• Nenhum resultado encontrado

4 O INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS REPETITIVAS 83 

4.1   A influência do direito estrangeiro 88 

4.1.2 O group litigation order do direito inglês 94 

Inicialmente presente no direito consuetudinário por iniciativa dos órgãos jurisdicionais e posteriormente, em 2000, incluído na legislação inglesa – na qual passou a ser atualizado359 –, o group litigation order é o procedimento incidental mais comumente utilizado no direito inglês para apresentar solução a demandas complexas de característica repetitiva360.

356 MENDES, Aluísio Gonçalves de Castro. Ações coletivas e meios de resolução coletiva de conflitos no direito comparado e nacional cit., 126-127.

357 CAPONI, Remo. Modelo europeu de tutela coletiva no processo civil: comparação entre experiência alemã e italiana cit., p. 235-269.

358 MENDES, Aluísio Gonçalves de Castro. Ações coletivas e meios de resolução coletiva de conflitos no direito comparado e nacional cit., p. 127-128.

359 Idem, p. 52-62.

Nesse sentido, apresenta-se como um incidente para a gestão conjunta de processos individuais, que tem como escopo a obtenção de decisão capaz de solucioná-los uniformemente361.

Como ensina Cabral:

Este formato revela unidade cognitiva (o mesmo órgão que aprecia a questão comum julga o processo originário) seguida da reprodução da tese definida no incidente (a ratio decidendi do julgamento da questão comum é replicada para todos os processos em que esta mesma questão esteja sendo objeto do debate), algo como um “julgamento por amostragem” da causa-piloto362.

Contudo, gestado sob a influência direta do case management inglês, o group litigation order é voltado à disponibilização de mecanismos ao juízo de primeiro grau que o permitam gerenciar conjuntamente diversas demandas individuais que contenham questões de fato ou de direito comuns ou relacionadas363.

A sua instauração, no entanto, pode ocorrer para lidar de forma efetiva ou preventiva com a multiplicação de processos e depende do preenchimento dos seguintes requisitos: a) existência de número mínimo de demandas, em regra, não inferior a dez364; b) identificação da controvérsia comum ou relacionada sobre questão de fato ou de direito; c) constatação de que a instauração do incidente não impedirá a concessão de tratamento justo às demandas individuais; d) obtenção de autorização do Lord Chief Justice ou do

Vice-Chancellor para a instauração do incidente; e) demonstração quanto à

inviabilidade da utilização de outros procedimentos para resolver as demandas

361 CABRAL, Antonio do Passo. A escolha da causa-piloto nos incidentes de resolução de processos repetitivos. Revista de Processo, São Paulo: RT, v. 39, n. 231, p. 201-224, maio 2014.

362 Idem, ibidem.

363 LEVY, Daniel de Andrade. O incidente de resolução de demandas repetitivas no anteprojeto do novo Código de Processo Civil: exame à luz do group litigation order britânico cit., p. 165-206.

364 Registre-se que o requisito constitui mais uma obrigação formal do que uma regra absoluta, que, caso descumprida, impediria a instauração do incidente, pelo que cabe esclarecer que a sua inobservância não constitui motivo para a imediata rejeição do incidente, cumprindo analisar se as demais circunstâncias do caso concreto não autorizariam a sua admissão.

complexas; f) identificação da classe a ser formada em razão do incidente, indicando o número de demandas e de partes que efetiva ou potencialmente poderão constituí-la365.

Para tanto, as partes e o juiz, de ofício, têm legitimidade para requerer a sua instauração366.

Caso a sua propositura seja requerida por uma das partes, deverá o pedido ser antecedido de prévia consulta ao Serviço de Informação sobre Ações Coletivas da Law Society367 e veiculado por meio de petição, em que deverá constar a forma como será estabelecido o registro das demandas que se juntarão ao group litigation order – no qual serão reunidas as ações individuais que sofrerão os efeitos da decisão proferida no incidente –, a designação das questões de fato ou de direito objeto da discussão e a identificação do órgão judicial (juiz-administrador)368.

Recebido o requerimento, é importante a atuação do juiz- administrador, que estabelecerá a forma de processamento do incidente, podendo precisar ou excluir pontos controvertidos, estabelecer grupos e subgrupos, selecionar uma ou várias test claims, indicar os advogados-líderes para representar o polo ativo ou passivo do incidente, fixar critérios de inclusão de novos demandantes nos respectivos grupos, estabelecer data-limite para a adesão de novos litigantes, determinar a forma de tratamento das ações individuais pertencentes àqueles que aderirem aos grupos (como a transferência das demandas ao juiz-administrador e a suspensão de

365 LEVY, Daniel de Andrade. O incidente de resolução de demandas repetitivas no anteprojeto do novo Código de Processo Civil: exame à luz do group litigation order britânico cit., p. 165-206.

366 Idem, ibidem, 165-206.

367 MENDES, Aluísio Gonçalves de Castro. Ações coletivas e meios de resolução coletiva de conflitos no direito comparado e nacional cit., p. 59.

368 LEVY, Daniel de Andrade. O incidente de resolução de demandas repetitivas no anteprojeto do novo Código de Processo Civil: exame à luz do group litigation order britânico cit., p. 165-206.

processos) e modular os efeitos da decisão a ser proferida no incidente, entre outras medidas369.

Após a apreciação do juiz-administrador, o requerimento seguirá para aprovação do Lord Chief Justice ou do Vice-Chancellor, conforme o caso370.

Autorizada a sua admissão, caberá ao requerente dar conhecimento e publicidade quanto à existência do group litigation order, o que ocorre usualmente mediante o registro do incidente na Law Society e no Senior

Master da Queen’s Bench Division of Royal Courts of Justice371.

Assim, na forma estabelecida pelo juiz-administrador, outros titulares de ações individuais poderão ingressar nos grupos, persistindo, entretanto, a concessão de amplos poderes ao julgador para a gestão do processo372.

Dito isso, poderá o juiz-administrador, no curso do processamento do incidente, alterar os critérios anteriormente estabelecidos para a condução do feito, bem como estabelecer outros que não tenham sido decididos anteriormente, como, por exemplo, definir regras sobre produção de determinada prova373.

Como se vê, o procedimento é centrado na atividade desenvolvida pelo juiz-administrador, sendo o seu sucesso atrelado à adequada seleção de casos que farão parte dos grupos374.

369 LEVY, Daniel de Andrade. O incidente de resolução de demandas repetitivas no anteprojeto do novo Código de Processo Civil: exame à luz do group litigation order britânico cit., p. 165-206.

370 CAVALCANTI, Marcos de Araújo. Mecanismos de resolução de demandas repetitivas no direito estrangeiro: um estudo sobre o procedimento-modelo alemão e as ordens de litígios em grupo inglesas cit., p. 333-377.

371 MENDES, Aluísio Gonçalves de Castro. Ações coletivas e meios de resolução coletiva de conflitos no direito comparado e nacional cit., p. 59.

372 Idem, p. 59-61.

373 LEVY, Daniel de Andrade. O incidente de resolução de demandas repetitivas no anteprojeto do novo Código de Processo Civil: exame à luz do group litigation order britânico cit., p. 165-206.

374 DANTAS, Bruno. Teoria dos recursos repetitivos: tutela pluri-individual nos recursos dirigidos ao STF e ao STJ (arts. 543-B e 543-C do CPC). São Paulo: RT, 2015. p. 96-97.

Dadas a proatividade do julgador e a definição de um advogado-líder para cada grupo, caberá aos titulares das ações individuais paralelas atuar conjuntamente para a resolução do litígio, inclusive repartindo as custas judiciais naquilo que se referir ao tratamento de questões comuns, planejando a forma de atuação do grupo com o advogado-líder e obtendo informações sobre o andamento do processo375.

Nada obstante, a regulamentação do group litigation order inglês permanece conservadora no que se refere ao alcance da decisão a ser proferida no incidente, vez que se limita a atingir os titulares das ações individuais que optem por se vincular aos respectivos grupos, o que não ocorre de forma automática, tornando necessária a prévia manifestação da parte interessada376.

Corrobora com a afirmação anterior a constatação de que poderá o titular de demanda paralela requisitar, em qualquer tempo, a sua exclusão do grupo, deixando de ser alcançado pela decisão a ser proferida no incidente377.

É dizer: a solução encontrada após a apreciação do mérito do group

litigation order atinge apenas aqueles que estejam inscritos no respectivo grupo

no momento em que a decisão for proferida, não ocorrendo a extensão subjetiva dos efeitos àqueles que não participaram do incidente, salvo determinação em contrário do juiz-administrador.

Desse modo, somente estão legitimados a interpor recursos aqueles que foram atingidos pela decisão, vedado aos demais que pleiteiem a suspensão, a modificação ou a reforma do julgado378.

375 LEVY, Daniel de Andrade. O incidente de resolução de demandas repetitivas no anteprojeto do novo Código de Processo Civil: exame à luz do group litigation order britânico cit., p. 165-206.

376 CAVALCANTI, Marcos de Araújo. Mecanismos de resolução de demandas repetitivas no direito estrangeiro: um estudo sobre o procedimento-modelo alemão e as ordens de litígios em grupo inglesas cit., p. 333-377.

Por fim, a decisão estabelecida em definitivo no incidente encerrará a demanda pluri-individual e apenas será estendida aos titulares das demandas paralelas naquilo que se refere às questões comuns encontradas em cada um dos processos individuais, cumprindo a análise das particularidades concernentes a cada ação individual, em momento posterior, ao juízo de origem379.

Note-se que, apesar da unidade cognitiva formada por meio da decisão proferida sobre a questão comum no group litigation order, a sua aplicação perante as demandas paralelas não ocorre de forma automática, dependendo da verificação e demonstração da identidade entre elas380.