3.2 O Conselho Constitucional
3.2.4 O Funcionamento
3.2.4.2 O bloco de constitucionalidade
doutrina, que as definições dadas a ele não são imutáveis, se modificando de tempos em tempos. Atualmente possui definições bem precisas, ao ponto de o Conselho Constitucinal conseguir impor ao legislador nacional um respeito ante as normas precisamente delimitadas.
Ainda, sobre a competência do Conselho Consitucional, faremos considerações mais relevantes posteriormente.
Proclama, além disso, como particularmente necessário no nosso tempo, princípios políticos, económicos e sociais a seguir:
A lei garante às mulheres em todas as áreas da igualdade de direitos do homem.
Qualquer homem perseguido pela sua ação em favor da liberdade tem de asilo nos territórios da República.
Todos têm o dever de trabalhar e o direito de obter um emprego. Ninguém pode ser prejudicado no seu trabalho ou emprego por causa de suas origens, opiniões ou crenças.
Qualquer homem pode defender os seus direitos e interesses através de uma ação sindical e juntar-se à união de sua escolha.
O direito à greve é exercido dentro das leis que o regulamentam.
Todos os trabalhadores, através de seus delegados para a determinação coletiva das condições de trabalho e de gestão de empresas.
Todos os bens e todas as empresas cuja operação tem ou adquire o caráter de um serviço público nacional ou um monopólio, deve tornar-se a propriedade da comunidade.
A nação deve fornecer ao indivíduo e à família as condições necessárias para o seu desenvolvimento.
Ela garante a todos, incluindo as crianças, mães e trabalhadores idosos, proteção da saúde, segurança material, descanso e lazer. Todo ser humano que, por causa da idade, estado físico ou mental, a situação económica, é incapaz de trabalho tem direito a obter os meios de subsistência adequados comunidade.
A Nação proclama a solidariedade e a igualdade de todas as acusações francesas resultantes de calamidades nacionais.
A Nação garante o acesso e adultos iguais a educação da criança, a formação profissional e na cultura. A oferta de educação gratuita, pública e laica em todos os níveis é um dever do Estado.
A República Francesa, fiel às suas tradições, respeitar as regras do direito internacional público. Ela realizar nenhuma guerra destinado a conquista e nunca vai usar as suas forças contra a liberdade de qualquer povo.
Sob reserva de reciprocidade, França consente às limitações de soberania necessárias para a organização e defesa da paz.
França treina com pessoas no exterior de uma União com base nos direitos e deveres iguais, sem distinção de raça ou religião.
A União Francesa é composta de nações e povos que compartilham ou coordenar os seus recursos e esforços para desenvolver suas respectivas civilizações, aumentar o seu bem-estar e garantir a sua segurança.
Fiel à sua missão tradicional, a França tem a intenção de levar as pessoas que se encarregaram à liberdade de administrar a si mesmos e para gerir democraticamente os seus próprios assuntos; eliminando qualquer sistema de liquidação com base em arbitrária, que garante a todos, acesso igual a serviços públicos e o exercício individual ou coletiva dos direitos e liberdades proclamados ou confirmados acima51.
51 Au lendemain de la victoire remportée par les peuples libres sur les régimes qui ont tenté d'asservir et de dégrader la personne humaine, le peuple français proclame à nouveau que tout être humain, sans distinction de race, de religion ni de croyance, possède des droits inaliénables et sacrés. Il réaffirme solennellement les droits et libertés de l'homme et du citoyen consacrés par la Déclaration des droits de 1789 et les principes fondamentaux reconnus par les lois de la République.
Il proclame, en outre, comme particulièrement nécessaires à notre temps, les principes politiques, économiques et sociaux ci-après:
La loi garantit à la femme, dans tous les domaines, des droits égaux à ceux de l'homme.
Tout homme persécuté en raison de son action en faveur de la liberté a droit d'asile sur les territoires de la République.
Chacun a le devoir de travailler et le droit d'obtenir un emploi. Nul ne peut être lésé, dans son travail ou son emploi, en raison de ses origines, de ses opinions ou de ses croyances.
Tout homme peut défendre ses droits et ses intérêts par l'action syndicale et adhérer au syndicat de son choix.
Entende o Conselho Constitucional que este preâmbulo é uma complementação aos direitos de primeira geração consagrados com a Declaração Universal de Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. Assim como a Declaração de Direitos, o Preâmbulo da Constituição de 1946 foi alvo de questionamentos sobre sua eficácia jurídica, no sentido de saber se possuía valor jurídico positivo. O Conselho, porém, jamais fez qualquer distinção entre eles e nem poderia, pois se assim o fizesse estaria indo de encontro ao entendimento valorativo igualitário que dipôs sobre eles. Sendo assim, os considera plenamente aplicáveis52.
Algo bem interessante de mencionar é que diferentemente do Brasil, onde a aplicação de princípios para fundamentar decisões é algo corriqueiro e em alguns casos ignora a existência do dispositivo legal, na França o Conselho Constitucional os considera extremamente aplicáveis e integrantes do Preâmbulo da Constituição de 1946. Logo, parte do Bloco de Constitucionalidade e os ultilizam com extrema prudência. Ao passo que, raramente os invocam para fundamentar qualquer questão relacionada a uma inconstitucionalidade, busca com essa atitude,
Le droit de grève s'exerce dans le cadre des lois qui le réglementent.
Tout travailleur participe, par l'intermédiaire de ses délégués, à la détermination collective des conditions de travail ainsi qu'à la gestion des entreprises.
Tout bien, toute entreprise, dont l'exploitation a ou acquiert les caractères d'un service public national ou d'un monopole de fait, doit devenir la propriété de la collectivité.
La Nation assure à l'individu et à la famille les conditions nécessaires à leur développement.
Elle garantit à tous, notamment à l'enfant, à la mère et aux vieux travailleurs, la protection de la santé, la sécurité matérielle, le repos et les loisirs. Tout être humain qui, en raison de son âge, de son état physique ou mental, de la situation économique, se trouve dans l'incapacité de travailler a le droit d'obtenir de la collectivité des moyens convenables d'existence.
La Nation proclame la solidarité et l'égalité de tous les Français devant les charges qui résultent des calamités nationales.
La Nation garantit l'égal accès de l'enfant et de l'adulte à l'instruction, à la formation professionnelle et à la culture. L'organisation de l'enseignement public gratuit et laïque à tous les degrés est un devoir de l'État.
La République française, fidèle à ses traditions, se conforme aux règles du droit public international.
Elle n'entreprendra aucune guerre dans des vues de conquête et n'emploiera jamais ses forces contre la liberté d'aucun peuple.
Sous réserve de réciprocité, la France consent aux limitations de souveraineté nécessaires à l'organisation et à la défense de la paix.
La France forme avec les peuples d'outre-mer une Union fondée sur l'égalité des droits et des devoirs, sans distinction de race ni de religion.
L'Union française est composée de nations et de peuples qui mettent en commun ou coordonnent leurs ressources et leurs efforts pour développer leurs civilisations respectives, accroître leur bien-être et assurer leur sécurité.
Fidèle à sa mission traditionnelle, la France entend conduire les peuples dont elle a pris la charge à la liberté de s'administrer eux-mêmes et de gérer démocratiquement leurs propres affaires; écartant tout système de colonisation fondé sur l'arbitraire, elle garantit à tous l'égal accès aux fonctions publiques et l'exercice individuel ou collectif des droits et libertés proclamés ou confirmés ci-dessus.
52 SEGORBE, Beatriz; TRABUCO, Cláudia. O conselho constitucional francês: legitimidade e vias de legitimação da justiça constitucional. Coimbra: Quarteto, 2002, p. 47.
evitar críticas no sentido, de estar o órgão excedendo suas atribuições agindo como se tentasse “governar” 53.
Uma análise cuidadosa das decisões do Conselho Constitucional leva a entender como esse órgão passou de mero instrumento de controle do Parlamento a uma instituição consolidada, aplicadora de um direito racional, defensora das liberdades públicas e dos direitos e garantias fundamentais. O Conselho Constitucional através de sua jurisprudência conseguiu dar ao Direito Constitucional Francês a merecida hierarquia frente os demais ramos do Direito. Seu comportamento alavancou a interpretação constitucional e a maneira como os dispositivos constitucionais eram encarados.
A Constituição Francesa é extremamente omissa no que refere à proteção e eficácia dos direitos e garantias fundamentais e foi justamente o Conselho Constitucional, sempre mediante uma interpretação prudente, que deu o entendimento necessário para que o legislador, ao inovar o ordenamento jurídico francês, o fizesse com vistas e respeito a esses direitos.
Essa ampliação dos parâmetros de constitucionalidade acabou por formar um conjunto de normas que convergiam a um mesmo propósito, a este conjunto a doutrina francesa batizou de Bloco de Constitucionalidade. Expressão que transcendeu a fronteiras gaulesas e hoje se tornou um conceito básico do Direito Constitucional Mundial54.
Tornam-se necessárias certas considerações, pois em um primeiro olhar é comum que o conceito de Bloco de Constitucionalidade seja uma construção jurisprudencial do Conselho de Constitucionalidade, o que é um pensamento equivocado. A doutrina francesa conceitua o Bloco de Constitucionalidade como a reunião de normas com alta carga valorativa constitucional, as quais o Conselho Constitucional deve zelar. Normas que o legislador deve se atentar a toda inovação legislativa. Explica Cláudia Trabuco (2002, p. 111):
A noção de bloco de constitucionalidade, ao contrário do que se possa pensar, não é um resultado do labor da atividade jurisprudencial do Conselho. Aliás, não deixa de ser curioso notar que o Conselho continua hoje a preferir a expressão “princípios e regras de valor constitucional” para se referir ao parâmetro de controle de constitucionalidade. A expressão aparece pela primeira vez num estudo de Louis Favoreu sobre o princípio
53 SEGORBE, Beatriz; TRABUCO, Cláudia. O conselho constitucional francês: legitimidade e vias de legitimação da justiça constitucional. Coimbra: Quarteto, 2002, p. 49.
54 DEBRÉ, Jean-Louis, Le Conseil Constitutionnel. Paris: Nane, 2014, p.28.
da constitucionalidade publicado em 1975 e, desde então, tem vindo a ser regularmente empregada pela maioria da doutrina para designar o conjunto de normas de valor constitucional que o Conselho Constitucional se deve encarregar de proteger e cujo respeito se impõe ao legislador, correspondente à noção ampla de Constituição.
Para melhor compreensão do nosso estudo é interessante realizar, ainda que brevemente, uma explanação acerca das normas que integram o Bloco de Constitucionalidade.
Primeiramente, de forma bem sucinta, falaremos do próprio texto constitucional de 1958, este se diferencia do preâmbulo e é o dispositivo mais importante no que se refere à matéria de organização dos poderes e procedimentos.
Salvo o artigo 2º, esse dispositivo não emana proteção aos direitos e garantias fundamentais.
Outro elemento que compõe o Bloco de Constitucionalidade é o Preâmbulo da Constituição de 1958 e aqui temos uma mudança significativa, pois até a Constituição de 1946, o preâmbulo não possuía qualquer valor jurídico, valor este agregado mediante a atividade jurisprudencial do Conselho Constitucional, uma vez que o próprio texto da Constituição de 1958 não fazia menção sobre qualquer valor jurídico positivo acerca do preâmbulo. Anterior a esse entendimento do Conselho, qualquer eventual invocação do preâmbulo como base de fundamentação jurídica era rebatida sob o fundamento de que não havia atribuição valorativa expressa (que de fato não há) e por tratar-se de premissas relativamente vagas e imprecisas.
O advento da V República e da Constituição de 1958, diferentemente da Constituição de 1946, apresentou aos franceses a clara omissão relativa aos direitos e garantias fundamentais. A diferença entre as duas constituições consiste no fato da constituição anciã atribuir um valor jurídico ao preâmbulo esquecido em 1958. Essa ausência veio ao encontro do sábio comportamento do Conselho Constitucional que através de sua atividade jurisprudencial deu ao preâmbulo a importância e a força necessária, tornando-o elemento fundamental ao ser observado quando da inovação legislativa, passando a compor os preceitos do controle de constitucionalidade naquele país.
A Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão de 26 de agosto de 1789 é mais um elemento integrante do Bloco de Constitucionalidade e também foi alvo de suspeitas quanto ao seu valor atribuído. Novamente a dúvida recaia sobre
ao peso jurídico dado aos seus dispositivos e se este valor era conferido apenas a algumas partes ou ao texto completo. O comportamento do Conselho Constitucional veio esclarecer essa incerteza, conferindo valor jurídico ao texto de 1789.
O mesmo ocorreu com o Preâmbulo da Constituição de 1946 que adquiriu status de dispositivo constitucional, fonte de abrigo de dois grandes blocos de princípios, ganhou importância inequívoca com o passar dos anos e a invocação dos mesmos.
Muito embora a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão e os Preâmbulos Constitucionais de 1946 e 1958 apontem uma gama de princípios, na realidade não existem grandes evidências de dispositivos constitucionais consagrando tais elementos, que acaba por ocorrer em leis gerais da República.
Esses princípios são indissociáveis da tradição francesa, ao passo que foi imposto ao legislador uma desmesura deles, tais como a liberdade de associação, a liberdade de ensino, a independência das jurisdições administrativas entre outros.
Essa desmesura de princípios abrigados em leis gerais, sofreu significativa mudança no final da década de 70. Uma política jurisprudencial limitou gradativamente o alcance dessas leis como meio referencial. Assim, uma lei geral que contivesse um princípio, somente poderia integrar o Bloco de Constitucionalidade se possuísse um viés fundamental, essa premissa serviu de base para estudos doutrinários, estabelecendo barreiras de contenção a eventuais exageros por parte do Conselho Constitucional.
Um ponto a ser ressaltado é que os princípios não expressam normas, mas essencialmente finalidades gerais, consagrando liberdades fundamentais com preocupações humanistas e sociais. São elementos que transcendem o tempo, mantendo-se atuais mesmo com a constante evolução social, tanto que o Conselho Constitucional no seu ato de controlar a lei os importa do Preâmbulo Constitucional de 1946 reafirmados na Lei Maior de 1958.