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CAPÍTULO 2. COZINHAR, ADORAR E FAZER NEGÓCIO: A CASA HINDU

2.2. Os mandires das Casas

2.2.1. O mandir e o arti

O mandir é um espaço onde se guardam os deuses que se adora, ou melhor, onde se guardam os seus murtis. Um murti é uma imagem de papel, tecido, cerâmica, plástico, madeira, bronze, ouro, etc. de um dos deuses adorados. Esses murtis podem ser comprados, podem ser artesanalmente produzidos ou podem ser encontrados prontos, deixados pelos próprios deuses. Uma pedra encontrada no chão pode vir a ser adorada. Também pode-se fazer murtis com cascas de coco, coladas e maquiadas ou moldadas em cerâmica [Fig.16].Integra-se ainda aos

mandires fotografias de imagens de deuses adorados, imagens de mandires na Índia, Portugal e

Inglaterra. Fotografias de pessoas falecidas também são incluídas nos mandires. O mandir guarda algum murti que representa a deusa de apelido. Depois de descrever o mandir e o arti, explicarei o que se compreende por deusa de apelido. A compreensão de tal expressão é fundamental para compreender a co-participação em crenças que indicam unidades de relações concebidas como familiares.

Em geral, todas as unidades domésticas têm seu mandir formado em uma espécie de caixa – do tamanho de uma caixa para 12 garrafas de 650 mg – onde se guarda estes murtis. [Fig. 17]. O mandir pode ficar em cima de um móvel de aproximadamente um metro e dez, dentro de uma das prateleiras da estante onde também se coloca a tv e aparelhos de som ou numa das prateleiras do quarto e em algumas unidades domésticas, uma sala é usada unicamente para o mandir. Mas assim como algumas residências ocupam espaços amplos para o mandir, há outras que primam por limitá-lo. Mas em todas as unidades domésticas há mandir na parte do edifício onde é a loja e na parte da residência. Cada morador pode ainda eleger um

espaço próximo de sua cama e constituir um espaço equivalente a um mandir89. Os mandires possuem algum mecanismo (porta ou cortina) que permite que seja fechado. Um mandir é fechado quando alguma mulher menstruada ou quando todos os integrantes da Casa, em razão de nascimento ou morte, estão proibidos de se aproximar dos deuses90. É em frente aos mandires domésticos que se faz os artis.

Nas unidades domésticas, o arti consiste em acender um divu – uma espécie de vela feita de gotas (moldadas à mão) de algodão, embebidas em óleo de coco ou ghee – e passá-lo frente a cada uma das imagens dos deuses adorados. O arti é feito com um incenso aceso também. Senhoras casadas e com filhos é que cuidam diariamente do mandir, limpando as imagens com pano úmido, substituindo flores, frutas e arroz cru que são colocados ali diariamente. É comum haver no mandir uma imagem específica a que se dedica o pujá, o lavar com leite e água um determinado murti. Depois disto é que se faz o arti com todos os moradores que estiverem na unidade doméstica e que já tenham tomado banho. Aqueles que não participam deste momento do arti, em outro momento acendem um incenso em frente ao

mandir, fazendo assim o seu arti. Pode-se chamar de arti (ou bajan) também a música cantada

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A maior parte das unidades domésticas possui mandires bastante coloridos (predomina o vermelho, acompanhado por amarelo e verde), com inúmeros murtis de diferentes deuses e ilustrando os deuses de diferentes formas (um Krishna de tecido, de bronze, de plástico, etc.). O mandir da Comunidade de Inhambane também é assim, muitas cores e muitas imagens. Mas há unidades domésticas que preferem mandires menores e mais sucintos, como em senhora Pakhi, cujo mandir tem apenas três murtis expostos sobre uma estante na sala de estar. Há senhoras que vem conversando sobre isso essas diferentes formas de conceber um murti. Senhora Netra, voltando de uma temporada em Lisboa, trouxe como oferta para o mandir da Comunidade colares de bolinhas douradas para colocar nos murtis já existentes. Disse que tem considerado um absurdo trazer mais e mais murtis para a Comunidade. Compara o mandir de Inhambane com o mandir de Maputo e de Lisboa, dizendo que a tendência atual é usar tons mais claros e apenas um murti de cada deus principal. Efetivamente o mandir de Maputo, inaugurado em 2002, prima pelo uso de cores básicas e pela utilização de um número reduzido de murtis.

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Usa-se o verbo sentar para dizer de uma mulher menstruada. Tal verbo é usado em diferentes sentidos e alguns deles precisam ficar claros para que se compreenda a sua menção mais adiante no texto. Usa-se o sentar para dizer que uma pessoa está restrita a determinadas ações ou espaços: uma mulher senta quando está menstruada: fulana

sentou e, sendo assim, não poderá ajudar na cozinha, por exemplo. Quando há algum impedimento para entrar no mandir, mas se pretende ficar próximo à atividade, diz-se: viemos ou vamos apenas sentar. Em outras ocasiões,

sentar indica uma ação prestigiosa. Nas cerimônias de casamento, no saptaha e em awans (que me traduziram como missas grandes), há sempre a escolha de um casal que senta e há disputa e ansiedade pela definição desse casal. Casas de outros países podem deslocar-se para uma cerimônia porque irão sentar nesta cerimônia. Mas sentar pode ser ação desprestigiosa, ainda que não impura: quando dizem algo sobre ir a alguma atividade que não lhes aparece animada, dizem: estivemos só a sentar. Quando comentam do movimento ruim das lojas, dizem: é só sentar e sentar no meio de mês. Várias histórias de mulheres que separaram-se da Casa do pai do marido são contadas dizendo que o irmão mais velho e a sua esposa queriam que o irmão mais novo e a esposa (os que saem e que contam esta história) só sentassem na loja. No decorrer do texto, usarei o verbo “sentar” em itálico quando ele estiver fazendo menção a algum destes sentido aqui descritos.

durante o arti. Depois do arti da manhã, faz-se o pequeno almoço. Depois do arti da noite, serve-se o chá.

Além dos artis realizados nas respectivas unidades domésticas, cada Casa está comprometida com a realização dos artis diários (à noite) na Comunidade Hindu de Inhambane91. Na sede da Comunidade há uma sala específica para o mandir [Fig. 18]92. Para os

artis da noite há uma lista administrada pela Comunidade e exibida no mural das lojas que

indica a Casa responsável pelo arti em cada dia. Aí se percebe que unidades domésticas que compõem uma mesma Casa podem ter dias diferentes de arti. A regra geral é que cada Casa tenha seu dia único de realização do arti da Comunidade, mas as tensões que envolvem a separação das unidades domésticas podem estar favorecidas por outras circunstâncias que fazem cindir este nível de solidariedade, fazendo com que cada unidade doméstica assuma um dia próprio para a realização do arti.

Dois irmãos que separaram suas unidades domésticas há menos de dois anos já possuem, cada qual, o seu dia próprio de arti. Já em outra Casa em que houve separação de unidades domésticas dos irmãos há mais de 7 anos, mantém-se um mesmo dia de arti. Neste último caso, na casa de pai, ou seja, na residência onde está morando a sua viúva e, em geral, o filho mais velho, ainda vive a mãe dos irmãos e provavelmente em função de sua presença – tal como desenvolvo no próximo capítulo – a desintegração em duas unidades domésticas não resultou na desunião da Casa frente ao arti da Comunidade Hindu de Inhambane. Na outra Casa, a viagem dos pais para fora de Inhambane permite aos irmãos apresentarem-se separados

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A Comunidade Hindu de Inhambane foi oficializada em 1928, como Associação Hindu Sarvajanique Sabath (traduzido como toda gente junta, sendo samaj: toda gente. Bastos (2001) traduz Sabha como sociedade e Samaj como comunidade). Em 1962 a instituição teve de tirar o nome de sua fachada, pois a partir da inclusão dos territórios de Diu, Damão e Goa à União Indiana – que configurou para Portugal a perda do Estado da Índia Portuguesa – foi proibido o uso de palavras não portuguesas nos territórios sob domínio português. A sede da Comunidade foi estatizada e transformada em Biblioteca Pública durante o período socialista, mas o espaço do

mandir foi preservado ao uso dos hindus. Nos anos 90 a sede da Comunidade foi reintegrada. Nesta tese uso a

palavra Comunidade, para referir-me ao prédio nomeado na fachada Comunidade Hindu de Inhambane, onde fica

o mandir do sabath, ou seja para referir à sede da Comunidade Hindu.

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Embora date de 1981 a inauguração do mandir Radha Krishna de Inhambane, desde a inauguração da sede da Comunidade em 1928, em torno a um armário que tinha coladas em suas portas imagens de deuses adorados, é na cidade de Inhambane que se celebraram as cerimônias que envolvem os hindus de toda a Província de Inhambane. Além da cidade de Inhambane, apenas em 2002, na cidade da Maxixe, inaugurou-se um mandir, na sede de sua Comunidade. Nos demais distritos da Província de Inhambane há apenas mandires domésticos. Em algumas dessas Províncias, como Homoíne e Massinga, há determinadas Casas que agregam outras Casas para cerimônias de caráter mais amplo. Mas geralmente as Casas hindus de toda a Província se reúnem em Inhambane.

no arti da Comunidade Hindu de Inhambane, mas ambos carregam o nome da mesma Casa Trabesh.

A Casa, frente aos artis da Comunidade Hindu de Inhambane, não se apresenta como um conjunto inequívoco de descendentes de um homem, embora suas unidades domésticas se reconheçam reprodutoras da mesma tradição e estejam relacionadas à mesma deusa do apelido. Também frente a relação que estabelecem nas práticas de adoração mais controversamente legitimadas, revela-se outras cisões da Casa. Em três residências, espaçosos mandires são palco para consultas aos deuses, diagnósticos de problemas de saúde e elaboração de cerimônias. Em cada um destes mandires, acredita-se que a senhora que o representa recebe deus93. Há unidades domésticas relacionadas a essas Casas que não compartilham tais práticas, ainda que estas unidades, frente ao arti da Comunidade Hindu de Inhambane, assumam- se como Casa. Também em cerimônias percebe-se mais algumas cisões no interior da noção de Casa. A Casa Locknath, organizada em duas unidades domésticas na cidade de Inhambane, possui um dia de

arti na Comunidade Hindu de Inhambane e também, em alguns dias de jejum, reúne-se num

fogo só. Geralmente nas cerimônias em que há troca de pratos entre Casas. Já na Casa Chanakya, os irmãos separaram-se há 5 anos em duas unidades distintas, têm artis em dias diferentes na Comunidade e não reúnem seus fogões em dias de jejuns, embora troquem alimentos em dias determinados.

Os mandires doméstico e público reúnem práticas sistemáticas do cotidiano das trocas, participando dinamicamente no processo de reprodução dos laços concebidos como familiares.