6 Campo teórico-metodológico da pesquisa.
1 A pesquisa e suas metodologias
1.4 O uso do Vídeo como acesso a saberes e poderes
A produção de imagens, tanto a fotográfica quanto a videográfica, foi fundamental para a pesquisa. A câmera de vídeo ou a fotográfica foram instrumentos de suma importância dentro da metodologia de pesquisa no período em que estive em campo.
O objetivo básico era usá-las como ferramenta para produção de um saber com as crianças54 e, através dela, observar como
interagem com a mesma, como aprendem, como se vêem, como se posicionam perante a câmera, que histórias querem contar quando estão frente à câmera, como constróem o saber. Pretendia, assim, captar subjetividades destes.
Como nas outras partes da pesquisa, esse aspecto era entrelaçado como o trabalho das ONGs nos bairros. Estas organizações tinham interesse em ensinar vídeo para transformar a experiência vivida em produtos artísticos, os quais poderiam ser usados para transformar a
53 Trata-se de um equipamento básico de fotografia, produzido a partir de material reciclado, e que permite a captação de imagens de modo bastante efêmero.
54 Vale lembrar que Margaret Mead foi uma das pioneiras na utilização da ferramenta cinematográfica e fotográfica em estudos antropológicos.
imagem do seu bairro e para ser mostrado a um amplo público, nacional e internacional. O meu interesse no vídeo foi diferente. Era o vídeo ferramenta útil na captação de performances realizadas em campo, uma vez que um dos grandes desafios dos estudos de performance é exatamente a incapacidade sentida por diversos autores (Bauman e Briggs, Langdon, 1999; Hartman, 2005) de expressar adequadamente as diversas dimensões da performance, já que essas exigem diversos sentidos humanos.
Para Novaes (1998:117), a “imagem, pela especificidade de sua linguagem, é mais flexível do que o texto, no sentido de acomodar, com sua estrutura narrativa, múltiplos significados, sendo portanto, um elemento essencial para que se possa analisar como esses significados são construídos, incutidos e veiculados pelo meio social”. Penso, no entanto, ser essencial pensar imagem e texto como modos distintos de comunicar a experiência do campo, não porque um expressa mais que outro, mas porque, antes de tudo, são complementares, e por isso mesmo muito mais efetivos no seu objetivo nos estudos de performance. Afinal, como lembram Marcus e Fischer (1986), “Informados pela crítica sofisticada de filmes de arte e comerciais, os pesquisadores práticos do filme etnográfico estão conscientes de que estes são textos tão construídos como os trabalhos escritos".
Patrícia Monte-Mór (1990:6), falando sobre texto escrito e imagem nos estudos antropológicos, diz que “Conscientes de que ambos são construções, autorais, ficamos mais livres para produzir novos filmes, vídeos e ensaios fotográficos, não como ‘simples registros do real’, mas como construções a partir da observação e da pesquisa” .
A imagem, ou mais especificamente o vídeo, não é apenas um meio comunicador entre o leitor da tese e o antropólogo pesquisador. No processo da pesquisa, o vídeo passou a ser um dos meios de construir uma narrativa sobre o próprio campo, de registrar a experiência da
performance, de registrar entrevistas com as crianças e com seus familiares e, ainda, modo de
acesso a categorias dos próprios performers, meio de captar o seu modo de aprender e o que desejavam mostrar aos demais sobre si mesmos. Neste sentido, foi um meio privilegiado de interlocução e de contato com o mundo e o imaginário destes. Como diz Marc-Henri Piault (1994:63) “para a antropologia, o cinema e os diversos métodos audiovisuais são tanto instrumentos de observação, instrumentos de transcrição e interpretação de realidades sociais diferentes quanto instrumentos para ilustração e difusão das pesquisas”.
O primeiro uso que fiz do vídeo em campo foi para registrar performances. Nas primeiras vezes, simplesmente levava o câmera filmadora nos eventos e, avistando o aparelho, vários ajudantes apareciam, dispostos a filmar. Igual como a participação de suas aulas, nas
quais era uma aprendiz pedindo para que me ensinassem dança, percussão, break, partilhar o uso da filmadora aproximou-nos.
Assim, de certa forma, num primeiro momento, a popularidade que adquiri com as crianças se deu pelo fato de ser apresentada por uma das ONGs, pelo esforço constante em me comunicar com eles, mas também por portar objetos do desejo deles, ou seja, uma filmadora e uma máquina fotográfica, e ter demonstrado visível interesse que eles usassem tais instrumentos. Em alguns momentos, como foi o caso de uma festa de finalização das oficinas de arte do “Pé no Chão”, em 2005, tais objetos se transformavam em motivo de rancor entre eles e deles para comigo e, em certos momentos, meu para com alguns deles. Como tinha apenas uma câmera e cada qual queria utilizá-la a seu modo, a posse da mesma criava uma espécie de relação de poder entre os mesmos e de rancor para comigo. Certamente sabia que aquele instrumento era uma fonte de poder entre
os “mininos” e entre eles e eu mesma, já que eu a levara a campo. Tentei, a princípio, organizar grupos para otimizar o uso da câmera, mas ainda assim não era de total sucesso. Leleu (11), um menino do bairro Santo Amaro, mostrou-se imensamente ofendido quando passei a câmera para a mão de um garoto que pediu, e não a ele, que viera quase no mesmo momento, certo de poder fazer uso da mesma. Minha proposta dos dois trabalharem juntos foi rejeitada por ele
imediatamente, que mostrando sua fúria, virou as costas para mim e se afastou imediatamente. Mais tarde, voltou a insistiu que gostaria de filmar. Recuperei a câmera e passei a ele, tendo agora que lidar com outros meninos e meninas que queriam fazer o mesmo. Esse dia, apesar da aproximação que tive deles, era difícil gerenciar tantos deles batendo em mim, exigindo a câmera.
Esta dinâmica se repetia com bastante freqüência nos eventos, ou durante as oficinas que eu acompanhava nas praças. Tão logo me viam, corriam em minha direção, fazendo o gesto de colocar uma das mãos em forma de em torno do olho, indicando que queriam filmar. A atitude revelava o desejo que as crianças tinham de apoderarem-se de uma tecnologia que os permitia escolher imagens familiares, e de poderem ver imagens dos seus e de si mesmos no
play-edit da câmera, ou mesmo somente de verem-se no LED Screen. A possibilidade de terem
a lente e o visor virados para si, ao mesmo tempo captando e mostrando a imagem para si mesmas, era um evento recebido com extrema euforia. Pareciam estar descobrindo ali um espelho mágico, algo que permitia avistarem-se. O desconforto da relação deles com o uso da câmera se resolveu parcialmente quando por dois dos eventos passei a não levar mais a câmera e a esclarecer-lhes que não a trouxera por causa das brigas que vinham surgindo entre eles.
Quando comecei as entrevistas, tinha ajudantes em todos os lugares. Chegando ao bairro, as crianças vinham ao meu encontro, e aquela que pedisse para ajudar, viria comigo na entrevista marcada no dia. Essa metodologia fazia evidente conflitos e amizades entre as crianças, vínculos entre as famílias dos bairros, parentescos, modo de tratar os mesmos, etc.. Eu ensinava como mover a câmera, iniciar e parar uma gravação e a focar no entrevistado, e crianças do bairro passaram a ser os protagonistas de muitas imagens que fizemos. No início, por adotar essa metodologia de acatar a participação ativa das crianças na própria pesquisa, perdi algumas das entrevistas por não ter conferido se estavam ou não gravando. Mas tendo eles como mediadores, acessei muito sobre seu processo de aprender e ainda do modo como prestavam atenção nas coisas do mundo. A presença dessas, tornou as entrevistas muito mais fáceis e ricas de dados. Sempre tinha alguém disposta a acompanhar e a também fazer perguntas. Adriano (12), morador do Arruda, foi grande apoio para a pesquisa: além de me levar beco adentro para conversar com as pessoas, seu forte interesse por ser repórter travou um vínculo entre ele, a câmera, os entrevistados e aqueles dispostos à entrevistar. Passou a ser a referência para os que queriam aprender a entrevistar usando a câmera. Era ele agora o professor de tal arte.
Como minha primeira entrada na comunidade se deu por intermédio da ONG, muitas portas se abriram para mim desde o princípio. Algumas vezes ouvi que se eu vinha pela ONG, era bem-vinda, já que a mesma era muito reconhecida e legitimada entre os mesmos. No entanto, esse mesmo aspecto causou certas direções na pesquisa que parecem importantes de serem apontados, não como um problema, mas como um aporte metodológico a ser pensado. As entrevistas foram um bom exemplo de como o pesquisador deve estar atento a determinadas perguntas e respostas.
Se Adriano era totalmente desinibido para entrevistar, no dia em que Adriano foi entrevistado, estava nervoso. O Grupo Pé no Chão selecionaria o grupo de dançarinos/performers para viajarem para a Bélgica e a França, e o desejo de viajar que Adriano sempre demonstrava, junto com as orientações que sua mãe lhe dava sobre como comportar-se para conseguir ser selecionado no grupo de teatro, fazia-o anda mais tenso
naqueles dias.
Na entrevista, a presença de sua mãe respondendo a perguntas feitas ao garoto, colocou uma certa tensão. Demonstrava, pelo modo que intervinha, que pensava ser aquela entrevista decisiva para o seu filho viajar pela primeira vez para outro país. Suas duas filhas, como os filhos pequenos dessas, também acompanhavam aquele momento. As filhas, atentas a cada resposta dada pela mãe, a criticavam por ser tão diretiva na vida do filho, e por acreditar que a viagem traria tantos benefícios a ele. Já tinham participado do projeto anos antes e não pareciam acreditar, como a mãe, que era o único meio de “vencer na vida”, como a mãe pretendia deixar claro em algumas intervenções.
A entrevista acontecia no pátio amplo da casa da família de Adriano. O entrevistado, cada vez mais nervoso, ao perceber o confronto que se formara na sua tão esperada entrevista, sugeriu que fôssemos a outro lugar para realizá-la. Nesse momento, uma cena interessante nos menteve ali. Uma das meninas de três anos (durante a entrevista, encontravam-se presentes três meninas de três anos e um menino de uns 5 anos), chegando muito perto da câmera, viu o tio na tela da filmadora. Começou a dizer, eufórica e repetidamente, Adiano, Adiano. As demais, que brincavam perto, e ainda a que estava no colo da mãe, vieram correndo para ver a imagem no ledscreen. Percebendo que o momento era interessante, virei o ledscreen para elas, de modo que pudessem ver sua própria imagem refletida na tela. Foi um momento muito intenso. Tomaram a cena por uns minutos, extremamente eufóricas de poderem ver-se. Uma chamava a outra e a colocava na frente da câmera, e o espanto e a alegria de poder olhar-se naquele pequeno visor era fascinante para mim e parecia que para seus familiares também que, por minutos, pararam com um sorriso grande nos lábios, até que decidiram intervir, achando que elas atrapalhavam a entrevista de Adriano. Vindo ainda em nossa direção, chamavam as crianças, que não tinham olhos e ouvidos para além das suas próprias imagens refletidas no
ledscreen. Aquela cena mostrou claramente a reação de um primeiro encontro das crianças
com suas imagens dentro de uma tela. Certamente essas crianças já haviam mirado no espelho sua própria imagem, afinal é comum as crianças do grupo dançarem e arrumarem-se frente a um espelho, mas imagino que nunca haviam se visto dentro de uma máquina, o que revela toda uma outra possibilidade de ver a si mesmo. Talvez fosse essa mesma imagem que Adriano queria modificar dando sua entrevista longe de sua família, podendo falar mais livremente à câmera, ainda que certamente influenciado por essa. Tendo acesso a televisão mas ao mesmo tempo sendo excluídos das imagens que normalmente veiculam nesse meio, com a excessão dos programas sensacionalistas sobre violência, o vídeo parecia ser uma possibilidade dessas
participarem desse meio de comunicação e assim, tomarem outras visibilidades.
1.4.1 CineFavela – Grupo de Arte Filmagem
Em 2006, permanecendo um período maior em campo, ministrei um curso de vídeo, com o objetivo de formar um grupo de crianças e adolescentes na captação de imagens e na edição das mesmas, e através desse mecanismo perceber quais histórias ela contariam por esse meio. Esta oficina foi oferecida em parceria com o diretor executivo da ONG Shine-a-Light55, Kurt Shaw, que se encontrava em Recife na ocasião em contato com o grupo “Pé no Chão” para realização de um projeto com Hip-Hop e vídeo. Dez crianças e adolescentes que freqüentavam a Praça do Arruda, advindos de ambos os bairros e que vinham se mostrando interessados em aprofundar o conhecimento do uso da câmera, formaram o “CineFavela: Grupo de Arte Filmagem.”, nome escolhido pelo próprios participantes do curso56. Neste caso, o método de pesquisa participante, tão caro na antropologia desde Malinowski (1978) agrega- se à “participação observante” (Duhan, 1986; Oliven, 1985, Wacquant, 2002)57, na qual o pesquisador, além de participar das atividades do grupo, envolve-se de forma mais direta nas decisões e no decorrer das atividades do grupo. No meu caso, estava coordenando um processo que culminaria em um filme.
Apesar de, no princípio da formação do grupo, a intervenção dos coordenadores ensinando a filmar, fosse mais ativa, com o tempo, o grupo ganhou autonomia, passando a programar o que queriam filmar e como queriam entrevistar. E ao final participavam de cada nova etapa do processo com bastante autonomia e criatividade.
55 Uma Organização internacional que forma uma rede entre diversas outras organizações da América Latina. Estimulando projetos entre as ONGS, Shine-a-light produz trabalhos junto as mesmas com o intuito de divulgar projetos educativos bem-sucedidos através do uso da mídia digital. Foi, através do diretor executivo de Shine-a- light, que aprendi, em 2005, no período de Aperfeiçoamento no Exterior, feito na Universidade do Novo México, a editar documentários em forma digital.
56 Apesar de o nome ter sido escolhido pelos próprios participantes do grupo, e ter sido votado, essa escolha não foi unânime no grupo, pois alguns discordavam do termo “favela”, já que achavam que era um modo que os “outros” chamavam o lugar onde eles vivem, o que sentiam carregar uma certa conotação pejorativa. Uma das adolescentes especialmente disse que “é como os outros chamam à gente.”
57 Uso o termo para distinguir que, a partir desse momento, passei a ter uma posição mais diretiva entre os mesmos. No entanto, sei que a pesquisa participante não é de modo algum isenta de ser diretiva. Esse termo foi, inicialmente, usado por CARDOSO, Ruth C.L. (org.). A aventura antropológica: teoria e pesquisa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986, p.17-37 e mais recentemente por Loic Wacquant, pesquisador francês. Estudando grupos urbanos, Wacquant aprendeu a jogar boxe para poder interagir com as diferentes gangues pesquisadas, e sobre isso desenvolveu toda uma nova metodologia na escrita do trabalho etnográfico. Ver WACQUANT, Loic, J.
No grupo CineFavela, filmamos desde eventos promovidos por eles, entre estes as apresentações no Eco da Periferia, oficinas que participavam, atividades que realizavam em paralelo às oficinas; fizemos entrevistas entre os dançarinos sobre como se sentiam dançando, como era participar do grupo “Pé no Chão”, sobre violência etc. No começo ajudávamos a direcionar tais entrevistas, escolher temas e escolher pessoas a quem entrevistar. Mas, como disse, com o passar do tempo várias dessas entrevistas eles próprios faziam entre si, sem qualquer interferência minha. Como parte de uma pesquisa sobre arte, organizamos e realizamos uma série de entrevistas com artistas conhecidas na cidade sobre os rituais e o significado da dança e da música no contexto local. Este projeto, além de uma contrapartida para com as crianças58, foi um instrumento valoroso, pois, através das entrevistas e das
imagens, poderia acessar seu imagético sobre arte, cultura, performance, competência, entre outros temas em questão nessa etnografia.
No ano de 2006, basicamente trabalhamos com documentários e, como resultado final, produzimos sete pequenos curtas sobre diferentes gêneros de performances culturais recifenses e auxiliamos na produção de um longa sobre hip-hop, parte do projeto de Shine-a-light. Muito embora o objetivo maior fosse que o grupo aprendesse a manipular a câmera, o produto final foi muito interessante para a pesquisa: a equipe de filmagem entrevistou cinco artistas/mestres consagrados de Recife e Olinda e, durante a entrevista, podia entender, pelas perguntas feitas pelos mesmos, quais temas eram importantes a eles. Tais entrevistas tinham como meta mostrar artistas populares, moradores de periferia como eles, e que representavam “o bom que a comunidade produz”, já que eram pessoas conhecidas pela sua arte. Também pretendia conhecer, através de especialistas, a história e o significado das danças que as crianças e adolescentes praticavam nas praças59. À seguir, descrevo cada um dessas entrevistas.
1 Matinho, um Índio Fulni-ô e cantor do grupo Fextha, que falou do Torê e do