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Razões que tornam inevitável o tema da interdisciplinaridade

Luís Machado de Abreu

1. Razões que tornam inevitável o tema da interdisciplinaridade

A mais óbvia razão que torna necessária a interdisciplinaridade encon- tra-se no movimento crescente da fragmentação do saber, traduzido em cada vez mais numerosas especializações científicas. Em virtude da atomização do conhecimento, a interdisciplinaridade reveste o carácter paradoxal de resposta ao mesmo tempo à profusão de conhecimentos e à sua insuficiência. Resposta à superabundância de conhecimentos, porque a dispersão de especialidades torna-as individualistas e torna caótica a nossa circulação no meio delas; resposta à falta ou insuficiên- cia de conhecimento, porque há o perigo de as ciências adoecerem de autossuficiência, cegueira ou perda de pé no mundo real, e caírem assim em estado de alienação científica. Este tipo de alienação resulta da perda de sentido do humano e do universal, e leva a desequilíbrios que perturbam a relação entre investigadores e a relação harmoniosa do homem com a vida da natureza.

Por ser a interdisciplinaridade “o sintoma da situação patológica em que se encontra hoje o saber”3, ela torna-se indispensável como terapêutica para o tratamento de uma patologia do conhecimento que destrói equilí- brios culturais e provoca mal-estar na civilização contemporânea.

No plano histórico, passamos do mundo da perceção unitária do saber ao mundo da desintegração dos saberes. As primeiras expressões de conhecimento do mundo tiveram a forma de narrativas – os mitos –



3

Georges Gusdorf, “Connaissance interdisciplinaire”, in Encyclopaedia universalis, vol. 8, Paris, Encyclopaedia Universalis France, 1977 (1968), p. 1086.

em que cabem os deuses, o homem e a natureza. Nos mitos condensa-se uma consciência viva da totalidade que se guarda sob a forma de saber tradicional acumulado graças à transmissão das experiências de cada comunidade. A memória coletiva transporta de geração para geração o sentido do primordial, os tempos originários, que se vão atualizando através da celebração dos ritos comunitários. São saberes eminente- mente práticos e experienciais.

O salto para outro paradigma de saber foi dado no Ocidente pelos gregos quando formularam de modo reflexivo as grandes interrogações cosmológicas e metafísicas a partir dos pré-socráticos. As respostas foram surgindo graças a um discurso baseado na razão e não na repeti- ção das narrativas míticas da tradição. E que respostas foram essas? Chamam-se sistema de Aristóteles, que é muito mais que o Órganon, a Metafísica e as duas éticas; chamam-se geometria de Euclides, astrono- mia de Ptolomeu, medicina de Hipócrates, história de Tucídides, geografia de Estrabão, e outras. Formam-se então áreas de conhecimento que, como disciplinas, chegaram até ao nosso tempo. Essa diversificação de domínios avançou entre os gregos, mantendo sempre coerência e articula- ção das partes com o todo do universo.

O modelo do saber helénico perpetuou-se no mundo romano e, depois, na organização e transmissão da doutrina cristã. A Idade Média manteve no campo pedagógico o ideal grego de “paideia”, constituído por um saber feito de saberes, ou seja, um saber que se alcança dando a volta a várias disciplinas em particular. Procederam desse modo as escolas medievais quando ministravam o trivium (Gramática, Dialéctica, Retórica) e o quadrivium (Geometria, Aritmética, Astronomia, Música). Esta formação servia de preparação para se aceder a outro nível de aquisição de conhecimentos, os saberes das Artes, Teologia, Direito e Medicina ministrados nas universidades, a partir da sua fundação no século XII. As universidades proporcionavam a concentração de várias disciplinas no mesmo centro de ensino/aprendizagem com a sua uni- dade e coerência asseguradas até ao começo dos Tempos Modernos pela Teologia.

A racionalidade cultivada pelo pensamento escolástico mantinha- -se fiel à harmonia do saber humano com o saber da fé. Todavia era notória a limitação dessa racionalidade em termos de saber, ao privile- giar a lógica e a retórica sobre a observação e a experiência empírica. O

desenvolvimento do conhecimento na modernidade vai, por isso, fazer- -se rompendo com a racionalidade aristotélico-escolástica e apostando num paradigma de conhecimento racional edificado sobre base empí- rica e experimental. Trata-se de uma nova etapa do racionalismo em que a razão se afirma operando apenas sobre dados mensuráveis colhi- dos no mundo físico e estabelecendo as leis a que obedece o funciona- mento da natureza. O que assim se ganhava em poder sobre o mundo físico foi-se perdendo em equilíbrio e gestão harmoniosa da complexi- dade, ao construir-se uma visão totalizante baseada unicamente no princípio da razão. Gradualmente despojada de humanidade, esta razão tornou-se totalitária, unidimensional, excluindo tudo o que não se sub- mete à sua lei. A desumanização não aconteceu de repente. Foi avan- çando no decurso dos Tempos Modernos de modo inexorável. Porém, como lembra Edgar Morin: “O racionalismo das Luzes era humanista, pois associava sincreticamente o respeito e culto do homem, ser livre e racional, sujeito do universo, e a ideologia de um universo integral- mente racional.”4

Aconteceu que a racionalização progressiva trazida pela lógica da produção industrial inoculou na racionalidade o vírus do desatino da razão gerador de desumanidade.

A interdisciplinaridade impõe-se também como resposta ao fenó- meno da mecanização e automatização de grande parte da produção de conhecimento científico. Este procedimento de investigação foi descrito por Ortega y Gasset. O funcionamento das ciências transformou-se numa espécie de mecanização do próprio pensamento. O investigador sabe o que está a fazer, mas apenas em segmentos cada vez mais reduzidos da realidade. Fecha-se nesse reduto de conhecimento e mantém-se à mar- gem do que se passa fora, sem se interessar por dispor de uma visão de conjunto. Ao contrário do que acontecia outrora, quando era fácil distin- guir o sábio do ignorante, hoje a distinção tornou-se mais complexa. O grande especialista atual corre o risco, como diz Ortega y Gasset, de “não ser sábio, porque ignora formalmente tudo o que não faz parte da sua especialidade; mas também não é um ignorante, por ser ‘homem de ciência’ e conhecer muito bem a sua parcela de universo. Teremos de o considerar um sábio-ignorante”5

. Verifica-se então o dito espirituoso



4

Edgar Morin, Science avec Conscience, Paris, Fayard, 1982, p. 258.

5

Ortega y Gasset, La rebelion de las masas, Madrid, Alianza Editorial, 1980 (1930), p. 131.

atribuído a Chesterton, segundo o qual é especialista aquele que sabe cada vez mais sobre um campo cada vez mais limitado, de tal modo que a sua realização perfeita consiste em saber tudo sobre quase nada.

As transformações profundas da vida social e política, suscitadas pela aceleração do ritmo histórico, produziram mudanças na relação da ciência com a sociedade que se traduzem em novas formas de organiza- ção do trabalho científico. Sucede que essas formas de organização favorecem e até reclamam a interdisciplinaridade. A evolução dos sabe- res já não decorre da acumulação de descobertas e progressos obtidos por trabalhadores isolados ou por laboratórios de pequena dimensão. A produção de ciência e o conhecimento inovador devem-se agora a equi- pas de investigadores e a redes transnacionais de cooperação científica. O investigador faz parte de uma comunidade científica em que os proje- tos de investigação são executados por equipas pluridisciplinares. É o próprio quadro social em que os cientistas desenvolvem hoje o seu trabalho que impõe práticas de interdisciplinaridade indutoras de conver- gência no plano dos conceitos, dos procedimentos metodológicos e das teorias.

Há ainda quem equacione a interdisciplinaridade a partir da função da Filosofia, mas demarcando-se de abstrações metafísicas. Tomando à letra que a metafísica se ocupa do que fica além da natureza, ela seria a indagação da verdade transcendente e de idealidades com manifesto desinteresse pelo mundo real. A especulação filosófica assim construída atrairia a nossa atenção para universos ilusórios, distraindo-nos da reali- dade concreta cujo conhecimento nos devia preocupar antes de tudo. Portanto, em vez de uma filosofia sub specie aeternitatis urge construir uma filosofia sub specie humanitatis. Assim argumenta Georges Gusdorf, para quem a interdisciplinaridade se impõe como “o método filosófico por excelência: não um devaneio anexo à margem da investigação principal, […] mas antes o grande eixo de um pensamento empenhado em reagrupar todos os testemunhos do homem sobre o homem disper- sos pela diversidade dos espaços-tempos culturais.”6

Está aqui em ques- tão vencer o perigo de o homem se esquecer de si mesmo e do seu mundo real. E superará esse esquecimento se assegurar o sentido da



6

George Gusdorf, “O gato que anda sozinho”, in Olga Pombo, Henrique Manuel Guimarães, Teresa Levy (org.), Interdisciplinaridade. Antologia, Porto, Campo das Letras, 2006, p. 19.

integridade humana através de uma instância que unifique o trabalho do conhecimento entretanto repartido pelas muitas especializações do saber. Intenta-se por essa via promover a convergência entre diferentes áreas do humano e igualmente entre estas e as múltiplas variedades de ciências da natureza. O vértice aglutinador de todas as linhas de saber seria uma conceção de Filosofia como Antropologia fundamental. É claro que semelhante entendimento do que seja a interdisciplinaridade dificilmente conquistará assentimento tanto por parte de filósofos como de cientistas. Os primeiros verão na função atribuída à Filosofia uma adulteração reducionista do que ela deve ser, isto é, reflexão radical sobre a totalidade da experiência humana e não somente sobre a experiência científica. Os cientistas, por sua vez, não deixarão de desco- brir em tal proposta uma tentativa fora de prazo para os filósofos recuperarem a hegemonia há muito perdida sobre o universo dos saberes.

Apesar de inevitáveis e merecidas reservas, a proposta de Gusdorf tem, no entanto, o valor de um alerta premonitoriamente lançado já por Descartes nos seus Princípios de Filosofia. “Assim toda a filosofia é como uma árvore cujas raízes são a metafísica, o tronco a física, e os ramos que saem deste tronco são todas as outras ciências, que se reduzem a três principais, isto é, medicina, mecânica e moral. Falo da moral mais elevada e mais perfeita, a qual, ao pressupor o conhecimento completo das demais ciências, é o grau supremo da sabedoria.”7 A árvore carte- siana das ciências cresce e multiplica-se em direção à moral mais per- feita. E o que vem a ser a perfeição desta moral? Atingir um nível de saber que habilite o homem a responder aos desafios das ciências que ele tem obrigação de procurar conhecer. Numa palavra, a perfeição da moral consiste no governo responsável do agir verdadeiramente humano, incluindo o seu agir como sujeito de conhecimento. Ora alcançar essa meta é subir ao último grau da sabedoria.

Note-se que a árvore cresce multiplicando e especializando os objetos de conhecimento. Ao proceder assim, aumenta o número dos ramos, mas não se enclausura dentro de nenhum deles como se esse fosse o exclusivo reduto de investigação, nem corta ramo após ramo frustrando o crescimento da árvore e pondo em risco a unidade do todo. Estas ciências jamais perdem de vista o sentido da totalidade, isto



7

Descartes, “Les principes de la Philosophie” (1644), in Oeuvres et Lettres, Paris, Gallimard/Bibliothèque de la Pléiade, 1953, p. 560.

é, do universo habitado pelo homem. Sabem donde vêm, porque não esqueceram as raízes, e sabem para onde vão, guiadas pela responsabili- dade moral, isto é, pela sageza.