• Nenhum resultado encontrado

4 OS DESAFIOS DA SALA DE AULA E DO COTIDIANO DAS AULAS DE

4.2 ENCONTROS DO GRUPO DE DISCUSSÕES PARA A ABORDAGEM DOS

4.2.1 O segundo encontro do grupo de discussões

4.2.1.2 O nazismo e o holocausto como temas socialmente vivos

Ainda durante o segundo encontro do grupo, foram discutidos assuntos relacionados ao nazismo e ao holocausto a partir deste desafio:

Atividade com temas sensíveis NAZISMO E HOLOCAUSTO20

1) Imagine esta cena de sala de aula: numa aula para uma turma de C30 sobre o tema

sensível Nazismo/Holocausto, um estudante faz a seguinte afirmação e os seguintes questionamentos:

- “Professor: mas eu vi na Internet, num documentário, que esse tal de Nazismo foi um movimento da esquerda alemã e que o Holocausto nunca existiu de verdade, tratando- se apenas de um mimimi dos judeus. O que o senhor, professor, tem a nos dizer sobre tudo isso?”.

2) Considerando a cena imaginada acima, responda as seguintes questões:

a) Ao abordar o tema sensível do nazismo e do holocausto em sala de aula, você já teve que lidar com falas cujos conteúdos se assemelhavam aos da cena imaginada e descrita acima? Qual foi a sua reação naquele momento? E como você reagiria atualmente diante de falas com esses conteúdos? Explique as suas respostas.

b) Você já foi acusado de militância política e/ou manipulação da opinião dos/as estudantes ao tratar da questão do nazismo e do holocausto? Qual foi a sua reação naquele momento? E como você reagiria atualmente diante de tal acusação?

c) Quais os elementos que você considera pertinentes/relevantes para o planejamento de aulas que tenham a ver com o tema sensível do nazismo e do holocausto em sala de aula?

Como subsídios de leitura para fomentar a discussão, o outro trio de professores/as formado durante o segundo encontro teve a sua disposição uma matéria publicada no portal El

País intitulada “FREMDSCHÄMEN, a constrangedora ‘aula’ sobre nazismo dos brasileiros aos alemães” (2018), a qual tratava de uma polêmica ocorrida entre a embaixada alemã no Brasil e internautas brasileiros que afirmavam que o nazismo era de esquerda e que não acreditavam no holocausto. Além da matéria do jornal, o trio também teve a oportunidade de ler trechos de textos que abordam o nazismo e o holocausto como assuntos socialmente vivos. É o caso, por exemplo, do artigo publicado por Francisco Carlos Teixeira da Silva e Karl Schurster (2016, p. 744), no qual os mesmos focam na questão do holocausto a partir de uma área de estudo denominado “pedagogia do ensino dos traumas coletivos”. Já os outros trechos foram retirados de um texto referido no início deste capítulo, de Nilton Mullet Pereira e de Fernando Seffner (2018b, p.21), trechos nos quais tratam do nazismo, enquanto tema socialmente controverso, a partir da ideia de que o passado convive com o presente num paradoxo temporal por meio da residualidade ou remanescência.

Feitas as leituras da matéria polêmica do jornal e dos trechos dos textos, a professora integrante do grupo passou a apresentar as respostas discutidas e formuladas, lendo antes a cena imaginada para a sala de aula com uma situação mais delicada ao/à professor/a de História. No que concerne à pergunta a), foi respondido que nenhum/a colega que fazia parte do trio chegou a ter uma situação em sala de aula que se assemelhasse com a cena imaginada e descrita no desafio, ou seja, um caso no qual estudantes afirmassem que o nazismo teria sido de esquerda e que o holocausto não teria acontecido. Ao mesmo tempo, porém, na resposta foram relatadas situações de sala de aula na qual os estudantes teriam classificado o nazismo como algo positivo, especialmente a política econômica adotada por seu líder, Adolf Hitler, e teriam considerado os judeus como culpados pelo holocausto. Dentro dessa primeira resposta do trio, ainda, houve o relato de que os/as alunos/as que se identificam com a ideologia nazista e que dizem que Hitler foi bom para a Alemanha, também se manifestam como racistas, inclusive atacando os/as colegas negros/as.

Os/as integrantes do grupo responsável pelo tema do nazismo/holocausto não chegaram a responder de forma mais direta quais teriam sido as suas reações diante das falas pró-nazistas e antissemitas dos seus alunos, mas disseram que tentaram questionar, com os mesmos, as teorias racistas que deram sustentação ao nazismo. Mas ainda em resposta à pergunta a) do desafio, o trio fez questão de registrar o quanto fora importante a participação de colegas da Rede, inclusive dos/as componentes do trio, no que ficou conhecido como “Jornada para o Ensino da História do Holocausto”, que fora patrocinada pela SMED nas gestões 2009/2012 e 2013/2016, o que lhes possibilitou, com isso, realizarem trabalhos

bastante pertinentes ao tema sensível em questão com os/as alunos/as e com os/as colegas professores/as.

E quanto à terceira parte da pergunta a), de como os/as membros do grupo reagiriam atualmente diante de falas como as da cena proposta, responderam que tentariam mostrar para os/as estudantes, por meio de vídeos da época, que os discursos nazistas traziam a ideia antiesquerdista de acabar com o marxismo, e que isso possibilitaria fazer os/as estudantes refletirem sobre a falsa afirmação de que o nazismo seria de esquerda. Porém os/as integrantes do grupo estimulariam os/as próprios/as alunos/as a pesquisarem os significados desses discursos, utilizando, por exemplo, recursos de tradutores, de modo que eles/elas mesmos/mesmas se dessem conta dos conteúdos antiesquerdistas dos discursos nazistas.

O mesmo trio de professores/as também respondeu à pergunta b), ou seja, quanto a eventuais acusações de militância e/ou de manipulação da opinião de estudantes quando dos estudos do tema sensível nazismo/holocausto. O grupo registrou o seu entendimento quanto à importância de os/as professores/as de História utilizarem o conhecimento, a realidade dos fatos e o pensamento racional para tentar desconstruir essa ideia de que o/a professor/a seja um militante político ou esteja tentando fazer manipulação de opinião, ou ainda acusações de que o/a professor/a seja parcial e que defenda um só lado da situação. Mais ainda, os/as colegas recomendaram sobre a importância de se deixar claro aos/às estudantes de que os cidadãos, inclusive os professores, têm direito à opinião política e de que isso faz parte de um país que se pretenda democrático, abrindo o espaço para que os/as alunos/as também se posicionem e divirjam se assim o que quiserem, sendo papel do/a docente constituir tudo isso com fundamentação em sala de aula.

Já finalizando a apresentação do grupo quanto ao desafio do tema sensível nazismo/holocausto, e em resposta à pergunta c), de quais elementos seriam pertinentes para o planejamento de aulas que envolvesse o tema sensível em questão, o grupo deixou registrada a importância de se proporcionar situações em sala de aula nas quais os/as discentes possam se identificar e criar relações de afetividade com o objeto que está sendo estudado, neste caso o tema socialmente vivo do nazismo e do holocausto, o que poderia ser feito, por exemplo, através do filme “O menino do pijama listrado”. Esses dois aspectos, o de poder se identificar e o de criar relações de afetividade, são fundamentais, porque os discentes devem se sensibilizar quanto ao fato de que a questão socialmente viva do nazismo e do holocausto está presente em outros momentos históricos, evidentemente que sempre guardadas as devidas proporções. Francisco Carlos Teixeira da Silva e Karl Shcurster (2016, p. 747) mostram essa reminiscência ao mencionar que:

Em verdade, tanto no Oriente Médio, nos Bálcãs ou Leste Europeu, bem como na Colômbia, México, Guatemala ou El Salvador a liquidação em massa de pessoas, em especial jovens e de origem indígena, é um processo do tempo presente. Especifica tal afirmação a matança silenciosa, sistemática e crescente, de jovens negros e pobres das comunidades brasileiras, cujos números já ultrapassam a maioria das guerras contemporâneas (dos trinta mil jovens mortos por ano no Brasil – do total de 56 mil assassinatos – 77% são negros) [...].

Portanto, essa sensibilização é extremamente importante nas aulas de História. Até porque os eventos traumáticos não se limitam às grandes guerras mundiais e ao holocausto na Europa, mas sim estão presentes em momentos históricos marcantes de outros continentes como, por exemplo, no processo de descolonização da África e na redemocratização dos países latino-americanos (SANTANA; PINHEIRO, 2018, p. 31). Seguindo nessa mesma toada, Santana e Pinheiro (2018, p. 35-36) sugerem a criação de mecanismos pedagógicos que sejam capazes de impedir a repetição de eventos traumáticos, de eliminar práticas de racismo, fascismo, autoritarismo e ódio, e que incentivem a militância pelo dever de memória para a efetivação do não esquecimento desses eventos. Nesse sentido, temas como o nazismo e o holocausto devem ser amplamente problematizados junto aos estudantes.

Os discentes devem ser instigados a refletir sobre a existência ou não, nos dias de hoje, em pleno século XXI, de intolerância, racismo, condenação do outro em razão da sua singularidade (PEREIRA; SEFFNER, 2018b, p. 28). Ou seja, deve ser problematizado com os estudantes acerca da existência, nos dias de hoje, de práticas discriminatórias e opressoras como aquelas que marcaram o nazismo e provocaram o holocausto. Nesse sentido, Pereira e Seffner (2018b, p. 28) comentam que: “pensar o nazismo como um passado que não cessa de insistir no presente tem implicações éticas e políticas, pois seu estudo permite aprender e pensar novas experiências de vida sem o nazismo e suas mazelas”. Quando os/as professores/as de História da RME/POA trazem à tona aspectos como o de estimular nos/nas estudantes o poder de se identificar e o de criar relações de afetividade com o tema sensível do nazismo/holocausto, esses/essas docentes estão dando passos importantes para criar os mecanismos pedagógicos recomendados pela literatura.

Ainda em resposta à letra c), o trio colocou a necessidade de despertar o argumento mais racional a partir da exibição de outros filmes como “A queda”, “Na língua das mariposas” (este trabalha a questão dos estados totalitários) e o “O grande ditador”. Uma observação bem interessante a se fazer é de que no momento em que a colega Andorinha relatava a resposta c) do trio e lia o título de um dos filmes mencionados, a mesma deixou

escapar, ao que parece, a frase “Pois é, mas ali... eu tinha pensado em fazer isso também.”21, o que reforça a ideia acerca da importância dos encontros de professores/as e das trocas de estratégias para a sala de aula entre os/as mesmos/as. Além disso, o trio levantou a questão da importância de se trabalhar os direitos humanos como uma maneira de se chegar e de se tratar do tema sensível nazismo/holocausto, tendo em vista que a questão dos direitos humanos tem crescido como uma luta política no Brasil.

Sobre esse último aspecto, o professor Sabiá alertou para o fato de que o tema dos direitos humanos “... é de fato mais confortável...”22 muitas vezes nas abordagens em sala de aula, quando se quer evitar eventuais incômodos com os/as alunos/as ao se falar de racismo, de sexualidade ou de religiosidade, apelando-se, então, para temas mais generalizadores. Por outro lado, a professora Andorinha contrapôs o argumento do colega Sabiá, esclarecendo que os direitos humanos precisam ser trabalhados não como um panorama de uma sociedade idealizada, mas sim sob a ótica da conquista de direitos, ou seja, como parte de uma luta. Apesar da divergência, o fato é que a questão de se trabalhar a partir da perspectiva dos direitos humanos mostrou-se uma estratégia de resistência para as aulas de História entre os/as professores/as da RME/POA.

Encerradas as apresentações sobre os dois temas sensíveis, o colega Sabiá externou a sua preocupação de o presente grupo de discussões, formado por professores/as de História, sair de uma fase de mais “desengasgo”23 para uma fase mais reflexiva e propositiva a partir de questões mais técnicas do ensino de História, da experiência de sala de aula. E já finalizando os trabalhos, os presentes decidiram realizar um terceiro encontro para que pudessem se debruçar sobre os outros 3 temas sensíveis. Por sugestão de uma das colegas, 3 professores/as levaram para as suas casas os materiais dos temas não analisados no dia 06/07/2019 e ficaram responsáveis por fazer as leituras e por apresentá-los no encontro seguinte, especialmente porque as respostas à letra c) dos desafios dos temas sensíveis acabaram ficando prejudicadas em razão do tempo limitado do encontro. Percebemos, então, que os/as próprios/as professores/as foram definindo os rumos da formação.

21 Trecho da fala da professora Andorinha durante o Segundo Encontro do Grupo de Discussões realizado em6 de julho de 2019.

22 Trecho da fala do professor Sabiá durante o Segundo Encontro do Grupo de Discussões realizado em6 de julho de 2019.