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O Complexo de Édipo e o olhar semiológico

No documento CURSO DE PSICANÁLISE TEORIA PSICANALÍTICA (páginas 58-61)

Na teoria psicanalítica, a figura do pai, enquanto função constitui uma de suas pedras angulares. O Complexo de Édipo cumpre um papel primordial na estruturação do sujeito e na configuração do desejo. A castração é o signo do drama do Édipo. Com a

Alegria Expresso

Tristeza Não Expresso

descrição do mito, Freud propicia uma moldura discursiva que nos permite ampliar a escuta psicanalítica, bem como, das práticas politico-sociais. Algo de fundamental se presentifica no mito do Édipo. Para além da escuta, Freud ao toma-lo como referencial modifica a compreensão dos fenômenos, desvela a maneira como a lei se inscreve em sua dimensão psicanalítica ou jurídico-politica. O pai é colocado como aquele que interdita a mãe, e é nesse exato ponto que a sua figura encontra-se vinculada à lei primordial da proibição do incesto.

Freud sugere que o mito do “Édipo Rei” é um processo que pode ser comparado ao trabalho de análise, supondo que este é o caminho da constituição da doença psíquica. No período do desenvolvimento do Complexo de Édipo, a criança se encontra numa situação de dependência vital de um sistema de interação triádico. Este é contraditório e constantemente instável, fazendo identificações polarizadas simultâneas, complementares e excludentes da parte de cada um de seus pais. A criança precisa se definir em duas opções parentais restritas e excludentes: definir-se como “papai” (ou substitutos), ou se definir como “mamãe” (ou substitutas). A criança tem de elaborar álibis que lhe assegurem uma definição de sua identidade menos punida e mais louvável pelos pais, pois não pode se retirar do “campo edipiano”, visto que sua vida depende da permanência nele. Ela precisa então se adaptar à interdição edipiana factual, bem como à interdição convencional de se dizer semelhante ao genitor do sexo oposto. A criança não deve agir plenamente como o genitor do mesmo sexo, mas deve se dizer semelhante a este. Ela acha por outro lado que cada um dos pais faz exatamente ao contrario do que diz e faz (no sentido ativo e passivo), e que ele exige simultaneamente de seu parceiro que este faça e diga o contrário do que ele “faz” e “diz que faz”. Quando a criança age separadamente com cada genitor pode se tornar complementar a esse genitor e fazer o que ele “diz que faz”. Os espelhos semântico, narcísico e edipiano invertidos só lhe bastam para resolver interações diádicas imediatas.

As contradições são resolvidas pela criação de outro nível de contradições, onde a criança dispõe de: código informativo convencional congruente com o que ela diz é congruente com o que faz; código sexual convencional, segundo o qual ela diz e faz (masculinidade ou feminilidade) como o genitor do mesmo sexo; código informativo narcísico, que é uma transgressão do primeiro, por meio de uma inversão sistemática verbal do que ela fez; código sexual edipiano, que é uma transgressão do segundo, por meio do qual esta denota sua semelhança com o genitor do mesmo sexo, mas denota e conota com o genitor do sexo oposto.

Cs Cs

Paciente MASCULINO MASCULINO\FEMININO

Depositário

A aplicação destes conceitos – psicanalíticos, linguísticos, paradoxos e semiológicos – ao complexo de Édipo, permitiu aos autores postularem que “os pacientes tendem a assumir factualmente, em suas relações objetais, o papel do genitor do sexo oposto”, enquanto que induzem também “factualmente no parceiro com o qual estão em interação (inclusive o analista) o papel de genitor do mesmo sexo”.

“Levantamos então a suposição de que se tratava de uma espécie de ‘formação de compromisso’ edipiana, por meio da qual o ego tenta resolver o mandado paradoxal do superego, que lhe diz ao mesmo tempo: ‘você deve ser assim – como o pai –‘ (senão você

Ics Ics

Cs Cs

Ego Superego

Ego Superego

IDENTIFICAÇÃO Genitor mesmo sexo

D I Z

ATUAÇÃO Genitor sexo

oposto F A Z Paciente

FEMININO

Depositário

é um castrado) e: ‘você não deve ser assim – como seu pai –‘ (senão eu o castro), ‘pois você não deve fazer tudo o que ele faz, há alguma coisa que está reservada exclusivamente para ele’ (a relação dele com sua mãe). Sugerimos que, diante desse dilema, o sujeito “é” genitalmente como o genitor do mesmo sexo, isto é, heterossexual (e não se trata de um castrado), mas “faz” ao mesmo tempo como o genitor de sexo oposto, no sentido de que adota a personalidade e a posição habitual deste na interação (e ele não é castrado porque não faz tudo o que faz o genitor do mesmo sexo).”

Mais ainda, considerando a posição freudiana de papéis ‘ativos’ e ‘passivos’ e as possíveis evoluções do complexo de Édipo: direto e inverso, os autores apresentam a seguinte afirmação: “a identificação com o genitor do mesmo sexo e a busca de um objeto que oferece características similares às do genitor do sexo oposto corresponderia à eleição

‘ativa’ de objetos que resulta do complexo de Édipo direto, ao passo que a eleição ‘passiva’

de objetos que resulta do complexo de Édipo invertido (isto é, um homem escolheria uma mulher com características não-genitais mais ‘semelhantes’ às de seu pai do que às de sua mãe, sem para isso escolher um homem como parceiro, assim pois o homem – sem deixar de ser homem – isto é, igual a seu pai no genital -, não é como seu pai no não-genital, pois não possui uma mulher como sua mãe, ao mesmo tempo em que elabora, por identificação, a dor de ter perdido genitalmente sua mãe proibida.”

Exemplos clínicos:

a) Paciente Feminina - atua em suas relações objetais o papel desempenhado pelo pai e ao mesmo tempo induz o objeto de interação – como o analista – no papel desempenhado pela mãe. Em outras palavras, frente a nossa paciente, vemos o atuar paterno e em nossa contratransferência indícios do atuar materno.

b) Paciente Masculino - atua em suas relações objetais o papel desempenhado pela mãe e ao mesmo tempo induz o objeto de interação – como o analista – no papel desempenhado pelo pai. Similarmente, frente ao nosso paciente, vemos o atuar materno e em nossa contra transferência indícios do atuar paterno.

No documento CURSO DE PSICANÁLISE TEORIA PSICANALÍTICA (páginas 58-61)