O padrão C de hipocorização

No documento Universidade Federal do Rio de Janeiro (páginas 82-88)

ANCHOR ONSET NOCOMPLEX CODACOND

4.4. O padrão C de hipocorização

O padrão C, também descrito por Thami da Silva (2008, 2009), rastreia a primeira sílaba à esquerda do prenome com a posição de ataque preenchida.

Essa sílaba pode ser reduplicada, o que faz do padrão C variável, visto que podem vir à superfície encurtamentos compostos por um pé mononoraico (degenerado) ou por um pé bimoraico formado por REDcv.’CV e, então, o acento posiciona-se à direita da palavra prosódica, caracterizando, assim, a formação de pés iâmbicos61, como mostra a formalização em (17):

(17)

(a) (b)

61 Cumpre salientar que, mais adiante, discutiremos a relevância de adotar iambo na hierarquia de prioridades relativa à análise da hipocorização. De acordo com observações mais gerais, pudemos perceber que a formação de iambos acontece em dois contextos fonológicos: (a) em palavras monossilábicas; e (b) quando há necessidade de manutenção da identidade de traços do input para o output, como ocorre em ‘Alessandra’ > ‘Alê’ e não *’Áli’, conforme discutiremos no Capítulo 6.

83 Em (17), observamos, mais uma vez, assim como no tipo B, que se escaneia a borda esquerda da palavra-matriz, especificamente a primeira sílaba com onset. A sílaba copiada para o molde pode ser reduplicada, gerando duas formas possíveis de output – uma simples, como em (17a), e outra com reduplicante, como em (17b).

Os únicos casos que não apresentam possibilidade de trazer à superfície duas formas de output são antropônimos iniciados com erre-forte, como em ‘Renata’ > ‘Rê’. Para esse antropônimo, por exemplo, não emerge a forma *Rerê, posto que, no português, uma regra fonotática bloqueia a contiguidade de erres-fortes, como sinalizado em Thami da Silva (2008)62. Ressalte-se, portanto, que há um impedimento da própria fonologia da língua para o uso do reduplicante, o que traz à superfície uma única forma, no caso equivalente à estrutura (17a).

É importante destacar que o padrão C, diferentemente do que ocorre no tipo B, caracteriza-se pela manutenção de sílabas com padrão CV. Dessa maneira, a posição de ataque sempre deve ser preenchida, não são licenciadas complexidades no onset e as sílabas devem ser livres (abertas), ou seja, não são permitidas codas.

Sendo assim, no que se refere ao padrão C, os aspectos formais relevantes são os seguintes: (a) privilegia-se a margem esquerda, mais especificamente a primeira sílaba com onset; (b) a estrutura silábica da base é sempre CV; (c) a sílaba CV escaneada é passível de reduplicação, trazendo à tona duas formas de output; e (d) antropônimos iniciados por erre-forte só admitem uma forma de superfície, devido à impossibilidade, revelada pela

62 De fato, nenhuma palavra da língua apresenta duas vibrantes múltiplas em onset de sílabas vizinhas. Quando róticos ficam adjacentes, um deles é sempre o tepe, como se vê em 'arara' e 'pirapora', entre tantos outros exemplos.

84 própria organização fonotática do português, de haver contiguidade de erres-fortes em ataques silábicos adjacentes.

Tendo em vista essas características estruturais, na abordagem Otimalista proposta por Thami da Silva (2008), o restritor que ocupa a posição mais privilegiada do ranking é RhTYPE=I63, já que formações do tipo C constituem-se, invariavelmente, de formas cujo acento recai à direita da palavra prosódica. Além disso, as formações de tipo C geram, necessariamente, estruturas silábicas do tipo CV e, por isso mesmo, as restrições ONSET, NOCOMPLEX e NOCODA atuam em conjunto na análise das construções candidatas, como se verifica em (18), a seguir:

63 RhTYPE=I, no português, equivale a IAMBO, ou seja, pés devem ter cabeça à direita.

85 (18)

* ( * . . )

/fatima/

RhTYPE=I ONSET NOCOMPLEX NOCODA

a) [(‘fa)] 

b) [(‘fa.tʃi)] *!

* ( . * . )

/feRnaNda/

RhTYPE=I ONSET NOCOMPLEX NOCODA

a) [(‘fe)] 

b) [(‘fex)] *!

* ( * . * . )

/eduaRdU/

RhTYPE=I ONSET NOCOMPLEX NOCODA

a) [(‘du)] 

b) [(e.’du)] *!

Em (18), a forma ‘fáti’ para ‘Fátima’ viola o restritor RhTYPE=I, posto que o acento não recai à direita da palavra prosódica, emergindo, assim, a forma

‘fá’. No caso de ‘Fernanda’, apesar de ‘fer’ respeitar RhTYPE=I, a forma candidata é eliminada ao infringir NOCODA, já que sílabas devem ser sempre leves no caso do tipo C de hipocorização. Com isso, ‘fê’ é o candidato que melhor satisfaz o ranking parcial de prioridades. Em ‘Eduardo’, a forma ‘edú’, por mais que respeite RhTYPE=I, é eliminada em ONSET64, já que a posição de ataque da sílaba mais à esquerda não foi preenchida; logo, tem-se como output o candidato ‘dú’.

64 Como vimos na seção precedente, ‘Edú’ é a forma que emerge no padrão B de hipocorização.

86 Outra restrição que merece destaque na análise do padrão ora em discussão é ANCHOR-HIPO(L)65. Esse restritor, que obriga que os segmentos copiados da palavra-matriz estejam à esquerda, só é violado para que as restrições de marcação sejam atendidas. É o caso, por exemplo, da forma ‘edu’

para ‘Eduardo’, exemplificada em (18). A cópia não-exata da margem esquerda ocorre para a satisfação do restritor ONSET e, por essa razão, ANCHOR é uma restrição dominada na hierarquia, mas, ainda assim, de grande importância, como se verifica em (19):

(19)

* ( * . * . )

/filomena/

ANCHOR

a) [(‘fi)] 

b) [(‘Iɔ)] *!*

No caso do exemplo apresentado em (19), a forma ‘ló’ para ‘Filomena, por mais que respeite os demais restritores já apresentados para a análise do tipo C de hipocorização, visto que se trata de um iambo com estrutura silábica CV, ainda assim está eliminada por ANCHOR devido ao apagamento da sequência fônica ‘fí’, que aparece a mais à esquerda da base. Desse modo, a forma ‘fí’ consolida-se como ótima.

Assim, até o momento, temos o ranking estruturado da seguinte maneira: RhTYPE=I >> ONSET; NOCOMPLEX; NOCODA >> ANCHOR.

Contudo, ainda há necessidade de acrescentar dois outros restritores a esse

65 Cf. nota 51.

87 ranqueamento – NOALLITERATION[h]66 e ALLITERATION67. O primeiro proíbe adjacência de aspiradas em onsets de sílabas contíguas68, em dados como ‘Rejane’ > *Rerê, já que o português, como vimos, não apresenta nenhuma palavra com realizações de erres-fortes (vibrantes, fricativas velares, aspiradas etc) em ataques contíguos69. O segundo requer que segmentos adjacentes sejam idênticos. Essas restrições estão em conflito, uma vez que a primeira impede que um segmento fônico específico seja idêntico a seu constituinte adjacente (a genérica aspirada, representada, na formulação da restrição, por [h), enquanto o segundo requer essa identidade.

Segundo Thami da Silva (2008), o padrão C é variável e, portanto, traz à tona duas formas de superfície – uma com e outra sem reduplicante; todavia, não é possível haver a cópia da sílaba CV para a formação de um RED caso esta sílaba se inicie com erre-forte, como comprova o tableau em (20), a seguir:

66 NOALLITERATION[h], no português NÃO-ALITERAÇÃO[h], proíbe a contiguidade de erres-fortes.

67 cf. nota 47.

68 Nessa restrição, a realização aspirada, [h é tomada como modelo, abrangendo, portanto, não apenas a fricativa glotal, mas também a fricativa velar, [x, e as vibrantes. Tal restrição é motivada pela evidência empírica de não haver, em português, ataques contíguos preenchidos por duas realizações de erre-forte.

69 De fato, quando palavras do português apresentam sílabas contíguas iniciadas por róticos, temos dois tepes, como em ‘arara’ e ‘perereca’, ou um tepe seguindo (‘raro’, ‘horrores’) ou precedendo uma realização de erre-forte (‘carreira’, ‘barreira).

88 (20)

* ( . * . ) /r’enata/

No documento Universidade Federal do Rio de Janeiro (páginas 82-88)