CAPÍTULO III – AS RELAÇÕES INSTITUCIONAIS ENTRE OS PODERES E O
I. PRESIDENCIALISMO DE COALIZÃO
3. O desafio institucional posto na Constituinte de 1988
Assim, Abranches afirma que com essas características o presidencialismo de coalizão, em qualquer crise, é pró-cíclico: o surgimento de qualquer problema social que exige escolhas e imposição de perdas tende a provocar divergências entre os
213
Cf. Fabiano dos Santos, Op. Cit. 2003. Ao desenvolver análise do tema faz um paralelo sobre o sistema vigente sob a égide da Carta de 1946, fazendo a analogia pela a Carta de 1967 e a EC 1969 até chegar na análise da Carta de 1988. Alerta que a análise deve ser feita no decorrer do tempo, pois vários fatores que hoje integram o conceito de presidencialismo de coalizão decorrem das situações históricas do passado e do seu desenrolar.
membros de uma coalizão, que arrastam o próprio Presidente, deixando frágeis e divididos os atores de decisão exatamente no momento em que necessitam de maior força política para enfrentar a crise. Nesse sentido, a ruptura da coalizão no Executivo, ou a incapacidade de formá-la, prenuncia quase automaticamente um conflito entre poderes, ou seja, as forças que deixaram a coalizão vão ter preponderância no Parlamento.
Em outras palavras, segundo Abranches, com a coexistência das características institucionais que move o universo político nacional,
o Brasil é o único país que, além de combinar a proporcionalidade, o multipartidarismo e o presidencialismo imperial, organiza o Executivo com base em grandes coalizões. A esse traço peculiar da institucionalidade concreta brasileira chamarei, à falta de melhor nome, presidencialismo de coalizão.214
À evidência do dilema posto, o autor sugere
uma instância, com força constitucional, que possa intervir nos momentos de tensão entre o Executivo e o Legislativo, definindo parâmetros políticos para resolução dos impasses e impedindo que as contrariedades políticas de conjuntura levem à ruptura do regime. Por outro lado, este instrumento de regulação e equilíbrio do regime constitucional serve no presidencialismo de coalizão, para reduzir a dependência das instituições ao destino da presidência e evitar que esta se torne o ponto de convergência de todas as tensões, envolvendo diretamente a autoridade presidencial em todos os conflitos e ameaçando desestabilizá-la em caso de insucesso.215
Nessa medida, o enfoque atribuído ao denominado presidencialismo de coalizão, acarretou em argumentos dos diferentes autores,216
gerando controvérsias, sendo, estas, foco de vários estudos217
.
214
Cf. Sergio Abranches, 1988. Op. Cit. p. 19. 215
Cf. Sergio Abranches, 1988. Op. Cit. p. 31.
216
Argelina Cheibub Figueiredo. Instituições e Política no Controle do Executivo. In: Revista de Ciências sociais. vol. 44, n. 4. Rio de Janeiro: Dados, 2001. pp. 689 – 727
Argelina Cheibub Figueiredo. Formação, funcionamento e desempenho das coalizões de governo no Brasil. Trabalho apresentado no 5º encontro da ABCP, 26 a 29 de julho. Belo Horizonte, 2006.
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Para nós, após a leitura da maioria das obras citadas, uma se destacou pela forma esquemática e atual como expôs as três grandes vertentes sobre o pensamento dessas correntes doutrinárias, no tocante ao conceito e aspectos do presidencialismo de coalizão.
O texto intitulado Relações Executivo-Legislativo no Presidencialismo de Coalizão: Um quadro de referência de Orçamento e Controle, de autoria de Fernando Moutinho Ramalho Bittencourt, traz de forma clara o que ocorreu desde o lançamento da obra de Abranches até 2012, e os desdobramentos sobre o presidencialismo de coalizão.
O trabalho visa colocar todas as vertentes, motivo pelo qual, adotamos o referido texto como ponto de partida para explicitá-las. Cabe ressaltar que mesmo que estudiosos citados por este autor tenham sido alvo de análise por nossa parte, faremos a remissão, conforme o próprio Bittencourt, para que a fidelidade da lógica do texto, inclusive no tocante às inserções de referências bibliográficas fiquem em conformidade com o estudo supra citado.
No que diz respeito às obras citadas como referência nesse ponto do nosso estudo, a evidência de que em sua maioria os estudiosos partem da análise de dados concretos através do dimensionamento de números de proposituras apresentadas por cada poder, das emendas oferecidas pelo Legislativo em propostas do Executivo, verificação da atuação das forças partidárias internas, atuando em grupos, dentro do sistema como um todo, além do sucesso da agenda de governo. Entretanto, para o presente estudo, esses números não serão citados, apenas as conclusões a que eles resultaram na conclusão dos enfoques dados.
Scott Mainwaring. Presidentialism, Multipartism, and Democracy: The Difficult Combination. Comparative Political Studies, v. 26, n. 2.1993.
217
Julio César Silva. Organização legislativa e formação de coalizões em regimes presidencialistas: elucidações sobre a teoria do presidencialismo de coalizões. Dissertação de Mestrado em Ciência Politica. Recife: UFPE, 2007.
Maria Priscila Lapa. O papel do legislativo no processo orçamentário: explicações, modelos e teorias na ciência política brasileira. Dissertação de Mestrado em Ciência Política. Recife: UFPE, 2007. Manoel Leonardo Santos. As teorias positivas de organização legislativa e as explicações sobre o Congresso Nacional. Dissertação de Mestrado em Ciência Política. Recife: UFPE, 2006
Aprofundando agora sobre o tema presidencialismo de coalizão, um importante destaque que Bittencourt218
traz, quanto ao estudo desenvolvido por Abranches, é que este levantou um ponto extremamente sensível e que diz respeito ao momento em que a América Latina e os movimentos de democratizações questionavam o sistema presidencialista como mecanismo institucional sob os pontos de vista: crises de governos, legitimidade, sistemas e coalizões eleitorais, mandatos com prazos fixos, questões plebiscitárias.219
De fato, Bittencourt, sublinha que, aliado ao processo de democratização, na década de 1990, crises institucionais envolvendo conflitos Executivo-Legislativo sem possibilidade de conciliação ordenada, com renúncias,
autogolpes e impeachments presidenciais, teve repercussão de que o regime presidencialista era um mecanismo institucional inadequado para qualquer nova democracia, isto porque tal sistema se mostrava com escassa flexibilidade para regular distintas alternativas do processo político e uma notável incapacidade de evitar crises de governo se transformar em crises de regime político.220
Essa conclusão permanece durante um tempo como verdade aparente, pois haviam poucos dados comparados sobre democracias presidencialistas recentes, motivo pelo qual, só depois de decorrido um bom período é que surge uma nova visão, relativizando a posição anterior, pois ficou claro que a queda incessante de presidentes eleitos e a frequência constante das crises presidenciais “fortaleceram a percepção de que os regimes presidenciais tendem à instabilidade por sua própria
218
Cf. Fernando Moutinho Ramalho Bittencourt. Relações Executivo e Legislativo no presidencialismo de coalizão: Um Quadro de Referência para Estudos de Orçamento e Controle.Textos para discussão. Abril. Núcleo de Estudos e Pesquisas do Senado. Brasília: Senado Federal, 2012. pp.1 - 47
219
Cf. Fernando Moutinho Ramalho Bittencourt, 2012, Op. Cit. p. 9. 220
Cf. Fernando Moutinho Ramalho Bittencourt, 21012. p. 10. O autor traz a contribuição do estudo de Arturo Velenzuela & Juan Linz. (Eds.). The Failure of Presidential Democracy. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1997 p. 35, apud Chasquetti, 2008, p. 20, explicando que em termos cronológicos, a edição de 1997 é a tradução espanhola; a primeira edição sistematizada é de 1994 em inglês, mas o começo da circulação dos artigos de Linz com o essencial dessas ideias é identificado por Chasquetti em 1987). E ressalta que consta uma extensa lista de trabalhos nessa mesma linha de conclusões. Daniel Chasquetti . Democracia, presidencialismo y partidos políticos em América Latina: evaluando la ‘dificil combinación’. Montevideo: Universidade de República, 2008. p. 20.Para uma discussão crítica desse modelo conceitual, Scott Mainwaring. Presidentialism, Multipartism, and Democracy: The Difficult Combination. Comparative Political Studies, v. 26, n. 2., 1993.
natureza e de que a maioria dessas crises poderiam ter sido resolvidas de maneira menos traumática sob um regime parlamentar.”221