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O processo de transferência tecnológica

Política Agrícola

2.6. O processo de transferência tecnológica

Gomes e Atrasas (2005) abordam o processo de difusão e transferência tecnológica, a partir do ponto de vista de um instituto de PD&I agrícola. Os autores explicam que este processo precisa envolver os participantes do setor agropecuário. Ele inicia-se com a identificação de uma demanda da agricultura brasileira, que subsidiará o desenvolvimento de um projeto de P&D por uma instituição de pesquisa (Figura 2.9).

Figura 2.9 - Modelo do processo de difusão e transferência tecnológica

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Os resultados esperados são produtos e/ou processos competitivos que são transferidos e/ou difundidos por meios de algumas modalidades. A adoção destes resultados de pesquisa – produtos e/ou processos – pelo público demandante completa o ciclo da inovação.

Segundo Gomes e Atrasas (2005), algumas das modalidades utilizadas para difusão ou transferência de tecnologia podem ser: i) difusão de tecnologia em si: caracterizada pela difusão da tecnologia cuja característica principal é difundir conhecimentos, bens e serviços isentos de proteção, similares a bens públicos; sua apropriação pelo público é promovida por agentes da extensão rural, assistência técnica e dias de campo, unidades de demonstração, cursos, palestra e publicações e mídias; ii) licenciamento de uso: é o licenciamento para a exploração comercial da tecnologia e o uso da marca da instituição de PD&I para empresas privadas, mediante licitação e contrato, estabelecendo pagamento de royalties sobre o valor de venda do produto comercializado; iii) alienação (venda): é a transferência integral dos direitos de exploração da tecnologia mediante pagamento, por meio de licitação e contrato; iv) incubação de empresas: é o processo utilizado para promover a criação de nova empresa de base tecnológica para a produção de bens e serviços a partir de tecnologias desenvolvidas pela instituição de PD&I.

Sob a dimensão interna de um escritório de transferência de tecnologia, estudo do MIT (2005) apresenta dez etapas que integram o processo de transferência de tecnologia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT na sigla em Inglês). São elas:

Pesquisa: as atividades de pesquisa podem resultar em descobertas e invenções.

Considera-se invento qualquer processo, máquina, composição de matéria ou qualquer melhoria nova ou adaptada num objeto

Pré-revelação: o pesquisador/inventor entra em contato com o Escritório de

Licenciamento de Tecnologia, do MIT, para discutir a invenção e receber orientações quanto à avaliação, potencial proteção e divulgação do invento.

Revelação da invenção: o processo formal de transferência de tecnologia inicia-se

com a notificação, do pesquisador/inventor, por escrito ao Escritório de Licenciamento de Tecnologia, do MIT, por meio de um documento confidencial sobre a invenção e as possíveis alternativas para sua comercialização que serão avaliadas.

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Avaliação: o Escritório de Licenciamento de Tecnologia realiza pesquisas em

bases de patentes (se aplicável), analisa o mercado e a competitividade de tecnologias similares para estudar o potencial de comercialização da invenção. A avaliação orienta a estratégia para se focar no licenciamento da invenção para empresa já existente ou a criação de uma nova empresa start-up.

Proteção: A proteção à propriedade intelectual (PI) de uma invenção tem o

propósito de incentivar uma terceira parte interessada na comercialização da invenção. A proteção competente conforme a natureza da invenção – por mecanismos de propriedade industrial e/ou direito autoral – é realizada mediante pedido depositado no Escritório de Patentes dos EUA e, quando apropriado, aos escritórios estrangeiros de PI.

Marketing: São identificadas empresas candidatas para levar a tecnologia ao

mercado, considerando as suas experiências, recursos e redes de contatos. A estratégia pode envolver parceria com uma empresa já existente ou a formação de uma start-up.

Criação de start-up ou parceria com empresa existente: se a estratégia mais

adequada para comercialização da tecnologia for a criação de uma empresa start-up, o Escritório de Licenciamento de Tecnologia orienta os empreendedores nas atividades de criação, planejamento e financiamento. Caso a estratégia seja comercializar via uma empresa existente, o escritório seleciona potenciais licenciados e identifica objetivos e interesses comuns entre as partes e estabelece o plano para comercializar a tecnologia.

Licenciamento: Preservando os direitos de propriedade do MIT, é firmado um

acordo de licença entre este Instituto e terceiro para fins financeiros e outros. O acordo pode ser celebrado tanto com uma nova empresa start-up como uma empresa já estabelecida. Às vezes é utilizado outro acordo que permite, por um tempo limitado, que um terceiro avalie a tecnologia e seu potencial de mercado antes do licenciamento.

Comercialização: A empresa licenciada continuará os avanços da tecnologia

mediante novos investimentos empresariais para desenvolvimento do produto ou serviço. Esta etapa implica em mais desenvolvimento, aprovações regulatórias, marketing, vendas, suporte, treinamento e outras atividades.

Receitas: As receitas recebidas pelo MIT das empresas licenciadas são

distribuídas aos inventores e aos departamentos, centros e ao Fundo Geral MIT para financiar mais pesquisas e educação.

77 A Figura 2.10 ilustra as etapas.

Figura 2.10 - Processo de transferência de tecnologia do Instituto de Tecnologia de

Massachusetts

Fonte: MIT (2005, p. 5).

Há alguns pontos semelhantes e outros diferentes entre os processos de TT apresentados nos estudos de Gomes e Atrasas (2005) e do MIT (2005). Em ambos, há etapas de pesquisa, desenvolvimento, proteção, difusão ou transferência de tecnologia. Mas para chegar até a transferência, os caminhos percorridos se diferenciam. No caso do MIT, fica evidente que desde o início da notificação da invenção pelo pesquisador- inventor ao escritório de licenciamento, já é realizada uma avaliação do potencial de mercado da tecnologia, é protegida a sua propriedade intelectual e estudada a melhor

Pesquisa Pré-revelação Revelação da Tecnologia Avaliação Proteção Marketing Empresa Criação Existente Start-up Licenciamento Comercialização Receitas

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forma de licenciamento. Também é realizada pesquisa em bases de patentes para se verificar se há tecnologia similar já protegida, bem como ver a competitividade do mercado. A estratégia de TT indicará qual o caminho que tem mais potencial para inserção da tecnologia no mercado, via empresa já existente ou a criação de uma nova empresa start-up, com seu apoio institucional. O resultado final é a retroalimentação de novas pesquisas e atividades de educação por meio do recebimento de royalties e receitas.

Por outro lado, no exemplo apresentado por Gomes e Atrasas (2005), há, pelo menos, quatro estratégias para a tecnologia chegar ao mercado e que vão desde a difusão em si da tecnologia, a título gratuito, até o licenciamento oneroso, a alienação (ou transferência integral dos direitos de exploração da tecnologia) e, também, a criação de novas empresas de start-up, ou a incubação de empresas.

Ambos os casos – Gomes e Atrasas (2005) e MIT (2005) – não apresentam evidências da efetividade da difusão e transferência tecnológica, apenas o modelo conceitual do processo de difusão e TT.

Alguns métodos e procedimentos utilizados para que as tecnologias cheguem até o seu destinatário final são classificados por Rocha et al. (2012). Dentre os métodos se inserem: contratos de integração entre produtores e indústria, incubação de empresa, capacitação, treinamento, unidade de observação com desenvolvimento participativo do produto (pesquisa participativa). Os procedimentos ou ferramentas de difusão e

transferência são: contrato de licenciamento, pacote tecnológico, eventos como curso,

workshop, seminário, feira, dia de campo, vitrine, visita técnica, unidade demonstrativa e unidade de referência tecnológica.

Franco (2002) define alguns dos procedimentos usados com vistas à difusão e transferência tecnológica (Quadro 2.12):

Quadro 2.12 - Procedimentos para transferência de tecnologia e seus objetivos Dia de campo

Demonstrar, em uma unidade de produção, a eficiência de práticas agropecuárias bem sucedidas. Normalmente, o evento é realizado em propriedade de um produtor rural acessível às tecnologias ou nos experimentos de campo, tanto da pesquisa como da extensão.

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Quadro 2.12 - Procedimentos para transferência de tecnologia e seus objetivos (continuação)

Unidade Demonstrativa

Desenvolver práticas de eficácia e rentabilidade, em uma determinada cultura ou criação, com o objetivo de que as mesmas sejam acompanhadas, avaliadas e adotadas por um grupo de produtores.

Unidade de Observação

Testar em condições reais de produção a aplicabilidade de uma ou mais práticas agropecuárias, não utilizadas pelos produtores rurais e nem amparadas pela pesquisa na região.

Curso

Habilitar, capacitar ou reciclar grupos de pessoas com interesses comuns no uso de uma tecnologia ou prática agropecuária.

Demonstração de Resultados

Demonstrar, por meio comparativo, a superioridade de uma ou mais práticas, já comprovadas, sobre outra tradicionalmente adotada pelos produtores rurais.

Rádio e Televisão

Utilizar emissoras rádio e TV, de alcance em massa, para informar, motivar e divulgar as atividades e resultados de pesquisa e extensão rural.

Fonte: Franco (2002), adaptado.

No que concerne às estratégias, métodos e procedimentos a serem utilizados para a transferência de tecnologia, Martins et al. (2011) ponderam que cada produto tecnológico tem características intrínsecas e envolve diferentes graus de complexidade que precisam ser considerados na definição de estratégias para transferência. O processo de transferência não pode estar fundamentado em um critério isolado, pois há vários

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fatores condicionantes associados à eficiência na apropriação dos novos conhecimentos a serem incorporados no processo produtivo.