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4.5 A QPC e s.ua Natureza Prioritária

4.5.1 O Processo de Ascendência da QPC Mediante o Procedimento de

Como já mencionado outrora, a QPC pode ser apresentada pelo cidadão francês sempre que este se ver diante de um processo judicial ou administrativo violadores de direitos e garantias devidamente abrigados pela Constituição.

Da mesma forma, em momento anterior foi estabelecido que a competência para o julgamento da QPC é exclusiva do Conselho Constitucional e que o particular não possui a prerrogativa de fazer uso de tal instrumento diretamente ao citado órgão. O particular deverá apresentar a QPC no tribunal competente para julgar o seu caso em concreto, será este órgão que analisará a pertinência de eventual violação de direitos e garantias constitucionais no processo em que está contida.

Será este tribunal que avaliará as reais possibilidades desse questionamento prosperar ao ponto de ascender até o Conselho Constitucional e lá ser alvo de controle de constitucionalidade.

Em seu artigo 23-2 a lei orgânica 2009-1523158 estabelece critérios materiais a serem respeitados para que uma QPC possa prosperar até o Conselho Constitucional. Tais critérios visam em um primeiro momento impedir a banalização do instituto, sendo usado de forma indiscriminada. Bem por isso a filtragem inicial é deflagrada nos tribunais de primeira instância, vencida essa etapa passa-se a análise realizada pelo Conselho de Estado ou pela Corte de Cassação, para só

157 ROUSSEAU, Dominique. BONNET, Julien. L’essenciel de la QPC. Mode d’emploi de la Question Prioritaire de Constitutionnalité. 2ª ed. Paris: Gualino, 2012, p. 52.

158 Disponível em:

https://www.legifrance.gouv.fr/affichTexte.do?cidTexte=JORFTEXT000021446446&categorieLien=id

assim poder chegar à apreciação do Conselho Consitucional. Esse procedimento faz com que o magistrado se comprometa com a disposição contestada, verificando se realmente ela “é aplicável ao litígio ou constitui o fundamento de uma ação judicial”159.

Uma vez vencidas todas estas etapas de filtragem a QPC chegará ao Conselho Constitucional que não mais análisa os requisitos formais e poderá se debruçar exclusivamente sobre a questão suscitada, aplicando um controle de constitucionalidade.

Já em sua primeira decisão sobre uma QPC o Conselho Constitucional se preocupou em esclarecer que não caberia a ele a competência de reanalisar decisões emanadas do Conselho de Estado ou da Corte de Cassação no que se refere à aplicação ou não ao litígio160.

Quis o Cosnselho Constituional estabelecer bases sólidas no sentido de evitar eventuais proposituras de recursos contra eventuais insatisfações quando de decisões denegatórias oriundas dos tribunais supremos destinados à filtragem de uma QPC.

No caso de o particular não respeitar o devido tramite a ser transposto para a propositura de uma QPC e o fizer diretamente ao Conselho Constitucional, este de pronto, negará provimento ao instrumento queixoso161.

Não ocorrendo nenhuma alteração de circunstâncias, assim como determina o artigo 23-2 da lei orgânica nº 2009-1523, outro requisito a ser respeitado para o conhecimento de uma QPC possui fina simetria com a relação da autoridade conferida às decisões emanadas do Conselho Constitucional. Sendo assim, no caso do questionamento acerca da constitucionalidade de determinada disposição legislativa, sendo está considerada válida (ou constitucional) pelo Conselho Constitucional, a mesma não mais poderá ser alvo de questionamentos por uma nova QPC162. Certamente isso não atinge a todo o texto legal, pois por via de regra,

159 ROUSSEAU, Dominique. BONNET, Julien. L’essenciel de la QPC. Mode d’emploi de la Question Prioritaire de Constitutionnalité. 2ª ed. Paris: Gualino, 2012, p. 60.

160 Disponível em:

http://www.conseil-constitutionnel.fr/conseil-constitutionnel/francais/les-decisions/acces-par-date/decisions-depuis-1959/2010/2010-1-qpc/decision-n-2010-1-qpc-du-28-mai-2010.48290.html

161 Disponível em:

http://www.conseil-constitutionnel.fr/conseil-constitutionnel/francais/les- decisions/acces-par-date/decisions-depuis-1959/2010/2010-69-qpc/decision-n-2010-69-qpc-du-26-novembre-2010.50772.html

162 ROUSSEAU, Dominique. BONNET, Julien. L’essenciel de la QPC. Mode d’emploi de la Question Prioritaire de Constitutionnalité. 2ª ed. Paris: Gualino, 2012, p. 61.

a QPC ataca um dispositivo da lei e não em sua totalidade. Mesmo porque seria um despropósito imaginar que um texto legal em vigor que foi submetido ao controle a priori, seja considerado inconstitucional em sua plenitude. Esse critério também possui a pretensão de evitar novos questionamentos por motivos que não tenham sido expressamente analisados pelo Conselho Constitucional163.

De acordo com o entendimento compartilhado por Rousseau e Bonnet, tendo o Conselho Constitucional a competência para controlar as leis que tratam do bloco de direitos e garantias constitucionais, a medida supracitada pode conferir um resguardo exagerado da norma em nome da segurança jurídica. E aqui cabe uma ressalva, a de que o Conselho Constitucional confere a outras disposições legislativas que não passaram por sua análise, o mesmo tratamento petrificado, desde que possuam textos idênticos com outra disposição já examinada164.

A lei orgânica de 2009-1523 guardou consigo a possibilidade de evitar um enrijecimento entre conformidade entre ela e a Constituição, algo que poderia facilmente ocorrer devido a evolução social e a necessidade de acompanhamento do direito, de forma mais lenta é verdade, mas ainda assim inovar-se em algum momento seria necessário. Sendo assim, a lei se preservou no sentido de ser aplicada no caso em concreto, buscando ser plenamente aplicável em todas as situações concretas, evitando com que ela mesma se tornasse inconstitucional no caso da própria Constituiçãos se inovar.

Finalmente o terceiro e útlimo critério material a ser respeitado para a propositura de uma QPC, diz respeito ao “caráter sério” do questionamento, assim o questionamento somente vencerá a análise inicial nos tribunais de primeira instância, desde que em sintonia com esse requisito. Desta forma, questionamentos declaramente sem propósitos, fantasiosos ou meramente dilatórios serão afastados pelos juízes oridinarios já na análise inicial165.

Todavia, em se tratando da competência do Conselho de Estado ou da Corte de Cassação o questionamento de uma disposição mediante uma QPC, este

163 Disponível em: http://www.conseil-constitutionnel.fr/conseil-constitutionnel/francais/les- decisions/acces-par-date/decisions-depuis-1959/2010/2010-9-qpc/decision-n-2010-9-qpc-du-2-juillet-2010.48570.html

164 ROUSSEAU, Dominique. BONNET, Julien. L’essenciel de la QPC. Mode d’emploi de la Question Prioritaire de Constitutionnalité. 2ª ed. Paris: Gualino, 2012, pp. 61-62.

165 ROUSSEAU, Dominique. BONNET, Julien. L’essenciel de la QPC. Mode d’emploi de la Question Prioritaire de Constitutionnalité. 2ª ed. Paris: Gualino, 2012, p. 67.

somente vencerá o processo de filtragem dos órgãos citados se de maneira alternada o questionamento for “novo ou apresentar caráter sério”166.

As cortes supremas possuem esse processo de filtragem mais restrito, pois uma vez que a QPC vença esta “barreira” alcançará o Conselho Constitucional que será obrigado a analisa-la. Sendo assim, há que se tomar certa precaução para que não haja uma vulgarização do instituto e questionamentos sem fundamentos ascendam ao Conselho Constitucional.

A lei regulamentadora da QPC possibilitou aos magistrados fazerem uso de certa liberdade de interpretação no que se refere ao “caráter sério” do questionamento. Desta forma, por conter certa dose de subjetividade e indeterminação, criou-se o temor que esse critério poderia ser usado de forma indiscriminada para que evitasse que os questionamentos pudessem alcançar o Conselho Constitucional167.

No tocante ao “caráter novo” do questionamento, que somente pode ser avaliado pela Corte de Cassação ou pelo Conselho de Estado, entende o Conselho Constitucional que ele refere-se não a disposição alvo da eventual inconstitucionalidade, mas sim o apontamento constitucional no qual o particular se agarra para edificar sua eventual lesão. Foi com tal entendimento que o Conselho Constitucional resolveu a questão na decisão proferida em 03 de dezembro de 2009168.

Em suma o caráter novo de uma QPC somente se mostrará robusto o suficiente para transpor todo o procedimento de filtragem se tratar-se de um apontamento de inconstitucionalidade inédito ou que trate de alguma revisão da Constituição, em ambos os casos exige-se que o Conselho Constitucional não tenha manifestado sua interpretação. Caberá aos magistrados da Corte de Cassação ou do Conselho de Estado, a pesquisa jurisprudencial do Conselho de Constitucional para atestarem que a QPC em análise, de fato, trata de algo inédito.

166 ROUSSEAU, Dominique. BONNET, Julien. L’essenciel de la QPC. Mode d’emploi de la Question Prioritaire de Constitutionnalité. 2ª ed. Paris: Gualino, 2012, p. 67.

167 ROUSSEAU, Dominique. BONNET, Julien. L’essenciel de la QPC. Mode d’emploi de la Question Prioritaire de Constitutionnalité. 2ª ed. Paris: Gualino, 2012, p. 67.

168 Disponível em: http://www.conseil-constitutionnel.fr/conseil-constitutionnel/francais/les- decisions/acces-par-date/decisions-depuis-1959/2009/2009-594-dc/decision-n-2009-594-dc-du-3-decembre-2009.46676.html. Decisão na integra disponível nos anexos desta composição.