PARTE I – Divulgação e recepção dos textos e atrajetória jornalística de Graciliano Ramos jornalística de Graciliano Ramos
Capítulo 2 – O percurso do cronista
2.2. O Índio: da província para a província
lhes levas de presente o que eles justamente desejam – “notabilidade em letra de forma”
mesmo em jornais da roça. E o papel e a tinta nas tuas mãos valem tanto...”89.
Para se defender das censuras, R.O. mantêm o mesmo expediente já observado ao longo dos seus “Traços a Esmo”: adota a estratégia argumentativa de rebaixar-se, em períodos carregados de ironia e humor. Diz que, em seus textos anteriores, não teve a intenção de engrandecer nenhum dos dois contendedores. Sarcasticamente, indica que se errou dando espaço a Carlos Maul, mas M.L. teria incorrido no mesmo engano ao também colocar em evidência o nome do poeta petropolitano em sua carta. Termina a crônica, tripudiando do conselho do amigo: “N.B. Tenho meditado sobre o conselho que me deste de tomar um banho de água benta. Preciso de uma pia muito grande, principalmente agora, que somos dois ao banho: tu e eu” 90.
Ao mesmo tempo em que fechava o movimento irônico do texto, R.O. parecia encenar também sua despedida das páginas do Paraíba do Sul, fechando a unidade formada pela série
“Traços a Esmo”, que apesar de apresentar-se como tal não fora respeitada pela edição do volume Linhas Tortas91.
Das crônicas do Paraíba do Sul às de O Índio, seu segundo trabalho jornalístico sistemático, há um intervalo de seis anos. Segundo relatos biográficos, nesse período, Graciliano deixara de colaborar com todos periódicos e dedicara-se a Loja Sincera, negócio de seu pai em Palmeira dos Índios. Todavia, em 1921, começara a trabalhar no pequeno jornal palmeirense do padre Macedo (O Índio). Tratava-se de uma publicação em tamanho tablóide, de quatro páginas divididas em quatro colunas. Nas duas primeiras, normalmente, constavam editoriais, pequenos textos, notas opinativas, epigramas e crônicas. A terceira era ocupada por telegramas, pequenas publicidades e pelas seções “Crônica Social” (com informações sobre eventos e figuras da elite municipal), “De Maceió” (com notas sobre a capital do Estado) e “A pedidos”. Na quarta, ganhavam espaço correspondências, pequenas notas e praticamente toda a publicidade e classificados.
De janeiro a maio de 1921, o escritor colaborou intensamente com as 14 edições iniciais da publicação94. Afora alguns textos eventuais95, Graciliano era responsável por três seções:
“Factos e Fitas”, “Garranchos” e “Traços a Esmo” (a mesma rubrica de quando escrevia para o Parayba do Sul). A primeira era composta de epigramas96, assinados com o pseudônimo de Anastácio Anacleto. A segunda e a terceira eram espaços privilegiados para a veiculação de sua produção cronística. Em cada uma delas publicou séries de quatorze textos, mantendo-se oculto pelos pseudônimos “X” e “J. Calisto”, respectivamente. Como já indicado no capítulo anterior, Linhas Tortas reuniu apenas doze crônicas da coluna “Traços a Esmo”, deixando, portanto, uma parte significativa dos escritos literatos, estampados em tal jornal sertanejo, ainda inéditos em livro.
Com J. Calisto, Graciliano aprimora o narrador R.O., dando continuidade à criação daquele tipo irônico e sarcástico, que, recorrentemente, sobrepõe-se às personagens e aos fatos narrados, procurando sempre se aproximar do leitor e cativá-lo. Tratava-se de um tipo
94 Em carta ao amigo Pinto Mota Lima, em agosto de 1927, Graciliano comenta sua atividade em O Índio, destacando que só participara das quatorze primeiras edições do periódico (RAMOS, Clara. Mestre Graciliano:
confirmação humana de uma obra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979, p.51).
95 As crônicas são as seguintes: “Judas”, de 27 de março de 1921, assinado com as iniciais J.C. (de J. Calisto);
“Como se escreve”, de 3 abril de 1921 e “Solidariedade”, de 24 de abril de 1921, ambos rubricados com pseudônimo Lambda, já usado anteriormente pelo autor. Além disso, como indica Moacir Medeiros Sant’ana haveria uma série de outros textos sem assinatura, mas que numa rápida análise estilística e temática poderiam ser atribuídos a Graciliano. Cabe ainda fazer um trabalho mais acurado a fim de detectar aquelas narrativas passíveis de serem incluídas em suas obras completas.
96 Textos breves e satíricos que expressam de forma incisiva, um pensamento ou um conceito malicioso.
benevolente, astucioso e gaiato que opina sobre as questões que aborda, valendo-se, mais nitidamente, do humor machadiano.
J. Calisto preocupava-se mais com a captação das práticas sociais em seus aspectos mais corriqueiros, tais como alguns incidentes do cotidiano, a descrição de certos tipos culturais e o questionamento debochado de grandes instituições da sociedade (Igreja, Política, Justiça, Pátria). Isso não quer dizer que ele representasse o real, mas sim, que incorporava discursos sobre esse mesmo real. O narrador dessas crônicas instituiu uma sociedade imaginária – uma comunidade interiorana hipotética, referencia real, onde o narrador também inseria o leitor como personagem.
Desta condição de observador sócio-cultural, o cronista assumia uma postura superior aos que o liam, sem deixar de incorporar elementos de uso comum destes. Vivia constantemente essa relação ambivalente: ao mesmo tempo em que se distanciava, apresentava elementos do próprio cotidiano dos leitores para que estes se identificassem com o relato. O próprio uso de uma linguagem ágil marcada pela oralidade é mostra dessa aproximação. Sua sintaxe oscilava entre a descontração da fala, próxima da conversa entre duas pessoas, e a correção própria da norma culta. No entanto, praticava, ao mesmo tempo, o discurso irônico como forma de argumentação e reflexão, buscando a conivência do destinatário em novas leituras de velhos episódios. Tal opção causava dúvidas, gerava polêmicas, questionava outros discursos amplamente disseminados no corpo social como verdades incontestáveis, exigindo uma postura ativa dos receptores.
A crônica preâmbular do cronista, sob o pseudônimo de J. Calisto, para O Índio esclarece alguns dos procedimentos narrativos identificados acima, ao mesmo tempo em que parecia jogar com as várias funções da linguagem97. Primeiramente, ganhava relevo o emissor (função emotiva). Na medida em que este agredia e afagava o leitor, e também se autodepreciava, acabava se apresentando como um personagem excêntrico que centralizava a crônica e buscava cativar seu auditório por meio da inversão irônica:
97 Para definições sobre funções da linguagem, ver JAKOBSON, Roman. Lingüística e Comunicação. São Paulo: Cultrix, 1970. p. 119 a 162.
Estou aqui de passagem. Sou hóspede nesta folha. Quando me der na telha, arrumo a trouxa e vou-me embora. Em minha rápida conversação contigo, meu interesse é muito limitado. Se tiveres paciência de ouvir-me, bem; se não, põe o teu chapéu e raspa-te98.
O narrador apresentava-se, na maioria das vezes, por meio de um monólogo na forma de um pseudodiálogo, em que ganhava destaque sua suposta despretensão. Nesse tipo de construção, por mais que o receptor fosse mencionado por meio de vocativos e da segunda pessoa (função conativa), o destaque continuava sendo o emissor:
Prefiro dizer-te francamente o que penso de ti, leitor amigo. Talvez seja assim melhor para nós ambos.
Para ti, que procuráras corrigir-te; para mim que ficarei tranqüilo com a minha consciência. Podemos ser bons amigos. É até provável que assim aconteça. Se não acontecer, paciência99.
Contudo, no início do texto, há um momento em que o enunciador buscava definir o leitor, inserindo-o de forma direta, no interior da crônica, como um personagem. No entanto, percebe-se que ele adota uma estratégia levemente diferente daquela já observada com o narrador R.O. de O Parayba do Sul, visto acima. Enquanto, este último escrevia da capital do país para um destinatário provinciano, inicialmente desconhecido, procurando testá-lo e gradualmente vencer a distância que os separava, J. Calisto demonstrava, desde o princípio, estar mais próximo e ligado ao horizonte de expectativas da comunidade interiorana em que circulava o jornal O Índio.
[Referindo-se ao leitor] Eu já sei quem tu és. Não é preciso que me digas teu nome, tua profissão, algumas mazelas que por acaso – quem não as possui? – te ornam o caráter. Mas, tu decerto, não queres palestrar com um desconhecido100.
Como estratégia de aproximação, aparentemente ambígua, procurava ridicularizar jocosamente seu receptor, objetivando conquistar a atenção e o riso deste. Costumava referir-se a ele, predominantemente como “Leitor amigo”, mas há outras menções – “pobre matuto desengonçado” e “rapariga bonita” (a quem se recusaria a fazer gentilezas) – que ajudavam a compor seu estilo, tom e preferências, sempre pautadas pela ironia e pela pseudo-agressão.
98 RAMOS, Graciliano, Linhas Tortas. Rio de Janeiro, Record, 2005 p.70. Em tal citação, nota-se uma certa semelhança textual com o “Prólogo ao Leitor” das Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis: “...
se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se não te agradar pago-te com um piparote, e adeus ” (ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997, p.12).
99 RAMOS, Graciliano, op.cit. p.71.
100 Idem, p.70.
Ainda com relação ao texto de apresentação de J. Calisto, a função referencial, na qual prevalece o uso da terceira pessoa, não apresentaria tanto destaque. A centralização exercida pelo emissor rebaixava a importância do contexto, colocando em relevo a própria enunciação – o pseudodiálogo proferido por esse mesmo narrador.
Por outro lado, a função fática ganhava ênfase, sobretudo, quando J. Calisto, jocosamente, passava a ficcionalizar como fora sua escolha para trabalhar em O Índio. Nesse processo, colocava em xeque o próprio canal, apesar de continuar referindo-se a si mesmo. Ao mesmo tempo, valia-se de uma suposta autodepreciação para caracterizar-se, perante o leitor, como um narrador sincero e autêntico. Tal artifício, já utilizado pelo cronista R.O. tem como objetivo, como já se pontuou, aumentar seu poder de aproximação e de persuasão:
No páreo que se fez, para escolher o pessoal desta casa, houve candidatos que se portaram lamentavelmente. Eu que fui o último a atingir a meta, cheguei cansado, deitando alma pela boca, positivamente estropiado. Não obstante, como os concorrentes eram poucos, necessário se fez conceder a todos prêmios de animação. Os que melhor correram estão ali pelo artigo de fundo e circunvizinhanças. Eu e alguns que venceram por uma pequena diferença de cabeças escondemo-nos bisonhamente por estes, recantos101.
Paralelamente, a metalinguagem marcava seu estilo. Encenava a própria redação dos textos que inventava, retomando aqui o recorrente lugar-comum, próprio do gênero cronístico, de que seus textos ficariam na superfície dos fatos: “Não esperes, pois, encontrar nestas crônicas coisas transcendentes. A profundidade assusta-me e é muito provável que assuste também a ti, leitor amigo. Fiquemos calmamente à superfície”102
No que diz respeito à função poética, vale-se de uma metáfora dura que reforçava o tom de (pseudo-)agressão e de ironia de seu texto. Simultaneamente, ao comparar-se a alguns medicamentos, aos quais os leitores rotineiramente recorriam, o cronista procurava destacar sua utilidade. Tais elementos, integrantes da idéia de cotidiano da comunidade, corroboravam a estratégia ambivalente do cronista de, ao mesmo tempo, aproximar-se e de distanciar-se do auditório, arrogando-se uma condição superior:
101 Idem, p.72-73.
102 Idem, p.73
Não desejo ser-te agradável; prefiro ser-te útil. Sou assim uma espécie de vendedor ambulante de sabão para a pele, de ungüento para as feridas, de pomada para calos. Talvez não encontre virtude em meus medicamentos. Pode ser que os calos de tua consciência continuem duros e não sintas melhora na sarna que porventura tenhas na alma, doenças que não te desejo. Em todo caso teu prejuízo será pequeno. O remédio nada te custa. Se a doença te mata tanto pior para ti e para teus credores, mas terás satisfação de dizer que recorreste a uma botica103.
Percebe-se nessa crônica, por meio dos recursos utilizados, o esforço do artista em criar uma identidade e um estilo. Nos outros textos, que completavam a seção, continuava a ênfase no próprio narrador: o personagem-cronista J. Calisto que se sobrepunha aos tipos e aos fatos apresentados. Contudo, observa-se aqui um apelo maior para o contexto imediato dos leitores.
Ao mesmo tempo em que se apresentava como um ente superior, que observava as situações criticamente, o cronista introduzia elementos inerentes ao cotidiano dos interlocutores para que estes se identificassem, assim como já fora sinalizado acima, possibilitando, portanto, uma comunicação mais próxima e efetiva.
Tal procedimento pode ser observado com mais clareza no momento em que o cronista caracteriza alguns tipos sócio-culturais do universo da pequena cidade inventada em seus textos104. As crônicas VII105 e VIII106 trazem, respectivamente, a “vendedora de bilhetes” e a
“mulher que pede esmolas para santos”. Nesses dois textos realiza uma descrição pormenorizada das personagens. A primeira é apresentada como uma mulher sedutora e cativante, que consegue sempre seus objetivos. A segunda, por outro lado, é velha, com uma verruga nas ventas, e exploradora.
Se se levar em conta o senso comum, realiza, portanto, uma inversão irônica. A personagem pagã (que vende bilhetes) é vista com condescendência ao passo que a religiosa (que pede esmolas) aparece como uma usurpadora. A alusão jocosa à religião e aos costumes salta para o primeiro plano ao se referir à “profissão rendosa” da carola:
103 Idem, p. 72. Imagem semelhante fora utilizada anteriormente por Bilac: “Os cronistas são como bufarinheiros, que levam dentro das suas caixas rosários e alfinetes, fazendas e botões, sabonetes e sapatos, louças e agulhas, imagens de santos e baralhos de cartas, remédios para a alma e remédios para calos, breves e pomadas, elixires e dedais” (DIMAS, Antonio. Bilac, o Jornalista. São Paulo: EDUSP; Imprensa Oficial; Editora Unicamp, 2006.
v.1, p.631).
104 Tais tipos povoam a pequena cidade do interior criada pelo autor, que teria como referente imediato Palmeira dos Índios, ou seja, o espaço de circulação do jornal. Ao mesmo tempo, estariam presentes na farta tradição literária dedicada a representação da vida provinciana, da qual, por exemplo, o futuro romance Caetés (1933) do autor fará parte.
105 J. CALISTO [Graciliano Ramos]. Traços a Esmo VII. O Índio, Palmeira dos Índios, 06 mar. 1921.
106 J. CALISTO [Graciliano Ramos]. Traços a Esmo VIII. O Índio, Palmeira dos Índios, 13 mar. 1921.
Entre os múltiplos retratos de personagens celestes que lhe enchem o altar, a mulher que pede esmolas possui sempre um santo de resistência, espécie de oráculo da vizinhança, hábil e conhecido fazedor de milagres, com uma grande autoridade que lhe dá a velhice. Muitas vezes vem de outra geração, pertenceu a uma avó ou bisavó da proprietária atual, que também explorava a indústria santeira, com algum êxito; já que naqueles temo se revelava um razoável milagreiro. Com os anos, naturalmente, crescem-lhe a virtude [...] As promessas cumprem-se, que ele quase nunca deixa de tomar em consideração a súplica dos crentes. Dor de dentes, engasgos, reumatismo, abscesso, feridas, torcicolos, mal de empalamados, doenças de olhos, dentições complicadas, tudo é motivo para importações ao orago e conseqüente paga à criatura que dele vive107.
Tal tratamento sarcástico e invertido de práticas e instituições consagradas, portadoras de forte apelo popular, repete-se na crônica IX108, na qual volta a abordar a religião. Aqui, discorre, com a pseudo-sinceridade habitual, sobre a conduta dos cristãos durante a Semana Santa. Contrariamente ao que se esperava do preceito religioso do jejum, conclui ironicamente que nessa época do ano ocorria uma larga indigestão entre os penitentes que devoravam tudo “com fé”:
‘A carne é fraca.’ É dos evangelhos. Pelo menos foi o que me disseram, e eu não tenho motivo para duvidar. Ora, é inegável que o estômago seja feito de carne. Como exigir, pois, da fraqueza deste pobre órgão, elasticidade bastante para transformar numa jibóia o mísero bípede religioso que nós somos109.
O cronista também se aproxima do universo do leitor quando particulariza temas nacionais. O futebol, o carnaval e hinos de louvor à pátria são observados por J. Calisto a partir de certa perspectiva sertaneja, com o mesmo rebaixamento irônico e humorístico que o caracteriza.
Como é comum nos “Traços a Esmo”, ao tratar, por exemplo, da introdução do futebol no país, na crônica XI110, o cronista realiza uma pseudodissertação com finalidade humorística.
Arrogando-se seriedade, profetiza que o esporte seria passageiro, visto que não passava de uma imposição externa. Ele seria o reverso da índole do povo brasileiro, sobretudo o do sertão nordestino, menos aberto a estrangeirismos, quando comparado com a população das cidades litorâneas. Para ressaltar a incompatibilidade entre o país e a nova prática, lança mão de palavras ásperas para descrever o interior nordestino, região marcada, segundo ele, pela inanição, pobreza e preguiça:
107 Idem, p.98-99.
108 J. CALISTO [Graciliano Ramos]. Traços a Esmo IX. O Índio, Palmeira dos Índios, 27 mar. 1921.
109 Idem, p.103.
110 J. CALISTO [Graciliano Ramos]. Traços a Esmo XI. O Índio, Palmeira dos Índios, 10 abr. 1921.
Fisicamente falando, somos uma verdadeira miséria. Moles, bambos, murchos, tristes – uma lástima!
Pálpebras caídas, beiços caídos, braços caídos, um caimento generalizado que faz de nós o ser desengonçado, bisonho, indolente, com ar de quem repete, desenxabido e encolhido a frase pulha que se tornou popular: ‘Me deixa...’111.
J. Calisto, portanto, mantém o mesmo ideal de verossimilhança artística já manifestado anteriormente por R.O.: apenas imagens desabonadoras do mundo seriam “autênticas”. Tal perspectiva ganha força ao tratar do sertão, pois assim como seus leitores, por mais que ironicamente procure se diferenciar destes, também seria um sertanejo. E invoca constantemente essa condição para melhor persuadir, pois sinaliza por meio dela, que conhece bem a matéria de que trata, valendo-se, inclusive, de termos lexicais específicos. Respaldado por essa ancoragem no real, porta-se como um narrador não confiável, um especialista, que descreve, seleciona e comenta de uma perspectiva favorável a seus interesses. Sua não-confiabilidade decorre do ato de dizer uma coisa para sugerir outra. Ainda a crônica XI, sobre o futebol, pode exemplificar tal postura. Nela, J. Calisto preconiza o retorno àquilo que imagina ser as fontes brasileiras. Para ele a rasteira seria o verdadeiro esporte nacional. Tal modalidade prevaleceria em todas as áreas. Nessa aproximação, carrega o tom de deboche e de ironia:
Todos nós vivemos mais ou menos a atirar rasteira nos outros. Logo na aula primária habituamo-nos a apelar para as pernas quando nos falta confiança no cérebro – e a rasteira nos salva. Na vida prática, é claro que aumenta a natural tendência que possuímos para nos utilizar eficientemente da canela. No comércio, na indústria, nas letras e nas artes, no jornalismo, no teatro, nas cavações, a rasteira triunfa.
Cultivem a rasteira amigos112!
Buscando uma forma mais visível de contato com os leitores, o narrador J. Calisto abre espaço para correspondências enviadas por estes. Utiliza tal procedimento em três crônicas. O recurso surge, por exemplo, como um meio para instaurar uma (falsa) polêmica na crônica V113. O cronista compila integralmente uma suposta missiva “de um jurado a um cavalheiro de importância”, realizando apenas a seguinte interferência no final do texto: “Esta carta
111 Idem, p.111.
112 Idem, p.114-115.
113 J. CALISTO [Graciliano Ramos]. Traços a Esmo V. O Índio, Palmeira dos Índios, 27 fev. 1921.
nos confiada por um cavalheiro de influência, que nos deu autorização para publicá-la. O original se encontra sob nosso poder”114.
Em tal carta anônima, um jurado vendido oferece seus serviços a uma pessoa também não nomeada, numa linguagem impostada, digna de um magistrado. De maneira geral, o missivista procurava justificar e atestar a eficiência dos meios de que se valia para inocentar qualquer réu. Segundo ele, por meio do discurso seria possível inverter a lógica de qualquer fato. O absurdo das considerações desse enunciador, apresentadas como coisa séria, levariam ao riso. Paralelamente, a repetição de tal tópica sobre o relativismo discursivo da verdade, comum ao longo da série “Traços a Esmo”, faz crer que a missiva seja uma invenção declarada do cronista, que buscaria discutir elementos associados à instituição judiciária com seus leitores. Ao mesmo tempo em que a introdução do suposto documento conferia mais
“veracidade” ao texto, afastava J. Calisto da responsabilidade de autoria daquelas linhas. No entanto, por mais que a carta tenha realmente existido, a sua simples publicação no jornal já indica o peso da escolha do cronista115.
Na crônica X116, a mesma falsa polêmica é retomada e o diálogo continuado. J. Calisto declara ter recebido uma outra carta que o questionava por ter aberto espaço à missiva do jurado, que agora a assume como sendo de sua autoria. Dessa vez, o remetente, também anônimo, criticava-o por ter estimulado os cidadãos pacíficos de Palmeira dos Índios a se tornarem criminosos como o juiz de fato mencionado. De maneira irônica, o cronista se diz agradecido, pois seu crítico o julgara tão forte, a ponto de influir sobre a índole de seus compatriotas. Ele “agradece as verdades ditas”, e se diz “positivamente escangalhado”, rebaixando-se ironicamente diante de seu antagonista:
Declaro-me, com medo de nova investida, redondamente vencido e convencido para todos os efeitos. E se aqui exponho as razões que o meu desproporcionado antagonista superiormente joga contra as
114 Idem, p.91.
115 Em tal crônica, aparece uma referência a um suposto réu chamado Manuel Tavares. Este também seria o nome de um réu injustamente inocentado, presente no livro Caetés. Nesta obra, João Valério, narrador em primeira pessoa, comenta a redação de uma tira sobre a soltura do referido criminoso para o jornalzinho de padre Atanásio: “‘Jurado amigo...’ Carta a um juiz de fato, mofina contra o júri, que absolveu Manuel Tavares, assassino. Depois de muito esforço consegui descrever o tribual, o presidente magro e asmático, gente nos bancos, o advogado triste e com a barba crescida, o dr. Castro soletrando o libelo” (RAMOS, Graciliano. Caetés.
4. ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1953, p.176-177).
116 J. CALISTO [Graciliano Ramos]. Traços a Esmo X. O Índio, Palmeira dos Índios, 3 abr. 1921.
desgraçadas linhas que inconsideradamente rabisquei, é que desejo penitenciar-me declarando com honestidade ao público que sou um jumento117.
Seu falso arrependimento reforça o tom de ironia. Logo em seguida, insinua que o papel do cronista seria revelar a crueza da vida sem idealizações, retomando certa noção de verossimilhança artística, esboçada anteriormente. Por meio desse diálogo efetivo estabelecido com um leitor (e que pode ser estendido a todos os outros), o narrador mais uma vez encena sua condição dual de simultaneamente aproximar-se e afastar-se de seu interlocutor.
2.2.1. A série “Garranchos”
Em sua relação com os destinatários, o cronista “X”, da série “Garranchos”, adotava estratégia narrativa diferente. Ele procurava deixar de lado as alusões e ironias oblíquas de J.
Calisto para construir um discurso mais direto e participativo, assumindo, muitas vezes, a condição de defensor da população palmeirense representada pelo jornal. Para tanto, recorrentemente, vale-se de um tom opinativo e mordaz de polemista, dispensando moderadamente as pseudo-grosserias jocosas vistas anteriormente.
Conseqüentemente, “X” desejava constituir-se como um narrador mais confiável, que deixava de lado a ênfase na interlocução e a tematização do espaço ficcional no interior da própria crônica. Diferentemente dos “Traços a Esmo” também, privilegiava a função didática em detrimento da estética, procurando acentuar o nível de redundância da narrativa.
Em três oportunidades, protagoniza uma campanha em defesa do incremento da instrução pública no município. Na primeira delas, a crônica de número de IV, de 20 de fevereiro de 1921, apela para o argumento da suposta relação entre a degradação moral da população, sobretudo das crianças, e o analfabetismo com intuito de sensibilizar seus interlocutores habituais e, ao fim, o próprio governo. Destaca que na cidade, criavam-se diariamente centros de diversões, mas não se abria nenhuma escola:
E a ignorância aumenta, e os crimes multiplicam-se! Temos (miséria!) escolas de vício, aprendizagem de crimes, escadas para a prostituição. É a casa de jogo, é o álcool, é a aluvião de mendigas, crianças à puberdade, que infestam a cidade, oferecendo-se quase.
117 Idem, p.106.