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2 MODO DE REGULAÇÃO, ESTADO E MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA

2.2 O papel do Estado: do regulacionismo à teoria do Estado

A conceituação apresentada acima traz à tona o papel central do Estado no estabelecimento dos modos de regulação: o Estado materializa, através da produção de leis, normas, regulamentos, os compromissos entre os agentes relevantes que constituem o modo de regulação. Segundo Boyer (1991), ele aparece como totalização, quase sempre contraditória, de um conjunto de compromissos institucionalizados e, portanto, faz parte da construção e crise posterior de todo e qualquer regime de acumulação. Bolaño (2007) explica que enquanto parte

fundamental do modelo de regulação “o Estado não pode fugir à sua função de organizar e institucionalizar os compromissos táticos e estratégicos entre os atores privados hegemônicos” (BOLAÑO, 2007, p. 107). O Estado, em termos gerais, cumpre um papel central, uma vez que é na sua estrutura que se materializam as contradições de classes e frações. Ou seja, ele assume o papel de “mediador” dos interesses em disputa, como forma de garantir a própria acumulação do capital.

É possível compreender essa dinâmica com base na concepção gramsciana de “estado ampliado”. A teoria ampliada do Estado em Gramsci apóia-se na descoberta dos “aparelhos privados de hegemonia”, o que o leva a distinguir duas esferas essenciais no interior das superestruturas, a sociedade política e a sociedade civil. Neste sentido, pode-se perceber uma diferença importante entre o conceito de sociedade civil em Gramsci e na teoria marxista clássica: enquanto esta identifica a sociedade civil como base material, com infra-estrutura econômica, aquele entende que ela não pertence ao momento da estrutura, mas ao da superestrutura (COUTINHO, 1989, p. 73). O Estado em Gramsci seria o resultado da soma e equilíbrio entre sociedade política e sociedade civil.

Portanto, o Estado em sentido amplo “com novas determinações”, comporta duas esferas principais: a sociedade política (que Gramsci também chama de “Estado em sentido estrito” ou de “Estado-coerção”), que é formada pelo conjunto de mecanismos através dos quais a classe dominante detém o monopólio legal da repressão e da violência, e que se identifica com os aparelhos de coerção sob controle das burocracias executiva e policial-militar; e a sociedade civil, formada precisamente pelo conjunto das organizações responsáveis pela elaboração e/ou difusão das ideologias, compreendendo o sistema escolar, as Igrejas, os partidos políticos, os sindicatos, as organizações profissionais, a organização material da cultura (revistas, jornais, editoras, meios de comunicação de massa) etc. (COUTINHO, 1989, p. 76).

Isto quer dizer que o Estado é junção de ditadura e hegemonia, embora cada um tenha a sua materialidade institucional própria. Por meio da sociedade civil, as classes buscam exercer sua hegemonia, isto é, difundir suas concepções e ganhar aliados mediante a direção política e o consenso; já por meio da sociedade política é estabelecida uma ditadura, ou seja, uma dominação mediante a coerção. Coutinho (1989) salienta que, para Gramsci, a esfera ideológica, nas sociedades capitalistas avançadas, passou a ter uma autonomia material em relação ao Estado propriamente dito. “Em outras palavras, a necessidade de conquistar o consenso ativo e organizado como base para a dominação criou e/ou renovou determinadas objetivações ou instituições sociais, que passaram a funcionar como portadores materiais específicos” (Ibidem, p. 77).

Coutinho (1989) explica ainda que, de acordo com Gramsci, um grupo social pode e mesmo deve ser dirigente hegemônico já antes de conquistar o poder governamental. É no âmbito da sociedade civil que se dá a conquista do consenso e da hegemonia, sendo ela o espaço de embate para a luta de classes. A esse processo Gramsci denomina “guerra de posição”, a longa batalha pelo consenso por meio das instituições da sociedade civil, ou seja, dentro do próprio Estado.

Assim, as duas esferas do Estado servem para conservar e propagar uma determinada base econômica, de acordo com os interesses de uma determinada classe social fundamental. De acordo com Gramsci (2007), não há dúvidas de que o Estado é concebido como organismo próprio de um grupo e que, portanto, ele deve criar as condições para a perpetuação e expansão máxima desse grupo. Contudo, é necessário que esses ideais sejam entendidos como o desenvolvimento das potencialidades nacionais, o que significa que o grupo dominante deve incorporar e acomodar de alguma forma também os interesses dos grupos dominados. O “Estado é todo o complexo de atividades práticas e teóricas com as quais a classe dirigente não só justifica e mantém seu domínio, mas consegue obter o consenso ativo dos governados” (GRAMSCI, 2007, p. 331).

A vida estatal é concebida como uma contínua formação e superação de equilíbrios instáveis (no âmbito da lei) entre os interesses do grupo fundamental e os interesses dos grupos subordinados, equilíbrios em que os interesses do grupo dominante prevalecem, mas até um determinado ponto, ou seja, não até o estreito interesse econômico- corporativo (Ibidem, p. 42).

Vale salientar que a lei aparece, nesse contexto, como momento de formação e superação de equilíbrios instáveis. Ela consolida a dominação da classe fundamental, constitui-se como momento da luta de classes e da hegemonia: é neste ponto que a definição de modo de regulação de Boyer se encontra com a teoria gramsciana de Estado ampliado e com a análise de Poulantzas. Também para este último, as lutas de classes, mesmo se não se esgotam aí, estão inscritas na materialidade institucional do Estado, “que traz a marca das lutas surdas e multiformes” (POULANTZAS, 1978, p. 147). Para o autor, as lutas políticas frente ao Estado, ou a qualquer aparelho de Estado, derivam da sua configuração estratégica: “o Estado, como é o caso de todo dispositivo de poder, é a condensação material de uma relação” (Ibidem, p. 147). Contudo, ele salienta que as classes populares sempre estiveram presentes no Estado, sem que isso tenha significado jamais uma modificação no núcleo essencial deste. A ação das massas populares dentro do Estado é uma condição essencial para sua transformação, mas não é o suficiente.

O lugar de cada classe na luta é, segundo Poulantzas, é determinado, sobretudo, pela origem nas relações econômicas, políticas e ideológicas. Ou seja, o poder de uma classe está inscrito nas suas relações desiguais de dominação/subordinação estabelecidas a partir da divisão social do trabalho. Portanto, o Estado, enquanto “condensação material de uma relação de forças”, é formado pela contradição capital-trabalho. “Ele possui uma ossatura específica que implica igualmente, para alguns de seus aparelhos, a exclusão da presença física e direta das massas populares em seu seio” (Ibidem, p. 154).

O Estado capitalista, que representa o poder da burguesia, trabalha ativamente para a reprodução da divisão capital-trabalho. “Esse Estado supõe necessariamente uma organização particular do espaço político sobre o qual exerce o poder” (Ibidem, p. 61). Nesse sentido, ele se constitui como lócus de organização estratégica da classe dominante em relação com a classe dominada, mas que não possui poder próprio.

Dessa forma, entendemos o Estado como um espaço de batalhas em que a classe fundamental estabelece a sua hegemonia. É nessa perspectiva que buscaremos mostrar como se consolidaram os modos de regulação setoriais da radiodifusão (no sentido proposto por Bolaño) vigentes atualmente no Brasil e na Venezuela, em coerência com a estrutura geral dos modos de de regulação no sentido da escola francesa, e como os grupos sociais têm atuado ao longo dos anos para consolidar seus interesses nas políticas de comunicação em cada país e nos marcos regulatórios setoriais.