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O impeachment da Presidente afastada Dilma Roussef

4 JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL E DEMOCRACIA

4.3 O impeachment da Presidente afastada Dilma Roussef

No dia 17 de dezembro de 2015 o STF definiu o procedimento, em seus detalhes, a serem seguidos pelas duas casas do Congresso Nacional sobre o pedido de impedimento, por crimes de responsabilidade, da Presidente, à época ainda não afastada, Dilma Roussef.23

22 É o que se extrai de inúmeros discursos oficiais proferidos pelos ministros do STF. Apenas alguns, à guisa de exemplo: “Quando se registram omissões inconstitucionais do Estado, sempre tão ilegítimas quão profundamente lesivas a direitos e liberdades fundamentais das pessoas, das instituições e da própria coletividade, torna-se justificável a intervenção do Judiciário, notadamente a desta Corte Suprema, para suprir incompreensíveis situações de inércia reveladas pelas instâncias de poder em que se pluraliza o aparelho estatal brasileiro. Nem se alegue, em tal situação, a ocorrência de ativismo judicial por parte do Supremo Tribunal Federal, especialmente porque, dentre as inúmeras causas que justificam esse comportamento afirmativo do Poder Judiciário, de que resulta uma positiva construção jurisprudencial ensejadora da possibilidade de exercício de direitos proclamados pela própria Carta Política, inclui-se a necessidade de fazer prevalecer a primazia da Constituição da República, muitas vezes vulnerada e desrespeitada por inadmissível omissão dos poderes públicos.” (Discurso Proferido pelo Ministro Celso De Mello, em Nome Do Supremo Tribunal Federal, na Solenidade de Posse do Ministro Carlos Ayres Britto Na Presidência da Suprema Corte do Brasil, Em 19/04/2012, disponibilizado em <http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/discursoCM.pdf.>, acesso em 20 de junho de 2016. De modo análogo no discurso de posse do ministro Ricardo Lewandowski na Presidência do STF, no dia 10 de setembro de 2014 disponibilizado em: < http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/discursoMinistroRL.pdf.>, acesso em 20 de junho de 2016: “A partir dessa nova postura [o ativismo], o Judiciário começou a intervir em questões que antes estavam reservadas exclusivamente aos demais Poderes, participando, de maneira mais ativa, da formulação de políticas públicas, especialmente nas áreas da saúde, do meio ambiente, do consumo, da proteção de idosos, crianças, adolescentes e pessoas com deficiência. O Supremo Tribunal Federal, de modo particular, passou a interferir em situações limítrofes, nas quais nem o Legislativo, nem o Executivo, lograram alcançar os necessários consensos para resolvê-las. A Suprema Corte, não raro provocada pelos próprios agentes políticos, começou decidir questões controvertidas ou de difícil solução, a exemplo da fidelidade partidária, do financiamento de campanhas eleitorais, da greve dos servidores públicos, da pesquisa com células-tronco embrionárias humanas, da demarcação de terras indígenas, dos direitos decorrentes das relações homoafetivas, das cotas raciais nas universidades e do aborto de fetos anencéfalos”. Mais radical ainda, os discursos e palestras do ministro Luís Roberto Barroso (2011, p. 225).

23 Acórdão publicado apenas no dia 8 de março de 2016, quando foi disponibilizado no sítio eletrônico do STF (<http://stf.jus.br/portal/processo/verProcessoAndamento.asp?incidente=4899156>), e conforme o DJE 08/03/2016 - ATA Nº 25/2016. DJE nº 43, divulgado em 07/03/2016.

Foi na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 378, em que ocorreu um fenômeno de mutação constitucional, em sua comparação com o definido anteriormente pelo STF na série de ações que em seu conjunto ficaram conhecidas como “caso Collor”. Mutação porque ficou estabelecido que o afastamento somente se daria após a confirmação do Senado Federal, por maioria simples, da deliberação tomada pela Câmara dos Deputados, por maioria qualificada24.

Transcreve-se a ementa do julgado, tão somente nas partes que interessam à investigação desta tese:

DIREITO CONSTITUCIONAL. MEDIDA CAUTELAR EM AÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE PRECEITO FUNDAMENTAL. PROCESSO DE IMPEACHMENT. DEFINIÇÃO DA LEGITIMIDADE CONSTITUCIONAL DO RITO PREVISTO NA LEI Nº 1.079/1950. ADOÇÃO, COMO LINHA GERAL, DAS MESMAS REGRAS SEGUIDAS EM 1992. (sic).25 [...].

1. A presente ação tem por objeto central analisar a compatibilidade do rito de impeachment de Presidente da República previsto na Lei nº 1.079/1950 com a Constituição de 1988. [...]

II. MÉRITO: DELIBERAÇÕES POR MAIORIA 1. PAPÉIS DA CÂMARA DOS DEPUTADOS E DO SENADO FEDERAL NO PROCESSO DE IMPEACHMENT (ITENS C, G, H E I DO PEDIDO CAUTELAR): 1.1. Apresentada denúncia contra o Presidente da República por crime de responsabilidade, compete à Câmara dos Deputados autorizar a instauração de processo (art. 51, I, da CF/1988). A Câmara exerce, assim, um juízo eminentemente político sobre os fatos narrados, que constitui condição para o prosseguimento da denúncia. Ao Senado compete, privativamente, processar e julgar o Presidente (art. 52, I), locução que abrange a realização de um juízo inicial de instauração ou não do processo, isto é, de recebimento ou não da denúncia autorizada pela Câmara. 1.2. Há três ordens de argumentos que justificam esse entendimento. Em primeiro lugar, esta é a única interpretação possível à luz da Constituição de 1988, por qualquer enfoque que se dê: literal, histórico, lógico ou sistemático. Em segundo lugar, é a interpretação que foi adotada pelo Supremo Tribunal Federal em 1992, quando atuou no impeachment do então Presidente Fernando Collor de Mello, de modo que a segurança jurídica reforça a sua reiteração pela Corte na presente ADPF. E, em terceiro e último lugar, trata- se de entendimento que, mesmo não tendo sido proferido pelo STF com força vinculante e erga omnes, foi, em alguma medida,

24 CF/88, arts. 51, I c/c 52, I e art. 86 e parágrafos.

25 Isto é mentira. Como o próprio ministro Roberto Barroso retrata numa parte de seu voto, o precedente do caso Collor foi tomado não com base nos fundamentos da decisão, mas sim em obiter dictum (deve-se deixar claro que o ministro escreveu, no entanto, “obter dictum”... sem saber se essa escrita foi falta de conhecimento ou ...). Isto significa dizer que o Ministro, além de outros, ao terem afirmado que o precedente do impeachment da ADPF 378 seria exatamente igual ao os do processo Collor.... data maxima venia, ... tal assertiva é mentirosa.

incorporado à ordem jurídica brasileira26. Dessa forma, modificá-lo, estando em curso denúncia contra a Presidente da República, representaria uma violação ainda mais grave à segurança jurídica, que afetaria a própria exigência democrática de definição prévia das regras do jogo político. 1.3. Partindo das premissas acima, depreende-se que não foram recepcionados pela CF/1988 os arts. 23, §§ 1º, 4º e 5º; 80, 1ª parte (que define a Câmara dos Deputados como tribunal de pronúncia); e 81, todos da Lei nº 1.079/1950, porque incompatíveis com os arts. 51, I; 52, I; e 86, § 1º, II, todos da CF/1988. 2. RITO DO IMPEACHMENT NA CÂMARA (ITEM C DO PEDIDO CAUTELAR): 2.1. O rito do impeachment perante a Câmara, previsto na Lei nº 1.079/1950, partia do pressuposto de que a tal Casa caberia, nos termos da CF/1946, pronunciar-se sobre o mérito da acusação. Em razão disso, estabeleciam-se duas deliberações pelo Plenário da Câmara: a primeira quanto à admissibilidade da denúncia e a segunda quanto à sua procedência ou não. Havia, entre elas, exigência de dilação probatória. 2.2. Essa sistemática foi, em parte, revogada pela Constituição de 1988, que, conforme indicado acima, alterou o papel institucional da Câmara no impeachment do Presidente da República. Conforme indicado pelo STF e efetivamente seguido no caso Collor, o Plenário da Câmara deve deliberar uma única vez, por maioria qualificada de seus integrantes, sem necessitar, porém, desincumbir-se de grande ônus probatório. Afinal, compete a esta Casa Legislativa apenas autorizar ou não a instauração do processo (condição de procedibilidade). 2.3. A ampla defesa do acusado no rito da Câmara dos Deputados deve ser exercida no prazo de dez sessões (RI/CD, art. 218, § 4º), tal como decidido pelo STF no caso Collor (MS 21.564, Rel. para o acórdão Min. Carlos Velloso). 3. RITO DO IMPEACHMENT NO SENADO (ITENS G E H DO PEDIDO CAUTELAR): 3.1. Por outro lado, há de se estender o rito relativamente abreviado da Lei nº 1.079/1950 para julgamento do impeachment pelo Senado, incorporando- se a ele uma etapa inicial de instauração ou não do processo, bem como uma etapa de pronúncia ou não do denunciado, tal como se fez em 1992. Estas são etapas essenciais ao exercício, pleno e pautado pelo devido processo legal, da competência do Senado de processar e julgar o Presidente da República. 3.2. Diante da ausência de regras específicas acerca dessas etapas iniciais do rito no Senado, deve-se seguir a mesma solução jurídica encontrada pelo STF no caso Collor, qual seja, a aplicação das regras da Lei nº 1.079/1950 relativas a denúncias por crime de responsabilidade contra Ministros do STF ou contra o PGR (também processados e julgados exclusivamente pelo Senado). 3.3. Conclui-se, assim, que a instauração do processo pelo Senado se dá por deliberação da maioria simples de seus membros, a partir de parecer elaborado por Comissão Especial, sendo improcedentes as pretensões do autor da ADPF de (i) possibilitar à própria Mesa do Senado, por decisão irrecorrível, rejeitar sumariamente a denúncia; e (ii) aplicar o quórum de 2/3, exigível para o julgamento final pela Casa Legislativa, a esta etapa inicial do processamento. (BRASIL. STF - ADPF 378 MC. Relator: Min. EDSON FACHIN. Relator p/ Acórdão: Min. ROBERTO BARROSO. Tribunal Pleno, julgado em 17/12/2015. PROCESSO ELETRÔNICO DJe-043 DIVULG 07- 03-2016 PUBLIC 08-03-2016).

26 Foi incorporado onde? Aqui constata-se a MENTIRA, mentira do STF. Em nenhum momento dos precedentes anteriores do caso Collor foi tratado explicitamente como paradigma no tocante que a decisão da Câmara que admitiria o impeachment seria ou não vinculante.

Ocorre que este rito nesta ADPF, em que o Ministro Barroso menciona que será ou seria, por segurança jurídica, repetida a sistemática adotada pelas ações que tramitaram no STF concernentes ao caso Collor, simplesmente não

existiu. Da comparação do inteiro teor dos acórdãos, desta ADPF 378, com

(principalmente) a do MS 21.564, se constata que na década de 1990 o STF não estabelecera, na parte dispositiva da decisão, que a deliberação da Câmara não seria vinculante, mas sim uma etapa burocrática.

Ao contrário, à época o único Ministro que expressamente tinha se pronunciado sobre o assunto fora o decano Celso de Mello:

Ao Senado Federal, constitucionalmente designado como instância concentradora do processo e julgamento do Presidente da República, nos crimes de responsabilidade, impõe-se, ante a autorização derivada da Câmara dos Deputados, a necessária instauração do processo de impeachment, com todas as conseqüências jurídico-constitucionais daí emergentes, notadamente a suspensão cautelar e provisória do Chefe de Estado, quanto ao exercício de suas funções, pelo prazo máximo de 180 dias.

Esse caráter vinculado da atuação processual do Senado da República, que deriva da manifestação autorizativa validamente enunciada pela Câmara dos Deputados, foi ressaltado por JOSÉ AFONSO DA SILVA...27 (Grifo nosso).

A propósito, eis o que ensina, de forma muito clara sobre o assunto, o Professor José Afonso da Silva (1999, p.549):

Recebida a autorização da Câmara para instaurar o processo, o Senado Federal se transformará em tribunal de juízo político, sob a Presidência do Presidente do Supremo Tribunal Federal. Não cabe ao Senado decidir se instaura ou não o processo. Quando o texto do art. 86 diz que, admitida a acusação por dois terços da Câmara, será o Presidente submetido a julgamento perante o Senado Federal nos crimes de responsabilidade, não deixa a este possibilidade de emitir juízo de conveniência de instaurar ou não o processo, pois que esse juízo de admissibilidade refoge à sua competência e já fora feito por quem cabia.

Apesar disso tudo, no já mencionado acórdão da ADPF 378, o ministro Celso de Mello mudou radicalmente de ideia:

É certo que, ao votar no MS 21.564/DF (Caso Collor), salientei o caráter vinculante da deliberação parlamentar emanada da Câmara dos Deputados nos termos do art. 51, inciso I, da Constituição Federal, havendo enfatizado, então, no voto que proferi, que a instauração do processo de ‘impeachment’, pelo Senado da República, traduzia consequência necessária da autorização dada, previamente, por dois terços dos Deputados Federais. (voto do ministro Celso de Mello à pag. 344 do acórdão da ADPF 378).

[...]

A Constituição defere à Câmara dos Deputados, assim, com exclusão de qualquer outro órgão do Estado, não importando a natureza do ilícito imputado ao Presidente da República, apenas a competência para autorizar o Senado Federal a instaurar processo de ‘impeachment’ contra o Chefe do Poder Executivo da União (CF, art. 51, I). (voto do ministro Celso de Mello à pag. 344 do acórdão da ADPF 378).

Em suma: o STF estabeleceu, no que importa, que não mudou a essência dos procedimentos nos processos de impeachment quando, na verdade, modificara radicalmente seu entendimento. O lamentável e o que se aponta aqui, núcleo desta tese que procura apontar as incoerências e falhas do STF, não é a mudança de ideia do órgão colegiado. Até mesmo porque o que caracteriza as sociedades e, por derivação as entidades estatais, é a sua mutabilidade.28 Mas o que torna o STF mais ameaçador a Nação é justamente quando ocorrem tais modificações sub-reptícias, e este se utiliza o órgão estatal de sofismas, sabendo quem ninguém mais poderá, na prática, sindicar seus atos. A conclusão parcial neste tópico então é irrefutável: tais mudanças repentinas só trazem inseguranças jurídicas, uma vez que, tal como no ativismo judicial, o jurisdicionado e cidadão indefeso vai depender inteiramente de voluntarismos dos ministros do STF.

4.4 Críticas à “judicialização da política”. Falta de legitimidade do Judiciário,