rendimen- tos relativos a pecuária de leite semi-intensiva e intensiva. Na época, o lucro referente a produção de 1500 litros de leite por hectare/ano, em média, que correspondia a R$ 750,00, com o valor do litro cotado em R$0,50.

Para sanar vícios que estavam impedindo o bom andamento do Programa, entre 2013 e 2014 foram realizados: reestruturação do sistema de monitoramento e avaliação; novas parcerias e novas Leis e Decretos; descentralização dos processos em unidades pertencentes ao IEF, elaborando-se uma nova proposta para a implantação de estratégias para a gestão do programa, visando maior eficiência.

Apesar dos desafios enfrentados pelo Programa e dos empecilhos, inclusive legais, que influenciam nos resultados obtidos, o Programa Bolsa Verde apresenta pontos positivos, como a preservação da vegetação nativa em áreas com características importantes para a manutenção do equilíbrio e prestação de serviços ambientais.