3. A CONVENCIONALIZAÇÃO DO ORDENAMENTO JURÍDICO ESTATAL
3.4 O CONTROLE DE CONVENCIONALIDADE INTERAMERICANO
desenvolvimento do Controle de Convencionalidade em âmbito regional americano, este tópico tratará acerca do Controle exercido através de órgãos do SIPDH.
Não menos importante, cabe lembrar que é a este Sistema regional que o Brasil pertence e pactua cotidianamente diversos tratados e outros instrumentos de ordem internacional, sendo de larga relevância o recorte do Controle de Convencionalidade exercido através do SIPDH para correta aferição de compatibilidade do ordenamento doméstico brasileiro.
3.4.1 Parâmetros Gerais
Conforme abordado acima, o Controle de Convencionalidade consiste em uma garantia de cumprimento das obrigações internacionais do Estado e dos efeitos jurídicos derivados dos compromissos internacionais no ordenamento interno.302
O Controle de Convencionalidade pode ser realizado por um órgão internacional, responsável pelo monitoramento e acompanhamento de algum (ou alguns) tratados de Direitos Humanos, o que será trabalhado neste tópico, ou ainda de modo doméstico, que será abordado no próximo tópico.
No âmbito regional, para monitorar o cumprimento dos compromissos assumidos em sede da Convenção Americana, de 1969, a OEA criou a Corte IDH, responsável pelo efetivo controle de convencionalidade regional.
Assim, Corte Interamericana realiza o Controle de convencionalidade internacional, fruto da ação do intérprete autêntico – realizada pelos órgãos internacionais.303
Neste sentido, percebe-se que a competência da Corte Interamericana de Direitos Humanos para o exercício do Controle de Convencionalidade decorre da subordinação dos países à Convenção Americana de Direitos Humanos, bem como do reconhecimento de que a Corte IDH é o órgão central para realização da aferição de
302 AGUILAR CAVALLO, Gonzalo. ¿Quién es el guardián de la Convención Americana sobre
Derechos Humanos? In.: BOGDANDY, Armin von; MORALES ANTONIAZZI, Mariela; PIOVESAN,
Flávia. Direitos humanos, democracia e integração jurídica: emergência de um novo direito público. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013, p. 739.
303 CARVALHO RAMOS, André de. Teoria Geral dos Direitos Humanos na Ordem Internacional. 2
compatibilidade entre normas internas dos países e as normas oriundas do Sistema Interamericano de Direitos Humanos.
Naturalmente, este reconhecimento se estrutura a partir de disposições da CADH, que tratou de definir instrumentos para resolução de conflitos envolvendo violação de Direitos Humanos e atribuir as competências da Corte IDH (art. 62), faculdades da Corte IDH (art. 63) e interpretações e consulta à Corte IDH (art. 64). Ou seja, a CADH coloca a Corte IDH em primordial posição para realizar um efetivo controle de adequação dos Estados-parte aos direitos e garantias assegurados pela Convenção Americana.
Esta modalidade de Controle de Convencionalidade Internacional, é desenvolvida pela Corte IDH desde sua efetiva implantação, embora tenha passado a utilizar a expressão “controle de convencionalidade” recentemente.304
A Corte Interamericana de Direitos Humanos pode exercer dito controle através de consultas, que resultam na expedição de opiniões consultivas, preventivamente, ou do julgamento de casos específicos, onde já existe um litígio.
Cabe destacar que é através deste controle que a Corte Interamericana de Direitos Humanos fixa os principais parâmetros e estándares de interpretação e aplicação das normas, princípios e valores provenientes do Sistema Interamericano de Direitos Humanos.305
Não menos importante, através do controle exercido pela Corte IDH, são gerados diversos precedentes que vinculam os Estados partes, configurando, assim, uma fonte permanente do Controle de Convencionalidade a ser observado pelos países.306
3.4.2 Espécies
A Corte Interamericana de Direitos Humanos realiza uma espécie de Controle Concentrado de Convencionalidade, que é exercido inicialmente por ela e serve para uma apreciação concreta de uma norma doméstica à luz da CADH, seus protocolos adicionais, bem como à sua jurisprudência.
304 BAZÁN, Víctor. Control de Convencionalidad, puentes jurisdiccionales dialógicas y protección
de los derechos humanos. In.: BOGDANDY, Armin von; MORALES ANTONIAZZI, Mariela;
PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos, democracia e integração jurídica: emergência de um novo direito público. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013, p. 594.
305 SANTOFIMIO GAMBOA, Jaime Orlando. El Concepto de Convencionalidad: vicissitudes para su
constucción sustancial en el sistema interamericano de derechos humanos: ideas fuerza receptoras.
Bogotá: Universidad Externado de Colombia, 2017. p. 465.
Neste caso, considerando o caráter concentrado da sindicância de compatibilidade da norma doméstica, os efeitos produzidos pela decisão terão caráter
erga omnes, repercutindo para todas as pessoas sujeitas ao ordenamento jurídico em
questão.
De outro modo, a Corte IDH também pode realizar o Controle de Convencionalidade abstrato, quando da expedição de Opiniões Consultivas, fruto de consultas prévias realizadas pelos Estados parte.
Por derradeiro, importa consignar que, embora o recorte deste estudo tenha elegido os parâmetros do Controle de Convencionalidade da Corte Interamericana de Direitos Humanos, pode-se dizer que o Controle de Convencionalidade também pode ocorrer de modo internacional, quando exercido pelos órgãos globais, o que representa uma atividade de fiscalização dos atos e condutas dos Estados em confronto com seus compromissos internacionais.307
Dita espécie faz referência ao controle que pode, e é, efetuado pelos organismos internacionais que foram criados para acompanhamento e monitoramento do cumprimento dos tratados firmados internacionalmente, fruto da ação do intérprete autêntico.308
Assim, pode-se considerar Controle de Convencionalidade Internacional, o controle efetuado pela Conselho de Direitos Humanos da ONU, em nível global, e o controle efetuado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, em nível regional.
A principal característica desta espécie é que acontece sempre através de um órgão designado para monitoramento e controle da efetivação de determinado instrumento internacional que verse sobre Direitos Humanos, conforme visto.
No âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU), por exemplo, foram criados órgãos de fiscalização, os denominados “treaty bodies”, comitês que monitorariam a implementação dos principais tratados que tenham como objeto Direitos Humanos, sendo que o Conselho de Direitos Humanos da ONU é o órgão atualmente responsável pela investigação de países que estejam desrespeitando os direitos básicos da pessoa humana, por que não dizer, desrespeitando a Declaração Universal dos Direitos do Humanos (1948).309
307 CARVALHO RAMOS, André de. Teoria Geral dos Direitos Humanos na Ordem Internacional. 2
ed. São Paulo: Saraiva, 2012, pg. 250.
308 Ibidem.
309 PORTAL NAÇÕES UNIDAS NO BRASIL. As Nações Unidas e os Direitos Humanos. Disponível
De modo semelhante, pode-se falar na Corte Internacional de Justiça (CIJ), que conforme já dito acima também promove o exercício do Controle de Convencionalidade.