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Modalidades de construção do saber interdisciplinar

Luís Machado de Abreu

2. Modalidades de construção do saber interdisciplinar

Quando falamos de interdisciplinaridade damos por adquirido que o termo faz sentido e remete para conteúdos partilhados com o nosso interlocutor. Esses conteúdos permitem-nos manter diálogos sensatos, na firme convicção de que estamos a tratar do mesmo assunto a propó- sito dos mesmos referentes. É fundamental que assim seja, embora possamos ser, por vezes, vítimas inocentes de equívocos mais ou menos graves. É por causa dessas situações desagradáveis que se impõe a clarificação tão rigorosa quanto possível dos conceitos. Ora, quando se fala de interdisciplinaridade pressupõe-se que estamos informados sobre o que significa o termo “disciplina” em contexto cognitivo. Acon- tece que o termo nada tem de unívoco, pois pode entender-se de três maneiras pelo menos. Se há quem o tome como sinónimo de ciência, outros conferem-lhe o sentido de matéria programática que faz parte de um plano de estudos e, outros ainda, entendem-na como habilidade mental propícia ao trabalho intelectual. Parece importante lembrar que é sobretudo do primeiro sentido do termo “disciplina” que se trata, quando empregamos o termo “interdisciplinaridade”. Mas não devemos menosprezar o alcance da noção de disciplina que, enquanto exercício intelectual, põe em ação o entendimento e também a vontade.

A interdisciplinaridade deve ser tratada tendo em conta os princi- pais contextos em que se exerce. Podem ser contextos de investigação, de ensino e de atividade profissional que determinam a necessidade de análise mais diferenciadora da prática interdisciplinar. Por força do conjunto de objetos que cada disciplina pretende estudar, podemos estabelecer diferentes relações de proximidade entre disciplinas. Quanto maior for a partilha comum desses objetos mais imediatas virão a ser as articulações interdisciplinares a estabelecer. Por exemplo, o domínio material da psicologia funda uma vizinhança interdisciplinar muito mais próxima da história do que da física. Do ponto de vista do ensino/ aprendizagem, a interdisciplinaridade surge em diversas fases do pro- cesso formativo, tais como a organização de um plano de estudos, a

elaboração das unidades temáticas que devem figurar no programa de uma disciplina, e a prática efetiva da lecionação. O professor de determi- nada disciplina deve saber quais são as outras disciplinas e matérias que os alunos estão a estudar. Se outros resultados benéficos não houvesse, evitar-se-iam ao menos escusadas sobreposições e a repetição do mesmo conteúdo em duas ou mais disciplinas. Na vida profissional, o sentido da interdisciplinaridade põe-se, desde logo, pela entrada e integração numa comunidade de trabalho. As comunidades de trabalho são constituí- das pela coexistência de diferentes competências científicas e técnicas que, no plano prático, reclamam a aplicação de uma perspetiva interdisciplinar. Esta há de exigir uma atitude cooperativa. Quando se trata de um jovem profissional saído da escola ou da universidade, esse espírito deve traduzir-se no empenho em aprender com a experiência daqueles que vai encontrar. E evitará que, levando, como é normal, conhecimen- tos teóricos mais atualizados, a arrogância o impeça de aprender mais, cruzando esses conhecimentos com a comprovada experiência prática já instalada na comunidade de trabalho.

É, porém, no âmbito da investigação científica que, de maneira mais adequada, se deve falar de interdisciplinaridade. Nesse âmbito, sobretudo, havemos de nos interrogar sobre os diferentes tipos ou modalidades que ela pode apresentar. Seguindo, para este efeito, muito de perto a proposta de Heinz Heckhausen8

, consideraremos cinco tipos de interdisciplinaridade.

Consiste o primeiro num agregado de disciplinas reunidas sob a forma de enciclopédia temática destinada a finalidades profissionais. Por exemplo, os trabalhadores da área do Serviço Social, por terem de enfrentar problemas com várias frentes de resolução, movem-se dentro de um campo interdisciplinar de que fazem parte Psicologia, Sociologia, Economia, Direito e outras. A heterogeneidade destas matérias reclama- das pelo exercício da profissão não permite, em cada uma, ir além de abordagens pouco profundas e ecléticas. Pretende-se alcançar uma baga- gem de informação científica que prepare o bom desempenho profissional. As disciplinas em causa mal chegam a dialogar entre si. Estamos em presença de uma interdisciplinaridade heterogénea ou eclética.



8

Heinz Heckhausen, “Discipline et interdisciplinarité”, in CERI, L’interdisciplina- rité: Problèmes de l’enseignement et de recherches dans les universités, Paris, OCDE, 1972, pp. 83-90.

Mas a convocação de diferentes disciplinas pode fazer-se por meio de cruzamentos baseados no emprego de métodos e procedimentos comuns. Assim acontece com a Psicologia e a Pedagogia. Para decidir o nível etário em que deverão ser ensinadas determinadas matérias ou para avaliar teorias educativas, a Pedagogia recorre a testes psicológicos. A interdisciplinaridade cruzada, além de permitir ganhos para as discipli- nas envolvidas, contribui para o aparecimento de novas formações discipli- nares. Neste caso, é a disciplina de Psicopedagogia que emerge. Ficamos em presença de uma área disciplinar derivada de outras duas, que funciona relativamente a elas como disciplina auxiliar. Designaremos esta situação como interdisciplinaridade auxiliar.

Existem problemas suscitados por assuntos tão abrangentes e tão importantes para o presente e o futuro da existência humana que só podem obter resposta a partir de um agregado interativo de ciências diversas. A esse agregado de saberes chamaremos interdisciplinaridade

compósita. Sabemos, por exemplo, que a concentração de populações

em aglomerados urbanos não cessa de aumentar e com ela crescem tam- bém em número e complexidade os problemas humanos. É da especiali- dade em Urbanismo que se esperam as soluções. Esta especialidade é, na realidade, um grupo de disciplinas composto por elementos de Arquitetura, Sociologia, Economia, Psicologia, Engenharia Civil e do Ambiente, Ciências da Saúde e outras. A interdisciplinaridade resulta aqui da necessária concertação de respostas técnicas bem articuladas e determinadas pelo objetivo de melhorar as condições do habitat cita- dino. Também acerca da Ecologia, enquanto ciência do ambiente na complexidade das suas ramificações, se deverá falar em termos de aborda- gem a partir de saberes geridos como interdisciplinaridade compósita.

Temos ainda disciplinas que partilhando o mesmo domínio mate- rial se sobrepõem, completando-se no estudo de diferentes aspetos do mesmo objeto material. É a interdisciplinaridade complementar. As discipli- nas sobrepõem-se mas não se fundem numa disciplina única em virtude de disporem de níveis de integração teórica que as mantém autónomas. Consideremos, por exemplo, o estudo das relações existentes entre os indivíduos e as culturas. Poder-se-á ensaiar a formação de modelos estrutu- rais de comportamento de modo a ser possível formalizar a existência de estruturas gramaticais e sociais correspondentes a cada uma das diferen- tes culturas. Neste caso as Ciências da Linguagem, a Psicologia, a Sociolo-

gia colaboram e correspondem-se na definição de estruturas culturais complementares. O desenvolvimento de estudos desta natureza pode levar ao aparecimento de áreas de estudo complementares, como ocorre na Psicolinguística ou na Sociolinguística.

Se a aproximação entre disciplinas progredir em direção a uma meta em que se dê a integração teórica e a correspondência total de métodos, estaremos perante a interdisciplinaridade unificada. Quando no estudo do mesmo domínio material duas ou mais disciplinas realizam uma integração teórica de nível superior à integração que fazia de cada uma delas disciplina autónoma e independente, chegamos ao cume da interdisciplinaridade unificadora. No universo das disciplinas científi- cas, consuma-se assim a unificação de um segmento do saber total. Mas não se deve confundir com a concretização do ideal da unidade da ciên- cia. Este ideal de que Leibniz foi, no século XVII, o grande patrocinador ao defender a criação de uma linguagem unificada, a characteristica

universalis, teve até hoje vários promotores que lhe foram dando novas

configurações epistemológicas, como a ensaiada pelo Círculo de Viena sob impulso de Otto Neurath e Rudolf Carnap. Desse ideal continua sempre viva a aspiração. Vemos isso, por exemplo, no olhar prospetivo que estabelece como grande paradigma do terceiro milénio o paradigma do “pensamento total” entendido como “verdadeira revolução gnosioló- gica”, fruto da adoção do pensamento interdisciplinar. É a consagração da interdisciplinaridade como “uma espécie de metaciência que acaba com as divisórias e dilata o conhecimento”9

.

O inventário destas cinco modalidades de interdisciplinaridade avança de formas de relacionamento distante entre disciplinas para liga- ções cada vez mais apertadas. Existem, por vezes, aproximações entre disciplinas que, por serem tão frágeis e ínvias, devem ser tratadas como falsas interdisciplinaridades. Está neste caso a pretensão de identificar como interdisciplinaridade o que não passa de mera utilização dos mesmos instrumentos de análise, por exemplo, o recurso a modelos matemáticos por diferentes disciplinas. Pelo facto de serem esses modelos utilizados em investigações de Física, Psicologia e Economia, não está garantida só por si qualquer interação entre estas disciplinas. Há apenas a coincidência de recorrerem ao mesmo instrumento nas respetivas investigações.



9

Fernand Criqui, Les clés du nouveau millénaire: Symbiose et interdisciplinarité, Paris, L’Harmattan, 2004, p. 104.

Do lado do investigador em ciência, a interdisciplinaridade requer sempre a disposição de abertura à cooperação com os especialistas de outras áreas científicas. Sempre que este requisito não for atendido, o exercício interdisciplinar fica liminarmente dificultado, podendo mesmo falhar por completo. De qualquer modo, a atitude facilitadora constitui somente a abertura psicológica para um processo longo e complexo. É o primeiro passo de uma modalidade imprópria e muito superficial de interdisciplinaridade, isto é, o encontro e exercício conjunto de investigado- res de domínios científicos diferentes para explorarem questões de fron- teira entre disciplinas em ordem a clarificar semelhanças e diferenças ao nível de conceitos e de métodos. Não admitir que se avance para além deste esforço de clarificação de linhas fronteiriças é laborar no precon- ceito de que o mapa dos territórios de cada disciplina, com as respetivas fronteiras, se encontra definido para sempre. Ora, como lembra Piaget, se estivermos atentos às tendências e à prospectiva das ciências em geral e das ciências humanas em particular, verificamos que as próprias fronteiras, tais como existem, vão sendo de facto discutidas e transpos- tas. É por isso que “o verdadeiro objectivo da investigação interdiscipli- nar é […] uma reforma ou uma reorganização dos domínios do saber, por trocas que consistem, na realidade, em recombinações construti- vas”10

.

Manifestação convincente de tais tendências é o fenómeno da formação e da fecundidade cognitiva de áreas híbridas de saber que nascem de domínios disciplinares heterogéneos. Trata-se, nestes casos, de uma “hibridação fecunda” – a expressão é de Piaget – como se vê na Biofísica e na Bioquímica. E o mesmo se vai verificando nas ciências humanas e sociais. Esta hibridação poderá ser imperfeita ou falsa, mas também verdadeira ou autêntica. O primeiro tipo de hibridação consiste em recombinações que se fazem somente por afinação ou aperfeiçoa- mento de métodos. É o caso da Econometria em que Matemática e Economia se encontram e mutuamente se enriquecem. A primeira pelos novos problemas de correlações quantificáveis que a complexidade da evolução económica vai fazendo surgir; a segunda, pelo afinamento e crescente rigor no tratamento quantitativo dos dados económicos atra- vés da estatística.



10

Jean Piaget, Problemas gerais da investigação interdisciplinar e mecanismos comuns, trad. Maria Barros, 2.ª ed., Amadora, Bertrand, 1976, p. 141.

Quanto à hibridação autêntica, que corresponde à interdisciplinari- dade unificada atrás referida, encontrámo-la nas ciências naturais, por exemplo na Biofísica e na Bioquímica já mencionadas, e também nas ciências do homem. A Psicolinguística é um caso feliz desse cruza- mento da Psicologia com a Linguística em que a complementaridade se realiza pelo aparecimento de nova disciplina.