CAPÍTULO II O TERENA E SEUS RELACIONAMENTOS
2.2 O TERENA E A RELAÇÃO COM O PODER POLÍTICO
Com a posse de um novo Governo em 1999, fui convidado por alguns índios para representar a comunidade indígena numa vaga que existiria na Secretaria Estadual de Educação, no setor denominado Núcleo de Educação Indígena. Fiz então minha mudança de tarefa tendo em vista a educação ter tudo a ver com minha história pregressa e a formação desejada. Deixei o estágio na Junta Militar e ingressei no Parque dos Poderes67. [...]. No penúltimo dia a tarde da Conferência68 em que eu era um dos organizadores junto com a equipe de educação escolar indígena da SED, foi marcada de surpresa uma eleição para o cargo de administrador regional da FUNAI em Campo Grande (parece que essa prática tem sido só lá). Claro que já havia uma
64Professor terena, um dos primeiros professores índios em Limão Verde, falecido em 2007. 65Um índio que não é reconhecido pelos seus.
66Os Conselhos de Saúde, Educação, Política Indígena Estadual (CEDIN)/Nacional (CNPI) e de Fomento de
produção como o Programa Pantanal são alguns conselhos que os Terena compõem. Nas escolas estão nas coordenações, as Igrejas da aldeia têm pastor terena, nas cidades o Dia do Índio já é fortemente reverenciado nas repartições públicas.
67Local onde é instalado a sede do governo estadual. 68Conferência Estadual da Educação Escolar Indígena.
equipe de apoio que vinha trabalhando nessa perspectiva e tão logo souberem da manobra, que tinha por objetivo eleger um candidato ―oficial‖ do grupo que detinha o poder por cerca de 10 anos naquele Órgão, me convenceram a abandonar o Evento e ir à concentração onde estavam os caciques que queriam a mudança. Fui ao encontro deles e de lá seguimos para o local da eleição. Só os Caciques é que votam nessa eleição. Obtive 20 votos, meu concorrente69 teve 18 votos. Parece que só no outro dia ―caiu a ficha‖. Ganhei a eleição e agora? (memórias do autor, não publicado).
Oliveira, R. (1960) destaca que, até a Guerra contra o Paraguai, o Terena tinha sua relação comercial e política limitada aos demais grupos Guaná (Laiana, Kinikinao), com os Guaicurus e, por conseguinte aos portugueses e/ou espanhóis. Nos textos de Oliveira e Pereira (2003) e Vargas (2003) podemos entender que apesar de existirem poucos estudos apurados sobre a participação indígena nessa luta armada, é a partir desse acontecimento que se aceleram os contatos e as mudanças socioculturais. Por meio de relatos de Taunay (1959, p. 110) que muitos indígenas estiveram no cerne do conflito: ―[...] pouco depois morrera com um dia de moléstia um índio Terena recebido na enfermaria de Bela Vista‖, ―[...]. O chefe dos Terena chegou moribundo em uma rede que sua gente carregava. Estavam estes desgraçados índios no auge do terror, mas não podiam mais abandonar a coluna‖ (TAUNAY, 1959, p. 110). Baldus, em sua conversa com Nalikí na Aldeia Moreira, descreve que este último apresentava sinais físicos que reportava à memória do tempo da Guerra: ―[...] porque Nalikí tem perto de noventa anos. Tem, na cabeça, fundas cicatrizes da Guerra do Paraguai; e contou-me como, naquele tempo, em 1865, quando rapaz dos seus vinte anos, lutou contra os soldados Paraguaios‖ (BALDUS, 1937, p. 73). Concluo, então, que a participação terena se deu de maneira física, como informantes, estrategistas e como fornecedores de alimentos.
O ciclo de colonização no período pós–Guerra atinge em cheio o antigo território terena. Eles agora veem a necessidade de interagir com os purutuya que tinham deixado o exército e constituíram fazendas de criação de gado. A realidade em seu território agora era a construção das cercas que separavam e demarcavam as recém-criadas propriedades particulares em território indígena. Esses ―novos vizinhos‖ são apontados como os que promoveram processo de esbulho contra comunidades terenas e, para isso, contaram com a participação de agentes do próprio Estado.
A nova organização social, econômica e principalmente política estabelecida no seu território tradicional tem obrigado o Terena ao ajustamento a essa nova conjuntura que se demonstrou bastante adverso. A relação com o Exército Brasileiro continua e é cada vez mais estreita. Há vários terenas no exército como soldado ou como oficial, aposentados ou na ativa,
e atualmente há um indígena de Limão Verde no Haiti, compondo a Força de Paz do Exército Brasileiro. Assim como usou da estratégia aliancista com demais grupos indígenas com destaque para a relação constituída com os Guaicuru70 no período, o Terena caminhou em
direção a se inserir no mundo não indígena buscando entender como se organizam essas novas relações.
No período em que escreveu sua tese sobre os Terena, Oliveira, R. (1968, p. 117) afirmou que o ―papel político praticamente começa e acaba como eleitor, sem desfrutar jamais a condição de elegível‖. Na década seguinte dessa afirmação, a estratégia política terena teve seu ponto máximo, do ponto de vista político-partidário na cidade de Aquidauana onde o terena Jair de Oliveira71 tornou-se presidente da Câmara de Vereadores que, majoritariamente,
era composta de não índios representantes das várias classes sociais daquele Município. Ainda tivemos como representantes na câmara de vereadores: Edmilson Marcos, Enedino da Silva, Lísio Lili e Modesto Pereira. Lisio e Enedino tiveram dois mandatos consecutivos, os demais um mandato cada. Lísio e Modesto estiveram em um período de legislação juntos. Edmilson e Enedino também tiveram um mesmo período comum de quatro anos. Nessas duas últimas eleições, os terena de Aquidauana não elegeram seu representante à Câmara Municipal. Em Anastácio, o terena Arildo França exerceu um mandato de quatro anos na década de 1990. Na cidade de Miranda, os terenas Argemiro Turíbio e Sabino Albuquerque ocuparam uma legislatura. No município de Nioaque, Claudionor do Carmo exerceu um mandato expirado no final de 2008 e, no município de Dois Irmãos do Buriti, Amâncio Vitorino, Adão Bernardes e Percedino Rodrigues exerceram esse papel político. Atualmente, há apenas o Percedino Rodrigues como vereador na Câmara Municipal de Dois Irmãos do Buriti, exercendo o terceiro mandato.
Até pouco tempo atrás, poucos membros dos povos indígenas no nosso Estado, além do Terena, aprovavam a estratégia de ocupação dos espaços públicos. Em seus discursos, demais povos achavam desnecessário e perigo de cooptação deixar se envolver por esses espaços. Embora, percebamos que essa resistência talvez não fosse exatamente estratégia de grupo, mas sim a falta de nome com perfil que agregasse tanto a simpatia de quem está disposta a nomear, como a simpatia do povo que supostamente estaria sendo representado.
70É o nome dados aos Kadiwéu pelos Guarani no período em que eram inimigos. Embora tenham ficado mais
famosos com esse nome, inclusive a Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul é denominada de Palácio Guaicuru, os kadiwéus têm rejeição a ele. Em conversa com duas lideranças, Guarani e Kadiwéu, eles me explicaram que Guaicuru significa cachorro sarnento na língua guarani.
A eleição de vários índios em diferentes municípios nas câmaras de vereadores (Guarani/Kaiowá, Kadiwéu e Terena72) nos dá clara ideia de que, na medida em que os índios
vão se familiarizando com o poder e o jogo político local, eles passam a reivindicar esses espaços também. E, por certo, o não índio entende que é melhor fazer uma aliança assim em um terreno que é todo não indígena e acomodar os representantes dos índios (ou de segmentos das aldeias) do que fazer uma disputa aberta com o povo indígena que, se unido, pode ser decisivo em alguns municípios e aspirar maior espaço. É claro que a maioria dos povos indígenas73 em Mato Grosso do Sul não elegem seu representante por falta de um número
mínimo necessário de eleitores.
Ferreira (2007), ao analisar as formas de dominação e resistência política estabelecidas entre os índios Terena e o Estado ao longo de quatro séculos e meio, descreveu assim em sua passagem pelo município de Miranda no Dia do Índio:
Wanderley, em seu pronunciamento, afirmou: [...]. Nós temos hoje uma data muito especial e eu enquanto historiador, educador, é emocionante falar desta data, porque foi uma luta histórica dos povos indígenas da América do Sul, que através de muita resistência estabeleceu que 19 de abril fosse chamado Dia do Índio. É um dia que para nós é especial.
A história do nosso país ela revela um lado triste de tratamento que o sistema de governo, digamos assim, que foi implantado no nosso país, desde a monarquia, de colonização, de exploração, tentou dizimar as populações indígenas de todo o país. Mas nós após 503 anos de país constituído estamos aqui provando o nosso poder de resistência, nosso poder de organização, nosso poder de acreditar nos nossos sonhos. Então resistimos, estamos aqui com a rádio com uma potência dessa, outro dia eu estava lá no centro de Miranda e estava ouvindo um debate que acontecia aqui. Então isto é motivo de orgulho.
E com certeza nós estamos num momento histórico em que tá aberto o diálogo, toda discussão concernente à questão indígena. Nós termos aqui uma nova forma de governar, está proposto isso no nosso estado, no nosso país. Então vai valor cada vez mais nossa organização, nossos movimentos. (Wanderley, Aldeia Moreira, MS, 19/04/2003).
O discurso de Wanderley fala do ―poder de resistência, poder de organização‖ dos índios, dentro da história brasileira (e a categoria resistência aparece em diversos momentos na composição narrativa). (...) dentro das aldeias Terena, existe um discurso, uma narrativa auto-afirmativa acerca da história indígena, que evoca a ideia de ―resistência‖ e que expressa um posicionamento quanto ao ―lugar que o índio‖ deve ocupar na sociedade. As identidades acionadas (historiador, educador) mostram também as posições políticas e as bases concretas, factuais, do discurso de afirmação identitária. (FERREIRA, 2007, p. 59, grifo do autor).
Assim, também, o terena tem interagido cada vez mais com as instituições de poder, ocupando os cargos de chefia da FUNAI, seja como administrador regional ou como chefe de
72Atualmente os Guarani/Kaiowá contam com nove vereadores e o Kadiwéu não conseguiu reeleger seu vereador
Eusébio Cruz.
Posto, como enfermeiros da FUNASA, no Governo Estadual74. Recentemente, têm sido
criados departamentos nos municípios de Aquidauana, Dois Irmãos do Buriti, Nioaque, Miranda e Sidrolândia onde estão nomeados em secretarias da educação ou em coordenações especiais da política indígena.