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6 AS POLÍTICAS DE EDUCAÇÃO NO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL:

6.1 PROPOSTA DE GOVERNO OLÍVIO DUTRA (1998-2002)

A proposta de governo do candidato Olívio Dutra para a campanha eleitoral de 1998, no estado do Rio Grande do Sul, se originou de uma composição partidária chamada Frente Popular Gaúcha, composta pelos seguintes partidos: PT, PCdoB, PSB, PCB. O Documento está distribuído em três capítulos que destacam os caminhos pretendidos da coligação: Desenvolvimento de Verdade; Qualidade de

vida para todos; e Participação popular Autonomia e Dignidade - gestão democrática do estado.

O contexto político corresponde o final dos anos de 1990, cenário da globalização econômica e de políticas neoliberais, as quais contribuíram para criar as bases materiais e ideológicas da nova virada liberal, pela qual passava o Estado brasileiro. Era o período do segundo governo de Fernando Henrique Cardoso (1995- 2002), em que houve o aumento da internacionalização dos centros de decisão brasileiro e a fragilização do Estado, cada vez mais dependente do apoio financeiro externo, devido ao comprometimento com a dívida externa crescente.

O governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) marcou com uma forte política de privatizações de algumas importantes empresas estatais e garantiu a estabilidade econômica alcançada pelo Plano Real. Essa estabilidade deu sustentação para empreender um conjunto de reformas no âmbito do Estado que buscou a racionalização e a modernização, diante das mudanças sugeridas pelos organismos internacionais. As reformas se constituíram de privatizações e de mudanças na forma de gestão das políticas públicas. A desregulamentação da administração pública federal foi perseguida por meio da descentralização apresentada como a alternativa de gestão das políticas públicas e sociais, o que favorecia a fragmentação. Em certa medida, atendia aos anseios de alguns setores expressos na Constituição Federal de 1988, alterando significativamente o Pacto Federativo brasileiro1.

As reformas liberais que ocorreram no país tiveram desdobramentos no estado do Rio grande do Sul, durante o governo de Antonio Brito que administrou o estado no período que antecedeu o governo de Olívio Dutra.

O Cenário das eleições do estado no ano de 1998 estava marcado então, por políticas que seguiriam a continuidade das privatizações e a redução da intervenção do Estado nas políticas sociais. A proposta política apresentada por Olívio Dutra seguia a direção oposta às propostas do governo central, pois acenava para um desenvolvimento com inclusão social e participação popular.

Em sua Proposta de Governo, Olívio Dutra apresenta um diagnóstico do estado do Rio Grande do Sul destacando os segmentos econômicos, políticos e sociais, em especial a educação. Inicialmente são expostas as taxas de analfabetismo no Brasil e no estado, conforme o quadro de matrículas e destaca o papel, cada vez maior dos municípios quando assumem o ensino do primeiro grau, em conformidade com as proposições presentes no Pacto Federativo.

A proposta apresenta um importante instrumento estratégico: o Orçamento Participativo (OP) Estadual. O Orçamento Participativo é um processo democrático e transparente de discussão, decisão e acompanhamento do Plano Plurianual, da Lei de Diretrizes Orçamentárias, do Orçamento Anual e das políticas públicas propostas

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O Pacto Federativo ou Federalismo Fiscal está definido na Constituição da República Federativa do Brasil (artigos 145 a 162), nos quais, entre outros temas, são definidas as competências tributárias dos entes da Federação e os encargos ou serviços públicos, pelos quais são responsáveis, estão definidos entre os artigos 21 a 32.

pelo governo ao estado, em que a população participa direta e voluntariamente na discussão, na decisão e controle do orçamento público estadual.

A participação popular acontece na discussão de todo o orçamento e das políticas públicas, na autorregulamentação do processo do OP e nas discussões realizadas em assembleias públicas.

O documento apresenta as METAS para a educação do estado e seu desenvolvimento, com destaque para: o compromisso com a Universalização do ensino fundamental; o compromisso com a eliminação da repetência; com a redução da evasão escolar; com a efetiva aprendizagem para todos; com a formação e valorização profissional dos trabalhadores da educação; bem como o compromisso com a democratização da educação, por meio da gestão participativa, do acesso à escola e do acesso ao conhecimento.

No que se refere à educação, o principal foco da proposta de governo está centrado em uma:

[...] educação popular que tem na democratização da escola o seu eixo central do qual deriva o compromisso político com a viabilização de um intenso processo participativo, para concretizar um ensino de qualidade, vinculado à realidade e articulado com o projeto de desenvolvimento do Estado. (RIO GRANDE DO SUL. 1998, parte 2, p.30).

Para o Governo Popular democratizar significa assumir a educação pública como um direito de todos os cidadãos e dever do estado. De acordo com a proposta de governo (RIO GRANDE DO SUL. 1998, parte 2, p.31)

[...] cabe ao poder público garantir o ensino de qualidade para todos. Não cabe, como fazem os neoliberais, considerar democracia como descentralização de responsabilidades, retirando do Estado à obrigação de garantir o direito de todos ao ensino público de qualidade.

As proposições acima se distanciam de proposições políticas de cunho e práticas neoliberais de Estado, tais como ocorrem em nível do Estado federal.

A proposta de governo de Olívio apresenta e defende três dimensões básicas da Democratização da Educação: “a democratização da Gestão, do acesso à escola, e a democratização do conhecimento.” (RIO GRANDE DO SUL. 1998, parte 2, p.32). A primeira dimensão é a democratização da gestão que compreende mecanismos de uma participação coletiva, em que se transformam as relações de poder e se oportuniza, a todos os segmentos da comunidade escolar, a participação

nas decisões administrativas e pedagógicas da escola, assim como, as eleições diretas e uninominal do diretor e vice, para os conselhos da escola, com representantes de todos os segmentos da comunidade escola.

Com relação às Delegacias de Educação (DE), estas passariam por reformulações internas e redefiniriam os seus papéis. De acordo com a proposta, as descentralizações e a operacionalização das políticas ocorreriam por intermédio das DEs que, além das tarefas administrativas, deveriam se constituir de órgãos articulados com a sociedade civil, universidades, movimentos sociais, bem como implementarem e incentivarem a discussão das políticas educacionais, com o conjunto da sociedade.

A segunda dimensão é a Democratização do acesso – Escola para todos, que se expressa no cumprimento de sua responsabilidade com projetos e a inclusão de todos os que se encontram à margem do acesso à escolarização; a universalização do acesso aos ensinos fundamental e médio; e garantir políticas para o atendimento de crianças de 0 a 6 anos, para portadores de necessidades e para a elaboração de projetos para a EJA.

A terceira dimensão é a democratização do conhecimento que compreende o aspecto mais complexo da democratização da escola, ou seja, o acesso ao conhecimento para os que estão na escola, pois muitas vezes, ela mesma reproduz a exclusão social, em razão da repetência e da evasão. Os governos de práticas liberais enfrentam esse problema por meio de um rigoroso controle sobre os conteúdos, em que se estabeleceram parâmetros curriculares nacionais, livros didáticos, treinamento para professores, repasse de conteúdos e as avaliações em larga escala. Basearam-se na concepção de que os problemas de educação são de gerenciamento e introduziram parâmetros de eficiência e produtividade.

O compromisso da proposta de Olívio Dutra era o de garantir a aprendizagem para todos e, para tal, propunha a transformação da escola com a criação de relações democráticas de poder no seu interior e nas ligações com a comunidade; bem como a reorganização dos espaços e tempos da realidade social escolar, adaptado às suas necessidades.

6.1.1 Análise Preliminar da Proposta de Governo

As propostas de governo da Frente Popular Gaúcha para as políticas educacionais, indicam um estado democrático popular, com a participação da população em todas decisões políticas a serem tomadas por meio do orçamento participativo. De maneira única, a proposta apresenta alguns elementos das categorias elencadas dos documentos da CEPAL, porém com objetivos opostos, pois é um projeto que propõe uma coalisão de forças para desenvolver o estado de forma democrática e participativa.

As proposições encontradas na proposta de governo e nas que se evidenciam nos documentos da CEPAL são divergentes. As do governo se referem à formação da cidadania e da equidade e dizem respeito à democratização, enquanto que para a CEPAL, a cidadania e a equidade está voltada para a formação da competitividade. Há uma divergência de ideias e conceitos, mesmo que se enquadrem no contexto da globalização econômica, percebe-se que uma está mais direcionada para o social e a outra mais para o econômico. As propostas apresentadas pelo governo Olívio Dura estão canalizadas para uma sociedade mais equitativa e democrática.

Outras propostas de políticas destacadas no documento dizem respeito ao desenvolvimento científico e tecnológico e possuem o seu foco no fortalecimento do tecido econômico do estado, direcionam-se à qualificação dos trabalhadores e buscam incentivos para as pequenas e médias empresas. Juntamente com um modelo de política econômica orientada para um crescimento sustentado e equitativo, em termos de renda e um estado ativo, participativo e democrático que procura formular políticas em conjunto com as associações empresariais, as universidades e os sindicatos.

Com o objetivo de desenvolver a vida no meio rural, em que apresenta baixos índices econômicos, e torná-las regiões rurais mais agradáveis para se viver, destaca o estímulo para dinamizar a pesca, a pecuária e a agricultura. Como incentivo para a educação propõe:

[...] devemos qualificar a mão de obra e buscar o aperfeiçoamento gerencial para os produtores rurais e empresários. O fortalecimento do capital humano possibilitará a diversificação da produção, aumento da produtividade e da competitividade da região. (RIO GRANDE DO SUL.1998, parte 1, p.71).

Ressalto algumas evidências das proposições da CEPAL, porém, observo que o fortalecimento do capital humano é importante para qualquer modelo de Estado. A competitividade proposta para as regiões do estado do RS consiste em uma maior competitividade regional, com intuito de instrumentalizar as regiões do estado, a fim de sair de sua condição de empobrecimento.

Na análise da proposta de governo do candidato Olívio Dutra encontro evidências das proposições da CEPAL/UNESCO, presentes no conteúdo do documento e na intencionalidade mencionada que convergem para as categorias destacadas dos documentos da CEPAL e conceituadas nesse trabalho que são: equidade, competitividade, autonomia e integração.

Há uma polarização de interpretações quanto às intenções mais profundas e os marcos conceituais presentes no documento da CEPAL. Uma das tendências aponta para tomá-los como alvos político-sociais, com intentos econômicos e terminam subsumindo os interesses nacionais aos do mercado mundial. A outra tendência expressa tanto pelos que redigem a proposta quanto pelos seus defensores, operam a interpretação oposta. “A transformação produtiva – supondo maior produtividade e competitividade internacional – seria demandada para atingir os objetivos internos como equidade, democracia, coesão social.” (PAIVA E WARDE, 1994, p.31). Acredito que a segunda tendência seja a mais confiável.