3.2 EXEMPLOS DE PROPOSTAS IMPLANTADAS NO BRASIL
3.2.1 Programa Produtor de Água ANA
O Programa Produtor de Águas foi criado pela Agência Nacional de Águas – ANA, como forma incentivo a tomada de ações com o objetivo principal de proteger e conservar os recursos hídricos atravésn dos princípios de PSA. De acordo com a ANA [51], o programa apoia, orienta e certifica projetos que visão a redução do assoreamento e da erosão dos mananciais localizados no meio rural nos estados brasileiros, proporcionando melhoria na qualidade, ampliação e regularização da oferta da água disponível em bacias hidrográficas com importância estratégica para a comunidade.
Em 2001, com o início das discussões sobre a possibilidade de implantar um sistema de cobrança pelo uso da água, surgiu à necessidade de desenvolver programas para aplicar os recursos com o objetivo de melhorar o entendimento dos usuários sobre seu embasamento. A primeira iniciativa foi o Programa de Despoluição de Bacias Hidrográficas – PRODES23
e, com o bom resultado alcançado, a ANA sentiu-se estimulada a buscar novas alternativas também em outros setores que apresentam interferência direta sobre os recursos hídricos, impactando na manutenção da qualidade e quantidade de água disponível [52].
Nesse contexto, surgiu o princípio do “provedor–recebedor”, o qual defende que os que adotam práticas sustentáveis, contribuindo para a melhoria da qualidade e da quantidade da água, devem receber algum tipo de retribuição pelo serviço prestado, pois os benefícios gerados são usufruídos por toda a sociedade.
A então ANA desenvolveu o Programa Produtor de Água, “uma ferramenta de arti- culação entre a Agência, os usuários e o setor rural, sob a ótica principal de estimulo a adoção de práticas sustentáveis a partir do pagamento por serviços ambientais” [52].
O projeto apresenta caráter voluntário e conta com a adesão de produtores rurais dispostos a adotar práticas de manejo conservacionista em suas propriedades buscando a preservação do solo e da água. Os participantes recebem auxílio “técnico e financeiro para a realização de ações de proteção dos mananciais, como construção de terraços e de bacias de infiltração, readequação de estradas vicinais, recuperação e proteção de nascentes, reflorestamento de Áreas de Proteção Permanente e Reserva Legal, saneamento ambiental, entre outros”[51].
De acordo com o Manual Operativo do Programa Produtor de Água [53], o foco principal da implantação dos projetos é a melhoria da qualidade da água e o aumento das vazões dos rios através da adoção de práticas, mecânicas ou vegetativas. Essas práticas visam a conservação do solo e da água, readequação de estradas vicinais que se encontram próximas a mananciais e construção de fossas sépticas nas propriedades para que haja saneamento ambiental. Entre as atividades passíveis de financiamento estão a construção
23O PRODES consiste na concessão de estímulos financeiros, através da União, por meio do pagamento pelo tratamento de esgoto aos Prestadores de Serviço de Saneamento que façam investimentos para a implantação e operação de Estações de Tratamento de Esgotos (ETE), sendo que a liberação dos recursos encontra-se condicionada ao alcance de resultados satisfatórios, buscando-se evitar o desperdício de recursos em obras que não produzam os resultados esperados ou inacabadas [52].
de terraços e pequenas barragens, proteção das nascentes e recuperação da vegetação dos topos dos morros e das matas ciliares. Para ter direito ao benefício, o agricultor deve comprovar benefícios ambientais, como a diminuição da sedimentação e da turbidez da água e o aumento de sua infiltração no solo.
Segundo a ANA [52], de todos os fatores que afetam de forma negativa os recursos hí- dricos, a erosão e seu consequente processo de sedimentação, é um dos mais significativos, gerando impactos ambientais, sociais e econômicos para toda sociedade.
O estudo destaca que os fatores que mais influenciam e aceleram o processo de erosão são a remoção da vegetação original, a agricultura intensiva, o desrespeito a legislação ambiental e de ordenamento do território e a não observância da capacidade de uso apre- sentada pelo solo. Estes fatores relacionam o uso do solo para fins agrícolas com sua depreciação, especialmente com a utilização de métodos para o preparo do solo com alto nível de mobilidade, reduzindo sua fertilidade, aumentando a compactação, reduzindo a capacidade de infiltração e aumentando a probabilidade de processos erosivos.
De acordo com Chaves et al. [54], o Programa Produtor de Águas leva em consideração que os benefícios sentidos fora da propriedade rural são proporcionais a redução da erosão e da sedimentação devido à adoção de técnicas diferenciadas de uso e manejo do solo, bem como, dos custos de sua implantação.
Os projetos são implantados em áreas de bacias hidrográficas, especialmente micro- bacias que apresentam representatividade em nível municipal, podendo atingir regiões maiores ou ampliar suas dimensões para níveis estaduais. Os pagamentos são efetivados através de entidades escolhidas de acordo com o arranjo organizacional proposto, podendo ser durante ou depois de sua implantação. Os valores são definidos baseando-se em estu- dos de ordem econômica realizados na área e de acordo com sua eficácia no abatimento da erosão.
Para se chegar à valoração dos serviços ambientais e ao Valor de Referência a ser pago aos produtores que obtiverem, no mínimo, 25% de redução da perda original do solo, a metodologia utilizada é descrita a seguir, com base no Manual Operativo do Programa Produtor de Água [52].
1- Cálculo do Percentual de Abatimento de Erosão (P.A.E)
O pagamento atribuído aos proprietários é proporcional ao nível de benefícios gerados por eles através da adoção de técnicas de manejo adequadas implantadas em suas pro- priedades, relacionada ao abatimento dos níveis de sedimentação verificados nos corpos hídricos. A primeira premissa corresponde ao fato de que o aporte de sedimento anual Y (toneladas/ano) em um ponto determinado da bacia pode ser reduzido na mesma propor- ção em que ocorre a redução da erosão total ocorrida na bacia At (toneladas/ ano).
Y = (SDR) · At (3.1) SDR representa a relação de aporte dos sedimentos sendo uma constante (adimensional e que varia entre 0 e 1), dependente dos fatores fisiográficos da bacia e, com base em estudos sedimentológicos realizados em diferentes países, sendo inversamente proporcional a área total da bacia (SDR ≈ 1/ Área0,2).
A erosão total na bacia (At) é obtida através da soma das erosões individuais de suas glebas e vertentes. Essa erosão nas glebas depende de fatores diversos, como o clima, topografia, erodibilidade do solo e uso e manejo adotado para a área. A segunda premissa é a de que a razão entre erosão antes e depois da implantação de práticas conservacionistas deve ser igual à razão existente entre os fatores de uso e manejo do solo antes e depois, podendo ser representado através da Equação 3.2:
A1/A0 = Z1/Z0 (3.2)
A (ton/ha.ano) representa a perda de solo na gleba, antes (A0) e depois (A1) da implantação de práticas de conservação, Z0 representa o fator de proteção contra a erosão consequente da forma de manejo atual e Z1 representa o fator de proteção do uso e manejo do solo propostos. Estes valores são tabelados e consideram o fato das condições fisiográficas se manterem as mesmas.
Chaves et al. [54] salienta que a quantificação dos valores de erosão, tanto para as condições atuais como propostas, precisa de um modelo de predição de erosão. Dessa forma, utilizou-se a Equação Universal de Perda do Solo – USLE, dada pela seguinte Equação 3.3 [56].
A = R · K · L · S · C · P (3.3)
A (ton/ha.ano) representa a perda média anual na propriedade de interesse, R (MJ mm/ha h) representa a erosividade da chuva e da enxurrada, K (t.ha.h/ha.MJ.mm) repre- senta a erodibilidade do solo, L (adicional), representa o fator de comprimento de rampa, S (adicional) representa o fator de declive da rampa, C (adicional) representa o fator de uso e manejo do solo e P (adicional) representa o fator de práticas conservacionistas [54]. Apesar da equação USLE ser um modelo simples empregado para prever a erosão laminar e em sulcos de vertentes, sua utilização não é tão simples no solo brasileiro, tanto pela falta de experiência dos técnicos, como pela falta de parâmetros locais [54]. Utiliza-se, então, a Equação simplificada3.4 como parâmetro na avaliação e implantação do Projeto Produtor de Águas:
P AE(%) = 100 · (Z1/Z0) (3.4)
vantagem de que, conhecendo-se apenas dois dos seis fatores (ver próxima seção) que com- põe a Equação USLE, pode-se calcular a redução da perda do solo com base na situação encontrada inicialmente sem que haja perda significativa de generalidade ou robustez do modelo. Porém, pode haver complicação na utilização desse modelo quando há a introdu- ção do terraceamento em nível, que reduz o comprimento da rampa da vertente e, como consequência, do fator representado por L na USLE. Frente a isso, pode-se demonstrar que a erosão representa uma função linear do comprimento da rampa, podendo ser so- mada a partir da introdução de um novo fator ao valor representado por Z (ver próxima seção). Este valor se encontra tabelado para os diferentes usos e manejos, convencionais ou conservacionistas.
2 – Valores de Z para os diferentes usos e manejo do solo
Para obter os valores24 de Z para as diferentes formas de manejo e práticas do solo,
os dados utilizados pela ANA na elaboração do programa foram obtidos na literatura, com base em experimentos realizados em parcelas de enxurradas e microbacias, tanto no Brasil como nos Estados Unidos [52]. Estes valores estão representados na Tabela 3.6 e correspondem aos diferentes tipos de uso e manejo do solo necessários para a obtenção do P.A.E para cada projeto submetidos ao Programa Produtor de Água. Utilizam, para isso, a Equação 3.3. Em seguida pode-se estimar os Valores Financeiros de Referência (VRE) para cada hectar contemplado nos projetos individuais, chegando-se ao valor total do pagamento a ser efetivado.
Segundo Chaves et al. [54], apesar desta tabela não contemplar todas as possíveis situações de uso e manejo do solo existentes no país, contempla as mais comumente utilizadas.
Martin & Lanna [57] salientam que são vários os custos envolvidos na implantação de programas baseados em sistemas de compensação por serviços ambientais. Exemplos seriam a mobilização e cadastramento dos produtores envolvidos, gastos com assistência técnica, custos com a compensação das modificações das técnicas de usos e manejo do solo e custos relativos ao monitoramento e auditoria.
Dessa forma, “e partindo-se da premissa que uma solução viável é aquela em que uma meta ambiental é atingida a um custo mínimo” [58], os valores financeiros a serem estipulados devem, 1) considerar a necessidade de serem suficientes para que a meta de abatimento da erosão e sedimentação seja cumprida e, 2) ser iguais ou inferiores ao custo necessário para a implantação das práticas de manejo propostas para que não se configure como subsídio agrícola.
A valoração dos serviços ambientais para a proteção dos recursos hídricos é dada atra- vés do cálculo do Valor de Referência (VRE), o qual representa o custo de oportunidade
24Na tabela encontram-se os valores de C, que representa o valor de uso e manejo do solo, P, que representa o fator de práticas conservacionistas e Z, que representa o produto C*P.
Nº MANEJO
CONVENCIONAL C
P Z OBS.
1 Grãos 0,25 1,0 0,25 Milho, soja, arroz , feijão
2 Algodão 0,62 1,0 0,62
3 Mandioca 0,62 1,0 0,62
4 Cana- de – açúcar 0,10 1,0 0,10 Média de 4 cortes
5 Batata 0,75 1,0 0,75 6 Café 0,37 1,0 0,37 7 Hortaliças 0,50 1,0 0,50 8 Pastagem degradada 0,25 1,0 0,25 9 Capoeira degradada 0,15 1,0 0,15 MANEJO CON- SERVACIONISTA C P Z OBS.
10 Grãos, rotação 0,20 1,0 0,20 Gramíneas/leguminosas 11 Grãos, em nível. 0,25 0,5 0,13
12 Grãos, rot., em nível. 0,20 0,5 0,10
13 Grãos, faixas veg. 0,25 0,3 0,08 Faixas com 20% de largura 14 Grãos, cordões veg. 0,25 0,2 0,05
15 Grãos, terraços 0,25 0,1 0,03 Em nível, com manutenção. 16 Grãos, rot., terraços 0,20 0,1 0,02
17 Grãos, plantio direto. 0,12 0,1 0,01 Média de 4 ano. 18 Alg./ Mand., rotação 0,40 1,0 0,40 Rotação com grãos. 19 Alg./Mand., nível 0,62 0,5 0,31
20 Alg./Mand., rot., nível 0,40 0,5 0,20 21 Alg./ Mand., faixas 0,62 0,3 0,19 22 Alg./Mand., cordões veg. 0,62 0,2 0,12 23 Alg./Mand., terraços 0,62 0,1 0,06 24 Alg./Mand., rot., terraços 0,40 0,1 0,04 25 Alg./Mand. Plantio direto 0,40 0,1 0,04
26 Cana, em nível. 0,10 0,5 0,05 27 Cana, em faixas. 0,10 0,3 0,03 28 Cana, terraços 0,10 0,1 0,01 29 Batata, em nível. 0,75 0,5 0,38 30 Batata, em faixas. 0,75 0,3 0,23 31 Batata, terraços 0,75 0,1 0,08 32 Café, em nível. 0,37 0,5 0,19 33 Café, em faixas. 0,37 0,3 0,11 34 Hortaliças, em nível. 0,50 0,5 0,25 35 Pastagem recuperada 0,12 1,0 0,12 36 Pastagem, rotação com grãos. 0,10 1,0 0,10
37 Reflorestamento 0,05 1,0 0,05
VALORES DE C, P E Z PARA ESTRADAS RURAIS 38 Estrada degradada 0,50 1,0 0,50
39 Estrada conservada 0,5 0,2 0,10 Retaludam, baciões.
Tabela 3.6: Valores para C, P e Z para os diferentes tipos de uso e manejo do solo utilizados pelo Programa Produtor de Água - ANA
de uso de um hectare de área, expresso em R$/hectare/ano. O VRE é obtido por meio de estudos econômicos com base nas atividades agropecuárias mais significativas na área de implantação, ou com base no conjunto de atividades que representem os ganhos médios líquidos referentes à sua utilização [52].
Considerando-se as práticas conservacionistas adotadas, pode-se chegar ao valor de referência para o pagamento em função do abatimento promovido na propriedade e estes podem variar de acordo com as características regionais de cada bacia hidrográfica.
Chaves et al. [54] salienta que estes valores são variáveis e podem mudar de acordo com as características de cada bacia, com o nível de poluição difusa e condições socioambientais da região. Para que o programa apresente um mínimo de eficiência, deve ser considerado um abatimento de pelo menos 25% no nível de erosão, permitindo-se um limite máximo de 250 ha de área para cada produtor participante, possibilitando que mais pessoas possam participar.
Com base na ANA [52], os pagamentos efetivados aos proprietários podem ser reali- zados de formas distintas:
1. no caso dos projetos que tem o objetivo de conservar a vegetação nativa existente, quando a área total não pode ser utilizada para atividades que geraram renda, o valor máximo do pagamento corresponde a 1,25 X VRE, considerando-se que estas áreas já vem prestando serviços e não necessitam de recursos provenientes do projeto; 2. no caso de ações para recuperação da vegetação nativa, o pagamento corresponde ao mesmo valor do VRE estipulado, devido aos cuidados que o produtor deverá ter com o plantio e manutenção das mudas;
3. no caso de ações com o objetivo de conservar o solo, podendo ser mecânicas ou da agropecuária sustentável, o valor máximo a ser pago corresponde a 50% do valor estipulado através do VRE, percentual este que pode variar de forma proporcional ao abatimento da erosão, considerando-se que a área continua sendo utilizada para a produção de grãos ou outras atividades.
O Programa Produtor de Águas segue algumas etapas apontadas no estudo de Chaves et al. [54]. Para que os resultados sejam satisfatórios é necessário que sejam adotadas medidas eficientes de monitoramento e avaliação das propostas e ações tomadas. A Figura
3.1 representa as principais etapas do programa Produtor de Águas.
A adesão tem início com a apresentação de um projeto contendo as ações conserva- cionistas que o produtor interessado deverá realizar em sua propriedade. Este projeto passa por uma análise pelo Órgão responsável pela execução ou financiamento para ser aprovado. Depois de aprovado são feitos estudos para estimativa do fator atual de erosão (Z0) através da utilização da Equação 3.3 e dos dados descritos na Tabela 3.6. O mesmo procedimento é realizado para estimar o fator de erosão proposto e estimado, o P.A.E, através da Equação 3.4, para se chegar a porcentagem de abatimento. A partir disso, o
Figura 3.1: Fluxograma com as Etapas do Programa Produtor de Águas/ANA Adaptado de [54]
produtor deve implantar a técnica de manejo desejada, tendo claro qual será a meta de- sejável através de estimativa de P.A.E corrigido realizado pelo agente certificador. Caso o valor seja menor do que 25% o projeto é indeferido, pois o abatimento torna-se muito pequeno. Nesse mesmo período, o agente certificador estima o valor de VPI em reais por hectare. Caso o resultado seja positivo e a meta atingida, a Agência Certificadora emite o Certificado de Produtor de Água e ocorre o pagamento do bônus pelo Órgão Executor, caso seja negativo, o projeto é indeferido.
A adesão ao programa se dá através da submissão de propostas com projetos inscritos através do sítio do Sistema de Convênios do Governo Federal (SICONV). A seleção é feita pela ANA levando em consideração duas modalidades: apoio técnico e financeiro ou capacitação e apoio técnico. Para o ano de 2014, de acordo com a ANA [51], foram previstos R$ 5,6 milhões para serem utilizados em ações que visam à conservação da água e do solo, como a construção de bacias de captação e infiltração de água das chuvas (barraginhas), plantio de mudas de espécies nativas em áreas de interesse, construção de terraços de nível, construção de cercas em áreas vulneráveis, adequação de estradas rurais, entre outras. O limite máximo disponível para cada projeto é de R$ 700 mil.
Ainda de acordo com a ANA [51], até 2014 havia mais de 20 projetos apoiados pelo Produtor de Água em vigência em todo o país. Considerando-se a metodologia utilizada pelo Programa, percebe-se que este serve como base para a implantação de outros projetos em escala regional ou local. Apresenta influência positiva no que diz respeito à escolha de ações de proteção a água a aos serviços prestados por ela, colhendo bons frutos, tanto no que corresponde às questões sociais, aumentando a renda dos proprietários, como no que diz respeito à conscientização sobre a importância que os recursos naturais possuem.