O meme e as mídias

No documento Jaime de Souza Júnior (páginas 38-42)

Esquema 2 – Princípios constitutivos do processo de propagação de fenômenos

1 MEMÉTICA, MÍDIAS E LINGUÍSTICA

1.2 O meme e as mídias

Dennett (1995, p. 347), focalizando a infosfera, já apontara o potencial dos computadores e e-mails como canal de transmissão de memes. No entanto, acreditamos que, ainda naquela época, o referido autor não seria capaz de imaginar a atual dimensão de conteúdo e informações transmitidas por mídias digitais/sociais. Seria difícil, também, prever as práticas de produção e distribuição surgidas a partir do uso dessas referidas mídias, por consequência de nossa associação cada vez mais crescente a esses meios, como ocorre no presente.

As mídias digitais20, atreladas cada vez mais à disponibilização de acesso às redes sociais, vêm tendo grande impacto sobre a associação gerada quase que por processo de

“algoritmização21” (SOUZA JÚNIOR, 2013a) de práticas ao qual nos submetemos – ou

19 Ver detalhamentos em 2.1.

20 Neste trabalho, as mídias digitais a que nos referiremos doravante serão aquelas que possibilitam a seus usuários uma espécie híbrida (multimodal e multimidiática) de comunicação. Como exemplos dessas mídias, citaríamos os computadores para acesso à Internet, bem como os celulares que nos possibilitam navegar pela Web, possuidores de câmeras fotográficas, de aplicativos que dão acesso a redes sociais, dentre outros recursos multimidiáticos vistos por muitos como essenciais na contemporaneidade. Tais recursos integram (majoritariamente por meio de seus softwares/aplicativos) práticas de produção e distribuição por mídia a práticas de produção e distribuição de linguagem híbridas. Por fim, o termo “mídia” não fará referência à televisão ou ao rádio convencionais, nem à imprensa como um todo.

21 No escopo das redes sociais, a algoritmização, de acordo com o autor, seria, por exemplo, o ato de desenvolver uma postura online induzida pelas mídias, por exemplo, “curtindo” e “compartilhando” tudo via Facebook; retuitando tudo que recebe via Twitter; checando a caixa de e-mail a cada 30 segundos, etc. Enfim, usar as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) e a Internet mais como aquilo que fora oferecido como parte de um produto (de marketing), em vez de usá-las como um serviço – quando se tira proveito da rede, por exemplo, para aprender idiomas.

somos “seduzidos” a nos submeter – 24 horas por dia22. Nas redes sociais, cada vez mais fortalecidas pela existência dessas mídias, chama a atenção o surgimento de verdadeiras ondas de informação atreladas a práticas cada vez mais colaborativas e integradoras de comunidades e plataformas digitais23. Nesses contextos, é frequente vermos episódios ou eventos locais, propagados em comunidades locais, migrando para comunidades globais, transformando práticas locais em globais. O processo inverso também é percebido. Por essa breve descrição, procuramos ilustrar a sistemática de propagação do que Souza Júnior (2013b) chamou de fenômeno memético da Internet. Voltaremos a eles, exemplificando tais fenômenos e discutindo-os com maior profundidade no Capítulo 2.

1.2.1 A trajetória epistemológica do meme e seus desdobramentos: do offline para o online

Considerando-se os novos sentidos e aplicações que o termo meme vem ganhando, bem como os vastos campos nos quais este vem sendo aplicado, reapresentaremos, de forma resumida, uma escala de (re)interpretação teórica das conceituações iniciais do termo, colocando, por fim, aquela que trata de entender e explicar, no âmbito dos estudos locais, o meme já no âmbito da Rede – mais especificamente, no ambiente das redes sociais.

Na gama de estudos locais, até onde nossa pesquisa bibliográfica pôde constatar, Raquel Recuero (2006), já no escopo da Web, revisita de forma mais relevante24 o conceito de meme, relocalizando-o na esfera das redes sociais. Ratifica suas três características básicas – longevidade, fecundidade e fidelidade da cópia, já apontadas por Dawkins (1979), incluindo uma nova, denominada “alcance”.

Recuero (2006) entende que a fidelidade da cópia esteja associada com o reconhecimento do padrão do meme, através da retenção de suas características originais;

quanto menor a variação da ideia inicial, maior seria a fidelidade da cópia. Para a autora (2006), a Rede facilitaria essa característica, uma vez que esse ambiente possibilitaria que a

22Sobre a associação cada vez mais constante das sociedades com as mídias em questão, sugerimos ver Gitlin (2003).

23 Essas plataformas digitais serão entendidas, neste trabalho, como aquelas que englobam as mídias sociais e se assemelham às redes sociais e suas possibilidades de interação cada vez mais síncronas.

24 Fontanella (2009) é outro pesquisador brasileiro engajado no tema, tendo em vista a transdução do conceito de memes para os domínios digitais. Entretanto, o autor do referido estudo, em vez de propor taxonomias de análise para memes da Internet, referindo-se ao trabalho de Recuero (2006), preocupou-se em alertar-nos para a necessidade do surgimento de estudos mais consistentes e sistemáticos a respeito dos memes e da memesfera, defendendo, também, um papel mais claro para a Memética nesse processo.

cópia original fosse simplesmente conectada, por exemplo, a um novo weblog25, através de um link, o que “impediria” que outros “ruídos transformassem essa informação.”

Recuero (2006) apresenta dois tipos de “memes26” atrelados à característica da fidelidade. Em primeiro lugar, teríamos os Memes Replicadores. Esses memes apresentariam como característica básica a reduzida variação, com uma alta fidelidade à cópia original. Em segundo lugar, teríamos o Memes Metamórficos. “São, assim, memes com alto poder de mutação e recombinação” (HEYLIGHEN, 1994 apud RECUERO, 2006). A principal característica dos Memes Metamórficos, de acordo com Recuero (2006), seria aquela que o apresenta dentro de um contexto de debate, onde uma informação não seria repetida simplesmente; seria, de acordo com a autora (2006), discutida, transformada e recombinada.

Em terceiro lugar, surgem os Memes Miméticos, os quais, “apesar de sofrerem mutações e recombinações, sua ‘estrutura’ permanece a mesma e são facilmente referenciáveis como imitações” (RECUERO, 2006, p. 6). Para a autora, o nome “mimético” se fundamenta aí, porque esses são “memes” que manteriam sua estrutura, mas adaptariam-se aos espaços digitais específicos.

No que tange ao princípio da longevidade, Recuero (2006) afirma que, no contexto das redes sociais, todos os memes seriam, essencialmente, longevos. Para a autora, a longevidade de um meme deve ser compreendida a partir de sua replicação no tempo; ou seja, pela quantidade de vezes que o “meme” aparece, em que ambientes digitais, e o quão antigo este é.

Ela os classifica em Memes Persistentes, isto é, que permanecem sendo replicados por muito tempo (2006, p.7), e Memes Voláteis, os quais têm um curto período de vida após replicarem-se em um e outro ambiente digital.

Ademais, quanto à característica de fecundidade, Recuero (2006) afirma que tal princípio dos memes é associado à sua capacidade de replicação: quanto mais cópias um meme possuir, maior será a fecundidade deste, não importando o fator tempo. Nesse sentido, nos ambientes digitais, a fecundidade deve ser verificada como a capacidade de espalhamento ou propalação dos memes. A autora (2006) apresenta os Memes Epidêmicos, acrescentando que estes seriam semelhantes àqueles descritos por Barabási (2003) e Gladwell (2002). Tais

“memes” originariam “modismos” e modos de comportamento. Segundo Recuero (2006), Memes Epidêmicos são mais raros, porque não se saberia, exatamente, “o que desencadeia uma epidemia”; indicado que tal epidemia, possivelmente, aconteça “por conta da

25 Em seu estudo, Recuero (2006) considerou os weblogs como redes sociais.

26 As aspas no termo em questão serão usadas para indicar que é Recuero (2006) quem escolhe chamar esse item de “meme”

se associando, epistemologicamente, de forma direta às concepções de Dawkins (1979;1982).

simplicidade dos replicadores” (BJARNESKANS, GRONNEVICK e SANDBERG, 2005 apud RECUERO, 2006, p. 9).

Por fim, pelo critério do alcance, um meme, na Web, pode percorrer vários domínios – geográficos ou virtuais. “Memes” originados pelo prisma do “alcance” podem ser de dois tipos: Locais ou Globais. Os Memes Locais, segundo a autora (2006, p. 10-11), seriam

“memes” que ficariam restritos a uma determinada vizinhança, por exemplo, de weblogs.

Esses tipos estariam associados aos “laços fortes” (GRANOVETTER, 1973 apud RECUERO, 2006, p. 10) e à interação social. Já os Memes Globais seriam aqueles que alcançam nós (amarrado de conexões) que estão distantes entre si, dentro de uma determinada rede social,

“não sendo tais necessariamente fecundos” (RECUERO, 2006, p.10), e simplesmente apareceriam em pontos não-próximos.

A partir do estudo local de Recuero (2006) surge a proposta de analisar uma série de itens propagados pela invasão e chegada do conceito de meme à Rede. Temos com isso, a evolução desse conceito, o qual, na Web, com base na concepção da autora, passa a existir, no âmbito dos estudos locais, como meme da Internet. Abaixo, apresentamos os elementos da transdução do conceito em questão, surgida a partir de Recuero (2006):

Quadro 2 : Meme: do online ao offline – elementos da transdução. Fonte: Elaborado pelo autor.

Relevante, ainda, observar que aquilo que Recuero (2006) chama de “replicação” de um “meme” constitui-se, como argumentamos no presente estudo, de um processo mais complexo. Esse processo apresenta uma dimensão interna (a constituição dos elementos que

permitem tal propagação – o interior de um complexo de memes) e outra externa (a relação de unidades de propagação e eventos que essa constituição peculiar possibilita às pessoas a trazer à tona), isto é, os eventos digitais chamados de “fenômenos meméticos da Internet27” (SOUZA JÚNIOR, 2013b). Tais fenômenos, pela taxonomia da autora (2006), seriam uma mistura do que ela chamou de Meme Mimético somado ao Meme Epidêmico.

Ao classificar “o todo” dessas propagações como sendo um “meme” específico regido por cada categoria, Recuero (2006) fragmenta28 a proposta original de Dawkins (1979). Por isso, o entendimento que se tem pelo estudo da pesquisadora (2006) é que as duas dimensões seriam uma só – a externa. Isto é, do ponto de vista das analogias meméticas, Recuero (2006) trata somente do fenótipo, não indicando de que tais dimensões se compõem, ou qual é o papel do genótipo. Eis o problema da unidade, o problema ontológico e o problema do fenótipo, os quais Leal-Toledo (2013b) apontara em 1.1.1.

De acordo com a perspectiva que adotamos neste trabalho, essas referidas dimensões precisam, primeiro, ser entendidas em seu interior (como veremos em 1.3.1), para que, posteriormente, possamos compreender melhor (a partir do Capítulo 2) os direcionamentos externos de propagação dos elementos a que ambas as dimensões dão origem, uma vez que atuam em sincronia. Isto quer dizer que é preciso compreender, do ponto de vista da linguagem e das mídias digitais/sociais, o que exatamente são os memes da Internet, como se constituem e são transferidos para as unidades de propagação, e como essas unidades dão origem a seus fenômenos meméticos.

1.3 A Linguística e o memeplexo: práticas de produção e distribuição

No documento Jaime de Souza Júnior (páginas 38-42)