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4 A EDUCAÇÃO COMO EIXO DA TRANSFORMAÇÃO COM EQUIDADE: AS

4.2 ANÁLISE PRELIMINAR DO DOCUMENTO EDUCAÇÃO E CONHECIMENTO:

4.2.3 Moderna Cidadania

No dicionário de Políticas Públicas encontra-se diferentes modos de apresentar o conceito de cidadania. Silva (2012) afirma que existem vários estudos sobre o conceito e, em sua maioria, com mais destaque às afirmações negativas, do que às positivas. A cidadania não é uma definição estanque, mas um conceito histórico, variável no tempo e no espaço. Sua conceituação se firma não apenas por regras definidoras, mas também pelos direitos e deveres que a caracterizam. (PINSKY, 2003). Portanto, não apresenta uma sequência única em sua evolução.

De acordo com Marshall (1967 apud SILVA, 2012, p. 70), reflete sobre como o conceito de cidadania se desdobrara ao longo dos tempos, cuja referência temporal se dá: “no século XVIII, no que diz respeito aos direitos civis; os direitos políticos, no século XIX; e no século XX, o advento dos direitos sociais”.

Os direitos civis são, aqui, entendidos como direitos fundamentais à vida, à

liberdade, à igualdade perante a lei e ao acesso à justiça; garantia de ir e vir, escolher trabalho, manifestar pensamento, respeito à inviolabilidade do lar e de correspondências [...].

O direito à justiça implica também o direito de defesa e de afirmação de todos os direitos.

[...] a respeito aos direitos políticos, estes fazem referência à participação do cidadão no exercício do poder político, seja como eleitor seja investido de autoridade política [...].

Quanto aos direitos sociais, estes marcam a participação na riqueza coletiva, por meio do direito à educação, trabalho, salário justo, saúde, aposentadoria e cuja efetividade e vigência dependem da eficiência do Poder Executivo e da participação cidadã da sociedade civil no que diz respeito à exigência de sua efetividade. Os direitos sociais estão relacionados ao direito à segurança, ao bem-estar econômico e à participação social. (SILVA, 2012, p. 70-71, grifo nosso).

Diante das prerrogativas acima, levanta-se as seguintes questões: existe a possibilidade de garantir os direitos civis e políticos e ignorar a relação entre eles e os diretos sociais, bem como refletir sobre as implicações na qualidade da cidadania e da democracia?

Sobre a dimensão social da cidadania, Roberts (1997) infere que a natureza da cidadania social afeta a qualidade da cidadania civil e política, pois uma cidadania civil frágil prejudica o desenvolvimento da cidadania política, ainda que exista democracia formal. Por essa razão, é importante o vínculo da cidadania social com as relações sociais, em que é fundamental o envolvimento coletivo. Ao Estado cabe a prestação de serviços que são coletivos e a garantia dos mesmos. Nesse ponto, entram as políticas sociais para promover a igualdade, contribuir para a garantia de direitos e responsabilidades sociais e fomentar a participação comunitária, contrapondo a visão individualista de cidadania civil e/ou política.

Todavia, a moderna cidadania, proposta pela CEPAL, tem o propósito de atender o movimento do contexto mundial, com o objetivo de transformar a educação e o seu uso na conversão do potencial científico-tecnológico, em prol do desenvolvimento. A moderna cidadania é apresentada como estratégia política, proposta pelo caminho do enriquecimento da cultura latino-americana, em que se considera toda a pluralidade identitária e patrimonial, bem como a permanência da comunidade histórica que é considerada a única base, na qual os países podem modificar e enriquecer suas identidades.

A estreita relação, entre educação e o uso social do conhecimento, conduz à uma nova relação entre o desenvolvimento e a democracia. Essa articulação está fundamentada na cidadania. A cidadania é compreendida como a coesão social, a

igualdade de oportunidades e benefícios e a solidariedade, dentro de uma sociedade complexa e diferenciada. (CEPAL, 1995).

Dessa maneira, destaca-se a importante preocupação, por parte dos formuladores de políticas educacionais, quando afirmam que a educação tem o grande potencial de contribuir para a aquisição da cidadania moderna. Portanto, os gerenciadores e formuladores de políticas educacionais devem saber que, o novo cidadão, não pode ter sua identidade apenas relacionada aos momentos de eleições e igualdade perante a lei. A identidade do cidadão se constrói pela possibilidade dos indivíduos de desfrutarem, equitativamente, as condições sociais. (OLIVEIRA, R. 2001)

Na concepção da CEPAL, para constituir a cidadania moderna proposta, a educação deve responsabilizar-se por:

- distribuir eqüitativamente os conhecimentos e o domínio dos códigos pelos quais circula a informação socialmente necessária à participação cidadã; - pautar a formação das pessoas por valores e princípios éticos e desenvolver-lhes habilidades e destrezas que assegurem bom desempenho nos diferentes âmbitos da vida social; - no mundo do trabalho, na vida familiar, no cuidado com o meio ambiente, na cultura, na participação política, na vida em comunidade. (CEPAL; UNESCO, 1995, p. 201-202)

Desse modo, a moderna cidadania aparece ligada a um ajustamento de um sujeito de direito e este está vinculado a um Estado que garanta seus direitos. Contudo, é preciso considerar que são as lutas sociais, pelas conquistas desses direitos, que geram a exigência de igualdade cidadã. No entanto, Krawczyk (2005, p.800) salienta que:

[...] no momento em que as funções do Estado se restringem à regulação do mercado – transferindo para a sociedade civil responsabilidades sobre a área social, que passa a assumi-las enquanto iniciativa privada - a igualdade cidadã volta a ser subordinada à possibilidade de acesso a estes direitos e um dos critérios mais evidentes é a condição de pagar por esse direito.

As afirmações negativas destacadas por Silva (2012) vinculam-se às contradições que se encontram entre os diferentes interesses, presentes nas diferentes classes sociais que, mesmo com prerrogativas de igualdade, somente se confirmam diante das lutas e esforços das classes subalternas.

A moderna cidadania proposta, por meio da educação, é destacada como o fundamento para a nova relação entre o desenvolvimento e a democracia, e a articulação entre ambos remete ao crescimento econômico. (CEPAL, 1995).

Não pairam dúvidas de que a educação é um direito, porém existem outros direitos que também definem a cidadania. Somente a educação não constitui a cidadania, mas ela é uma condição indispensável para que a cidadania se constitua.

Na concepção de Paiva (1993, p.322), as reformas instituídas no Estado e colocadas na base do sistema, exigem uma atitude de cidadania vigilante para que a qualidade se recupere e alcance outro espaço, pois “a cidadania de hoje, supõe capacidade de demandar qualidade e consumir de maneira sofisticada”.

A relação entre educação e cidadania se transformou em obrigação na maioria dos Estados, pois, em tese, o Estado é o provedor de políticas universais e regulador das desigualdades sociais, portanto deve cumprir seu papel na pretendida igualdade dos sujeitos e de seus direitos. (KRAWZCYC, 2005).

Será que podemos deixar somente sob a responsabilidade da educação, a criação de uma moderna cidadania que se compatibilize com as aspirações de acesso a bens e serviços modernos, e que auxilie na elevação da capacidade de competir internacionalmente? Devemos nos perguntar quais os papéis de cada um dos sujeitos que constituem a sociedade civil e, especialmente, os papéis das instituições estatais, das instituições privadas e das não governamentais.