2. A Categoria do Transpessoal em Pierre Weil e Leonardo Boff: Estados de Consciência na Integração da Natureza Humana
2.2. Novos valores éticos: planeta e humanidade
P. Weil aponta para a falta de autenticidade na ética, pois, de modo geral, a ética moralista age como um carácter repressor e culpabilizador, Pierre vai até as bases da psicanálise com pressupostos de S. Freud para explicar o carácter repressivo e a acção rígida do superego que trazem condutas contraditórias através da obediência da lei.
Podemos pensar que obedecer apenas por obedecer, por uma simples imposição, seria então uma incoerência, vaga do ponto de vista filosófico e nula pela óptica da virtude. A ética moral avalizou a degradação da natureza em prol do capital e dos “bons costumes”, criando uma cultura da lei do consumo em que a culpa e a punição constituem um negócio rentável
para a manutenção do ciclo moralista desenfreado. Quando vai terminar esta lei? Até onde vão seus limites?
P. Weil responde-nos referindo que a norma, a lei e a ética moralista provocam a repressão, a neurose e o desajustamento, sendo assim, segundo este psicólogo-educador, é preciso desreprimir: “Chegou-se assim a uma geração que sabe o que não quer (as regras da Ética moralista), mas não o que quer, isto leva a uma descrença nos valores e a uma insatisfação generalizada.”24 O psicólogo-educador levanta então a seguinte questão: “Existe uma outra ética ligada ao verdadeiro sentido da existência?”25 Uma ética autêntica, genuína e natural que o autor apresenta como ética espontânea. Outra questão é preciso levantar: como não cair nos mesmos padrões do modelo moralista? Teria uma ética verdadeira e imune a sombra da intenção humana?
Luz! Esta é a palavra que melhor compreende a resposta que encontramos nesta tese de Pierre a respeito de uma ética que podemos chamar de vital para o tempo actual. Em outros títulos descreve esta qualidade de luz como Clara Luz26, categoria esta que se vincula à tradição budista, pelo facto de se dar a passagem entre os bardos, que possibilita que a consciência alcance a sua plena ascensão ou reincida numa nova e possível passagem. O psicólogo estuda esta manifestação como um fenómeno da consciência, isto é, da mente humana no seu sentido mais abrangente, psique ou alma.
Sendo assim a consciência compreende a totalidade do Ser, em diversos níveis da realidade, como podemos confirmar nas palavras do autor: “Por meio do Sonho Lúcido, tive várias vezes uma experiência bastante inesperada (…) Em vez de voltar ao estado de vigília, eu vi uma luz bastante forte.” (…) “Essa Luz Clara é uma experiência própria do sono profundo, e que ficamos em contato com ela cada vez que estamos nesse estado de consciência.”27 Podemos, assim, perceber a importante função que é dada à elaboração onírica enquanto processo integrador dos elementos da consciência humana. O autor dá suma importância ao ioga do sonho lúcido como um dos principais treinos eficazes para a consciência atingir um nível sublime.
24 P. Weil, [ANE] (2002, p. 18). 25 Idem. 26 P. Weil, [LC] (1999, p. 132, 133). 27 Idem.
“No estado de sonho, a gente aprende a transformar as emoções destrutivas e a deixar passar as imagens e pensamentos, em vez de se deixar dominar por eles. No estado de sono profundo sem sonho, aprende-se a se familiarizar com a clara luz e a mergulhar nela. Durante a meditação em estado de vigília faz-se o mesmo tipo de aprendizagem com as emoções, os pensamentos e, às vezes, quando surge a Clara Luz”28.
Pierre conta um episódio com o seu mestre espiritual no seu retiro de três anos, que possibilitou diferenciar o nível de dualidade do estado transpessoal, a grande diferença de olhar e ver a plena paisagem da totalidade entre ser a própria luz na plena e total consciência:
“Tive uma última entrevista com Rimpoché. Contei-lhe que tinha tido vários contatos com a clara luz do bardo. Ele perguntou-me se eu tinha visto a luz fora de mim como observador. Eu disse que sim. Ele me explicou que isso ainda era uma experiência dual, em que havia sujeito e objeto. (…) Ele me recomendou para que, na próxima vez, eu mergulhasse na Clara Luz.”29
Paulo Borges finaliza seu artigo, intitulado «Budismo e Identidade Pessoal», descrevendo sobre o “Dharma do Buda, as percepções dualísticas e emoções samsáricas, e ressalta que, no momento em que surgem tais experiências, é importante tomar plena atenção sem apego ou aversão de forma a que seja possível uma libertação e transformação através do não re-agir tomando consciência do fenómeno através da sabedoria não-dual”30. Como o próprio professor descreve, após este episódio alquímico e natural de não re-agir, o Ser tem a possibilidade de alcançar uma vivência real e genuína de si mesmo:
“E, sem ser necessário retirar-se do mundo, toda a situação e experiência da vida quotidiana será uma oportunidade única para vermos quem realmente somos. Este espaço livre e absoluto onde nunca houve ideia do eu ou de não-eu. Mesmo que nele continuemos a fazer de conta: que não o vemos, que não o somos, que a liberdade e a luz não são o nosso bem mais íntimo e inalienável.”31
É possível estabelecer uma ética profunda na dualidade em que é composta a realidade do mundo? Diante da experiência descrita anteriormente por P. Weil, e segundo os pressupostos do budismo tibetano, podemos referir-nos a uma ‘ética de luz’. Na ausência desta luz, não há princípio ético, sendo assim a ética é a própria luz, não algo que é iluminado por ela, mas sim algo que faz parte da sua própria natureza reflectida por dentro, por fora e ao redor de si, 28 Idem 29 Idem. 30
BORGES, Paulo. Budismo e Identidade Pessoal, in: Revista Internacional de Língua Portuguesa, v. 1, n. 3, Porto, Setembro, 2004, p.25.
31 Idem
como um verdadeiro campo de luz, isto é, de valores e atitudes que beneficiam o modo de tratamento entre as pessoas, para o seu bem comum, do indivíduo, da sociedade e do planeta, regido por uma ética clara e natural, simples e translúcida como a natureza da luz. Consideramos o conceito de Luz como um estado de consciência que será alcançado com amor e sabedoria.
Weil utiliza uma expressão sugestiva para descrever as suas experiências, “lágrimas da compaixão”. É através da sua iniciação ao budismo que o psicólogo e educador descreve as suas aprendizagens e podemos compreender por este autor que não há ética sem compaixão, sem simplicidade e sem paz, palavras que aproximam-se muito da teologia e mística cristã de L. Boff quando retrata a ternura como um sentimento de forte poder de transformação, inclusive de justiça social. Todavia, o objectivo desta dissertação de mestrado não é o de fazer um paralelismo entre o budismo e a prática cristã, nem mesmo uma pesquisa individual, por isso não os aprofundaremos nas suas categorias epistemológicas, mas será comum entrarmos na descrição de fenómenos inter e trans-religiosos para uma melhor compreensão do tema deste estudo que desenvolveremos nos temas dos próximos subcapítulos.