1. SOBRE A POLÍTICA E O POLÍTICO
1.3. SABER DO CORPO, MULTIDÃO E MULTIPLICIDADE COMO PROBLEMA POLÍTICO
1.3.1. A multiplicidade de Maquiavel
Maquiavel fala ao povo, se faz povo, diz Althusser (2004, p. 61). Quando se dirige ao Príncipe, que ainda não existe, o faz desde o ponto de vista do povo.43 Althusser (2004, p. 61) avança: Maquiavel “se dirige
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Cf. Foucault (2009) e (2008). Foucault assimila, por um lado, processos biológicos e população, aos que correspondem mecanismos regularizadores, e, por outro, processos orgânicos e corpo, aos que correspondem mecanismos disciplinares.
43 Se se trata de pensar a política contemporânea, é importante considerar que, segundo Gramsci (2010, p. 304), a noção de “príncipe” desenvolvida por Maquiavel é análoga à de chefe de estado, de governo ou chefe político. Deste
de hecho a la masa de los hombres de pueblo”. Quer dizer que nos encontramos com a massa, com o povo como massa, com a multiplicidade dos corpos como problema político, e essa é a verdade da política, na medida em que nessa multiplicidade se mede a “verdade efetiva” de uma Ideia. Segundo Merleau-Ponty (1962, p. 330), a virtude que tenta definir Maquiavel “consiste, para o príncipe, em falar a esses espectadores mudos à sua volta, e apanhados na vertigem da vida a vários”.
Esta multiplicidade tem pelo menos dois sentidos: a durabilidade do Estado depende, entre outras coisas, de que quem o fundou, em solidão, “deberá ‘devenir muchos’, justamente para que el Estado eche raíces en el pueblo por medio de leyes y extraiga de ahí una fuerza popular, es decir, objetivo último de Maquiavelo, nacional” (ALTHUSSER, 2004, p. 99). É o problema do começo, do Uno e do ser vários, o problema dos corpos falantes dos seres falantes. Isso se pode mesmo levar a certa incompreensão sobre o pensamento de Maquiavel, segundo Merleau-Ponty (1962, p. 331): “é que ele une o mais agudo sentimento da contingência ou do irracional no mundo, com o gosto da consciência ou da liberdade do homem”.
O político, que uma vez mais podemos chamar de biopolítica, nada tem a ver com a democracia, já que é uma forma de tirania. O dispositivo político faz do povo um objeto de governamentalidade, quer dizer, subsome-o ao conceito de população e arregimenta para isso estratégias de condução social. Nada que se pareça a dominar a relação entre as classes, parafraseando o Benjamin da relação entre gerações, senão tudo o que se parece à dominação de classe. Algo muito próximo à ideia imperialista de dominação técnica da natureza que, como indica Benjamin deve ser distinguido da dominação da relação entre natureza e humanidade:
Dominar la naturaleza, enseñan los imperialistas, es el sentido de toda técnica. Pero ¿quién confiaría en un maestro que, recurriendo al palmetazo viera el sentido de la educación en el dominio de los niños por los adultos? ¿No es la educación, ante todo, la organización indispensable de la relación entre las generaciones y, por tanto, si se quiere hablar de dominio, el dominio de la relación entre
modo, “‘príncipe’ poderia traduzir-se para a língua moderna por ‘partido político’”.
las generaciones y no de los niños? Lo mismo ocurre con la técnica: no es dominio de la naturaleza, sino dominio de la relación entre naturaleza y humanidad (BENJAMIN, 1987, p. 97).
Assim colocadas, as leis apenas expressam a luta de classes. No dispositivo teórico de Maquiavel, o corpo, ou melhor, o organismo, o que de physis tem o corpo, é colocado em segundo plano. Nas primeiras páginas dos Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio se esboça uma espécie de antropologia; ao passar à análise das “classes de repúblicas” e às formas de governo, Maquiavel afirma que quando os homens deixaram de viver dispersos, quando formaram o que poderia chamar-se sociedades, o chefe eleito era o mais forte e valoroso. Mas essa modalidade fez surgir uma política regida pela natureza, ou pelas paixões, o que pode parecer um contrassenso. Foram os conflitos desta “política da natureza” os que obrigaram a gerar leis, com os quais nasce a justiça ou um sentimento que se pode chamar deste modo. Então, o chefe já não seria o mais forte e valoroso, mas o mais justo e sensato ou sábio.44
Por outro lado, os títulos do Príncipe Novo não estão no sangue, diz Althusser (2004, p. 101), não se herdam por esta via, o organismo não estabelece a legitimidade de uma herança. No entanto, o Príncipe deve saber atuar com as leis e com a força, quer dizer, como homem e como animal, com o corpo e com o organismo. A durabilidade de ambas, da lei e da força, depende do bom uso que o Príncipe faça delas.
Desde que un príncipe está en la precisión de saber obrar competentemente según la naturaleza de los brutos, los que él debe imitar son la zorra y el león enteramente juntos. El ejemplo del león no basta, porque este animal no se preserva de los lazos, y la zorra sola no es más suficiente, porque ella no puede librarse de los lobos. Es necesario, pues, ser zorra para conocer los lazos, y león para espantar a los lobos; pero los que no toman por modelo más que el león, no entienden sus intereses” (MAQUIAVELO, 1991, p. 38). Neste contexto, ainda que Maquiavel justifique o uso da
violência, outra das formas de seu distanciamento para com Aristóteles, há uma distinção que provavelmente é altamente significativa para toda a teoria política seguinte.45 Nos Discursos…, ao fundamentar a necessidade de que uma república ou reino deve ser fundado por uma só pessoa, não exclui a possibilidade de usar “algum procedimento extraordinário”, entenda-se matar, o que na sequência torna-se claro: “Digna de censura es la violencia que destruye, no la violencia que reconstruye” (Maquiavel, 2000, p. 31).
Contudo, como se vê, o uso da força é político. O é porque a força está submetida à política. Há um elemento que talvez nos permita estabelecer uma relação entre política e técnica: Maquiavel estabelece que o político prima sobre o militar, o que é o mesmo que dizer sobre a técnica militar. Althusser sugere que “la fuerza armada no es más que la realización de la política en esa región del Estado que emplea la violencia (…) Es la política misma lo que se realiza en las leyes y en la ideología” (2004, p. 113). Se se aceita esta formulação como princípio geral, teremos a primazia da política sobre a técnica, a qual significa, em nossa articulação teórico-conceptual, o primado do corpo sobre o organismo.46
Finalmente: “las relaciones políticas tienen dos caras: por un lado está la fuerza, por el otro, la opinión” (ALTHUSSER, 2004, p. 117). Maquiavel enfatizará o cuidado que deve ter o Príncipe para evitar ser desprezado e aborrecido pelo vulgo, quer dizer, pela massa (El príncipe, 1991, p. 39-45). Trata-se, como diz Althusser (2004, p. 117), do problema de como é representado o Príncipe na opinião do povo.47