2.2.4 “Acumular tesouros no céu”: a esperança que nos abre a Deus e ao próximo
2.2.5. O verdadeiro tesouro
2.2.5.3. O preço da propriedade celeste
Para alcançar a vida eterna, o homem não encontra exigências além das que possa cumprir. A vida eterna é “um bem grandioso”577 e que “custa tão pouco”578. Quando o homem alcança a vida eterna, tê-la-á para a eternidade, uma vez que não poderá perdê-la depois de a alcançar.
Novamente com o texto do rico que teve a graça de ter abundante colheita, Agostinho diz que o preço da vida eterna para esse homem era o que não cabia nos celeiros. Repete-se aqui o convite do Hiponense a partilhar o que temos de supérfluo e não necessitamos. Não pede que o rico esvazie os celeiros, mas convida-o a dar o que sobra. Este rico “compraria” a vida eterna se desse esmola com o que os campos produziram a mais. Quando o rico dá a esmola ao pobre, o Rico lhe dará a vida eterna como o maior dos bens579.
Ao falar da esmola no Sermão 86, encontrámos o emprego do termo “juro” para referir o ganho que o homem recebe ao trocar bens terrenos por bens eternos. No Sermão 107 A, retoma-se a mesma temática para confirmar quão barato seja alcançar a vida eterna. Agostinho dá o exemplo da alegria que teria um homem que desse a juro uma libra de prata e recebesse outra de ouro. Seria um grande ganho! Essa imagem mostra a diferença entre os bens temporais e os bens eternos e a alegria que se tem quando se dão aqueles e se recebem estes. O juro é muito maior, e dá uma maior felicidade ao homem580.
Com esta pregação de Agostinho, podemos confirmar que o preço da propriedade celeste são os bens terrenos e a forma como são usados. Ao usá-los para praticar a caridade,
577 s. 107 A, 2: “Quam magna est vides” (CNE 30/2, 340). 578 s. 107 A, 2: “Quam vili valet attende” (CNE 30/2, 340).
579 Agostinho diz: Ponis in manu pauperis, recipis de manu divitis (colocas na mão do pobre, recebes da mão do rico). Agostinho nesta frase chama Deus de rico para contrapô-l’O ao rico insensato do Evangelho. Assim, o Doutro da Graça consegue demonstrar a dependência do rico d`Aquele que é mais rico, porque possui a vida eterna para dar. Deus aparece assim como o mais rico porque é o que possui o maior e mais precioso dos bens: cf. s. 107 A, 2 (CNE 30/2, 340).
dando esmola aos mais pobres e vivendo uma vida desprendida, o homem está a contribuir para receber a vida eterna das mãos de Deus.
Já no fim do Sermão 107 A, Agostinho defende que o que garante a vida eterna é a vontade, e não a quantidade de bens. Zaqueu comprou a vida eterna por um grande preço porque tinha muitos bens. Mas, os que dão menos, porque possuem menos bens, não dão menos aos olhos de Deus. Recorde-se a viúva, que só tinha duas pequenas moedas para deitar no cofre do tesouro (cf. Lc 21, 1-4); só deitou 2 moedas, mas Jesus diz que ela deitou mais que todos os outros ricos581.
Se Deus não pesa as quantidades, então o que pesa? “Deus não pesa as quantidades, mas as vontades”582. Ao longo do Sermão, poderíamos pensar que os ricos teriam mais hipóteses de “comprar” a vida eterna, porque possuem mais bens para poder dar esmola e ainda viver de forma luxuriosa com os mesmos. Mas, Agostinho eliminará essa interpretação ao dizer que o mais importante é a vontade de quem dá. Tanto o rico como o pobre podem alcançar a vida eterna, se derem a Deus o que possuem com uma reta vontade. A quantidade dada pode ser maior, mas a vontade pode ser menor. Daí a exortação a dar a Deus não uma grande quantidade, mas com a própria vontade583.
Deus conhece as vontades do homem quando dá algo. Por isso, aos olhos de Deus, Zaqueu e a viúva deram quantidades diferentes, mas com uma vontade igual. O Hiponense recorda que Jesus diz no Evangelho de Lucas que quem der nem que seja um copo de água fresca a um seu discípulo, receberá uma recompensa. Salienta ele que dar um copo de água é a coisa mais insignificante, porque nem lenha para aquecer a água é preciso gastar. No entanto, quem der este bem a um discípulo de Cristo com grande vontade, receberá uma recompensa584. Esta é mais uma imagem que mostra a importância da reta vontade sem cobiça, para que as ações do homem sejam verdadeiramente valiosas aos olhos de Deus.
581 Cf. s. 107 A, 7 (CNE 30/2, 346-348).
582 s. 107 A, 7: “Non appendit Deus facultates sed voluntates” (CNE 30/2, 346) 583 Cf. s. 107 A, 7 (CNE 30/2, 346-348).
Aprofundando este tema da vontade humana, Agostinho diz que encontramos o preço da propriedade celeste no nosso interior, na nossa consciência. O homem não deve procurar fora de si os bens de que precisa para comprar a vida eterna. Aí o homem não encontrará nada tão valioso e irá correr o risco de pensar que precisa de pedir um empréstimo como fazem os que querem comprar uma casa. Se o homem tiver na sua consciência a fé, a esperança e a caridade, poderá comprar a propriedade celeste. São estas três virtudes, que ao serem praticadas em conjunto, vão conduzir o Homem a Deus. Elas “são fontes: tornam-se mais abundantes à medida que vão jorrando”585. Esta expressão significa que, quanto mais o homem pratica essas três virtudes, mais as possui e não as perde586.
Quando o homem dá com reta vontade, dá com alegria. Agostinho alude à construção de uma igreja, que parece estar a ser construída, e diz que todos são pobres, mas estão a construir uma igreja porque dão com alegria e boa vontade. Quando o homem dá com alegria, não só ajuda a edificar a igreja, mas, também, edifica-se a si. Só quando os homens vivem como Igreja é que podem construir a casa de Deus, lugar de oração, de reunião, de celebração dos sacramentos e sacramentais. Com o intuito de fazer os cristãos perceberem a importância de terem Deus no coração como motor de toda a ação humana, o Doutor da Graça termina o Sermão dizendo: “Sede vós casa de Deus e fica edificada essa casa”587.
Recordemos a viúva (cf. Lc 21, 1-4), de quem Agostinho diz que ela “tinha muito, porque tinha Deus no coração”588 para nos ajudar a compreender esta expressão final do Sermão. O mais valioso que o homem pode ter é Deus no seu coração. Quando se tem Deus no coração então é-se realmente casa de Deus, onde Ele habita. Só quando somos capazes de viver com Ele no coração, seremos praticantes das virtudes da fé, esperança e caridade, e seremos capazes de caminhar com Ele em direção à vida eterna.
585 s. 107 A, 8: “Fontes sunt: fluendo abudant” (CNE 30/2, 350). 586 Cf. s. 107 A, 8 (CNE 30/2, 348-350).
587 s. 107 A, 9: “Vos estote domus Dei et facta est illa domus” (CNE 30/2, 350). 588 s. 107 A, 7: “Multum habuit, quia Deum in corde habuit” (CNE 30/2, 348).